Asa Branca

Luiz Gonzaga – Rei do Baião

A criação imortal de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira completa 64 anos de sucesso. São mais de 500 regravações pelos maiores nomes da MPB e outros artistas internacionais. Aquilo que representou a revalorização da nossa cultura, quando a música estrangeira ocupava quase todos os espaços da nossa mídia, hoje o fenômeno Asa Branca se chama consagração.

Esse choro triste, um baião romântico e arretado de bom, continua embriagando a todos: público e grandes vozes.

Todos no Brasil e grande parte do exterior conhecem esse hino nordestino, esse canto que brota do coração para a alma, causando comoção geral com o infortúnio do homem sofrido do campo.

A nossa inesquecível Elis Regina fez questão de cantar a obra-prima de Gonzaga, na companhia de Hermeto Pascoal, na sua famosíssima passagem por Montreal. Juntos foram aplaudidos de pé pelo arranjo especial que fizeram.

Caetano, quando esteve na França, em 1972, não deixou de reverenciar o Rei do Baião com Asa Branca. E como ela é uma música que fala da sina dos retirantes nordestinos, levou a público uma versão inusitada no seu exílio em Londres.

Toquinho fez um solo impecável em uma apresentação internacional, levando ao povo português a hoje sessentona Asa Branca, para delírio geral. Em outro show, na Suíça, o grande companheiro de Vinícius, também exibiu a pérola do baião, encantando a todos.

E os italianos foram aos aplausos ao escutar a performance de Baden Powell, entoando Asa Branca. O arranjo foi considerado uma grande obra da maestria desse gênio do violão.

Maria Betânia não cansava de lembrar para seus fãs que Asa Branca era a música que mais sua mãe gostava de cantarolar. Depois disso, transmitia todo seu talento e emoção nos versos da linda letra para sua plateia.

O filho do Rei, Gonzaguinha, antes de nos abandonar em 1991, pressentindo como um pássaro o seu fim, cantou pela última vez a música que consagrou seu pai. Após o show na cidade de Pato Branco, no Paraná, ele sofreu um trágico acidente automobilístico, que encerrou de forma repentina sua carreira brilhante.

Além de todos os grupos de forró que tocam Asa Branca, dentre outros cantores famosos, citamos David Byrne e Demis Roussos (em inglês), Geraldo Vandré, Lulu Santos, Fagner, Tom Zé, Hermeto e Sivuca, Dominguinhos, Oswaldinho do Acordeom, Chitãozinho e Chororó, Elba Ramalho, Ricky Vallen, Ney Matogrosso, Gilberto Gil, Quinteto Violado, Zé Ramalho, Cláudia Leite e Raul Seixas (em inglês). Todos eles também emprestaram suas vozes para transmitir toda a força poética dessa música emblemática do Nordeste.

Não é difícil entender o porquê de esta música ser tão prestigiada. Ela conta com riquezas de imagens o que acontece quando o solo não recebe água, ficando esturricado, matando de sede o gado e estancando a esperança do homem do campo, que parte para a cidade grande, na certeza de um dia voltar.

Autor: José Maria Cavalcanti

 

Asa Branca

Composição: Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira

Quando oiei a terra ardendo

Qual a fogueira de São João

Eu preguntei a Deus do céu,ai

Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornaia

Nem um pé de prantação

Por farta d’água perdi meu gado

Morreu de sede meu alazão

Inté mesmo a asa branca

Bateu asas do sertão

“Intonce” eu disse adeus Rosinha

Guarda contigo meu coração

Hoje longe muitas légua

Numa triste solidão

Espero a chuva cair de novo

Pra mim vortar pro meu sertão

Quando o verde dos teus óio

Se espanhar na prantação

Eu te asseguro não chore não, viu

Que eu vortarei, viu

Meu coração

Análise da Música

Quando olhei a terra ardendo/  Qual fogueira de São João/  Eu perguntei, a Deus do céu/ Por que tamanha judiação!

Esta linda canção é uma narrativa feita na linguagem popular, com expressões regionais sendo usadas no discurso poético. Embora exista o distanciamento da norma culta, ela é iniciada com uma figura de linguagem, ao comparar o calor excessivo que assola grande parte das terras do Nordeste com a alta temperatura de uma fogueira, especialmente as grandiosas de São João, que é uma referência à religiosidade do povo. Frente ao infortúnio, o camponês indignado ousa inquirir para seu senhor e Deus qual a razão ou o motivo de tanto castigo e sofrimento.

A fogueira de São João é feita no período junino para homenagear as riquezas providas pela terra, simbolizando a fartura, diferentemente do que ocorre com o imenso queimar figurativo da letra da música.

Na primeira estrofe, os autores tratam do conhecido dilema da seca nordestina. E, como não tendo para quem clamar na esfera terrena, ele se apega àquilo que acredita. Com fé, resolve falar diretamente com o altíssimo, a ver se Ele se compadece daquela triste sina.

Repare no proposital andamento da música, assim como os instrumentos usados para o arranjo, que são predominantemente para passar o clima melodioso e triste para a canção. Este ritmo lento, quase se arrastando, cria um ambiente propício para que o ouvinte se envolva com a temática a ser passada.

