Bola de Meia, Bola de Gude

MILTON NASCIMENTO


Bituca, mesmo sendo carioca de nascimento, sempre se considerou mineiro de coração. Isto porque foi em Minas que ele se encheu de amor, de amigos e de musicalidade.

Depois que o menino cresceu, concedeu-nos muitas pérolas musicais. E foram tantas que se esparramaram pelos clubes e esquinas do Brasil inteiro.

Hoje seus fãs estão espalhados por todo o mundo, e cada tema musical faz seu repertório ser mais especial ainda. Músicas como Nos Bailes da Vida, Canção da América, Travessia, Coração de Estudante, Maria Maria e muitas outras fazem com que seus shows sejam únicos.

Mas tem uma que para mim é muito doce, por remeter ao mundo mais gostoso que todos nós vivemos – a infância!

Bola de Meia, Bola de Gude

Milton Nascimento

Há um menino
Há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão

Há um passado no meu presente
Um sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra
O menino me dá a mão

E me fala de coisas bonitas
Que eu acredito
Que não deixarão de existir
Amizade, palavra, respeito
Carater, bondade alegria e amor
Pois não posso
Não devo
Não quero
Viver como toda essa gente
Insiste em viver
E não posso aceitar sossegado
Qualquer sacanagem ser coisa normal

Bola de meia, bola de gude
O solidário não quer solidão
Toda vez que a tristeza me alcança
O menino me dá a mão
Há um menino
Há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto fraqueja
Ele vem pra me dar a mão


O mundo é hoje um quadro feio de se ver e difícil de ser vivido. Ele é selvagem, cheio de drogas e violências. Suas redes sujas violam o direito à vida, usurpam o espaço da mulher e invadem o universo mágico e inocente das crianças e dos adolescentes.

Na ânsia por competitividade, perde-se a ética, a moral e os bons costumes. Por dinheiro, mata-se e morre-se, sem peso na consciência, pois ela já foi cauterizada, perdendo a sensibilidade.

Quando Milton Nascimento recorre ao menino, ao moleque, morando sempre no meu coração, ele nos incita a fazer este resgate nos porões da nossa mente, trazendo de volta a inocência, a pureza, o lado doce de ser criança, que jaz adormecido, mas não morto, dentro da gente, no nosso coração. Fazendo assim nos lembrar daquele mundo colorido, local onde somos permanentemente pessoas boas e agimos sem segundas intenções ou propósitos desleais.

Toda vez que o adulto balança (ou fraqueja), ele vem me dar a mão.

Muito adultos são formados para ser algo que muitas vezes não querem ser, por isso se tornam infelizes. Atingir a grandeza de ser um homem exige carregar consigo esta criança, este lado pueril, para que não sejamos tão duros, mas amorosos com o outro e complacentes com aqueles que pedem sua ajuda. E, se mesmo assim você algum dia balançar, esse menino estará sempre ali para te dar a mão, como um socorro transdimensional.

Há um passado no meu presente
Um sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra
O menino me dá a mão

Reviva mais e sempre os bons momentos vividos na sua infância, traga com você sempre este passado gostoso para seus dias. Eles serão importantes para lidar com os companheiros de trabalho, com sua esposa e filhos. Lembre-se que no quintal da sua casa você brincava de soltar pipa e disparava atrás de uma bola de meia, das bolas de gude e das muitas outras brincadeiras infantis.

Com tais recordações carinhosas da meninice, nada poderá nos assustar, nem mesmo a bruxa mais assombrosa que possa aparecer, como a da incerteza, da dúvida, da solidão. Nessa hora, agarre-se a esse menino, e tudo voará para longe.

E me fala de coisas bonitas

Que eu acredito

Que não deixarão de existir

Amizade, palavra, respeito.
Carater, bondade, alegria e amor.


A base que recebemos de nossos pais carregamos para sempre conosco. E ela passa a ser a nossa referência ,  apontando-nos o caminho correto a seguir. Tais ensinamentos são recheados de bons conceitos e é nisso que passamos a acreditar.  Com o dever de primar para que sempre permaneçam como o esteio da sociedade que vivemos.

No seio da família e no círculo que fomos criados e crescemos, aprendemos a valorizar sentimentos de amizade e lealdade; passamos a dar valor à palavra, sem tomá-la de forma leviana; ter respeito e sermos respeitados. Tudo entra na formação do nosso caráter. Quem transfere estes bens valiosos para seu filho, concede-lhe o maior tesouro. Com tal lapidação, com certeza ele será feliz e amará com todo seu coração e será de uma bondade imensa, pois o solidário não quer solidão. Quem quer estar sozinho, buscamos companhia, pois o outro nos complementa.

Pois não posso
Não devo
Não quero
Viver como toda essa gente
Insiste em viver
E não posso aceitar sossegado
Qualquer sacanagem ser coisa normal

Quem se contenta com a maldade, e com o curso errôneo por que envereda muita gente, compactua com ela. Devemos saber dizer não ao que não presta. Saber até onde devemos ir e ter forças para recusar algumas propostas que se apresentam, sem medo de ser careta ou ser tachado de bobão. Não podemos aceitar numa boa as muitas sacanagens que aprontam por aí como se isso fosse o normal. Mesmo diante de um programa muito visto na TV, devemos refletir se aquilo traz algo de bom para você e sua família. Reflita sempre sobre o que cada coisa pode acrescentar na sua bagagem cultural e moral, senão descarte o lixo eletrônico ou televiso que a mídia insiste em empurrar goela a baixo para você e sua família.

Bola de meia, bola de gude
O solidário não quer solidão
Toda vez que a tristeza me alcança
O menino me dá a mão
Há um menino
Há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto fraqueja
Ele vem pra me dar a mão

Quer diversão mais barata do que aquela vivida e tocada com uma bola de meia ou com bolinhas de gude! Quem não pode comprar uma bola de borracha ou de couro, constrói uma com meias velhas, com enchimento de retalhos de roupas, mas não deixa de desfrutar desse momento mágico, no qual a bola é uma presença constante. A bola de gude também é recorrência entre a meninada, principalmente da periferia, que não tem dinheiro para jogos eletrônicos e computadores sofisticados. Com pouco, vive-se feliz, afastando qualquer tipo de tristeza.

Autor: José Maria Cavalcanti

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