O INUSITADO ATRASO

ATRASO NA CEIA DO NATAL


 

 

Não tem data mais linda que a do Natal! As casas ficam todas enfeitadas, as pessoas se vestem com suas melhores roupas, e a mesa de todos é posta na mais completa fartura.

Parece que tudo fica encantado, e muitas pessoas deixam de lado suas diferenças. Outras, como que tocadas por varinhas de condão, se veem dadivosas: dão presentes; fazem cumprimentos inusitados; e enviam um número sem-fim de cartões para saudar conhecidos e parentes distantes. O mundo realmente se unifica em torno do Natal.

Conosco tudo gira em torno da realização da grande festa. Como em todos os anos, tudo lá em casa fica preparado para a ceia do Natal, logo que Dona Francisquinha aparece toda bem vestida e arrumada. Este é o sinal que tá tudo pronto. Ela, que já havia passado o dia em torno do forno, assando a leitoa e o peru, logo se retiraria para depois retornar, radiante e bonita.

A mesa estava ricamente ornamentada, ali havia de tudo. Frutas secas e frescas, o panetone tradicional e o salgado, além de chocotone, brioches e rabanadas. O queijo do reino, parmesão e o pão italiano nunca podiam faltar, assim dizia nossa mãe, em homenagem ao pai de vocês, que era um amante das iguarias de Parma. Já posto no centro estava o arroz à grega, que nossa mãe só fazia em ocasiões especiais, sem faltar a deliciosa farofa recheada com linguiça calabresa e ovos cozidos. Que farofinha, só ela sabe como preparar. As bebidas geladas estavam na temperatura certa, champanhe e vinho estavam dispostos sobre a mesa.

A casa fora divinamente decorada com os motivos da festa: uma grande árvore de Natal, onde cada um já havia posto seu presente em baixo, ao redor dela, e aquele belíssimo presépio, com os Reis Magos e o menino Jesus na sua manjedoura, atraía a atenção dos pequeninos. Naquele ano até fizemos um rateio para custear pintura, alguns retoques pequenos e comprar mais de mil pequeninas lâmpadas que piscavam no jardim, e tudo ficara mais apresentável para aquele esperado encontro anual.

Embora digam que a alegoria ajuda na animação de toda festa, na nossa casa a alegria nunca se fazia ausente. Quem já havia chegado sorria, e os que chegavam depois faziam a maior algazarra em ver o outro. Alguns irmãos e cunhados faziam roda para falar de amenidades, e as irmãs e cunhadas comentavam sobre as roupas umas das outras. As meninas mais moderninhas e rapazes eram vistos enviando torpedos.

Era quase um evento cronometrado, pois quase todos chegavam ao mesmo tempo. Era difícil um quebrar a tradição da pontualidade, pois todos sabiam que, quando Dona Francisca tomasse posição, todos deveriam ficar em torno dela, pois ela sempre foi e sempre será o centro e o sentido das nossas festas.

Minha mãe mal saiu do seu quarto e, como era muito esperada, foi recebida com aplausos e podiam-se ouvir alguns gritinhos eufóricos. Os jovens assobiavam, enquanto Dona Francisca passava. Mas aquela noite seria diferente, pois, Francisco, nosso irmão mais velho, havia se atrasado.

Depois de muita espera, finalmente ele apareceu entristecido e com ar de preocupação, o que chamou a atenção de todos. E aqueles que pensavam em tirar uma de sua cara, recuaram da investida. Todos sabiam ser ele pontualíssimo e nunca cometeria a gafe de atrasar o belo enredo que estava prestes a começar.

Era costume recitar ali uma poesia ou se fazer um discurso de agradecimento por mais um ano, mas a cara do meu irmão esvaziava toda a inspiração, embora sua esposa e filhos estivessem felizes. Não tivemos alternativa senão pedir a ele que desse algumas palavras e explicasse a razão daquela tristeza que quebrava o clima instalado na casa.

Contou que se entristeceu ao ver pelo caminho tantas pessoas nos restaurantes prontas para cear, mas sentiu pena delas ao perceber todas aquelas expressões de obrigação, pois estavam todas sérias, como se aquele fosse um jantar comum. E não era só a tristeza de gastar o 13% ou porque iriam aumentar as despesas do cartão de crédito, mas era uma verdadeira carência de motivação. E ele sentiu que não era só por modernice para poupar a mãe deles dos eventuais preparativos do banquete daquele dia, era algo mais profundo e inexplicável. A cena fora tão deprimente que o fez se entristecer profundamente porque eles nunca poderiam desfrutar com toda a família daquela alegria que todos tinham em nossa casa.

Naquele momento todos se calaram, como se fora um cerimonial de um minuto de silêncio, mas logo aplaudiram as belas palavras daquela triste história, que valorizavam mais ainda aquele belo encontro familiar, e todos voltaram a rir, não havendo como nosso irmão continuar acabrunhado. Logo após as palavras sábias de nossa matriarca, ela enxugou suas lágrimas de felicidade, e a festa tomou conta da casa, noite adentro.

Autor: José Maria Cavalcanti

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