Depois de tantas décadas escutando a denúncia passada na letra de Asa Branca, hoje existe um grande projeto para desviar parte das águas do Rio São Francisco para mitigar as agruras por que passa o homem do campo dessa região geográfica. A ideia talvez um dia se torne realidade, saindo definitivamente do papel, por ser motivo de muitas controvérsias. A razão disso é que a solução proposta pelo governo assusta por demais aos que enriquecem a séculos com a indústria da seca.

Que braseiro, que fornalha/ Nem um pé de plantação/ Por falta d´água, perdi meu gado/ Morreu de sede meu alazão.

A riqueza figurativa segue na segunda estrofe. Primeiro o autor usou a simbologia da fogueira, depois braseiro e por fim fornalha, palavras de mesmo valor textual para dar ênfase, com imagens conhecidas, ao fator climático da região semiárida.

A resultante da falta de água é que o nascer, crescer ou frutificar inexiste. Nem adianta o preparo da terra e o plantio, pois o ciclo da produção agrícola naquela faixa de terra é incompleto pela ausência de precipitações pluviométricas, isto é, falta de chuvas. A consequência da ausência de pastos é a morte dos animais por subnutrição. Com a morte do boi, não há como arar a terra; sem a vaca, não leite, manteiga, qualhada e queijo na mesa. Sem o cavalo alazão, como pastorear o rebanho ou como fazer deslocamentos pelas terras, ir à cidade ou à feira. Quer tristeza maior para um homem do campo ficar sem tudo aquilo que o motiva a permanecer atrelado a terra.

Depois de 500 anos de sofrimento, talvez a técnica de gotejamento, já empregada em Israel, EUA e outros países, venha a ser a solução de um problema de muitos séculos. O exemplo da Maísa, fazenda que foi transformada em oásis numa região do semiárido em Mossoró/RN, talvez chegue até outras cidades, resolvendo um problema do descaso, de falta de decisão e comprometimento político.

Até mesmo asa branca/ Bateu asas de sertão/Então eu disse, adeus Rosinha/ Guarda contigo meu coração.

No rico acervo cultural das crendices do povo nordestino, é conhecida como sinal de seca a fuga da Asa Branca. Assim como se acredita que a andorinha voando baixo, o florescimento do murici, o coaxar dos sapos e o canto da cigarra são indícios claros da chegada da chuva.

Quando não existe mais esperança, o homem se vai de sua terra em busca de melhores oportunidades. Ir sozinho muitas vezes é a solução, pois é mais barato e mais fácil. O homem nessas áreas figura com único provedor, diferentemente das cidades, onde as mulheres cada vez mais representam muito na economia doméstica. Por isso, na letra da música, a despedida de Rosinha dá início ao que ocorre com muitos, isto é, o êxodo rural.

Na visão romântica dos autores, a Asa Branca aponta o caminho da sobrevivência: a busca de outro habitat.

Sem políticas para segurar o trabalhador na sua terra, o governo permite a transferência de um problema social do campo para o meio urbano.

Por fim, o apelo ao emocional da sua amada, como um pacto de vida ou morte. Guardar o coração, o órgão vital do ser humano. Isto é como se ele dissesse para ela que apenas o corpo material vai para buscar sobrevivência, mas com ela fica sua alma e todo seu amor. O coração ele deixa com ela como calção, na certeza de que depois voltará para resgatá-lo com sua outra metade.

Hoje longe muitas léguas/Numa triste solidão/Espero a chuva cair de novo/ Pra eu voltar pro meu sertão.

Distante de sua terra, da sua cultura e familiares, o homem se entristece, morrendo de solidão. Aquele sonho de vencer na metrópole fica frustrado quando ele se vê diante de uma dura realidade. Como não possui qualificação para desempenhar outras funções, termina num canteiro de obras, realizando a parte pesada da construção civil. Dá duro dia e noite, descansando à noite em condições precárias num barraco, localizado em áreas de risco da periferia da cidade.

Vivendo um quadro diferente daquilo que sonhou, mantém contato por carta com sua família, na esperança de que as chuvas voltem para poder retornar para seu sertão.

Quando o verde dos teus olhos/ Se espalhar na plantação/ Eu te asseguro, num chore não, viu?/ Que eu voltarei, viu, meu coração.

Outra figura linda. O verde da esperança é também a cor dos olhos da amada Rosinha. Olhos que darão vazão a um montão de lágrimas e serão tantas que irão dar viço a terra, fazendo-a novamente verdejar.

A vegetação do Sertão é chamada de caatinga, que na língua indígena significa mata de um branco acinzentado, apresentado na coloração dos galhos e folhas secas. Quando chegam as primeiras chuvas, árvores, cactos e arbustos, tudo reverdece. O solo descansado, tendo água na sua superfície, em combinação com forte luminosidade, a tudo dá vida, e nisso o verde enche os olhos, promovendo o rebrotar.

Autor: José Maria Cavalcanti

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HOMENAGEM A LUIZ GONZAGA – O REI DO BAIÃO

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