O Xadrez das Meninas

FLAGRA NO XADREZ

Depois de desgastante reunião com os técnicos de todas as modalidades esportivas da cidade de Campineiras, Inácio, um dos diretores da secretaria de esporte da prefeitura, falou:

– Naldinho, o negócio é fazer das tripas coração. Quando o prefeito quer uma coisa, temos que fazer, e desta vez dou razão a ele, pois a verba do fundo de apoio ao esporte depende dos resultados dos Jogos Regionais deste ano.

– Eu sei que a Câmara não ficou satisfeita com os resultados do ano passado. Ainda bem que o Xadrez foi campeão no vale. Disse Naldinho se justificando.

– É, mas este ano ele exige uma equipe feminina, pois perdemos pontos no ano passado por não haver competidoras. Dê um jeito nisso, senão a coisa vai pegar! Alertou Inácio.

Naldinho saiu da reunião com tanta preocupação que quase não se despediu do seu diretor. Teria que arranjar pelo menos três fortes jogadoras, completando o número de atletas exigido com duas da casa, pois senão não teria como ganhar da cidade de Mangabeiras, onde o Xadrez feminino era o mais forte do Vale do Café. Além do mais, como contratar três jogadoras de outro estado com o dinheiro já praticamente todo destinado. A solução seria contar com os amigos. Assim, Naldinho ligou para seu velho companheiro e técnico de Xadrez de Goiânia, Nilo Vargas. Depois de passar o problema, logo veio a solução: ele levaria suas três melhores atletas somente em troca das despesas básicas delas, mas com uma condição especial de contratação para ele. Em troca ele garantia para Naldinho os três pontos necessários para garantir a vitória em cada rodada. Solucionado o impasse, tudo parecia clarear naquela escuridão que se fechou diante de Naldinho.

As coisas começavam a se encaixar, parecendo que tudo iria correr às mil maravilhas.

As aulas da Escola Educandário estavam suspensas por vinte dias para o recesso do meio do ano. Isto era ótimo, pois Naldinho teria um pouco mais de tempo para se dedicar a sua Lurdinha, sempre muito sacrificada com suas ausências, devido ao acúmulo das atividades na escola, aulas particulares e com os vários encargos da função de técnico de Xadrez de Campineiras. As redes Municipal e Estadual também estavam de recesso, e aquele era o momento oportuno para a realização dos jogos, pois haveria como alojar os atletas das outras cidades do vale nas dependências vazias das escolas de Campineiras.

Naldinho passava a parte da manhã com Lurdinha, pois ela também havia pedido uns dias para desconto em férias, aproveitando a parada das aulas, assim teriam mais tempo um para o outro. Todas as tardes, Naldinho seguia para o local dos jogos, pois Campineiras estava recebendo o evento neste ano, o que aumentava a responsabilidade, pois os campineirenses compareciam em peso aos jogos, cobrando resultados.

A coisa ia bem até que Lurdinha, que nunca gostou de ir ao local da realização das partidas, cismou que desta vez queria ir até lá. Logo ela que sempre odiou o ambiente enxadrístico, pois achava todos uns chatos e sem assunto para trocar ideias normais.

– Naldinho, qual é, você que sempre insistia para eu ir agora quer me desestimular! Você está me escondendo alguma coisa, Naldinho? Estranhava Lurdinha a reação de marido.

– Não é nada disso, Lurdinha, eu não quero que depois você fique reclamando de tudo! Desabafou Naldinho.

Na verdade, Naldinho sempre negou a presença feminina nos jogos. Dizia que apenas os meninos e rapazes se interessavam pelo esporte, mas como justificar que aquelas lindas meninas-moças, com seus corpos avantajados para a idade de 15 e 16 anos, surgiram de repente para representar sua cidade. Aquele artifício arranjado por Naldinho com seu amigo Nilo teria que ser contado imediatamente para Lurdinha, antes que a casa fosse abaixo.

Os jogos foram acontecendo, e a cidade estava se saindo muito bem em todas as modalidades, mas era o Xadrez que mais chamava a atenção, principalmente por causa das beldades da equipe feminina. As notícias dos jornais locais davam ênfase aos resultados, e Naldinho escondia o caderno de esportes da vista de Lurdinha, trocando o canal da televisão quando noticiava os Jogos Regionais. Imaginem o desespero dele, mas ele resolveu não contar nada, visto que Lurdinha não tocou mais no assunto, e logo os jogos terminariam.

– Naldinho, porque você anda tão nervoso?

– Não é nada, Lurdinha, é que os jogos estão se aproximando do fim, gerando muita ansiedade. As partidas mais difíceis e decisivas virão amanhã, último dia da competição. Disse Naldinho desabafando sua suposta causa do nervosismo.

