Boteco do Zé Capiau

LUME DE QUEROSENE

Quase na boquinha da noite, era hora de dar uma espiada nos candeeiros que clareavam todas as noites o largo do balcão da bodega. Essa era uma das tarefas do Nil, com apenas doze anos. Ele checava os pavios, limpava os que estavam pretejados, erguia os que estavam curtos e depois reabastecia cada um dos reservatórios.

Como ainda tinha muito por crescer, aquela tarefa seria mais difícil se não fosse o auxílio do surrado tamborete que ficava ao lado dos papéis e pesos da velha balança Filizola.

 A seguir, repetia o mesmo procedimento com as lamparinas, podendo finalmente acender todos com palitos da Fiat Lux em chama.

O clarão amarelo dos vários lumes restabelecia parcialmente a luz natural que aos poucos sumia, à medida que o sol se escondia por sobre as margens distantes do Rio Potengi.

Enquanto servia uma bicada ou picava o procurado fumo de rolo de Arapiraca, ou fatiava mortadela pros clientes, seu pai, José Rocha, mais conhecido como Zé Capiau, lançava um rabo de olho pra ver se o garoto fazia as coisas direito.

O jovem já sabia o que aconteceria, caso ele não varresse a frente do comércio de duas a três vezes por dia e também as dependências internas. O coro comia solto quando ele se esquecia de suas funções por causa da bola, o que não era difícil, porque sua paixão naquela idade era o futebol e desejava jogar no time principal do Treze da Vila, do qual seu pai era um dos fundadores.

Enquanto sua única irmã, Nilma, cuidava na cozinha de pôr reparo no cozimento da massa do cuscuz e das raízes, inhame e macaxeira, itens indispensáveis pro café noturno, sua mãe, Maria das Neves Barateiro ou simplesmente Dona das Neves, quando não estava preparando rolinha e nambu assados para os tira-gostos, ficava no caixa para receber os pagamentos a vista. E ela também podia ser vista anotando na caderneta de débitos os apontamentos dos que deixavam as contas no prego, acertos que normalmente se davam ao final de cada mês.

Aquela era a rotina da família do bodegueiro mais conhecido da Vila Dom Eugênio, um dos bairros afastados e esquecidos de Natal. Enquanto a capital há muito tempo tinha uma iluminação pública que dava vida à belíssima noite natalense, aquela periferia ficava à margem do progresso. Mas aquilo não era de todo ruim, pois o negócio do querosene vendido avulso era um dos pontos fortes daquele pequeno comércio, o mais próspero do lugarejo, que também fazia as vezes de mercearia. Ali se achava quase tudo: além de uma variedade de cachaças, vinho de barril, ginebra, cinzano e jurubeba. Havia também embutidos, coco seco, goma pra tapioca, farinha de milho, farinha de mandioca, rapadura, biscoitos, bolachas, peneira de palha, raspa-coco e até tamborete, pavio, barbante, linha pra pipa, corda, pente, brilhantina e pião.

Após o encerramento das atividades de cada dia, José Capiau tomava seu aguardado banho e ia pro seu lugarzinho preferido da casa. Naquela altura, já havia tomado seu café e estava na hora do seu descanso, na varanda do sobrado, construído sobre a área comercial. No seu radiozinho de pilha, cochilava sintonizado com a Rádio Cabugi. Pelas ondas do rádio, escutava o programa Patrulha da Cidade, já que era comum perder a Hora do Brasil.

E ele nem desconfiava que naquele dia uma notícia fosse roubar sua noite de sono. O prefeito Tertius Rebello acabara de anunciar a iluminação pública da Vila Dom Eugênio, cumprindo o plano de metas do Governador Aluizio Alves, que havia presenteado o povo norte-rio-grandense com a criação da COSERN e da TELERN. O novo prefeito também queria cumprir aquela promessa feita pelo ex-prefeito, Djalma Maranhão, que havia sido deposto e preso em 2 de abril de 1964.

De sobressalto, ergueu rapidamente seu corpo comprido e magro da rede, descolando seu ouvido do alto-falante. Agora sentado na rede, murmurou: “- Meu Deus, o que isso vai mexer com meu negócio?”. Disse baixinho, conversando com seus botões.

Pensou primeiro no pior: a perda da venda lucrativa do querosene, das pilhas, das lamparinas de latão, dos pavios, das velas e dos fósforos. E o apreciado refresco, poli e geladinho (picolé de saquinho) de Dona das Neves, que agora poderiam ser feitos pelas próprias mães da molecada, que diariamente corria com a garganta seca para se aliviar na sua bodega, depois das peladas no campinho perto de casa.

O que atenuava aquela tensão era que poderia se livrar dos problemas da geladeira a gás, colocaria telefone para atender a clientela e pra manter contato com os familiares em Montanhas/RN. Também teria um rádio que dispensaria as pilhas, uma vitrola e, no seu local de trabalho, teria uma iluminação mais adequada, com apenas um toque de botão. Ademais, compraria de presente pra mulher uma televisão; e os filhos poderiam se entreter também com a programação da tarde.

