Traumas de Infância

O MUNDO PELA JANELA

Minha vida se resumia ali, naquele pequeno espaço, que era sala e cozinha ao mesmo tempo. Havia apenas um pequeno quarto e um banheirinho, que abrigava nosso varal de roupas. As poucas chances de ver o sol eram concedidas pela janela alta da sala e pelos vitrôs do banho e por um outro acima do pequeno fogão, que  clareavam o ambiente semiescuro. Não havia quintal, tampouco varanda e não se via qualquer tipo de conforto pela casa.

Era uma vida sem amigos, sem família, nem sequer um rádio para entreter e fazer passar o tempo. Eu tinha só a companhia da minha mãe, e às vezes nem isso, quando ela tinha que fazer compras na vendinha ou sair para entregar as roupas, passadas e dobradas, das clientes pelos arredores do bairro. Nessas horas, ela me deixava trancada, com uma chave que nunca achei. Eu ficava ali, apenas envolvida com as figurinhas daquela mesma história, meu único presente, que depois de muito tempo aprendi a ler, captando outros detalhes de um todo que eu já compreendia, de tanto olhar e folhear aquelas páginas amareladas pelo tempo de manuseio.

Mas tudo seria muito mais triste se não fora aquela janela basculante da sala, que através dela a luz da manhã me banhava de sol. Depois de acionar a alavanca lateral, os vidros ficavam inclinados, e eu podia contemplar melhor o mundo. Por ali eu dava fuga para minhas ideias e minha mente vangueava desde aquele bairro simples até outras cidades e para outros mundos.

Pela pequena janela, só acessível com o auxílio de uma cadeira, pude conhecer Mariana, que eu a tinha como minha amiguinha, mesmo que ela nunca houvesse me dirigido a palavra ou um olhar. Ela desfilava lá do outro lado da rua com suas roupas e bonecas ou com seus presentes novos, sempre em datas especiais. Por aquela entrada de luz da sala, ao longe vi seu pai correndo atrás dela para ensinar a pedalar sua bicicleta “Pimoneta” e vi sua mãe pular de corda com ela na frente da casa, na maior alegria, sempre que estava livre dos afazeres, diferente da minha mãe, que tinha um interminável trabalho de passar e dobrar roupas.

Mariana parecia ser muito feliz, pois desfilava com um grande sorriso, para lá e para cá, e sempre tinha a companhia da Carolina, filha de uma pessoa que parecia ser amiga da mãe dela. Juntas, brincavam de casinha, e eu tentava imaginar as muitas histórias que uma contava para a outra. De longe, eu acompanhava tudo, inclusive o mover de toda vizinhança.

Era triste não ter com quem brincar ou falar assuntos da minha idade. Comentar coisas inocentes e sentir a reação no outro, interagir com falas e gestos, rir, falar alto, gargalhar… Minha mãe não era ruim para mim, apenas era de pouco falar, não fazia carinhos e parecia estar sempre brava com alguma coisa. Poucas vezes me lançava um olhar e um sorriso, enquanto eu permanecia ali com meu livro, sentadinha no sofá surrado, que ela usava para colocar as roupas. Somente muito tempo depois pude compreender por quais motivos vivíamos assim, enclausuradas, sem qualquer tipo de socialização.

Para todas minhas indagações sobre nosso confinamento, ela respondia: “-Nós temos uma a outra. Isto é tudo. Não vamos falar mais sobre isto!”. Todas minhas tentativas de diálogos eram brecadas por sua fala imperativa e finalizante.

Éramos tão largadas em nosso mundinho que sequer cobravam dela minha ida à escola ou o porquê de vivermos trancafiadas por todo o dia. Assim fui crescendo, buscando em pequenos indícios que escapavam as razões para tudo aquilo.

Ao ver a janelinha alta semiaberta, alguns vendedores batiam na nossa porta, mesmo estando sempre trancada. Dificilmente conseguiam algum retorno, e os mais insistentes eram repudiados com uma resposta ríspida. Fiquei admirada com a reação da minha mãe quando um dia fora surpreendida na nossa porta, no momento em que saía para fazer compras. Ela foi tão grosseira com aquele senhor que ele nem sequer abriu mais a boca, retirando-se rapidamente de perto dela. Naquele momento ficou patente o alvo dos seus medos.

Depois dos sete anos, ela passou a fazer algo que nos aproximou mais. Com o auxílio de uma velha cartilha, ensinou-me a ler e a escrever. Aquilo foi o melhor que podia me acontecer. Finalmente eu poderia entender toda aquela história da meninha com gorrinho vermelho e as ameaças daquele animal assustador!

O tempo e a vida passavam pela  janela, e agora eu já nem necessitava da cadeira para alcançá-la, bastando apenas erguer meu corpo comprido na ponta dos pés. Como eu lia tudo que passava na minha frente.Minha diversão era ler as placas dos carros ou alguma propaganda que de longe eu avistava, pois nada escapava ao meu olhar observador.

Um dia, minha curiosidade foi despertada para aquela velha caixa empoeirada que ficava sobre o guarda-roupa, o qual separava em dois o ambiente. Sabendo exatamente o tempo que tinha disponível para fazer descobertas, agilizei minhas ações, e não tardou muito para achar o diário da minha mãe. Estava escrito: Meu Diário – Maria dos Santos.

Ali descobri uma história muito triste. Naquelas linhas diárias, pude compreender os motivos de tanta tristeza, dor e medo. Em cada linha, minha mãe ficava mais exposta e finalmente consegui mergulhar em sua alma para entendê-la melhor.

Seu pai era um viciado em bebidas que se aproveitava dela, quando ainda era bem menina, com o consentimento da mãe, que nada fazia para contê-lo, com receio de ser mais uma vez surrada pelo marido. Quando surgiu o primeiro homem em sua vida, que parecia ser diferente da figura paterna, fugiu com ele, mas o destino mais uma vez havia sido ingrato para ela, pois, como num ciclo de violências, seu companheiro era agressivo e um mulherengo insaciável. Depois de engravidá-la, um belo dia sumiu para nunca mais voltar, começando assim sua luta para me criar. Por causa dos muitos abusos que sofrera dos homens que surgiram no seu caminho, ela não queria que nada acontecesse comigo, a pequena Elisa, como ela me chamava no registro de suas confissões.

Chorei muito sobre as páginas daquele antigo diário, que nem me dei conta do passar do tempo. De repente senti o carinho de outros braços que me enlaçavam. Era minha mãe que voltara e que logo havia compreendido a causa do meu pranto. Juntas ficamos agarradas, uma a outra, compartilhando sentimentos guardados nos cômodos de um distante passado, vividos com muita dor.

Autor: José Maria Cavalcanti

Nota:

Quantos traumas de infância são carregados por tanta gente. Tais pessoas são vítimas de terríveis agressores, muitas vezes da própria família, que nem desconfiam que seus atos covardes imprimirão marcas que serão carregadas por toda uma existência.

Deixo impresso meu repúdio contra esses monstros que se escondem em pele de cordeiro para ganhar a confiança de inocentes e assim  poder praticar tais crimes hediondos.

Anúncios