Alfaiate de Mão-Cheia

ALFAIATE DOS ANJOS

– Dudé, por favor, traga aqueles forros e enchimentos novos para perto da pedaleira da máquina de costura. – Disse Afonso com toda educação.

Aquele humilde senhor trabalhava como um faz-tudo em troca de um pequeno salário.

Afonso tinha preocupação com ele e o protegia da ameaça de demissão. O medão que tinha de ir pra rua só compreendia quem havia ido visitá-lo. O dinheirinho que ele ganhava era pro sustento da casa dele, que ficava a caminho do bairro do Serrote. Sabia que ele tinha uma vida difícil, era viúvo, morava com a mãe e tinha cinco filhos por criar.

Como não conseguia pregar botão com o rigor necessário, ninguém se atrevia a ensinar mais nada, deixando-o a cargo dos serviços pesados e do almoxarifado, onde estavam as prateleiras de madeira de lei, que abrigavam da luz e da umidade os melhores cortes de tecido. Ali no depósito, todos os rolos ficavam empilhados de cinco em cinco, ordenados paralelamente, protegidos das traças e roedores.

Quando premido pelo tempo, era a ele quem Afonso confiava fazer algumas entregas em domicílio ou a comprar caixas de agulhas ou carretéis de linhas no armarinho de dona Amâncio, tudo de acordo com a gramatura do tecido a ser usado.

E Dudé passou a reverenciar mais ainda a Afonso quando ele deu a oportunidade de seu filho mais velho começar como ajudante. Aos poucos, o rapaz aprendeu a fazer ponto mole, e não demorou muito para saber chulear e acolchoar entretelas, lapelas e baixo de gola.

Afonso já era mestre e tinha sua própria equipe de trabalho. Depois de anos de experiência, já não havia nele qualquer vestígio daquele aprendiz de alfaiate, quando iniciou em 1940, aos 21 anos de idade, com o aval de Raimundo Freire, o proprietário da Alfaiataria RF. Havia começado fazendo o nada fácil trabalho de pensas, bolsos e ilhargas, depois passou a coleteiro e, daí em diante, ninguém o segurou mais.

Rapidamente, graças a sua inteligência e dom, cresceu muito e passou a ser requisitado pelos principais clientes. O proprietário, percebendo a predileção pelo jovem alfaiate, deu carta branca para que ele escolhesse e formasse seu grupo de trabalho.

Com uma carreira promissora pela frente, casou-se, cinco anos depois, com a bela jovem de 16 anos, Jovita Alves, conhecida por todos como Nenen.

Logo vieram os primeiros filhos daquela linda união.

Mas Nenen não queria ser apenas dona de casa. Quando os filhos estavam mais crescidos, tratou de se encaixar na alfaiataria com a responsabilidade de dar o toque final no trabalho do seu marido. Aquela função de passar era das mais importantes, pois dela dependia todo o trabalho artístico do artesão, que começava com apenas um giz, uma fita métrica e uma régua, para depois finalmente passar para a tesoura. Não tardou muito para ela levar também sua irmã, Francisquinha, quatro anos mais nova que ela, para também aprender o ofício.

Enquanto Afonso encaixava pessoas queridas naquele mercado de trabalho, seus frutos profissionais cresciam. E o sucesso dele não estava só na qualidade do seu corte, mas também no atendimento: o bom trato que dava à clientela era um ponto alto. Era nesse contato que ele escolhia seus clientes.

Naquela tarde em que o prefeito adentrou a alfaiataria, Raimundo Freire ficou despreocupado com a presença da autoridade. Dava gosto de ver a maneira como era tratado por seu melhor mestre.

Logo o homem foi conduzido para o ateliê para mais uma sessão de provas, somente para checar se não tinha havido alterações. Ao entrar no biombo, vestiu o paletó de risca de giz, com as mangas apenas alinhavadas, pois aquele era um modelo tradicional, com três botões, de tecido cambraia, todo forrado. O bolso era feito no estilo clássico, com portinhola. Após aqueles procedimentos preliminares, dava gosto ver o ar de satisfação no rosto do atendido. Estava certo que o trabalho artesanal, que sairia daquelas mãos, iria coroar com muita elegância o compromisso social que estava por vir.

