Investigando Naldinho

SERÁ QUE NALDINHO TEM OUTRA?


Aquele dia tinha tudo para ser lindo. O céu estava limpo com um azul radiante e não estava tão quente naquele período da meia-estação. Abril era sempre de temperaturas amenas e convidativo para caminhadas e passeios ao ar livre.

Era um sábado, e Lurdinha aproveitava para dormir um pouco mais, luxo que não poderia ter durante a semana. Ela acordou e se assustou por não encontrar Naldinho ao seu lado, e custou para lembrar, por estar atordoada, que ele havia saído mais cedo, às sete horas, pois era dia de feira. Ele dizia sempre prá Lurdinha que as melhores frutas e os melhores legumes são comprados nas primeiras horas da manhã. Também porque tinha paciência para escolher tudo e, duas horas depois, chegava carregado com muitos itens para encher a despensa e a geladeira pela próxima semana.

Mais tranquila com a lembrança, ela foi direto para o banheiro para tomar uma ducha fria para despertar melhor. Sabia que seria difícil repor as noites mal dormidas que ela já tivera naquela última semana, imaginando como procederia para pôr um fim naquela dúvida que passou a povoar sua cabeça: “- Naldinho teria outra mulher?” Esta preocupação martelava sua cabeça, a ponto de quase estourar seus miolos.

A questão não era perguntar prá ele e sim primeiro investigar para ter informações concretas. Assim ordenou melhor suas ideias, dando uma direção a seus pensamentos.

Após o banho, olhou para seu rosto no espelho de aumento dupla face e se deu conta de vincos, e dobras, e manchinhas, e um monte de outras coisinhas que não imaginava ter na sua pele. Logo seu olhar se desviou para os cabelos, e percebeu como estavam ressecados e sem vida. Sentiu-se culpada por ser tão descuidada, pois estava sempre nas correrias pro escritório de advocacia, visto que inúmeros casos de separação iam sempre parar em suas mãos, e não saíam de sua cabeça, até que ela resolvesse a questão da melhor maneira possível para os envolvidos.

Com toda a experiência, sempre envolvendo casos de separações, Lurdinha sabia que muitos casamentos se desfaziam por relaxamento de uma das partes. Isto ela não queria que acontecesse na vida dela, mas só acordara depois de perceber Naldinho se comportar de forma diferente. Seu sexto sentido fez acender a luz laranja, indicando estado de alerta, situação que exigia providências imediatas de sua parte.

Sabia que o tempo estava sendo implacável com ela. Estava perto dos cinquenta, e aquilo que ela nunca pensaria em fazer, parecia que chegara a hora. Principalmente porque a fotografia dos dois, que decorava a parede do quarto, denunciava a diferença de idade. A cada ano a coisa ficava mais gritante, porque parecia que Naldinho não sofria nenhum desgaste. Conservava aquela mesma cara que ela conhecera há dez anos.

As preocupações de Lurdinha talvez fossem menores se Naldinho não tivesse começado a sair mais arrumado que o costume e mais cheiroso do que nunca, coisa que ele não fazia há muito tempo. Isto aumentada suas suspeitas, visto que tal comportamento é próprio de quem está querendo atrair atenção do público feminino.

Naquele dia, ela não saiu de casa e esperou a noite cair para seguir seu marido, que parecia ter se guardado para a saída noturna. Afinal, aquele era o dia que ele dizia se encontrar com os amigos para jogar xadrez, mas Lurdinha iria ter uma surpresinha, pois, antes de se encontrar com sua turma, ele marcou um compromisso que iria quebrar sua rotina.

Lurdinha já havia arquitetado seu plano. Para isto, conseguiu uma peruca, maquiou-se e colocou um velho capote de frio, que ela já havia separado para doar no brechó do seu bairro. Estando irreconhecível até para a melhor amiga, começou a acompanhar de longe Naldinho, como se fora uma detetive, disfarçando em cada esquina escura do bairro até chegar a um bar, na praça central.

