TRISTE DESPEDIDA

Não é fácil partir quando se vai para tão longe, principalmente quando a pessoa de quem você se despede é sua querida mãe.  Era o ano de 1979, e eu contava já dezoito anos de idade. As malas já estavam prontas, e como o tempo estava reduzido, cuidei para não desperdiçar nem um pouquinho do pouco que me restava. Meu pai me esperava lá fora para me ajudar no transporte da bagagem, e minha mãe aguardava minha saída, tristonha no terraço da lateral da casa. Aproximei-me devagar e pude ver de relance suas madeixas, longas cãs debruçadas sobre seus ombros, que emolduravam seu olhar sem brilho pelo pesar da hora da partida.

Corri para seus braços para abraçá-la ternamente, buscando amenizar seu sofrimento. Havia a sensação de perda no ar,  mas  existia o consolo da conquista, afinal eu estava naquele momento seguindo em busca do meu futuro. Tentei segurar o tempo com a mesma força que eu a abraçava, mas tudo foi em vão. Os minutos se foram, e eu necessitava ir.

Não havia como deter aquela partida, tampouco as lágrimas. Olhando para trás, vejo hoje que tudo valeu a pena e  aprendi que nossos objetivos são muitas vezes conquistados com duras perdas ou sofridas separações. E aquele vazio que ficou, chamado saudade, eu sabia que poderia preenchê-lo sempre com aquela cena que até hoje tenho guardada comigo.

Com a Poesia DESPEDIDA, revivo aquele momento mágico, que parecia não ter fim, mas que de alguma forma escoou com rapidez, sem que ninguém percebesse.

Autor: José Maria Cavalcanti

DESPEDIDA

Longas cãs desfraldam no adeus

Lágrimas a rolar no triste sorriso

Chora, mãe, este é o teu paraíso

Não queres perder os filhos teus

Vai e dá-lhe um beijo com amor,

Como teu último e terno abraço

Ainda não partiu está no terraço

Corre compartilha com ele a dor

Pra ele és única nesta curta hora

E na terra não há mais ninguém

Pedestal onde se ajoelha e adora

Não chores mais, ele te implora

Pois só quer ser feliz com quem

Deu-lhe a vida, padece e chora!

Autor: José Maria Cavalcanti

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