Cem Anos

“TITANIC – HISTÓRIAS DE CEM ANOS”

Aquele homem maltrapilho, com cara de lunático, que prenunciava uma grande catástrofe para a maior obra náutica feita pelas mãos humanas, logo seria calado, embora todos rissem de suas previsões para o insubmersível transatlântico TITANIC, um colosso de 270 metros de comprimentos, da Companhia White Star.

A noite de mais um dia 9 havia sido terrível para John. Os pesadelos o atormentaram tanto que ele se viu compelido a alertar a todos que já subiam as escadarias da luxuosa construção, encomendada e feita pelos irlandeses do norte, da cidade de Belfast.

Movido pelo desespero, John não perdera tempo e saíra com os cabelos desgrenhados, com as suas surradas roupas e sapatos gastos, em direção à região portuária.

Quando ali chegara, após a longa caminhada, deparara-se com uma multidão. Não se intimidara e logo começara a anunciar a tragédia que estava por vir.

Como o clima era de festa no porto inglês, nada que alguém dissesse poderia tirar o brilho daquela alegre despedida.

Muitos zombavam e gozavam daquela espécie de profeta:

– Você está delirando, saia daqui, maluco! Dizia um.

– Este não é o Titan, você está diante do Titanic. Gritou um leitor de livros de ficção.

– Nem Deus é capaz de afundar esse poderoso navio! Outro desdenhava.

Enquanto faziam gracejos, dois brutamontes tatuados trataram de escoltar John Nines para longe dali. Depois de socarem o estômago faminto do vidente, finalmente eles iriam calar a incômoda voz, fazendo-o submergir entre os pequenos barcos do cais.

Antes de ser atirado às águas do Canal da Mancha, John ainda conseguiu balbuciar:

– Avise urgente ao Capitão Edward Smith que impeça que o homem vestido de negro suba a bordo.

Em meio a gargalhadas, desferiram outros duros golpes, e o corpo ensanguentado e desfalecido foi lançado no canal.

Como aquela informação nunca chegara aos ouvidos do veterano capitão, que estava ansioso para empreender sua última viagem antes da aposentadoria, deu o comando de zarpar. Isso se deu exatamente às 12 horas e 15 minutos, do dia 10/04/1912.

Naquele instante, deu-se o levantar âncoras, e o navio gigantesco partiu de Southampton com destino a Nova Iorque.

A grande nau de 45 mil toneladas deslizou majestosamente, singrando o espelho d’água, fazendo romper algumas amarras de outros navios que se encontravam ancorados, tamanha eram as ondas que se levantavam com sua passagem. Por muito pouco, o Titanic escapou de se chocar contra outra embarcação.

Já sem a companhia dos rebocadores, atracou no porto de Cherbourg, na França, e depois em Queenstown, na Irlanda, onde foi debelado um incêndio. A partir dali, tudo estava em perfeita ordem, e a tripulação estava completa, com seus 2.223 passageiros a bordo. Dado o frio, muitos homens com sobretudo preto ingressaram nos três portos.

O Titanic transportava em seu interior, nas suítes da primeira classe, alguns dos homens mais ricos daquela época, donos de verdadeiras fortunas. A exceção foi a ausência de John Pierpont Morgan, que era o maior acionista da companhia e, como era supersticioso quanto ao número nove, havia cancelado a viagem, que tinha o intuito de destronar a maior rival no concorrido negócio de viagens entre a Inglaterra e Nova Iorque. Mesmo assim, previu uma chegada festiva para o dia do seu aniversário: 17 de abril.

A ideia era tornar aquela viagem um marco, por isso ordenaram que o navio seguisse seu curso com velocidade máxima, chegando a atingir 22,5 nós, mesmo estando em meio a icebergs. A meta era quebrar o recorde da outra companhia, que havia estabelecido uma nova marca de velocidade.

Enquanto o navio seguia por águas geladas, passageiros bebiam, jantavam e dançavam ao som da melhor banda do Atlântico, outros jogavam cartas ou faziam apostas sobre a data da chegada. A lua lá fora estava imensa e, de maneira inusitada, parecia estar muito mais perto daqueles que se encantavam com seu brilho. Era uma noite atípica, com enormes refrações, que faziam o horizonte subir, encobrindo por trás da miragem os enormes blocos de gelo que vinham da Groenlândia.

Os menos afortunados, que se dividiam pelos pisos da terceira e segunda classes, também eufóricos, sonhavam com uma nova vida na América do Norte.

Alguns casais, aproveitando o clima romântico da viagem, de suas cabines ficavam mais enamorados, contemplando a noite fria e tremendamente estrelada.

Valendo-se do cansaço de muitos que dormiam, um estranho vulto desliza seu corpo esguio por partes menos iluminadas do porão do convés. Ali ele age de forma suspeita ao longo da parte interna do casco, onde estão os rebites que unem as grandes chapas.

E a noite do dia 14/04 seguia animada, quando navios cruzeiros, que estavam próximos a Cape Race, Newfoundland, enviavam mensagens de rádio para o operador do Titanic, dizendo da localização de enormes icebergs.

Logo depois, surge em meio à música ambiente a voz do vigia Frederick, que fez soar o sino três vezes e, para ter certeza que estava sendo ouvido, repetiu o procedimento mais duas vezes:

– Iceberg à frente! Gritava do lugar mais alto.

O comando de reversão total dos motores e de desvio à esquerda não foram suficientes para livrar o Titanic da colisão contra a gigantesca formação sólida de gelo (41°54’13″N e 49°59’00″W). A manobra evitou o choque frontal, mas danificou terrivelmente o estibordo direito da pérola da White Star.

O relógio marcava 23 horas e 40 minutos do dia 14/04, quando foi noticiado que um imenso iceberg havia rasgado o casco do navio numa extensão de 90 metros, começando a fazer tombar sua estrutura.

O estrondo foi tão grande que pôs todos em alerta, principalmente quando o capitão ordenou à tripulação que seguissem para os locais previstos no treinamento de emergência, já com seus salva-vidas presos aos seus corpos, pois o navio estava afundando.

Aquelas duas horas que se seguiram foram as mais terríveis para todos os passageiros, que descobriram não haver botes para todos e que mulheres e crianças teriam prioridade. Os corpos de 1503 pessoas foram tragados pelas águas geladas do Atântico Norte e somente 720 pessoas se salvaram naquelas primeiras horas do dia 15.

A tragédia poderia ter sido maior se o navio Carpathia, da companhia rival Cunard Line, não tivesse atendido o S.O.S.  do Titanic.

Com os náufragos recebendo todo o atendimento disponível, o Carpathia aportou no píer 54 em Nova Iorque, no dia 18, depois que todos presenciaram incrédulos a triste cena do Titanic a sucumbir na sua viagem inaugural, indo parar a 3.600 metros de fundura, nas proximidades do Canadá.

Autor José Maria Cavalcanti

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