Com Afonso não havia estresse, e o cliente saía dali sorridente e confiante, para sossego do proprietário.

Toda manufatura das roupas acontecia num dos belos casarões, que fora transformado em estabelecimento comercial, localizado na João Pessoa com a Getúlio Vargas, no centro de Cajazeiras, onde Afonso já era um profissional completo em seu ofício. E por sua simplicidade, elegância e educação, havia desde muito caído no gosto do patrão e de todos os funcionários. Com tais características foi que ele aos poucos foi conquistando uma clientela cada vez maior, até mesmo da capital do estado e cidades circunvizinhas.

Somente para que se tenha uma ideia da fama de Afonso, quando a primeira roupa prêt-à-porter, isto é, pronta para usar, surgiu no início dos anos 60 no interior da Paraíba, foi vista com desdém pelas pessoas de bom gosto e refinadas da época, na cidade de Cajazeiras. A razão disso era que ali vivia o melhor alfaiate da região: Afonso dos Anjos, um verdadeiro artista da confecção fina. Ainda jovem, no auge dos seus 39 anos de idade, já gozava de comprovada experiência e era um profissional reconhecido.

Os homens da família Rolim, da família Cartaxo, pessoas como o prefeito, o delegado, o gerente do banco, os fazendeiros e comerciantes não iriam se render a massificação da moda e dos panos sintéticos baratos, feitos em série para o povão. Eles faziam questão de divulgar a arte de trato refinado daquele profissional que enchia os olhos com suas produções exclusivas e impecáveis.

Cada peça ficava com o caimento perfeito. Afonso fazia tudo com capricho. Além de determinar o estilo e o tipo de corte, cerzia, chuleava e costura à perfeição cada roupa, não importando se era de linho, percal, tergal, gabardine ou outros tecidos especiais.

Isto tudo numa época em que as máquinas de costura eram mecânicas e movidas graças a destreza do operador, e nisso o bom alfaiate tinha que se especializar. O ferro de passar pesava sete quilos ou um pouco mais, mais era com ele que os ternos recebiam o toque final de classe. Isso já era uma tarefa de Nenen e Francisquinha, que aos poucos iam aprendendo outras funções de destaque.

Os anos do início da década de 60 se passavam e, quando as coisas estavam correndo a todo vapor, surgiu na esquina da praça um fato inesperado: a concorrência.

Além de o novo estabelecimento executar os mesmos trabalhos, fazia também pequenos serviços de reparos, remendos, colocação de botões e zíperes. E de lá surgiu uma figura feminina chamada Dolores, que era uma conhecida modista de Natal.

Aquele fato novo não estava nos planos de Raimundo Freire, que, de tão aperreado, logo se reuniu com Afonso para ver que ações tomaria frente aquela contingência.

Afonso sorriu e disse:

– Meu amigo, não se preocupe com quem coloca reparo novo em pano velho. Nada vai mudar, dê tempo ao tempo, ele é senhor de tudo. Coloque uma copa para servir um bom café, água e biscoitos finos, que o resto eu faço.

Raimundo Freire se tranquilizou, embora seguisse com a pulga detrás da orelha. Ainda seguindo as orientações de Afonso, pintou todo o prédio, jalecou os funcionários, mandando bordar o nome e função de cada um ao lado das grandes letras RF. Contratou mais uma funcionária para o atendimento da copa e mandou emitir cartões de apresentação da empresa. Tudo isso fez uma grande diferença.

O que mais orgulhava Afonso era que, na nova vitrine da loja, ficavam expostos seus lindos ternos. Aquilo dava a mesma alegria de estar no Maracanã, vivendo a mesma emoção do craque de futebol ao fazer um gol de placa.

Em contrapartida, já em 1964, um caixeiro viajante surgiu nos sábados de feira para vender seus produtos. Num ponto estratégico, fazia exposição de ternos prontos e baratos, feitos na máquina de overloque industrial.

