Ferro Tupy

CRIANDO TRADIÇÃO DE FAMÍLIA


Jodi carregou com ele nossa segunda irmã que, assim como a primeira, sempre foi muito bonita. Claro que tudo havia começado na famosa Rua São Sebastião, na casa número 50, quando Ditinha tinha apenas 16 aninhos. Ele tinha 18 anos e vinha com seus cabelos e barbas grandes, magro, dentro daquela justa calça boca-sino. Nos pés, revezava um chinelo de couro ou um sapato com salto do tipo cavalo de aço e uma camiseta surrada pelo tempo. Houve flertes e aproximações, sempre durante as rodas de amigos, até o dia daquela abordage irresistível. Pronto, e minha irmã não escapou daquele bote certeiro.

Assim passaram a namorar, durante a fase em que eram ao mesmo tempo estudantes e professores: ele de Biologia e ela de Línguas Portuguesa e Francesa. O tempo passava, e o amor se consolidava, até que resolveram se casar, já no finalzinho dos cursos universitários. Ele fazia Medicina, e ela enveredou pelo caminho das Letras. Casaram-se na Capela do Campus Universitário, porque era mais econômico e, quer saber, a cerimônia lá ficou muito bonita.

O evento foi um marco na vida deles e serviu para criarmos uma prática na família de presentear os recém-casados, pois a primeira irmã não necessitou de nada. Ela teve um casamento e festa com muita pompa, e a casa já veio toda mobiliada.

Por se tratar de dois jovens universitários, tratamos da doação de quase todos os itens indispensáveis para um lar. Meu pai passou a dar geladeira, a partir dali, minha irmã mais velha mandava escolher algum eletrodoméstico, e eu dava sempre os móveis do quarto. Os outros irmãos combinavam com os noivos com antecedência, mas havia o mais velho que dava sempre o fogão. Assim a casa dos que começavam vida nova ficava quase completa, somente com os presentes de nossa família.

Passadas as festas e comemorações do novo matrimônio, a vida deles seguiu a mil maravilhas, tendo inclusive conseguido comprar uma casa com dois pisos, financiada com o pouco dinheiro que ganhavam como professores da Rede Estadual de Ensino, com a bolsa estudantil do governo e com as pequenas comissões das vendas de terrenos, uma nova viração do meu cunhado.

O jovem casal logo ganhou a fama de econômicos, pois conseguiam tocar a vida com os poucos recursos e faziam grandes planos para o futuro, principalmente depois que ele começasse a exercer a Medicina e minha irmã terminasse seu Curso de Letras.

Enquanto tocavam aquela vida apertada, surgiu um novo casamento no seio familiar, e o casal, formado por Jodi e Ditinha, teria o privilégio de dar sequência no novo costume criado de presentear os noivos. Naquela oportunidade, era meu irmão Paulinho que iria se casar com Anair. Seguindo a tradição, do meu pai ganharam a geladeira; do meu irmão mais velho, o fogão; da minha irmã mais velha a batedeira e o liquidificador; e eu, como já acordado, dei o quarto. Os outros foram compondo os itens faltantes, até que indagaram para o casal, que vivia com parcos recursos, sobre qual seria o presente deles.

Jodi não deixou claro qual poderia ser a prenda doméstica, mas que esperassem, pois teriam uma surpresa no dia oficial da entrega. Assim os nubentes ficaram esperançosos e ansiosos por algo muito especial.

Após a cerimônia do casamento e ao fim da festa, era hora de os noivos levarem para casa o tal presente ainda pendente. E logo se dirigiram para indagar para Jodi sobre a esperada dádiva.

Diante da expectativa das pessoas no local, ele começou a fazer um discurso, antes da entrega da bela caixa envolta em papel colorido. Falou de amor, de união e companheirismo, como importantes qualidades de uma boa relação. Enquanto seguia falando, percebeu a impaciência nos semblantes dos familiares e resolveu encurtar aquela prosa comprida, estendendo seus braços para entregar para meu irmão aquela caixa que ele trazia consigo. Os dois abriram o embrulho rapidamente, e se surpreenderam com o presente: um ferro de passar Tupy!

Os recém-casados sorriram meio sem graça, mas agradeceram, diante da frustração deles e de todos os que presenciaram aquela iniciação, que logo virou motivo de chacota nas rodas de conversas.

Mas as gozações não intimidavam o casal e, nos casamentos subsequentes, aquela tradição continuava. O velho ferro Tupy se fazia sempre presente.

O tempo passou, e o Médico Jodi e a Professora Ditinha passaram a ter uma vida muito próspera. Graças a ajuda do bom Deus e com muitos esforços dos dois, cresceram muito, tiveram duas lindas filhas, também médicas, mas uma coisa não havia mudado durante muitos anos. Quando alguém se casava, podia até surgir alguma dúvida sobre aquilo que outras pessoas iriam ofertar, mas de um casal ninguém tinha dúvida, dali sempre viria um Ferro Tupy.

Hoje a história passou às páginas do anedotário da família.

Autor: José Maria Cavalcanti

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