Chega de Saudade

PITTY

Já estava bem frio. Era o primeiro terço do mês de maio de 1995, quando fui retirado do calor e aconchego dos meus pais, no Jardim Paulista. Não sabia que aquilo era uma despedida, muito menos desconfiaram meus dois irmãozinhos, que me olhavam sem entender coisa alguma.

Formávamos uma ninhada bonita, de pelagem curta e de pequeníssimo porte. Minha mãe era uma Chiuaua negra, número zero e meu pai, de mesma raça e de cor marrom, era número um. Desse intercâmbio genético, nascemos com distintas mesclas e com tamanhos variados.

O marrom do meu corpo não era a mesma cor do restante da família. Uns eram pretos e outros misturados, com uma manchinha aqui ou acolá. O mais importante é que éramos muito unidos, sempre bem coladinhos uns aos outros, assim ficávamos também para tornar nossos corpos mais quentinhos.

Com meus pais, vivi trinta dias de alegria e peraltices. Junto a meus irmãos, passávamos o tempo dormindo, mamando ou choramingando, mas tudo era muito gostoso e divertido.

Tinha um mês de vida e ainda não tinha nome, quando fui sacado da companhia da Dondoca e do Chamego, meus pais.

Fiquei sabendo depois que Dora era obrigada a vender sempre a ninhada, pois sua casa era pequena e não podia sustentar tantos animais. Assim ganhava também um troco, assegurando-se que os novos proprietários iriam cuidar muito bem de cada um de nós. Minha Dondoca era forte e sempre ganhava cinco filhotes em cada barrigada. Éramos grandes em número, mas diminutos em tamanho. Sorte da Dora, pois isso garantia boas vendas.

Lembro-me da chegado do Cal. Muito educado, não conversou muito, e logo me pegou feliz, escolhendo-me entre os três irmãos que restavam. Duas irmãs já haviam sido vendidas, restando os três machos. Assim coube a mim a sorte grande de ser selecionado pelo simpático comprador.

Desconfiei que eu seria levado como presente, por isso resguardei meu coração para doá-lo para a pessoa que o destino havia reservado para mim, que até aquele momento ainda não conhecia.

Após o ato da compra, fui levado carinhosamente para o carro, que estava estacionamento no mesmo lado da nossa casa. Pelos primeiros cuidados recebidos, imaginava que seria muito bem tratado.

Fui colocado no assoalho do Fiat Uno e ali me acomodei, encolhendo meu corpo para aliviar aquela exposição ao frio que fazia naquele dia de inverno. Meu focinho detectava novos cheiros, como o da gasolina e da borracha dos tapetes novos. Mesmo que minhas orelhas ainda não estivessem de pé, podia escutar outros motores no agito do trânsito e as inúmeras e ensurdecedoras buzinadas dos mais apressados.

Pela primeira vez, entrei em um carro. Ali fiquei quietinho durante um certo tempo, até que o carro parou num ponto de comércio da Rua Helena David Neme, uma vídeo locadora chamada de CIA do Vídeo.

Saindo dali, fiquei ansioso para conhecer a cara do meu dono ou dona. A surpresa se deu poucos minutos depois, após eu dar uma carimbada no tapete novinho do veículo.

De repente vi surgir diante de mim um sorriso lindo. Pela reação, aquela com certeza seria minha nova dona. E eu nem imaginava o grande presente que estava ganhando em minha vida. A mãe que todo cachorrinho sonha um dia ter, mas isso iria se revelar durante minha longa existência: quase 16 anos de vida. Uma eternidade para uma vida canina.

E aquela amizade que estava apenas começando iria perdurar por muitos anos, mais de uma década e meia. Eu ainda nem desconfiava que iria merecer toda uma carinhosa dedicação de um ser humano.

Ela me pegou com um jeitinho tão meigo que já pude medir a grandeza daquele coração. Recebi carinhos por todo o caminho, indo direto à Loja Pet Hungária para abrir minha fichinha e para ganhar minhas primeiras roupinhas. Ali fui também vacinado e vermifugado.

Minha dona foi tomada de surpresa, quando o veterinário perguntou para ela:

– E como é o nome dele?

Depois de alguns minutos de espera, veio aquele nome que eu iria carregá-lo com muito prazer por toda a vida.

– Pitico, mas vou chamá-lo apenas de Pitty.

Confesso que Pitty era mais carinhoso e doce. Com esse apelido, fui acostumando meu superouvido a correr pros braços da minha nova dona.

Dali saí com caminha e com a definição de uma ração especial para bebês, algo mais mole e saboroso.

Minha fina listrinha preta nas costas se destacava na pelagem marrom. Minha cauda, cortada pela metade, deixava-me um sinalizador maior para demonstrar minha alegria sempre quando ela chegava do trabalho.

Nos meses seguintes, ainda tomei bastante leite de vaca, até estar com a dentição forte o suficiente para passar a uma ração de um animal jovem.

Minha dona não tirava os olhos de mim e me enchia de dengos e mimos. Sempre ganhava dela brinquedinhos, acho que ela sabia da minha necessidade de diversão. Muitas vezes corri pelo apartamento com um chinelo na boca ou com as meias que encontrava na sapateira. Fazia com ela um espécie de esconde-esconde ou de pega-pega. Assim eu me divertia, e ela se enchia de risos.

