HISTÓRIA DE XADREZ


XADREZ CURA TUDO



Veroca chegava ao hall, toda esfuziante e espalhafatosa, exibindo-se logo que sentia qualquer barulho de aproximação de gente.

Ela era quase uma sessentona, mas que não se dava conta do passar do tempo.

No elevador encontra Lurdinha, um pouco mais nova que ela, casada com Naldinho, o professor de Xadrez da escola da cidade e de alguns alunos particulares.

– Oi, Lu, é verdade mesmo que o Xadrez ajuda a combater muitos dos males da terceira idade? Perguntava com um intuito definido na cabeça, ao mesmo tempo em que não desgrudava os olhos do espelho do elevador.

– Sim, por que pergunta? Indagou secamente Lurdinha, sem querer dar muita trela, mas não poderia ser mal-educada.

Ela procurava ser polida com todos, pois nutria a esperança de convencer Naldinho a ser síndico. Afinal, ele se relacionava bem com todos e de sobra ela se livraria da taxa do condomínio.

– Porque já agendei umas aulas com o Naldinho, pois não quero sofrer de qualquer mal, embora ainda seja bem nova. Soltou as minhocas venenosas e já saiu sacudindo as cadeiras, para exibir seu corpo ainda de causar inveja para mulheres de sua mesma idade.

Naldinho não tinha nem quarenta anos e se preocupava em se manter preparado fisicamente. Pensava sempre: corpo e mente devem estar sãos. Esta era sua máxima de vida e a filosofia principal de suas palestras, quando era requisitado, principalmente a que acabara de dar no salão de festas do prédio do seu condomínio, a pedido dos condôminos, que foi prevista para moradores acima dos sessenta anos.

Lurdinha mal chega em casa e logo pergunta para o marido:

– Você está dando aula para a sirigaita do 56? Indaga com um ar inquiridor.

– Qual? Quem? Ainda processando a pergunta, Naldinho mostrava descaso à indagação.

– Não se faça de doido! Arregala os olhos Lurdinha.

– Meu amor, acabei de dar uma palestra falando sobre as vantagens de se praticar o Xadrez como forma de se evitar o Mal de Alzheimer na Terceira Idade. Disse Naldinho ao procurar passar calma, após interromper sua série de abdominais.

– Acho que ninguém agendou nada comigo, a não ser com o síndico. Logo irei procurar seu Abel para me certificar. Concluiu de forma insegura.

– Não quero ouvir aquela exibida falando bobagens por aí, hein, Naldinho! Falou Lurdinha em tom imperativo, talvez porque colocasse mais na economia familiar, mas no fundo deixava transparecer seus ciúmes.

Lurdinha foi dormir naquela noite encafifada, com aquela ideia fixa, a partir das insinuações da vizinha de apartamento. Nervosinha, nem deu muito papo pro Naldinho naquela noite.

No dia seguinte, logo cedo, antes de sair para o trabalho, Lurdinha, que estava sempre correndo, percebeu que Naldinho já estava pronto para sair. Não se conteve e esbravejou:

– Ué, por que tão cedo! Suas aulas hoje só começam mais tarde! Indaga a curiosa Lurdinha.

– Vou ver com o síndico se tenho alunos e, se assim for, já começo, aproveitando o tempo vago. Disse tranquilamente.

– Naldinho, vê lá o que você vai aprontar, hein?

– Querida, é apenas serviço! Falou e já saiu porta afora, deixando Lurdinha com as suas inseguranças.

Ele procurou o síndico, que explicou que havia sim alguns inscritos, mas que iria comunicá-los que só começariam no mês seguinte, em função do término das aulas de danças de salão, agendadas para o mesmo local.

Certificando-se que a mulher teria mesmo ido trabalhar e querendo não perder o tempo que ainda lhe restava, Naldinho correu em busca do zelador, afinal sua necessidade exigia urgência. Depois de satisfeita sua vontade, como já estava na sua hora, saiu para dar aulas na Escola Educandário.

No dia seguinte, seguiu o mesmo ritual do dia anterior. Lurdinha dispara uma nova pergunta para Naldinho:

– E agora, Naldinho, qual é a de hoje?

Naldinho, já de saco cheio, aproveitou prá tomar mais um gole de café para fugir da pergunta. Apenas gesticulou com a sua costumeira maneira de dizer: “Não amola, vai!”.

Desconfiada dos propósitos daquele despertar mais uma vez antecipado do marido, e querendo se garantir, tratou de enfraquecer os ânimos do Naldinho.