Não querendo assuntar aquilo para não jogar água fria na alegria da conversa das meninas, resolveu se aquietar. E com um olhar perdido para uma estrela que riscava o céu noturno, por fim voltou a se recostar e adormeceu, sopesando os prós e os contras daquela novidade. De uma coisa o bodegueiro tinha certeza, logo cedo a notícia estaria em pauta entre os converseiros, espalhando-se que nem rastilho de pólvora pelas casas das ruazinhas de terra da vila.

Quando comentou no dia seguinte com a família, houve um misto de felicidade e preocupação. Enquanto Dona das Neves refletia sobre benefícios e prejuízos, Nilma pensava num toca-discos Sonata para escutar os sucessos da jovem guarda e também sabia que sua mãe merecia uma Telefunken para assistir O Direito de Nascer. Seria um prêmio pra ela, pois só pensava em trabalho. Mas, de todos ali presentes, quem muito comemorou a boa notícia foi o Nil. Não que ele pensasse em assistir Batmasterson, Bonanza ou Perdidos no Espaço, ele na verdade só se lembrava de se livrar daquela obrigação maior que o fazia sair de campo sempre no melhor momento, um pouco antes das cinco da tarde.

E o que era promessa logo se concretizou naquele finalzinho de 1965. Isso fez com que o bodegueiro se rendesse ao progresso e se apressasse para chamar um bom eletricista para projetar as instalações elétricas e distribuir tomadas pra tudo que era lado. Nil estava tão empolgado que até se esqueceu da bola, atraído por aquele mundo de esquemas e de fios coloridos, disjuntores, fusíveis e chaves de fendas.

Não tardou muito, e as festas de final de ano já transcorreram com o clarão da luz elétrica. Havia muita euforia e alegria com os ares da modernidade. Mas a única coisa que ocorria na mente do jovem era que, a partir daquele dia, acabaria aquela triste obrigação.

Depois da noite da inauguração da bodega, Dona das Neves e Nilma apressaram os movimentos para mais cedo se livrarem dos afazeres domésticos e assim poderem correr pra frente da televisão novinha. A sala se encheu de risos e gargalhadas, tudo era descontração e felicidade.

De longe a contemplar a cena, Zé Capiau sorria com os cantos da boca. Mesmo já tendo seu rádio elétrico, permaneceu ainda fiel a seu cantinho e a seu radiozinho de pilha, afinal, não poderia jogá-lo fora, mesmo que de longe lançasse sempre um olhar furtivo para as impressionantes cenas que reletiam sobre o vidro do tubo de imagens.

Aquelas noites animadas foram se repetindo, e o garoto foi crescendo, livre de sua principal dor de cabeça. Nil, à contragosto do pai, que o queria bodegueiro, estudava até tarde, pois pretendia entrar algum dia para a Escola Técnica Federal. E a dedicação do rapazinho enchia de gosto os olhos da mãe, que levava sempre alguma coisa para ele comer, aproveitando o intervalo dos reclames. Ela, ao contrário do pai, enchia o jovem de dengos e, sempre que podia, dizia pro bodegueiro ” – Para, homem, de pegar no pé do menino!”.

Mas aquele sossego que Nil estava vivendo iria acabar logo. Ele, que estudava pela manhã e já havia substituído o horário de acender os candeeiros e lamparinas pelas tardes inteirinhas de futebol, ocorridas no campinho da vila ou no João Câmara, logo teria uma surpresa.

Isso se deu depois de completados dois anos da implantação das instalações elétricas nas ruas da vila, pois um fato inesperado iria diminuir a euforia dos que festejavam a aquisição das novas tecnologias para suas residências. Um súbito Black-out interrompeu o fornecimento da energia elétrica, fazendo com que Zé Capiau tomasse uma medida preventiva para não prejudicar seus negócios. Convocou a família e, diante de todos, declarou com a expressão mais carrancuda do mundo:

– A partir de hoje, do pôr do sol até fechar as portas, Nil terá que ficar de prontidão para acender, caso necessário, os lampiões e lamparinas.

Ao terminar a fala, ninguém ousava dizer qualquer coisa e até mesmo Dona Maria das Neves se calou. No fundo todos aguardavam a reação do jovem Nil.

Aquilo encheu o rapazinho de ira que se fechou, baixou a cabeça e saiu da sala cuspindo fogo. Com a cabeça quente, pensou:  ” – Puxa, isso é sacanagem, afinal, já tenho quase quinze anos! Entre muitos resmungos e caras feias, desapareceu dali, mas, quando todos caíram na gargalhada, Nil de repente se deu conta que todos riam dele, aí percebeu que tudo não passara de uma armação do pai, acomunado com a mãe e a filha só para ver como ele reagiria. O episódio por muito tempo ficou sendo relembrado, pois ninguém conseguia esquecer a cara de mau que ele fizera naquele dia.

Escaldado e sem querer pagar pra ver, tratou de colocar um motor a mais nos estudos e logo foi aprovado no concurso para entrar na Escola Técnica Federal. Assim, em 1968,  foi aprovado para iniciar o Curso de Eletrotécnica no ano seguinte.

Aquela aprovação foi uma espécie de carta de alforria e uma maneira de descartar de vez um retorno àquela chatice de atividade. E o descaso que Zé Capiau fez, ao saber da notícia, deixou transparecer que ali morria também o sonho que ele tinha de fazer daquele jovem um bodegueiro.

Autor José Maria Cavalcanti

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