HEROÍNA

HEROÍNA


Ela logo passou a ser seu vício, dominando sua mente.

E aquela imparável força noturna foi aumentando sobre Otávio Luna seu poder, transformando o que  deveria ser sonhos em delírios. Estranhamente ele  foi se sentindo mais afoito, perdendo a noção de medo e a sua costumeira timidez.

No meio da noite, aquela inquietude o movia. E eram fortes as emoções que ela provocava.

Rolava de um lado para outro na cama, com sensações calorosas indescritíveis.

Seus olhos avermelhados denunciavam sua condição de insone, vivendo atordoado e com ideias fixas.

Quase não grudava os olhos e sempre despertava pelos sobressaltos causados por aquela estranha cadência de respiração, o que dava novo ritmo às batidas cada vez mais rápidas do seu coração.

Algumas vezes se pegava transpirando muito e, outras vezes, era sufocado pela falta de ar. No correr da noite, buscava a brisa fresca que soprava do mar para o continente, pelo janelão dos fundos de sua casa.

A moringa de água, ao lado da cama, era uma recorrência contínua, pois a língua secava, justo quando ele tocava cada uma daquelas curvas, despertando-o daquela prazerosa espécie de pesadelo contínuo.

De repente, ele foi surpreendido por aquela linda musa que lhe sorria e estendia a mão para ele. Imaginou-se lindo, sem crer que pudesse receber as atenções de tão bela mulher. Será que estou sonhando? Não, não é sonho, pois podia sentir a maciez daquela pele aveludada.

Não se conteve só de pensar alto:

– Oh, Diva, meu Deus! Para Otávio aquela era a sensação mais gostosa da terra.

E, sem receios naquele instante, embriagado pelos encantos daquele olhar provocador e devorador, emaranhou-se naquelas curvas indescritíveis, sem se importar com mais nada.

CONTINUAÇÃO – CENA 2

Ali perto, aquele apito de sirene parecia ensurdecedor adentrando pela madrugada silente, ganhando as ruas quase vazias nas cercanias das docas.

Era o investigador Américo Lacombi, que foi o primeiro a chegar ao local do crime, após o contato da Dance Connection, boate de luxo da cidade. Uma das meninas havia ligado para a polícia, comunicando o ocorrido.

Ainda era madrugada, quando o conhecido investigador fora acionado no seu bip. Para ele era sempre uma tortura quando aquele toque repercutia em seus tímpanos, principalmente porque fora dormir muito tarde.

Com a dificuldade de sempre, ergueu-se da cama movido pela obrigação, chacoalhou água na boca, passou as mãos molhadas nos cabelos e colocou a mesma roupa que ainda estava ali, jogada nos braços da cadeira.

Não queria pensar em nada, apenas visualizar a mensagem no aparelhinho: “Américo, crime na Ribeira, Travessa do Ouvidor. Investigar URGENTE!” Era mais uma ordem expressa do seu impaciente chefe Turíbio Mendes.

Apressadamente, desceu as escadas do seu prédio sem se importar com a brisa fresca, que vinha acompanhada de uma chuva fina, a soprar em seu rosto.

Ainda atordoado e cheio de sono, deu uma olhada rápida para localizar seu carro e entrou no veículo, já buscando a sirene, mas se lembrou que a hora não cabia, pois, da última vez que assim fizera, na saída do condomínio, recebera inúmeras reclamações dos vizinhos, principalmente porque ainda era madrugada.

Teria que chegar rapidamente à Travessa do Ouvidor, antes de qualquer jornalista, pois o Turíbio não o perdoaria, porque sempre falava que a polícia tem que chegar primeiro à cena do crime.

Pensou em ir pelo centro, mas se lembrou que por lá havia sempre um maluco correndo embriagado, cortando os sinais vermelhos. Então tomou o caminho mais longo, mas sem semáforos e mais tranquilo.

Saiu do Alto dos Ipês e cruzou toda a cidade pela Via Costeira. Enquanto mascava chiclete, abriu os vidros para que a brisa do mar soprasse forte contra seu rosto, assim ficaria desperto.

Pensou num café bem quente, mas uma coisa puxa outra mania que ficara para trás e que, por muitos anos, pareciam associadas. Agora a fuga eram as balas e chicletes, que estavam espalhadas por todas as partes do carro e das roupas.

Enquanto mascava, pensou:

“O que teria acontecido? Com certeza mais uma treta com as meninas da boate”.