Ela estava tão apaixonada que me exibia para todos os amigos e vizinhos. Logo na primeira oportunidade de viajar, lá estava eu indo para Campos do Jordão. Aquela foi minha primeira viagem fora de São José dos Campos.

Ainda hoje recordo que estava muito frio, mas eu estava tão abrigado no colo da minha dona que apenas tremia um pouco, uma das características da minha raça.

Ali, na “Suíça brasileira” a quase 2.000 mil metros de altura, tirei minhas primeiras fotos, que até hoje fazem parte do meu albinho de fotografias.

Minha segunda viagem foi aquela em que meus donos passaram férias em Ouro Preto. Antes de chegarmos naquela belíssima cidade histórica, pernoitamos em Araxá/MG e depois seguimos direto para o local mais lindo de Minas Gerais, sem diminuir o valor de Belo Horizonte, São João del Rey, Diamantina, Tiradentes, Mariana, Sabará, São Lourenço, Caxambu e outros recantos inesquecíveis das Gerais.

Depois de Minas, passeei também pelo Rio de Janeiro. Ficamos em uma pousada bem pertinho do mar, na Praia de Búzios. Depois conheci também Floripa e Paraty e outras praias do Litoral Norte de São Paulo.

O primeira pergunta da minha dona para a hotelaria era se me aceitavam, este era o requisito principal para a escolha da pousada ou hotel. Quando não havia jeito, eu dormia no carro, na área do estacionamento, com todo o conforto e constantes cuidados.

A Pousada Lua e Sol, da Gisele, recebeu-me com tanto carinho muitas vezes que perdi a conta. As noites ali são sempre lindas e muito estreladas, afinal, estamos pertinho de Campos do Jordão, na cidade de Santo Antônio do Pinhal, também localizada no maciço da Serra da Mantiqueira. Recordo que na cesta do café da manhã sempre vinha um ossinho de presente para mim. Este gesto era um diferencial que garantia sempre nosso retorno ali.

Relembrando meus primeiros dias no novo lar, recordo que fui sendo condicionado a fazer minhas necessidades em folhas de jornal que ficavam debaixo do tanque da área de serviço. Mas meu aconchego era mesmo no sofá ou na cama com minha dona. Depois do primeiro ano, passei a querer ficar aninhado somente na minha caminha, no local mais quente da cozinha.

Cresci na Vila Ema, sempre desfilando pelas ruas e praças adjacentes com minhas várias roupinhas. Meu guarda-roupa estava sempre cheio de novidades. Uma que não esqueço foi a que ganhei por ocasião da copa do mundo de futebol. A roupinha colorida em verde, amarelo, azul e branco chamava por demais  a atenção de todos.

Tirei uma foto linda vestido com a amarelinha que serviu de descanso de tela do computador da minha dona por muito tempo.

Vivi toda minha vida como um verdadeiro príncipe, pois, além de ter de tudo, minha carteirinha de vacinação estava sempre atualizadíssima, demonstrando todo o cuidado que me era dedicado.

Ela estava sempre pronta a me fazer os maiores elogios para meu olfato e audição, além de sempre alardear para as amigas a minha lealdade e inteligência, fazendo jus a máxima de que o cão é o melhor amigo de sua dona.

Quando minha dona ia visitar seus tios, era comum eu dar uma escapada pra rua. Isto provocava um verdadeiro rebuliço na casa, pois minha dona ficava nervosa e xingava: “Tio, você deixou o Pitty fugir de novo!”. “Perdón, pero me pasó como una bala!”.

Minha dona era tão apegada a mim que em viagens internacionais somente confiava minha guarda a alguma amiga chegada, a tia Dulcineia.

Em um dos passeios para outro país, as amigas estavam indisponíveis, e tive que ficar em um hotelzinho. Ao ligar de longe para saber como eu estava, o dono do canil foi sincero e reportou que eu estava triste e pouco comia, assim trouxe para ela uma preocupação. Não passei muito tempo ali, e ela pediu para que a Elza, sua secretária, levasse-me de volta para o apartamento. A Elza recebeu naquele mês um salário a mais somente para ficar comigo. Essa foi a única maneira de minha dona seguir viajando tranquilamente.

Assim o tempo passou de forma prazerosa, entre afagos e carinhos.

Posso dizer hoje que tive a mãe mais carinhosa que um cachorrinho pode ganhar em sua vida.

Quando mais jovem, pulava sobre a cama e os sofás, mas, com o passar do tempo, só o fazia com ajuda. Choramingava para avisar que estava apertado e que queria passear. Esperava à porta a chegada da minha dona todos os dias, patinhas frontais cruzados e prestando uma atenção em direção da entrada do apartamento.

Com a velhice, vieram todos os problemas que bichos e homens não conseguem se livrar. Ao chegar no décimo quinto ano, começaram meus problemas de saúde. Recebi todos os tratamentos disponíveis para aliviar a fase final, mas tive enfim de seguir para o céu dos cachorrinhos, partindo em pedacinhos o coração da minha querida dona.

Dia 31 fez um ano, recheado de saudades gostosas de um tempo que não volta mais. Ficaram as alegrias que não saem das nossas memórias. O mais importante que eu quero que minha dona saiba é que fui muito amado e se mil vidas tivesse gostaria de voltar sempre para os braços daquela que me deu todos os carinhos e mimos do mundo.

Autor José Maria Cavalcanti

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