Asas para voar

A MENINA SEM ASAS

A casa grande, de quintal imenso e muito arborizado, parecia mais vazia sem o retorno da pequena Eliza, que viajara com seu pai, deixando a mãe mais entristecida com suas ausências.

Enquanto aguardava paciente pela volta deles, a mãe da doce Eliza achegou-se à janela, atraída pelo movimento da chegada de um novo vizinho. Dali, pela vidraça empoeirada, pôde visualizar o roseiral da lateral do sol nascente. Seu coração se partiu ao ver os botões murchos pelo rigor invernal e sem as pétalas que outrora enchiam de cores o canteiro. Já não podia deixar que as lindas roseiras morressem, pois ali a filha passava horas e certamente não iria perdoá-la pelo seu desleixo, afinal, ela logo estaria de regresso.

Sem motivos para alegria, mas movida unicamente pelo desejo de agradar a filha, arranjou forças para sair de dentro de casa depois daquele longo tempo. De posse das ferramentas de jardinagem e de um regador, de repente pareceu disposta naquele dia ensolarado.

Talvez para se redimir do seu descaso, espalhava húmus e calcário pela terra ressecada. Deu um tempo para lançar seu olhar para o velho casarão ao lado. Seus olhos fixaram-se nas suas grandes portas e janelas, pensando que aquela aparência de abandono agora daria lugar à beleza com a chegada dos novos proprietários. Com certeza que logo a mansão seria aberta para deixar entrar um ar novo e os benéficos raios daquele sol do início de primavera.

Como não viu ninguém para dar as boas-vindas, agachou-se para podar os galhos que iria estimular e dar viço novo ao jardim, afinal, já havia iniciado o período  conhecido como o mês das cores.

De repente, escutou uma gargalhada infantil, seguida de uma correria desenfreada até o velho balanço do laranjal de sua casa. Uma menininha linda corria. Talvez tenha passado por ela sem perceber sua presença.

Não fazendo conta, pois as crianças vivem noutro mundo, dirigiu-se até ela, pois queria falar com alguém, principalmente uma criança risonha e cheia de vida.

Ao se aproximar mansamente, percebeu que ela estava conversando com uma amiguinha. E seu coração disparou quando ela pronunciou:

– Vem, Eliza, agora é sua vez!

E juntas se divertiam, uma empurrando a outra, numa alegria sem fim.

Ao reconhecer o som dos gritinhos eufóricos e risos da filha, a mãe não se conteve:

– Meu Deus! O que você falou?

E a menina, sem se surpreender, respondeu:

– Dona Alice, Eliza e eu somos amigas e só quero brincar com ela para que ela volte a ser a menina de antes.

Aquelas palavras encheram de medo e preocupação a cabeça de Alice.

– Como é seu nome?

– Estela. Sou sua nova vizinha. Posso vir brincar com Eliza todos os dias?

Aquilo tudo era muito estranho. Uma menina linda de repente surge no meu jardim, dizendo ser amiga da minha filha, que ela nunca vira antes, era muito estranho. Além disso, como que ela já sabia meu nome? Pensava apavorada Alice.

Como que saindo de um transe, Alice despertou e viu no balanço dois pássaros lindos. Um deles cantou alegremente e depois bateu asas e voou, deixando o outro companheiro sem asas, só e entristecido.

As cenas e falas daquele dia inusitado causaram forte impressão em Alice, fazendo-a refletir sobre muitas coisas. Quem realmente era aquela menina alegre e o que significava aquele pássaro triste, sem a liberdade para voar?

O restante do dia e as horas da noite foram poucas para achar as respostas certas para tantas indagações. O raiar do novo dia a levou de volta para as atividades no jardim do lado oposto da casa. Agiu assim para evitar mais surpresas inesperadas.

Não demorou muito, e logo viu Estela carregando com ela uma bonequinha de pano que Alice conhecia muito bem. Era a mesma que Eliza não dispensava a companhia para conseguir pegar no sono todas as noites.

Alice chorou e começou a compreender que havia algo mais naquelas aparições de Estela pelos seus jardins. E resolveu se dirigir mais uma vez até ela.

– Estela, estou muito feliz por você ter minha filha como amiga.

– Não parece, pois vejo em você muita tristeza.

– Seu  rosto está como o da Neca, dona Alice.

Alice ficou surpresa ao ver a nova expressão daquela bonequinha de trapo que ela conhecia tão bem e que antes sempre fora de alegria.

Mais uma vez, Alice se viu só, agora com a Neca em suas mãos com aquela expressão triste.

Correu pra dentro de casa para abrir de volta o baú dos brinquedos deixados por Eliza. Depois de revirar tudo, não encontrou a bonequinha que ela esperava achar, com aquele sorriso estampado no rosto. Mas aproveitou o tempo para reviver tantos momentos felizes que tiveram naqueles breves anos de vida.

No terceiro dia, estava resolvida a desvendar o mistério que envolvia aquela menininha que morava ao lado. Disposta a fazer uma visita para os vizinhos, acordou cedo e fez um bolo e biscoitos de nata, os preferidos da filha. Tomou iniciativa de fazer amizade e conhecer os pais de Estela. Aproveitando o vão deixado pela cerca viva, cruzou para dentro da área dos vizinhos, chamando por Estela.

Como não havia retorno, foi adentrando até chegar à porta da cozinha. Pelo vidro sujo, visualizou que tudo estava como antes, sem a presença de mobília ou  pessoas na casa. Com os mimos que fizera com carinho, voltou para casa, mas no caminho encontrou novamente com o pássaro sem asas que havia sumido da sua presença.

Colocou no chão o bolo e os biscoitos para ter livres as mãos. Como achou que tivesse fome, deu algumas migalhas dos biscoitos para ele . O passarinho comeu avidamente. Alice tentou alegrá-lo, esboçando um sorriso. Quando mais ela sorria, mais percebia que as asas iam aumentando de tamanho. Isto fez com que ela ficasse muito feliz até que atingiu a plenitude para o voo.

Diante da alegria de Alice, o pássaro alegremente cantou e o outro pássaro veio se juntar a ele, e juntos ganharam o espaço livre do azul do firmamento.

Olhando para o céu, Alice com o coração confortado e renovado, sorria e acenava se despedindo.

Autor José Maria Cavalcanti

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