Um achado incrível

 

 

 

O CANTO DO PÁSSARO


Estava tudo tão seco que há muito já rachara todo o leito daquilo que algum dia fora um rio. Era o período mais difícil nas vidas de Juvenal, Palmira e do garoto Pedrinho. Estavam ali há muito tempo nas terras de Santana, desafiando as agruras de um sol imponente. Viviam naquele mundão de terra seca, numa humilde casa de taipa.

Quando batia fraqueza na alma, pensavam em abandonar tudo, mas logo ressurgia um lampejo de fé, impelindo-os a pelejar e a permanecerem firmes.

Não havia mais água no pote de barro para beber, e as rações de farinha e rapadura tiveram fim.

Juvenal buscou com a enxada extrair da terra dura alguma raiz para saciar a fome daquele dia interminável. Enquanto isso, Palmira buscou a última água barrenta do fundo de um poço para coar na pequena chita de tecido, já esburacada e encardida de tanto usar.

Pedrinho, já com dez anos, não estava alheio a tudo, mas nada podia fazer. Assim, para passar o tempo, reunia forças para ir à pedreira, como sempre fazia para se divertir, sem brinquedos, usando apenas a imaginação. Ali ele se perdia, vivendo aventuras por entre aquele labirinto de pedras e rochedos. Naquele faz de conta, fingia derrotar inimigos invisíveis, bem mais fáceis de serem vencidos que as maiores inimigas da vida no semiárido: a fome, a sede e a morte.

De repente, Pedrinho escutou um incomum canto de um pássaro. Atraído pela curiosidade, aproximou-se do som melodioso, guiado pelo ouvido. Ao passar por uma grande rocha, deu de cara com o mais belo espécime que já tinha visto.

As plumas que revestiam aquele pequeno corpo alado pareciam desproporcionais. Eram longas e de um colorido indescritível, contrastando com o cinza, branco e amarelado que o sol atribuía a tudo. Algumas penas pendiam no alto da cabeça, formando uma espécie de topete que o distinguia de qualquer tipo de pássaro que conhecera antes.

De repente, o passarinho voou em sua direção, causando um certo espanto. Mansamente, pousou sobre seu ombro, dando sinais para estabelecer amizade. Ao aproximar sua mão para bem perto do pequeno alado, ele logo bateu asas, pousando sobre uma pedra mais adiante. Dali estufava o peito e cantava, convidativo. E quando Pedrinho se acercava, ele tornava a alçar voo, conduzindo-o para uma gruta de difícil acesso.

Por ali passou por uma pequena fresta escura, saltitando. Do outro lado, cantava sem parar, dando a entender que aguardava a chegada do novo amigo. Pedrinho, percebendo a intenção do colorido amigo e vencendo o receio de entrar naquele local desconhecido, começou a forçar seu pequeno e magricelo corpinho por baixo da pedra.  Após se arrastar por uns dois metros, vencendo a parte mais difícil, pôde enfim se levantar na escuridão. Guiado ainda pelo acorde melodioso, percebeu uma pequena fresta com um pequeno vão de claridade que só poderia ser visto de dentro da caverna.

Um pouco sem ar e com apenas aquele pequeno vãozinho de luz, tentou empurrar a pedra que obstruía o caminho entre ele e o pequeno amiguinho. Conseguiu com muita dificuldade se desvencilhar do obstáculo que dava acesso ao outro lado. Sua surpresa veio quando se fez um enorme clarão a sua frente, voltando a respirar gostoso. Ali, por toda parte daqueles paredões de quartzos, mica e feldspato, havia inscrições engraçadas por todos os lados, que chamavam a atenção de Pedrinho.

Depois de um reconhecimento do lugar, que recebia iluminação e ventilação que provinham da parte mais elevada da gruta, encontrou novamente o lindo pássaro, entretido a tomar água, oriunda de um minúsculo veio que minava da rocha. Pedrinho, diante daquele líquido precioso, logo correu para perto e juntou suas mãozinhas para colher as gotas que brotavam do rochedo. Elas criavam uma pequena poça e depois se perdiam novamente por entre as pedras. Com paciência, esperou encher a concha, entornado-a na sua boca, molhando lábios e língua secos, saciando a sede.

Nisso, lembrou-se dos pais e da terrível falta d’água por que passavam ali pertinho. Recordou-se do sofrimento da mãe para buscar o resto de água suja da velha cacimba, já quase abandonada. E se recordou ali da expressão do rosto do pai e a tristeza do olhar em meio a tantas marcas vincadas nas faces.

Não querendo que aquela tortura perdurasse mais um minuto sequer, procurou se apressar para mostrar para eles aquele precioso achado.

Deixando o amiguinho ali por um pouco, retornou rapidamente para casa para dar a boa notícia.

Chegou desesperado em casa, percebendo que sua mãe sorria aliviada por encontrá-lo, depois da busca que ela disse que fizera com Juvenal por toda parte, inclusive no pedregal. O pai não sabia se aplicava uma sova ou se daria apenas uma repreensão, mas esperou primeiro o que o menino iria dizer.

Quando Pedrinho começou a contar tudo o que havia ocorrido, percebeu que seus pais estavam incrédulos, pois ali não haveria qualquer sinal de água, muito menos havia por ali um pássaro tão diferente. Sabendo disso, Pedrinho mostrou a pequena cabaça cheiinha de água, a prova da sua descoberta.

Rapidamente seus pais abriram o recipiente e sorveram a água limpa e fresca para saciar a sede que tinham, dividindo o conteúdo da cabaça. Sem saída, acreditaram na história fantástica do filho, afinal, de onde mais poderia vir uma água tão saborosa como há muito não tomavam? Restava a eles verificar a localização correta para checar o potencial da fonte líquida.

Assim apressaram os movimentos e se foram à pedreira. Pedrinho ia à frente para indicar o caminho, e seus pais o seguiam no encalço.

Tiveram medo quando o menino se enfiou por entre as pedras, mas Juvenal percebeu que não seria fácil segui-lo. A solução seria passar a lata para que Pedrinho a enchesse de água. E assim foi, trinta minutos depois, a pequena lata de leite ninho estava cheia.

Com o passar do tempo, esta água minguada, mas valiosa, passou a representar tudo na vida dos Oliveira. Da terra voltaram a brotar as sementes, a horta voltou a dar de tudo, e a alegria estava de volta a iluminar os olhos e os sorrisos de todos.

Agora já não necessitavam mais mascarar a fome, economizando movimentos, esperando mais uma noite cair para esperançar na jornada do dia seguinte. Depois daquele dia, já não havia mesa vazia, e passaram a estender a mão para os vizinhos que não tinham a mesma sorte.

O pássaro, jamais voltou a ser visto novamente, mas aquelas poucas gotas minando perpetuamente passou a ser a solução para aquelas vidas sofridas.

Autor: José Maria Cavalcanti

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