Amor

UM MENINO ESPECIAL

O galo cantou mais cedo ou o sono estava mais leve.

Lena, ao despertar, esticou o olhar pela janela que ficara aberta para ver se entraria um ventinho. Percebeu que já havia alvorecido, e o sol despontava por detrás dos umbuzeiros. O clarão vinha lá das bandas do nascente, após a ribeira, onde ficava a casa do patrão.

Buscou o marido ao lado, mas se deu conta que ele já saíra para a lida. Sabia que Tião teria um alqueire de terra por roçar e logo seria hora de levar seu café.

No outro canto do quadrado, Nel já estava aceso, com seus olhinhos brilhantes e azulados a mirar o entrelaçado das paredes de taipa, uma mescla de barro com varas, que fazia parte da composição de uma das laterais do quartinho.  O pequenino aproveitava o iluminar dos primeiros raios que invadiam pelas frestas dos caibros. Assim brincava com os dedinhos, subindo e descendo a parede, com se fossem pezinhos imaginários.

A mãe, toda carinhosa, sapecou um beijinho cheio de doçura nas bochechas do menino e saiu de mansinho para o aprisco, levando uma cuia grande nas mãos.

Puxou o tamborete pra perto de Dengosa, prendeu a cabra, que há poucos dias acabara de parir, e, após lhe dar um carinho, ordenhou lentamente, retirando um pouco de leite, deixando o filhote dela se servir logo depois.

Ao regressar, viu que Nel seguia na sua incursão, agora desbravando com seu cavalinho destemido o terreno irregular que tinha pela frente. Ali espaço e tempo não contavam, aquela era uma outra dimensão, onde só os corajosos podiam empreender tamanha aventura.

Quando de repente, ele percebeu que aquelas mãos gigantes tentavam agarrá-lo, tentou galopar o mais rápido que podia, mas não fora suficiente. Lena o tomou nos braços com um sorriso enorme.

– Vem cá, meu meninão!

Enquanto cantava, ela carinhosamente o tomava no colo, levando a mamadeira a sua boca. Os olhinhos ainda estavam presos na última cena da fuga, tentando espernear, e a boca de lábios cerrados parecia não ter fome.

Com muita insistência, Lena conseguia sempre um jeitinho de fazê-lo sugar o mingau. Completara cinco aninhos sem festas, até porque não havia amiguinhos ou porque viviam quase esquecidos ali, apenas com pouquíssimos contatos com seu velho e entristecido senhor, João Olinto, que enviuvara da sua saudosa Luzia.

Ao ouvir o fogo crepitando, pôs água no fogãozinho a lenha para passar o café. Verificou que ainda havia broa de milho e tratou de preparar um bornal pra levar comida pro marido.

Apertou o passo, contornando o milharal, assim chegaria depressa pra não deixar seu menino mais tempo sozinho.

Pelo caminho, lembrava da felicidade que tivera ao ganhar aquela vida que lhe fora confiada. Nos primeiros dois aninhos, tudo parecia bem, até que ele começou a esquecer tudo que já aprendera. Até mesmo a doce palavra “mamãe”, papai e muitas frases já não se escutava mais de sua boquinha. Um dia, sem mais nem menos, simplesmente não pronunciou mais nada.

Mas aquele infortúnio em nada mudou o seu modo de amar, pelo contrário, aumentou seu sentimento ainda mais. E não ligava muito por ele carecer de mais cuidados. Entre os afazeres domésticos ou depois que fazia e servia as comidas preferidas do patrão, ela sempre arranjava um tempinho para dar uma espiadela no seu pimpolho.

Quase sem fôlego de tanto andar, finalmente chegou à área prevista para seara, mas não achou Tião. Tomou susto e pensou no que poderia ter acontecido.

Não se permitia pensar besteira, mas a enxada, de ponta-cabeça, com o cabo amassando o chapéu de palha, era mau presságio, segundo aquilo que o próprio marido lhe dizia.

De pronto, uma pontada levou no coração, deixando cair tudo das mãos. Ajoelhada, chorou a dor do abandono, deixando que as lágrimas molhassem o terreno seco. Recolheu do  chão o que pôde e voltou correndo pra casa.

Ainda aos prantos, agarrou-se ao seu filhinho, apertando-o mais que devia, esquecendo sua fragilidade.

No canto da sala, por trás da tábua que servia de divisória, a outra muda de roupa de Tião não estava pendurada, e a bota nova que lhe dera já ganhara chão. Ela já desconfiava porque ele andava muito quieto, não sabendo o motivo ou a razão.