Sentou de costas, numa cadeira da mesa ao lado, de forma a poder escutar o que ele e a pessoa que Naldinho esperava iriam conversar. Não tardou muito, e logo começou uma conversa animada.

– Oi, Naldinho, o que vamos beber hoje, amor? Era a atirada garçonete, que já estava acostumada com o cliente.

– O de sempre, querida! Respondeu o atencioso Naldinho.

Enquanto Lurdinha aguardava ser atendida pelo garçom de sua área de atendimento, esticava mais o ouvido, não querendo perder nem uma palavra daquele bate-papo, que já estava fazendo-a perder a calma, mas tratou de se acalmar, dado ao silêncio que se fez a seguir.

Naldinho aguardava paciente e aproveitava para se recordar das dicas de um velho amigo sobre as “técnicas para recuperar terreno na relação a dois”. Jargão que o companheiro costumava repetir, com a segurança de um terapeuta familiar.

Lembrava-se das dicas para reacender o clima entre o casal, fazendo alguns procedimentos para despertar ciúmes. Sempre que possível, deveria sair bem arrumado e perfumado, demonstrando uma alegria indizível, de preferência assobiando ou cantarolando uma bela música. Dizia ele ser infalível, pois logo minha mulher iria perceber que algo estaria ocorrendo. “- As mulheres – dizia ele – têm um faro terrível prá essas coisas, meu irmão. Acredite em mim!”

Esboçando um leve sorriso, Naldinho se recordava de cada palavra e estava seguindo à risca, mesmo sem saber se todo aquele esforço iria fazer com que Lurdinha se ligasse mais nele que no serviço.

No momento em que era atendida, Lurdinha perdeu a chegada daquela mulher que cumprimentou Naldinho e se sentou perto dele. Esperou o garçom terminar de servir sua coca e se afastar, para novamente se ligar na conversa da mesa ao lado, pegando algumas frases soltas, fora do contexto:

– Naldinho, o que você achou do meu desempenho? Perguntava a mulher querendo escutar uma resposta que agradasse seu ego.

– Querida, você é ótima, mas vai melhorar a cada dia. Disse Naldinho, querendo estimulá-la.

– Acho melhor ser sempre na minha casa, pois sei que toda mulher é possessiva e ciumenta.

Depois que a mulher fez referência a ela, Lurdinha não se conteve e saiu faiscando do seu lugar, pronta para avançar no pescoço da provável amante do marido, mas teve o maior susto e perdeu sua fala. Esperava uma belíssima mulher diante dela, mas ficou chocada com o que viu.

Diante de Naldinho, estava dona Mercedes, uma senhora com quase setenta anos, que havia procurado Naldinho por ele ser indicado como um excelente professor e queria voltar a exercitar sua mente, já muito cansada pela idade.

Naldinho e dona Mercedes nada entenderam quando aquela mulher de cabelos longos e negros avançou nervosa na direção deles, mas depois perceberam que certamente se tratara de algum engano, pois a estranha mulher, depois de olhar fixamente para a convidada de Naldinho, retirou-se dali sem olhar para trás.

Naldinho fechou com mais uma cliente, recolhendo em seguida as peças e o tabuleiro de napa que usou para avaliar o nível de jogo da nova aluna, já que ela havia dito conhecer muito mais que os movimentos das peças. Depois da despedida e o nome de dona Mercedes na sua agenda, ele seguiu para o salão dos fundos, reservado especialmente para os tradicionais encontros noturnos dos enxadristas de Campineiras.

Lurdinha voltou faiscando de raiva para casa, ao se dar conta de todo o tempo perdido naquele seu plano maluco. Quase chegando na sua casa, já mais tranquila, conseguiu sorrir e por fim gargalhou de felicidade para estar tudo bem, relembrando toda a cena vivida lá no bar. Naquela noite, resolveu que esperaria Naldinho regressar para oferecer para ele seu doce predileto, mesmo sabendo que seria bem tarde. Enquanto aguardava, Jurou para si mesma que arranjaria mais tempo para ela e para seu casamento.

Autor: José Maria Cavalcanti

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