Depois de virar aquela última noite, véspera do encerramento dos jogos, Naldinho acordou muito feliz naquele domingo, pois logo acabaria sua aflição. Tomou banho rapidamente, trocou sua roupa e já saiu de casa, sem se despedir de Lurdinha, deixando para ela um bilhetinho, assim evitaria qualquer ideia de Lurdinha ir com ele ao último dia para o complexo esportivo Ayrton Senna.

– Naldinho, que bom que você chegou mais cedo! Disse Nilo. Vamos tomar um café?

– OK, amigo, mas tudo rapidinho, pois temos muito a fazer, inclusive definir a ordem dos tabuleiros das duas equipes, pois esta é uma questão estratégica, como você bem sabe. Explicou Naldinho.

– Fique tranquilo, amigo, o feminino deixa comigo e darei toda a ajuda que você necessitar no masculino. Logo as meninas virão fazer companhia para nós, pois também não tomaram café. Tudo bem?

– Por mim não tem problema. Nilo, quero saber que horas vocês retornam para Goiânia, pois eu ia sugerir o regresso de vocês antes do término oficial dos jogos, isto é, logo após o encerramento das partidas, pois vocês irão pegar a Dutra e a Dom Pedro mais tranquilas. Naldinho já queria acelerar os acontecimentos do regresso das meninas, mas não queria forçar a barra, afinal seu amigo veio para ajudá-lo.

– Você tem razão, Naldinho, se depender de mim, saio logo que cair a seta do último relógio das meninas, ficando a entrega das planilhas por sua conta, tudo bem?

– Combinado! Naldinho não conseguiu disfarçar sua alegria, pois estava disposto a vê-los longe o mais breve possível, mesmo que tivesse de entregar as planilhas do feminino, última atribuição de Nilo de cada rodada, mas de fácil execução, uma das exigências da competição.

Todo o evento, como ocorria anualmente em cada cidade do vale, estava muito bem organizado, e para as partidas de Xadrez foi reservado um local mais tranquilo, em relação aos outros esportes. As mesas estavam bem arrumadas no centro do ginásio, todos os mecanismos dos relógios eram rigorosamente testados antes do início de cada rodada e fazia-se uma vistoria para checar todos os detalhes: peças, relógios, canetas, planilhas de anotações, conforto das cadeiras e os espaços entre os jogadores para que nada atrapalhasse no andamento das partidas. Os técnicos podiam circular livremente entre os competidores, desde que não interferissem no cumprimento das regras.

Tudo ia bem, e as partidas estavam próximas do fim. O tempo dos relógios estava se esgotando, e logo tudo estaria encerrado para o Xadrez. A equipe masculina já havia garantido três pontos na rodada, o que dava a primeira colocação.  As três meninas necessitavam  vencer as partidas para garantir a vitória na competição, mas estavam diante da equipe de Mangabeiras naquela última e difícil rodada.

Nilo estava tranquilo, mas Naldinho não conseguia conter seu nervosismo por vários motivos.

De repente, as três meninas se levantaram todas sorridentes. Era o fim da tortura de Naldinho.

De tão eufórico, não conteve seus ânimos e disparou para pegar as planilhas, já devidamente assinadas pelas jogadoras.

As meninas, de tanta felicidade, correram para abraçá-lo. Naldinho, surpreendido pela reação das meninas, até sumiu nos meio delas, sendo acarinhado pelas três, que faziam roda em volta dele. Mas, de repente, a coisa esquentou para o lado do Naldinho. Uma mulher invadiu a alegre comemoração, puxando a camisa de Naldinho, arrastando-o para longe das belas garotas, justo quando Naldinho já estava gostando, já que não estava acostumado com tantos afagos.

– Naldinho, você pode explicar o que está acontecendo aqui? E quem são estas assanhadas? Lurdinha gritou o mais alto que podia para que as meninas soubessem que aquele homem tinha dono.

Naldinho puxou Lurdinha pelo braço para um local distante das belas e entusiasmadas jogadoras e, mostrando-se preocupado com a situação inusitada, falou compassadamente:

– Lurdinha, é uma longa historia, vamos conversar em casa, querida! Naldinho tentava acalmar as coisas.

– Era por isso que você não queria que eu viesse, hein, Naldinho? E que história é essa de equipa feminina que eu nunca ouvi falar? Ainda mostrando toda sua indignação.

– Amor, não é nada disso! Eu explico tudo.

Aproveitando a confusão formada e como já estava tudo acertado com Naldinho, Nilo pegou as meninas e se mandou de volta para Goiânia, deixando a encrenca para ser resolvida pelo amigo.

Mesmo com todas as explicações posteriores de Naldinho, custou para Lurdinha assimilar os últimos acontecimentos e, a partir daquele último Jogos Regionais, ela passou a ser uma presença constantes na plateia dos torneios, tornando-se uma companheira de viagem para o marido.

Autor: José Maria Cavalcanti

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