PERSONALIDADES

Biografia Arnaldo Jabor (Rio de Janeiro, 12/12/40)

Ele não se fez apenas pelas críticas irreverentes que sempre vemos e ouvimos nos jornais da Globo ou pelos inúmeros processos que responde por não conseguir conter o verbo ferino, que sempre lhe escapa da boca, desde que começou sua carreira no Jornal O Metropolitano, em 1962, veículo de comunicação dos inflamados estudantes daquela época.

O cinema foi sua paixão durante três décadas: 1960, 1970 e 1980. Além de Pindorama, lançado em 70, ficou famoso por dirigir Toda Nudez Será Castigada, em 73, Eu Sei Que Vou Te Amar, em 84, e muitos outros sucessos cinematográficos, que conquistaram prêmios nacionais e internacionais.

Afastou-se da sétima arte em 1991, quando ele começou a trabalhar na Folha de São Paulo, como um colaborador semanal, o que lhe rendeu muitas polêmicas, que repercutiram em toda a imprensa do Brasil. A Rede Globo o contratou em 1995 para ser comentarista dos telejornais da emissora. Este novo emprego e a postura contida da Globo não diminuíram seu ímpeto ou contundência nas suas críticas.

Durante sua trajetória, lançou cinco coletâneas de crônicas: Os Canibais estão na Sala de Jantar, em 93, Brasil na Cabeça, em 95, Sanduíches de Realidade, em 97, A Invasão das Salsichas Gigantes e Amor é Prosa, Sexo é Poesia, em 2004.

O tema deste último livro foi também a inspiração para o sucesso da cantora Rita Lee. A roqueira voltou a ter muito prestígio, após gravar Amor é Prosa, Sexo é Poesia.

O surpreendente Arnaldo Jabor, que nos acostumamos a admirar com sua crônica debochada, permeada de hipérboles e rica em adjetivos, sempre espetando a classe política ou versando sobre o dia a dia de nossa sociedade, volta a nos impactar não com mais alfinetadas textuais, mas com um novo filme marcante.

A Suprema Felicidade se passa no Rio de Janeiro de 1950 e, como ele próprio diz, é uma produção autobiográfica. Ele mostra um Rio e um Brasil nostálgicos, rememorados à medida que conta sua vida, resgatando fatos marcantes da sua infância, que estavam em seu subconsciente, segundo seu próprio depoimento.

Isto é uma síntese da vida desse arquiteto das palavras e trago uma de suas pérolas mais adocicadas para compartilhar com meus leitores do Blog do Bollog:

“Crônica do Amor

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.

Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.

Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?

Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.

Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim.

Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.”

Autor do Texto: José Maria Cavalcanti

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