– Querido, eu não estou tão atrasada assim, vamos brincar um pouco? Lurdinha sabia das fraquezas do marido e, fazendo sua melhor cara, acendeu um sorriso lindo e fez brotar um olhar provocador. Não restou outra pro Naldinho.

Com um ar de vencedora, Lurdinha saiu para o trabalho, deixando o vencido com a pilha descarregada. Deu tchauzinho e, com os dois dedos a imitar um cano de revólver, atirou prá Naldinho um beijinho de despedida e disse:

– E agora, vai procurar o síndico de novo ou é alguma aluna nova?

– Dê lembranças pro síndico, querido! Soltando uma gargalhada.

Naldinho não entendeu nada, mas também sorriu satisfeito. Afinal não era toda manhã que recebia presente. E nem deu tempo explicar que o negócio dele era com o zelador. Feliz com o resultado, mais uma vez foi até à sala da zeladoria do seu prédio.

Lurdinha, depois de encarar como afronta as insinuações da Veroca, passou a andar cada dia mais bonita e sorridente, que até seu chefe, doutor Dorivan, e seu amigo do escritório, o Tadeu, não paravam de fazer elogios para ela. Talvez para estimular Lurdinha a espantar de vez aquela cara de noite mal dormida que ela desfilava quase sempre pelos corredores do tradicional Escritório de Advogacia da família Marcondes.

Uma nova manhã, e a cena se repetia, mas desta vez ele achou tempo para esclarecer para Lurdinha:

– Não, querida, desta vez irei tratar com o zelador.

– Cada dia uma desculpa para acordar cedinho, Naldinho!

– E, você, por que não está uniformizada, Lurdinha? Lurdinha uma vez mais surpreendeu Naldinho, desta vez com uma bela peça íntima, há muito guardada para uma ocasião especial.

E sem deixar que ele falasse mais qualquer palavra, ela logo partiu para as preliminares e bateu um bolão, deixando o adversário extasiado, com um ar de riso estampado no rosto.

Naldinho, mesmo sem compreender direito o que estava acontecendo com  Lurdinha, passou a ser o homem mais feliz do mundo ou pelos menos da cidade de Campineiras.

Esperava sua bela Lurdinha sair feliz, e ele se arrumava para procurar o zelador.

Cada vez que Naldinho buscava pelo zelador, o mundinho dele se transformava em paraíso.

Até que um dia, Lurdinha resolveu surpreender o marido. Fingiu que saíra para o serviço, esperou um determinado tempo, retornando para seu apartamento.

Suavemente abriu a porta, e a acústica do ambiente logo denunciou um barulho proveniente de um dos quartos.  Ao se aproximar do dormitório do casal, ela passou a escutar vozes. Logo imaginou que poderia ser o safado com alguém, mas aquela voz masculina não lhe era estranha.

Resolveu invadir o quarto na ponta dos pés e deu de cara com Naldinho e o Januário, o zelador em cima da cama. Lurdinha, que não era mulher contida, extravasou em berros sua curiosidade:

– Que está acontecendo aqui, Naldinho?

Naldinho esperou que Januário saísse, ao perceber que o circo iria pegar fogo e também porque o intervalo de folga que o zelador pedira à administração já havia se esgotado. Tranquilamente explicou para Lurdinha que estavam consertando o estrado da cama.

– Veja – mostrou para ela -, aquele barulhão já não se escuta mais! Lembra que você havia me pedido há muito tempo para eu arrumar isso?

E sem esperar resposta, continuou:

– Imaginei que, cada vez que consertasse alguma coisa em casa, você estaria me presenteando. Assim comecei a relembrar todos os probleminhas de casa e todo dia saía cedo para buscar o zelador para arrumar uma daquelas velhas encrenquinhas.

Lurdinha estava sem fala e naquele momento se deu conta de tudo, mas sorriu satisfeita porque seu Naldinho tinha lhe dado muitos presentinhos, e ela o tinha sob controle, distante da perigosa vizinhança.

Assim, disfarçou seu descontrole e, já refeita de tudo, deu um sorriso,  sapecou um beijo no rosto do Naldinho e saiu para trabalhar mais feliz que nunca.

E aquele tema que havia começado com a vizinha se insinuando prá cima do Naldinho acabou trazendo outros benefícios. Lurdinha, que vivia sempre correndo, passou a arranjar tempo pro marido todas as manhãs, e o Naldinho colocou em dia todos os probleminhas da casa.

Assim descobrimos que o Xadrez não somente é bom para afastar os probleminhas da maior idade, mas também é remédio para muitos outros males.

Autor: José Maria Cavalcanti

HISTÓRIA DE XADREZ

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