Inesperado

 

ESTRANHO ENCONTRO

Os dois aguardavam na faixa de pedestres.

Ela aproveitou aquele minutinho para buscar um cartão na bolsa. Entretida na busca, mexeu e remexeu nos esconderijos internos da sua fiel escudeira, como chamava sua inseparável tiracolo.

Ele, que acabara de chegar ali, estava preocupado para não chegar atrasado no aeroporto, e, ansioso, não via a hora de atravessar a rua para correr até a estação do metrô. Ainda teria que passar em sua casa para tomar um banho rápido, pegar a mala e partir.

Finalmente o sinal fechou, e os carros brecaram. Um timbre anunciava que era hora de cruzar para o outro lado. A contagem regressiva de segundos no painel verde anunciava o tempo restante que faltava para eles.

Quando ela ameaçou sair, inesperadamente seu braço foi puxado bruscamente para trás por aquele desconhecido ao seu lado, causando um grande susto.

– Cuidado, moça! Gritou imediatamente.

Um carro passou inesperadamente em alta velocidade, buzinando e cantando pneus. Por um triz, ela escapou de um acidente que poderia ser fatal. O veículo havia desrespeitado a sinalização de trânsito.

Após o nervosismo, ela finalmente se recompôs e se voltou para agradecer por aquele gesto que acabara por salvar sua vida.

Ergueu o rosto, já mais corado, para agradecer.

Quando tentou falar alguma coisa, seu sorriso se desfez. Outro impacto ocorreu ao fitar aqueles mesmos olhos castanhos e brilhantes que ela aguardava um dia reencontrar.

Ele a reconheceu. Olhava-a e admirava por ainda haver nela tanta beleza. Ficando incrédulo e desconcertado, sem saber o que dizer, mesmo já tendo ensaiado sua fala, pois aquela probabilidade sempre existiu, afinal viviam na mesma cidade.

Ela levou a mão e tocou de leve a pele do rosto dele, talvez para se certificar sobre o que estava bem ali, diante dos seus olhos. Ele, meio que paralisado, nada fez.

Aquele breve espaço de tempo parecia uma eternidade, mas suficiente para ser preenchido com mil recordações.

O sinal sonoro interrompe aquele silêncio, reiniciando a contagem dos 60 segundos. Isto o trouxe à realidade, fazendo com que ele se relembrasse de seu compromisso. Ela também deu pressa aos movimentos.

Quase que automaticamente, caminharam a passo rápido para o outro lado da rua, sem haver sido pronunciada uma única palavra, mesmo quando se deram conta daquilo ser mais uma despedida.

E se foram…

Não demorou muito para bater arrependimentos. Poderiam ter sentado para uma conversa franca para relembrar a linda história que compartilharam por algum tempo, até que a intolerância e o preconceito dos pais dela decretaram o fim no romance. Quem sabe falar daqueles sonhos que eles esperavam um dia realizar juntos. Falar de conquistas, de casamento, de filhos, mas nada disso ocorreu.

Ela queria dizer a ele que seus pais não interferiam mais em sua vida, pois agora tinha sua independência econômica, proporcionada por seu bom emprego.

De repente, ela decidiu correr até ele. Afinal se guardara na esperança desse dia.

Enquanto ele caminhava preocupado e pensativo, nem percebeu que ela vinha apressada no seu encalço.

Se ela ainda me quisesse, teria dito alguma coisa. Acho que ela ainda é aquela garotinha mimada, fazendo os gostos dos pais. Bem fiz que nada falei. Se ela ao menos desconfiasse o quanto ainda a amo… Mas esta oportunidade de emprego no exterior é a chance que eu sempre sonhei e não vou trocar o certo pelo duvidoso.

Olhou mais uma vez o relógio, apertando o passo para não perder o trem na estação, e logo se perdeu entre os muitos passageiros que se acotovelavam para achar um lugar sentado no vagão.

Autor José Maria Cavalcanti

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