Enquanto a mente viajava, pernas e braços automatizavam o deslocamento do veículo.

Passou pelos hotéis da costeira, depois pelos bairros de Conchas, Pina, Maresias e finalmente estava na Ribeira.

Gastara exatamente 13 minutos desde que recebera o toque do Chefe da Divisão de Polícia de Porto dos Mares.

Américo posicionou seu carro fechando a entrada da rua, deixando a sirene ligada sobre o teto do seu seminovo Verona GLX 90. Aquele carro era seu melhor presente, que recebera da maior concessionária da cidade como prêmio por desvendar os crimes do maníaco do Campus Universitário. Com certeza, aquele havia sido seu caso maior. Pôr as mãos naquele maluco que assassinava as jovens estudantes, antes abusando delas sexualmente e ainda fazendo outras atrocidades, fora a investigação mais complicada.

Américo logo percebeu que havia no local alguns curiosos, mesmo com a neblina que estava disposta a encobrir o nascer do sol. Afastou alguns e começou a fotografar de todos os ângulos, antes da chegada do legista.

Guardou a máquina no casaco e bipou para sua amiga Natália Gomide, jornalista do Diário de Notícias. Poucos minutos depois, a equipe do IML já começou a fazer seu trabalho datiloscópico e fotográfico, examinando os pouquíssimos indícios deixados no chão, nas paredes ou naquele carro que suspeitavam que fosse da vítima.

A chefe da equipe, Dra. Patrícia Dorneles, deu sinais decifráveis, e Américo entendeu que ela pouco poderia fazer com o que acharam no local. Enquanto isso, outros jornalistas que depois chegaram não conseguiam se aproximar, visto que toda a área estava isolada, conseguindo apenas fotos distantes e encobertas pela aglomeração feita pelos legistas, em torno da estrela maior da Stilomarca, que ficou famosa por vender seus produtos diretamente para a empresa americana Walt Disney.

Meia hora depois, fecharam o corpo da vítima no saco preto de napa, acreditando que só com o exame de corpo de delito se poderia avançar nas investigações.

Os jornalistas em vão tentavam entrevistas com os legistas ou com Américo, o qual já era bem conhecido deles todos.

O local já iria ser liberado, enquanto as pessoas trocavam informações desencontradas. Natália já estava perto do carro de Américo, observando a condução da perícia sair em velocidade.

Depois que as pessoas retomaram o rumo de suas vidas, Américo se aproximou da bela Natália e lhe passou o pequeno rolo de filme dizendo:

– Não te devo mais nada, guria! O último termo foi pronunciado pelo investigador de forma jocosa.

Natália, que já havia colhido informações precisas sobre o morto, sorriu e disparou para a edição do jornal. Estava ávida para ver como faria para noticiar aquela tragédia que iria sacudir a cidade.

 A jornalista já havia ajudado Américo em outro caso com informações preciosas, obtidas de fontes fidedignas, facilitando a colagem das peças do imenso quebra-cabeça no qual se viu envolvido no ano passado.

Américo podia contar também com Patrícia, a médica psiquiátrica forense, que analisava com ele, em horas de folga ou  sempre que necessitasse, todos os dados que tinha em mãos sobre qualquer crime. Assim também fora quando teve que analisar a vida pregressa do maníaco do campus, incluindo passagens por clínicas psiquiátricas.

Com aquelas valiosíssimas contribuições, pôde traçar o perfil exato do assassino, desvendando sua maneira de agir e os porquês de matar, estuprar e desfigurar os rostos das vítimas, com exceção de uma delas, que apenas estuprou.

Estas duas belas mulheres e amigas motivavam muito o coração do quarentão Américo.

A gaúcha Natália, com apenas vinte e oito anos, era mais jovem e irradiava alegria. Ela estava sempre em todos os jantares e badalações da sociedade com uma câmera e uma caneta sempre na mão, pronta para registrar o inusitado.

Patrícia era discreta e muito segura quando se pronunciava sobre os mais variados assuntos. Mesmo aos trinta e seis anos, não tinha qualquer pressa quando o tema era casamento, pois vivia para cuidar da sua mãe, assim pouco tempo sobrava para namorar ou se relacionar até mesmo com amigos.