Outra reunião requisitou Raimundo Freire com Afonso, que contestou aquela nova situação com sábias palavras:

– Seu Raimundo, verifiquei que o produto é áspero e quente e tudo requer ajuste, mas é a oportunidade de o pobre adquirir seu terninho para batizar um filho ou até mesmo se casar mais arrumadinho. Isso não vai mexer com nosso mercado e clientela, fique tranquilo.

Mas, no ano seguinte, já com a família crescida, Afonso dos Anjos se deu conta que era hora de tirar sua família do interior e partir para um grande centro, onde pudesse levar sua arte para um público maior.

Movido também por interesses familiares, pois os pais e irmãos da esposa já haviam seguido para a nova capital do Brasil, Raimundo Freire naquele dia receberia a notícia mais triste para seu lucrativo negócio: o pedido de demissão de suas mãos de ouro, como ele dizia.

Raimundo Freire o gratificou bem pelos muitos anos de bons serviços prestados, e Afonso seguiu com Nenen e a família com destino ao sonho de Juscelino Kubitschek.

Era o ano de 1965 e, aos 46 anos, Afonso estava resoluto, frente às propostas de aumento para ele ficar, mas ele estava convicto que era hora de dar um novo rumo para sua vida profissional e abrir novas possibilidades e opções de vida para sua numerosa família. Pensando assim, resolveu, juntamente com Nenen, que iria se juntar à família na nova capital do Brasil. A exceção dos irmãos de sua esposa, Antônio Pedro, que morava em Pau dos Ferros/RN e Francisquinha, que morava em Goianinha/RN, todos os demais já haviam partido, alguns anos antes, para erguer a nova capital brasileira, inclusive seus sogros: Pedro Alves e Dona Moça.

Como Afonso possuía uma boa situação, graças a suas economias no Banco do Povo, não queria expor seus familiares aos solavancos e incômodos da longa viagem em um pau de arara. Pensando na comodidade, seguiriam até João Pessoa e de lá pegariam um ônibus para Brasília. Aquele era um luxo que ele poderia proporcionar a Nenen e aos quatro casais de filhos: Francisco, Ribamar, Rubismar, Iramar, Maria do Carmo, Geralda,  Francismar e Rosimar.

O dia da despedida chegou e, para os amigos, aquela hora se fez difícil, principalmente para Dudé, que sentia perder naquele dia uma espécie de irmão e protetor. Afonso se fez forte e consolou o já idoso amigo, confortando-o com as seguintes palavras: “Não é o tempo ou a distância que apagará uma sólida amizade”. Ali no ponto do ônibus, todos se abraçaram demoradamente, e não tardou muito para que o ônibus seguisse seu trajeto para a capital do estado e depois um outro os levaria até o estado de Goiás.

A viagem transcorreu em cinco dias e, depois de calorosa recepção dos familiares, que já estavam instalados em Brasília, Afonso, Nenen e os oito filhos se sentiram acarinhados no Planalto Central.

Naqueles novos ares, Nenen estava radiante e feliz, ao lado dos seus pais e irmãos. Não demorou muito e mais dois filhos passaram a integrar o clã dos Alves dos Anjos. No novo rincão, vieram à luz Dicemar e Edmar.

Logo Afonso recomeçou a trabalhar para pessoas importantes e políticos dos ministérios governamentais. E foi assim por mais vinte anos até que se aposentou, deixando para trás toda uma clientela que se ressentia com a sua falta.

Mas a maior satisfação de um homem é olhar para o passado com muito orgulho de tudo que fez. Ali estava um homem que, com muito trabalho, dignidade, honestidade e fé em Deus, criou, com sua parceira inseparável, Nenen, todos os dez filhos, que hoje são motivo de orgulho e alegrias.

Mesmo depois de aposentado, com mais de quarenta e cinco anos de serviço, ele continuou apenas atendendo às pequenas demandas familiares. Por sua história profissional, com seu estilo requintado e o toque pessoal que concedia a cada trabalho, seu nome hoje poderia estar associado a uma verdadeira grife, com dois maiúsculos as, bordados em ouro, iniciais desse verdadeiro alfaiate: Afonso dos Anjos.

Autor José Maria Cavalcanti

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