Achando o Diamante

UM TESOURO SOB OS OLHOS


A nossa mãe, Dolores, estava sempre correndo de um lado para o outro, fazendo de tudo para manter a casa funcionando perfeitamente. Tudo estava sempre limpinho e nada faltava na nossa cozinha. Tínhamos uma mesa farta e ainda podíamos, de vez em quando, convidar nossos amigos para um almoço ou um aniversário.

Além de cuidar das nossas roupas, calçados, fazer compras no supermercado e estar sempre preocupada com nossa saúde e vida escolar, era ela que nos sustentava financeiramente com o pouco que ganhava, tendo em vista que nosso pai já havia falecido há muitos anos.

Ela trabalhava fazendo serviços domésticos na cidade vizinha, que era mais próspera economicamente. Pegava dois ônibus para ir e dois para voltar, chegando a nossa casa bem tarde. Mesmo cansada, perguntava se havíamos gostado da comida que ela deixara para nosso almoço, e já apertava o passo para pôr alguma roupa lavada para secar no varal. Na ponta da mesa, começava a passar as peças dobradas e secas. Depois seguia noite adentro a arrumar alguma coisa que estivesse fora do lugar, ao mesmo tempo em que já iniciava os preparativos do jantar e do almoço do dia seguinte. Ela só tinha um pouco mais de sossego nos finais de semana, pois estava livre do agito da cidade grande e das correrias de descer e subir dos coletivos, sempre lotados.

De repente, sua pressão alta resolveu incomodá-la novamente, e os remédios que tomava já não eram suficientes para conter a disparada do seu coração. Coisa que ela só confidenciava para sua amiga Josefa, que tomava junto com ela o ônibus, diariamente. Um belo dia, a amiga bateu na nossa porta para comunicar que nossa mãe caíra no meio da rua, sendo levada para o hospital, em estado de emergência, causando-nos um tremendo susto.

Na UTI, estava incomunicável, e pela primeira vez sentimos muito a falta dela. Não podíamos vê-la, pois seu quadro clínico exigia cuidados extremos. Assim nos falaram, quando solicitamos uma visita. Aquela recusa médica fez brotar sentimentos de dor, pois dali começamos a sentir muito forte a falta da nossa mãezinha.

Josefa passava todos os dias de ausência materna para ver se necessitávamos de alguma coisa. Perguntava sempre: “- Luana e Aline, vocês querem jantar comigo? A resposta era sempre não a todos os gentis convites daquela amiga de nossa mãe, que se revelou uma pessoa muito bondosa. Cheias de orgulho, dizíamos que tudo estava bem e que logo nossa mãe estaria de volta para tocar nossa vidinha normal.

Comprávamos pão e queijo na vendinha pertinho de casa, prometendo que nossa mãe logo iria acertar tudo. Assim passamos aqueles dias comendo lanches e sucos, pois no fundo tínhamos certeza que o pior já havia passado e logo teríamos nossa Dodô de volta em nossas vidas.  Mas aquele tempo se esticava cada dia mais, torturando nossas consciências sobre o muito que deixamos por fazer, e a pior notícia de nossas vidas chegou como um verdadeiro furacão, devastando nossas estruturas.

Ao sentir meu corpo estremecer, como a mais velha, agarrei-lhe a Aline na intenção de protegê-la, mas no fundo era eu que estava mais fragilizada. Nossos corações batiam apressados, e o choro e a dor tomaram conta das nossas emoções. Josefa nos envolveu com seus longos braços, como tentativa de aplacar nosso sofrimento. Só ela poderia melhor entender aquilo que estávamos sentindo.

Demorou muito para recolhermos os pedacinhos de nossas perdas, na tentativa de juntá-los para recompor o que foi quebrado. Aquele vazio imenso que se abriu na nossa frente fez a gente entender quão grande nossa mãe era para nós. A falta daquela figura, que representava os cuidados materiais, ocasionou uma grande lacuna sentimental, que mexeu muito  conosco naquele momento e até hoje ainda nos machuca imensamente.

Ninguém poderia imaginar a falta que ela fazia para nós, pois já éramos mocinhas e nada fazíamos para ajudá-la, mesmo sabendo que em parte era culpa dela, que era muito centralizadora e não nos deixava pôr a mão em nada.

Josefa continuou nos visitando e ajudando, conseguindo, com seus esforços junto a um competente e caridoso advogado, o salário da previdência para nós, dinheiro que passou a ser muito útil para seguirmos vivendo, mesmo com aquele abismo que tinha se aberto na nossa frente. Josefa não só foi amiga, irmã e companheira, mas confidenciou toda a vida pregressa da nossa mãe, que ela ouvia durante as viagens de uma cidade a outra, todos os dias.

Como nos sentimos menores com a perda da nossa mãe, que tinha toda uma vida para ser revelada após sua partida. Nunca tínhamos noção do tamanho da sua luta para sermos o que somos. Estudamos, e ela nunca estudou, pois trabalhar era sua sina. Tínhamos nossos brinquedos e roupas, e ela jamais possuíra uma boneca ou teve a roupa que queria. Não sobrava tempo para diversão, e suas vestes eram as de serviço. Descobrimos com Josefa que ela só se casara para ficar livre dos serviços do campo, buscando ser feliz ao lado daquele homem que se tornou o pai dos seus três filhos.

Ela casou muito cedo, mas não teve a sorte de ser feliz, por causa de alguns desentendimentos e a súbita perda do marido. Com isso, ela necessitou ser forte para dar um rumo novo para aquelas três vidas que estavam em suas mãos. Quis o destino levar o filho mais novo, Lúcio, deixando as duas lindas e queridas meninas como sua missão e compromisso.

Por seus muitos serviços prestados a uma família de grandes posses, ganhou um terreno de esquina, que tinha uma casinha muito simples, mas que se tornou a realização de um sonho. Ter um lugarzinho que  ela poderia chamar de seu. Aos poucos, com muita luta e juntando as economias, foi restaurando parede por parede, cômodo por cômodo, e hoje nossa casinha é muito bonita, graças a sua luta e perseverança.

Descobrimos tarde que sua maior alegria era nos ver não só  fortes e sadias, mas também vitoriosas. Era seu desejo  que   tivéssemos um futuro melhor pela frente, coisa que ela nunca teve. Muito tempo depois, descobrimos ser este o caminho de sucesso que ela queria nos conceder, algo diferente da dura vida a que foi submetida desde muito jovem.

Quanta coisa hoje amarguramos porque não valorizamos tanto a pessoa que mais nos amou nesta vida. Aquela que deu a própria vida para nos possibilitar novas oportunidades de crescimento. Hoje nós temos nossas casas, nossos carros, nossos empregos e nossas boas vidas, mas não temos aquela joia preciosa, que esteve sempre conosco, sem que déssemos a ela o devido valor.

Doeu saber que muitas vezes havia tirado da própria boca para saciar nossa fome. E que, como uma guerreira, havia brigado com unhas e dentes para nos amparar e proteger. Hoje nos arrependemos pelo que não fizemos, mas nosso coração se enche de eterna gratidão por aquela que lá de cima com certeza ainda nos olha e nos afaga antes de dormir.

Mamãe, nosso eterno agradecimento, por você ter aberto mão de tudo, nos carregando sobre os ombros cansados para nos presentear uma vida cheia de dignidade!

Autor: José Maria Cavalcanti

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