CONTINUAÇÃO…

Nete arranjou como pretexto o carteado para as noites de fugas das quartas-feiras. Seu álibi perfeito era sua amiga Rúbia, que vivia pertinho do prediozinho onde ela morava, um antigo casarão assobradado da Rua Chile.

Ela havia sido apresentada ao marido de relance, visto estar atarefado com seus trabalhos, mal reparando nas expressões da moça. Apenas disse não ver nenhum problema uma amiga ir visitar a outra. Talvez ele agisse assim porque não tivesse muito tempo pra Nete e por não saber o que Rúbia fazia na vida noturna daquele bairro.

A nova amiga de Nete se vestia com muito bom gosto, mas não tinha tanta beleza e um corpo tão sinuoso. Por esse motivo, Nete não sabia que uma proposta tão absurda vinda de Rúbia fosse mexer tanto com a cabeça dela.

Entre um café e outro, Rúbia  resolveu contar para ela que um figurão pagaria muito bem para arranjar um mulherão para desfilar para ele.

Seria apenas isso e nada mais. A proposta, que a princípio pareceu absurda, logo foi se transformando em uma oportunidade de ajudar nas despesas de casa. Seu marido, que trabalhava muito como desenhista e pouco ganhava, nunca tinha condições de lhe fornecer vida melhor. Além disso, estava passando da hora de renovar suas roupas e calçados.

Nete pensava muito nos seus princípios, na sua fidelidade a Tavinho, mas frente a tantas dificuldades financeiras,  passou a considerar a proposta, ficando tão confusa que chegou a preferir nunca ter escutado da boca da amiga aquela oferta tentadora.

Dois meses antes, Nete conhecera Rúbia ao caminhar pela avenida principal do bairro, quando fora postar uma carta na agência dos correios. Aquela era uma maneira mais em conta de matar a saudade dos familiares que residiam em Florânia, no interior do estado. No meio do caminho, percebeu aquela mulher bem vestida, perfumada e elegante que aos poucos se aproximava, como se estivesse no seu encalço. Nete, curiosamente, encurtou a passada com a ideia de pôr reparo naquela grã-fina que dividia a calçada com ela e chamava a atenção de muita gente daquele bairro quase todo comercial.

Rúbia, apercebida e após estar ombro a ombro com Nete, cumprimentou-a com o sorriso mais lindo que podia emoldurar seu rosto, com leve maquiagem e lábios retocados de forma impecável com batom vermelho.

Nete nada disse, apenas baixou a cabeça com uma espécie de vergonha por sua aparência tão relaxada.

As duas seguiram, a pouca distância uma da outra, até o prédio majestoso da Empresa de Correios e Telégrafos. Enquanto Nete se dirigiu ao guichê para comprar selos, Rúbia seguiu para o atendimento de remessas rápidas.

Pouco depois, após os despachos, as duas mulheres deram de frente e ambas sorriram. Fizeram-se amigas de imediato, como já se conhecessem há muitos anos.

No fundo, Nete queria saber tudo a respeito daquela curiosa criatura, que tão humildemente dava a atenção a ela. Rúbia era toda gentileza e delicadeza, o que aumentava ainda mais a sua graça.

Apresentaram-se e regressaram pelo mesmo caminho, já trocando confidências sem qualquer preocupação com salvaguardas.

Nete perguntou o porquê dela não ter carro. Rúbia disse que quando se tem na mão o cartão de um motorista de táxi respeitador, quem precisa de um carro. Ademais, amiga, na nossa rua não há garagens e as despesas de um carro e as dores de cabeça do trânsito é tudo o que eu não quero para minha vida.

A conversa estava tão interessante que nem se deram conta que já haviam chegado.

A maior surpresa para Nete foi descobrir que Rúbia era praticamente sua vizinha. Na verdade ela morava do outro lado da rua, no segundo andar de um prédio maior.

Rúbia a convidou para subir, pois assim tomariam um café. Nete, cheia de timidez, recusou-se veementemente, mas teve de ceder diante de tantas insistências de Rúbia.

O apartamento de Rúbia era decorado com móveis antigos e havia muito bom gosto em tudo. Depois de apresentar todo o apartamento, Rúbia deixou a amiga à vontade na cozinha, pedindo para ela esperar um pouco enquanto iria se trocar.

Tomaram café com biscoitinhos amanteigados. Riram de muita coisa e de muitas histórias, que nem parecia a mesma Nete, sempre tão recatada.