Sentiu que a partir dali teria que ser mais forte e ergueu os olhos para o céu, talvez pedindo uma força extra ou para rogar perdão pelo ato impensado do marido.

Mesmo com a cabeça a mil, lembrou do almoço e acelerou em direção ao casarão. Não quis dividir aquele mau momento com ninguém, mas os olhos matreiros de Olinto, num acesso de sensibilidade e generosidade, perceberam logo a mudança naquele humor sempre risonho.

O patrão se fez ouvido ao acercar-se da pia da cozinha, e Lena se viu pressionada a reportar o inesperado abandono.

– Filha, disse ele, os homens mais novos são movidos por incertezas, coisas que não vêm do coração. Quiçá volte, depois que acabar o soldo do mês.

Dizendo isso, tomou Lena nos braços e a enlaçou como um pai faz com uma filha. Demorou-se um pouquinho e retomou a fala:

– De hoje em diante, você virá morar no quarto da minha filha Júlia, que quase nunca me visita. E trará o Nel pra viver conosco.

Lena não resistiu àquela maneira enternecida de falar e passaram a dividir os espaços da imensa casa. Almoçavam juntos, tendo o Nel sempre por perto, absorto em mundos paralelos. Para o menino não estar tão sozinho, havia ganhado o bonequinho de pano de Júlia, que passou a ser seu amiguinho. E o Saci ganhava vida só quando Olinto inventava falas para ele, dando asas a sua imaginação e prendendo a atenção do garotinho por um longo tempo.

Assim se passaram dois anos, e a casa parecia agora um lugar muito melhor, com novas energias.

Um belo dia, Olinto se sentiu saudoso e retomou a velha sanfona de oito foles, que era do seu pai, e começou a tocar Asa Branca no oitão da casa, sentado num banco de alvenaria.

Nel foi atraído pelo som e, mesmo calado, percebia-se que sua cabeça balançava lentamente, mesmo que fora de ritmo, e aquela melodia instigava sua mente e seus olhinhos carregavam um mundo impresso no olhar.

Aos poucos, outros temas musicais foram invadindo o ambiente da casa, dando lugar para mais alegria.

Num belo fim de semana, a filha de Olinto veio para visitá-lo, trazendo um namorado novo para conhecê-lo. Lena preparou um almoço inesquecível e todos se fartaram de tanto comer. E não faltou doce de leite e um cafezinho de bule para coroar as comilanças.

De repente, enquanto estavam distraídos e um pouco sonolentos, todos foram atraídos pelo som da pequena sanfona, que fora deixada sobre um banquinho de madeira envelhecida.

Era o Nel, que havia se postado frente ao instrumento e, de mãos trocadas, tocava com a mão esquerda o teclado e com a direita apertava os botões dos baixos.

E aquele som que saía um tanto impreciso ficou melhor quando Olinto o posicionou corretamente por detrás do acordeon e o ajudou a mexer com o fole.

Todos ficaram maravilhados ao saber que ele apenas ficava observando, enquanto Olinto tocava, mas nunca havia manuseado os oito foles, que era um velho xodó de família.

Depois daquele progresso, Olinto se mostrou mais disposto a ajudar Lena com a saúde do menino. Logo o levou para a capital e, descartando a possibilidade de demência ou retardo mental, foi diagnosticado que ele era autista e que sofrera atrofia dos músculos da fala. Isto provocou uma disfunção que atrapalhava o processo da comunicação, prejudicando o relacionamento com outras pessoas. Com o diagnóstico, passaram a lidar melhor com aquele ser diferente e cheio de mistério, que tinha um mundo a revelar.

Com Nel, Olinto ganhou vida nova. Arranjou um campesino para lidar com a lavoura e passou a ter mais tempo para se dedicar à música e ensinar o menino a tocar melhor o instrumento. Nel, por sua vez, passou a comer como nunca e estabelecia uma espécie de intercâmbio mental com aquele homem que compreendia bem o que era viver em constante solidão.

Júlia percebeu que o pai estava muito mudado e deixara seu lado ranzinza, passando a visitá-lo mais vezes. Isto criou mais vínculo familiar, e todos passaram a conviver na fazenda com mais harmonia, transformando aquele pedacinho de terra, por entre as montanhas, num cantinho melhor, sem lugar para tristeza.

Autor José Maria Cavalcanti

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