Desejos e sonhos

SONHOS MÚLTIPLOS

Doutor Lucena era muito conhecido por sua competência na cidade de Currais Novos, e sua fama de homem bom corria nas cidades circunvizinhas.

Aos finais de semana, corria para Natal para seu descanso marítimo, como ele sempre dizia.

Quando regressava do veraneio na praia da Redinha, tinha no seu caminho a cidade de Tangará. Ali residia seu amigo e primo Djalma, um próspero comerciante que alimentava o sonho de ser pai, ao lado da sua Fátima. Tabelinha dos dias férteis, temperatura basal, indutor da ovulação e outras alternativas foram feitas. Faltava identificar se haveria algum déficit de fertilidade no casal.

O tempo foi passando, e o desespero deles só foi aumentando, vendo que os procedimentos de rotina não davam conta de engravidar a Fatinha. O médico tentava acalmar os ânimos do amigo, dizendo-lhe que, quando eles parassem de se preocupar, tudo se resolveria.

Como sempre fazia ao sair, deixava uma palavra de conforto, depois fazia girar o motor do carro, seguindo seu caminho. Embora confiando muito naquela experiência médica, Djalma ficava desesperado e ansioso diante daquela expectativa.

Já clinicando em Currais Novos, depois de atender sua última cliente daquela quarta-feira e após haver liberado sua atendente, doutor Lucena ainda pensava no caso da dona Vitória, que estava com o barrigão pela boca, com quase quarenta e cinco anos de idade. Após fazer o exame de ultrassonografia, ficou surpreso com o que viu: útero e anexos de volumes atrofiados.

Tatava-se de uma pseudociese, ou seja, uma gravidez imaginária e menopausa. Diante desta constatação, pensava no que iria falar para o Raimundo, marido da paciente, que estava certo que naquele próximo dezembro finalmente iria ser pai, pelos cálculos feitos pela própria esposa. Empolgado, já havia decorado todo o quarto do bebê, embora a esposa nunca tivesse feito um pré-natal ou qualquer tipo de exame para acompanhamento da gravidez.

Aquilo era bem comum na região do Seridó. Alguns agricultores, por residirem longe do atendimento hospitalar, procuravam o trabalho de alguma parteira. Outros, mais preocupados com a saúde, faziam um esforço, mesmo que nos últimos dias, para ter uma ajuda médica, evitando colocar em risco duas vidas humanas: a do bebê e da parturiente.

Nisso, enquanto matutava com seus botões, tentava imaginar uma maneira delicada de tratar daquele tema, uma voz de desespero quebra o silêncio que se fazia no consultório, interrompendo seus pensamentos.

– Doutor, meu namorado nada pode saber, mas fui forçada por um brutamontes, quando buscava emprego, e agora preciso me livrar dessa barriga, senão será o fim do meu noivado.

A moça, que era bonita e bem aparentada, estava com as maçãs do rosto cheias, embora a barriga ainda não estivesse salientada.

Quando tentou começar a preencher a ficha médica, ela o atropelou, dizendo:

– Doutor, sou de Lagoa Nova e meu nome é Delma, mas não quero nada registrado, apenas desejo me livrar desse atropelo.

-Delma, deixe-me examiná–la.

Ao colocar o transdutor sobre sua pelve, detectou um embrião com pouco mais de três centímetros, com uma pulsação de 150 batimentos por minuto, significando boa vitalidade. Nesse instante, teve a idéia de passar o mesmo transdutor sobre o tórax materno, fazendo com que sua cliente também escutasse seus próprios batimentos cardíacos.

Tentando sensibilizá-la, o doutor falou de improviso:

– São dois corações que batem, são duas vidas em uma!

Olhando no fundo dos olhos da moça, falou com toda sinceridade:

– Delma, você veio ao lugar errado. Aqui examino e acompanho as gravidezes e depois faço os partos. Nunca pratiquei e jamais farei um aborto, que considero um ato criminal.

Aquelas palavras puseram calma na moça, que pareceu perder a fala.

– A única solução, minha filha, é você ter a criança ou nosso assunto encerra aqui.

– Doutor, prefiro morrer que passar essa vergonha. Logo todos saberão que o filho não é de Antenor, aí minha honra irá parar na lama.

– Doutor Lucena, quero fugir dessa região, deixar tudo pra trás para não passar esse vexame diante da minha família e do povo fuxiqueiro do meu povoado.

Depois de pensar um pouco, o médico disse que talvez houvesse uma saída. Tudo dependeria de falar com a esposa dele para que ela concordasse que Delma fosse viver na casa de praia por seis meses, o suficiente para o nascimento da criança.

Depois de tudo acordado, Delma, com o coração partido, brigou com o noivo e se despediu dos familiares, com a alegação de ir trabalhar em Natal.

Seis meses se passaram, e Delma nem quis saber de acompanhamento, apenas fez os exames de rotina e vacinações previstas.

Ela não via a hora da chegada do nono mês.

Disse que a criança iria pra adoção, pedindo apenas que a entregasse em boas mãos.

Após o parto, Delma irradiava felicidade e nem olhou no berçário, sendo liberada para retornar para casa na ambulância, sob os cuidados do doutor Lucena, o qual, juntamente com um amigo obstetra, havia realizado aquele difícil e surpreendente parto normal.

Depois dos primeiros cuidados pediátricos, feitos por um amigo, Lucena seguiu com um destino certo.

Passou primeiro em Tangará e fez a primeira entrega: um lindo menino.

Aquele foi o dia mais feliz na vida de Djalma e Fátima, que já haviam recebido o diagnóstico de infertilidade, deixando aberto apenas o caminho do milagre.

Depois disso, Lucena seguiu para a Fazenda Esperança, e ali encontrou dona Vitória, já mais calma depois de saber que o seu barrigão era apenas uma gravidez imaginária e seu atraso menstrual era decorrência de uma menopausa, que lhe impedia de futura gravidez.

E a profunda tristeza se desfez quando o médico entregou para ela a linda menininha, que ela de imediato pôs o mesmo nome da fazenda.

Doutor Lucena, sigilosamente, deu ciência às autoridades sobre os fatos ocorridos, e os casais tramitaram com a papelada para oficializar as adoções.

Delma, depois de três meses, voltou mais bonita e corada para Lagoa Nova, e não foi difícil para ela atrair Antenor de volta pros seus braços, reatando o sentimento do grande amor de outrora.

Não demorou muito para que eles selassem o compromisso diante de Deus e dos homens.

E o casamento foi o mais comemorado de Lagoa Nova, tendo o doutor Lucena e sua esposa como ilustres padrinhos da noiva.

Autor José Maria Cavalcanti

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