Peninha

SOZINHO – ANÁLISE DA LETRA


 

Você sabe que Sozinho fala forte aos corações apaixonados, principalmente na voz adocicada de Caetano, mas seu segredo não está somente na envolvente melodia, sua letra possui uma belíssima tradução.

Quem escuta essa música não necessita de esforço para enxergar ali Caetano, sentado e bem vestido, com seu violão, num solo de fazer inveja. As caetanetes vão ao delírio assistindo ao toque mágico dos dedos do baiano a tocar de leve nas tensas cordas do seu violão. Para mim, parece até que não dá para dissociar o cantor dessa inesquecível produção do Peninha.

Por falar em Aroldo Alves Sobrinho, ele já havia passado outro sucesso para seu ídolo, Caetano, que foi a música Sonhos, que fez todo público brasileiro cantar com ele. Este primeiro grande destaque consagrou o compositor paulista, que logo registrou outros marcos, tais como: Alma Gêmea, com Fábio Júnior; Que Dure para Sempre, com João Paulo e Daniel; Adoro Amar Você, somente com Daniel e muitos outros hits que explodiram por todo o Brasil. Quem não se lembra de outros sucessos que ele fez com as músicas: Era uma Brincadeira, Que Pena, Pouco a Pouco, Meu Mel, Amo Você. Em sua carreira, o cantor e compositor gravou mais de 300 trabalhos na MPB.

Decompor cada verso dessa linda letra é como espremer um favo de mel, pois dela tudo que escorre é saboroso e açucarado.

S O Z I N H O

Caetano Veloso

Composição: Peninha

Às vezes no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado
Juntando o antes, o agora e o depois

Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho

Não sou nem quero ser o seu dono
É que um carinho às vezes cai bem
Eu tenho meus desejos e planos secretos
Só abro pra você mais ninguém

Por que você me esquece e some?
E se eu me interessar por alguém?
E se ela, de repente, me ganha?

Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca prá fora

Ou você me engana
Ou não está madura
Onde está você agora?

Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca prá fora

Ou você me engana
Ou não está madura
Onde está você agora?

A noite, a eterna companheira do poetas, envolve aos que amam, que sentem saudade ou aqueles que esperam.

Quando estamos sozinhos na noite, muita coisa acontece. Um namoro antigo, por uma bela garota, sempre invade nossa mente, mesmo sem pedir licença. Com Peninha não foi diferente, na solidão do tempo e no silêncio perturbador noturno, ele se encontrou mergulhado nas reminiscências de um amor, que passou a permear um vazio que se fazia presente.

Todo mundo sabe que exercitar a imaginação com as doces memórias não é tarefa difícil, principalmente quando você ainda está conectado pelo link do amor, mesmo em casos de atrações amorosas unilaterais ou nos casos de amores correspondidos.

Por mais que você tente fechar os olhos, o sono não vem, porque fortes imagens mentais ficam a envolver sua cabeça, produzindo cenas de amor, de romantismo, vindo logo, como um turbilhão, aqueles remakes dos gostosos momentos vividos. Aí você monta um filme com cada pedacinho: o primeiro olhar, o primeiro abraço, o primeiro beijo, e assim vai montando seu belo trabalho de direção. E se perde no tempo, imaginando-se sempre num passado embriagador e navega na lacuna de todos os sonhos projetados para uma vida a dois, mas que até aquele momento não se concretizou.

Dizem que o amor é grudento. Não sei por que a gente tem essa necessidade de estar sempre atado, ficando fragilizado quando fica só. E, quando sozinho, cobra companhia do outro, sem se preocupar que os espinhos de um zelo exagerado podem sufocar a flor.

Dê um pontapé na insegurança, pois somos únicos, maravilhosos e insubstituíveis. E a liberdade nos concede alegria, e é nisso que reside nosso encanto. Não podemos ser posse de ninguém, nem podemos nos dar ao luxo de aprisionar o direito de voar. Estar livre, mas com asas podadas, é um falso libertar. Um pombo-correio volta milhares de quilômetros para seu dono, mesmo que encontre pelo caminho outras tentações.

Quem não gosta de carícia. Ela sim é a essência dos relacionamentos, mas deixe que venha naturalmente. Isto ocorre quando se sente. Não cobre amor, nem atenção, tampouco carinho, apenas se dê integralmente, pois daí tudo virá.

O amor requer mesmo é proteção. Ele não ameaça, não insufla, apenas espera. Quando se ama, verdadeiramente, não se sente solto e não existe o risco de ser achado por outrem, pois o amar nos deixa focado e amalgamado ternamente à pessoa amada.

Ser cuidado e cuidar é gostoso, não? Cuidar do outro faz parte. Dedicar sua atenção, ser gentil e amoroso, com olhares e jeitinhos, tudo isso faz parte da relação a dois, mas não se deve agir como o proprietário de uma coisa ou objeto. O outro quer se sentir único, e que toda atenção do mundo lhe é dedicada, mas é tudo.

O amor genuíno prende, naturalmente, uma pessoa a outra. Tem-se vontade de estar sempre juntinho, mas quando há um sufocar, você só sente o desejo de fugir, prá nunca mais voltar.

Mas é melhor ser sincero e, olhos nos olhos, pôr um ponto final, pois, se não é mais amor, você só quer mesmo é ficar. Sendo sincera, você não deixará o cara a ver navio e a contar estrelas na noite, SOZINHO, mesmo acompanhado.

Autor: José Maria Cavalcanti

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