Fazendo amizade

MEU AMIGO BRASILEIRO

Quando não viajo para Natal nas minhas férias, voo desesperado para comer fugazzetas, empanadas e bife de chorizo con papas fritas na capital portenha, sem deixar de apreciar as exibições de tango em plena Calle Florida – passarela obrigatória dos turistas brasileiros.

Aprendi a curtir a vida noturna de Buenos Aires, pois, lá, segundo eles, la noche está siempre en pañales (a noite é sempre uma criança). Sem dúvida que é a melhor hora para ir ao Teatro Collón e apreciar a vida boêmia de La Recoleta ou de Puerto Madero.

Após uma linda noite, o dia você começa, obrigatoriamente, tomando café em tradicionais casas do ramo, como Tortoni ou Las Violetas, por exemplo. Depois segue apreciando a beleza arquitetônica envelhecida e as modernas lojas das galerias, espalhadas pelo centro turístico.

Com o passar do tempo e após tantas idas, o mapa da cidade passa a fazer parte da sua mente. Você começa a guardar tudo de cabeça e não se esquece de mais nada, quando tudo é sinônimo de prazer. Isto é ótimo porque não se pode trocar o que é gostoso, mas é ruim porque a distância judia, pois nem sempre é possível estar onde queremos.

Mas o que fica, após cada ida, é o aumento de nossa bagagem cultural. Não me esqueço dos dias em que pisei pela terceira vez na cidade mais europeia de nosso continente. Havia começado aquele domingo de inverno por Caminito, no bairro La Boca, onde está o Estádio La Bombonera. Um pouco incomodado com o vento frio contra meu rosto, embora bem abrigado, busquei refúgio na feira de San Telmo – um verdadeiro antiquário a céu aberto –  e, depois, mais aquecido pelo calor humano e já alimentado, segui até a Plaza Rivadavia. Lá resolvi garimpar numa enorme banca de livros usados e ali encontrei algumas raridades que sempre havia buscado. Inspirado pelo que li nos achados, decidi me aproximar de um jogo de blitz (xadrez relâmpago), por estar disposto a mostrar para nossos vizinhos meu talento enxadrístico de beira de piscina. O frio que fazia não incomadava aos aficionados e admiradores, todos estavam curiosos e ansiosos à espera do vencedor.

Logo percebi que estavam travando uma batalha estratégica e tática sobre aquele pequenino tabuleiro quadriculado. A luta era desesperada, com golpes certeiros nos pinos dos relógios. Os combatentes quase não respiravam, olhares vivos, gestos e movimentos precisos, como se fossem autômatos, tudo na maior coordenação.

De repente: – Mate!

Após aquela mágica sentença, gritada em voz alta, tudo parou, e o derrotado, após o tradicional aperto de mãos, ofereceu-me a vez.

Já devidamente apresentado, começamos novo embate. Aquilo que começara em ritmo lento, logo passara a ganhar velocidade. Tudo parecia estar sob controle, mas o tempo não se pode perdê-lo de vista. Desgraçadamente, quando me sentia muito melhor na partida, a seta do meu ponteiro caiu, restando-me apenas apertar a mão do Señor Quinteros.

Antes que me levantasse, outro aficionado já queria tomar a vez, mas aquela atitude irritou muito a meu adversário vencedor. A ponto de ele levantar gritando:

Estoy con mi invitado y amigo brasileño y a él le toca seguir jugando! (Estou jogando com meu convidado e amigo brasileiro e ele seguirá jogando!). Aquilo quebrava as regras da espera. É sabido que o perdedor sempre se levanta para que outro jogador tenha oportunidade de jogar.

Fiquei tão impactado com a atitude do Señor Quinteros que nem sequer olhei para os lados.  Restava-me apenas disfarçar  meu incômodo com o soprar das minhas mãos, na vã tentativa de me aquecer um pouco mais. Ele sincronizou novamente os relógios, deu-me o privilégio de jogar com as peças brancas, e seguimos jogando por muito tempo.

Ao final, depois de algumas derrotas e pouquíssimas vitórias, despedi-me carinhosamente do meu novo amigo, e ele me disse: – Un gran gusto jugar contigo! (foi um grande prazer jogar com você!).

Após o aperto de mão e um grande sorriso amigável de calorosa despedida, fui informado que eu estivera diante de um jogador argentino de gran rango (grande força) e que eu poderia me dar por feliz de ter arrancado uma ou outra vitória, pois ele era muito duro.

Aquela experiência foi tão marcante que descobri naquele dia que as afrontas que sofremos no futebol não têm nada a ver com as amabilidades recebidas durante uma partida de xadrez.

Autor: José Maria Cavalcanti

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