Depois de alguns encontros diurnos, era o momento de Nete apresentar seu marido para a amiga. Rúbia sabia que aquele momento chegaria, por isso pintou seus cabelos de loiro, alegando para a amiga que já estava cansada da coloração avermelhada.

Nete a encheu de elogios e escolheu um dia mais adequado para retribuir as tardes de cafezinhos.

CONTINUAÇÃO

Rúbia era de Açores, pertinho de Florania, fato que ocultou para a amiga Nete, talvez para deixá-la curiosa sobre sua origem. Com um acento no falar que a distinguia de uma interiorana, Rúbia tinha orgulho de se passar por filha de Porto dos Mares.

Depois que deixara sua cidade, ela voltou lá uma ou duas vezes, por não haver outra saída. Uma se dera com o falecimento do pai; e a outra quando fora fechar negócio da compra de uma casa para sua mãe. Nas duas vezes, tratou de ir muito elegante, o que a impediu de ser reconhecida, mesmo sendo notada pelo olhar reparador de muitos conterrâneos.

A causa da aversão que sentia pelo lugar estava vinculada ao coração. Havia noivado aos 18 anos e, quando estava muito perto de se casar, fora abandonada na porta da igreja, para vergonha dela e de toda sua família.

Aquela sensação de abandono doera muito nela, a ponto de pensar em fazer uma loucura com ela mesma. Enquanto estava remoída pela dor, pensara “Puxa, como eu poderia estar tão enganada com alguém que confiei tanto!”.

Demorou muito tempo para ela processar aquela enxurrada de sentimentos que brotaram de dentro dela até tomar a atitude de fugir de tudo aquilo que ligava àquela experiência terrível.

Por saber que, depois da capital, Porto dos Mares era a cidade mais próspera da região, não pensara duas vezes antes de iniciar seu processo de fuga.

Ao descer na rodoviária, percebeu tudo a sua volta. Tudo era novo, e uma mistura de ansiedade e medo tomou conta dela.

Com sua pequena mala, buscou um lugar onde pudesse recostar sua cabeça em paz, longe do disse me disse dos açorianos.

Com o pouco dinheiro que tinha, adiantou o primeiro mês numa pensão familiar. Ao buscar um emprego, deu-se conta que possuía qualquer formação para trabalhar no comércio. Por isso aceitou a oferta de trabalhar numa casa de família, fazendo de tudo um pouco. Sabia que o salário era mísero pelo muito que fazia, mas já era um começo para ir tocando sua nova vida. Tinha certeza que não ficaria naquilo por muito tempo, carregava dentro dela muita vontade de crescer. Ao menos ali ninguém tinha tempo para cuidar da vida dos outros, o que já era uma grande vantagem.

CONTINUAÇÃO

– Incompetência! Estou cercado de incompetentes! – Gritava Arnaldo, o chefe da redação do jornal A VOZ, ao segurar nas mãos a folha com a manchete da primeira página do Diário de Notícias.

SANGUE NA RIBEIRA – MORRE EDU MAX

– Como ninguém conseguiu fazer fotos desse furo de reportagem. Olhe o que nós publicamos, apenas uma tomada distante e informações desencontradas sobre um crime que irá mexer com vários segmentos de Porto dos Mares.

– Será que eu vou ter que despedir um antigão para contratar essa tal Natália. Ela está dando baile de jornalismo em vocês? Veja quanta riqueza de detalhes, parece até que ela é roteirista do crime!

Enquanto isso, no Diário de Notícias o clima era de festa.

– Vamos, Natália, hoje o almoço é por minha conta! – disse em voz alta Caetano Vignoli, o dono do jornal.

Mesmo estando muito feliz com tantos elogios, Natália sabia que aquela importante matéria teria muitos desdobramentos e era importante colar em Américo. Tratou de ligar pra ele para marcar um jantar na sua casa. Ao mesmo tempo em que discava para o número da delegacia, pensava no cardápio do encontro. Teria que ser algo especial e para isso poderia sempre contar com a habilidade de Leda, sua empregada.

Como sabia que a temperatura noturna não estava amena, pensou numa refrescante sangria com pedacinhos de maçã, já que seu amigo não era um apreciador de bebidas fortes. O prato seria ideia da Lê, que sempre acertava em cheio, bastando apenas dizer que deveria ser algo apropriado para um clima descontraído e não de trabalho.

Autor José Maria Cavalcanti

Continua …

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