O bêbado e a equilibrista

JOÃO BOSCO E ALDIR BLANC

Vinicius fez grandes parcerias com Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque, Baden Powell e Carlos Lyra, resultando em grandes sucessos musicais. Cartola tinha Carlos Cachaça, Caetano tinha Gil, Cazuza tinha Frejat e muitas foram as parcerias que enriqueceram a Música Popular Brasileira. Mas um dos mais bem sucedidos encontros se deu, em 1970, entre o mineiro, João Bosco, que era o responsável pela melodia, com o carioca, Aldir Blanc, o qual compunha as letras.

Eles foram lançados por ninguém menos que a famosa Elis, durante o governo militar, iniciado em 1964 e terminado em 1985. Juntos compuseram grandes sucessos para a MPB, como Bala com Bala, Mestre-Sala dos Mares, Dois prá lá, dois prá cá e O Rancho da Goiabada, entre vários outros sucessos.

Sem dúvida a maior marca deles foi o Bêbado e a Equilibrista, lançada em 1979, que recebeu uma interpretação inesquecível de uma das maiores vozes que nossa música já teve: Elis Regina.

O BÊBADO E A EQUILIBRISTA

Elis Regina – O Bêbado e a Equilibrista (clipe)

O Bêbado e A Equilibrista

Letra : Aldir Blanc Música: João Bosco

Interpretada por Elis Regina

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos…

A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

E nuvens!
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil.
Meu Brasil!…

Que sonha com a volta
Do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora!
A nossa Pátria
Mãe gentil
Choram Marias
E Clarisses
No solo do Brasil…

Mas sei, que uma dor
Assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança…

Dança na corda bamba
De sombrinha
E em cada passo
Dessa linha
Pode se machucar…

Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar…

Análise da Letra da Música O Bêbado e a Equilibrista

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos…

Certamente muito impressionou a mente do psiquiatra, Aldir Blanc, a queda repentina dos 122 metros do elevado da Av. Paulo de Frotin, matando 28 pessoas naquela tarde carioca de 1971.

Em março de 1964, havia se instalado no Brasil uma nova forma de governo, com a mesma marca do inesperado, causando impactos sociais para todos os lados.

Como toda matéria a ser publicada passava por uma revisão, entrou nessa música o talento de Aldir, ao falar de uma maneira codificada sua mensagem de protesto. Cada palavra ganhou significado novo, sem perder a beleza e a musicalidade. Por isso esta música até hoje é lembrada em manifestações populares.

Desde o cinema mudo, Charles Chaplin encarnou a figura do palhaço, cheio de sonhos e idealismo. Vivendo a personagem do bêbado, ele passa, como marca maior, a irreverência, que caracteriza o artista.

Aldir Blanc começa sua música naquela noite enlutada, após o rápido cair de tarde daquele dia de 1971. Ali a população carioca lamentou a dor da perda dos seus mortos. Da mesma forma, os novos rumos do país foram comparados a uma longa noite de vinte anos, onde todos viviam na corda bamba, tateando no escuro cada passo a ser dado, correndo o risco de cair a qualquer momento.

A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

Apontaram alguns especialistas a Rede Globo como a figura da lua, que compactuava com o poder, representado pelas estrelas.Eu prefiro dizer que a lua apontava com sua luz o caminho a ser percorrido. Ela iluminava o palco, como um holofote gigantesco, fazendo o povo enxergar o fino fio de esperança que estava sob seus pés.

Enquanto o povo seguia o caminho árido, tal qual a provação sofrida pelo povo de Israel no deserto, eles tinham à noite aquele clarão a iluminar o percurso. Nos dois casos, era como um sinal de que Deus não havia se esquecido deles.

Como a mulher, a lua não é indiferente como as estrelas frias, ela tem fases. Enfeita-se no céu para tornar a noite mais interessante, aliviando a sensação lúgubre que ela passa. Se necessário for, ela fará de tudo para fazer a noite mais bonita, inclusive pedindo por empréstimo um pouco mais de luz às estrelas.

E nuvens!
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil.
Meu Brasil!…

No deserto havia também uma nuvem que acompanhava o povo sofrido. Lá no Sinai, servia para fazer sombra, mas aqui é utilizada como mata-borrão, suprimindo os excessos da tinta derramada. Enquanto isso, os mais irreverentes, sem medir consequências, faziam graça na tentativa de arrancar um riso.

Que sonha com a volta
Do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora!
A nossa Pátria
Mãe gentil
Choram Marias
E Clarisses
No solo do Brasil…

Betinho partiu para sempre, mas não foi daquela vez, na qual era chorado por sua esposa Maria, junto com Clarice. Sonhavam que seus maridos regressariam um dia para viver de novo no solo brasileiro.

Mas sei que uma dor
Assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança…

De novo a esperança, representada pela lua, conclamava para que todos continuassem perseverantes, pois, no fim, tudo teria valido a pena.

Dança na corda bamba
De sombrinha
E em cada passo
Dessa linha
Pode se machucar…

Enquanto se espera, enche-se de esperança e, mesmo que às vezes haja esmorecimento, fazendo bambear na corda bamba, depois o equilíbrio é recobrado. A sombrinha colorida é como o arco-íris – um sinal celestial de uma aliança com o divino.

Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar…

A mensagem dos artistas mudou de roupagem, exigindo escaramuças e subterfúgios para enfrentar aqueles tempos de maior rigor, mas não deixou de ser passada como um manifesto, diante do controle necessário para coibir  os avanços ideológicos divergentes.

Autor da Análise da Música José Maria Cavalcanti

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