Livro

SEGREDO DOS LIVROS

Aproveitando-se de uma ausência dos pais, Sara e Gabriel começam a falar a respeito do querido avô que haviam perdido há pouco, por estar já bem velhinho.

Sara, de dezesseis anos, disse para o Gabriel, de doze:

Você sabia que o vovô sempre deixava algum dinheiro escondido nos livros de sua biblioteca para que eu procurasse?

– Ué, e por que ele já não dava diretamente na sua mão?

– Se liga, Biel, ele queria que eu pegasse o bichinho dos livros, assim, como ele amava cada um daqueles exemplares raros de sua coleção, eu também passaria a ter o mesmo gosto dele. A condição era a de não derrubar ou danificar as páginas.

– Eu não sabia que livros tinham bichinhos, mas achar a grana parecia moleza, não?

– Não era tão simples assim. A página que tava a nota deveria ser lida e decorada, e algo dela eu tinha de guardar para as perguntinhas que ele sempre fazia.

– Ah, agora entendi essa sua mania de ler tudo e ter mil histórias na cabeça… Vive por aí no mundo da lua, e os olhos presos nos cartazes e propagandas. E eu que achava que era por causa da sopa de letrinhas que você tomava.

– Mas… Sara, pensando bem, será que não tem mais grana por aí?

– Biel, o pior é que ele deixou muito dinheiro num pequeno baú para quem descobrir o  enigma que eu encontrei num livro antigo, chamado Atlântida – Diálogos de Platão.

– Plá o quê? Esse cara não tinha um nominho mais bonito, não?

– Mostre-me logo esse enigma, Sara!

Enquanto tentava entender o enigma, Gabriel tropeça num dos livros.

– Biel, cuidado com os livros do vovô, são todos raros e alguns estão há muitos e muitos anos na nossa família. Não sei se você sabe, os nossos antepassados pertecem a uma ordem de escribas da idade média.

– Escriba, o que é um escriba?

– Os escribas eram homens de classe nobre, encarregados de escrever nos papiros ou papéis tudo aquilo que era transmitido por quem tinha o saber ou tratavam de copiar quando havia a necessidade da distribuição para mais de uma pessoa ou autoridade.

– Na religião judaica, por exemplo, os escribas tinham papel destacado na sociedade ou ao lado do sumo sacerdote. Eles se encarregavam dos escritos da bíblia por meio de pergaminhos, usando a tinta para desenhar letra por letra, com bico de pena.

– Sara, você poderia traduzir pra mim a palavra per-ga-mi-nho?

– Claro, é o nome dado a uma pele de animal, geralmente de cabra, carneiro, cordeiro ou ovelha, preparada especialmente para nela se escrever.

– Você não sabia, Biel, que o livro, além do conhecimento, ele traz também mensagens subliminares.

– O que é isso?

– São textos dentro de outros textos ou uma mensagem dentro da outra mensagem. É como um bolo com várias camadas e a cobertura de chocolate. A mensagem principal que se quer passar é apenas uma das camadas, normalmente a mais interna.

– Puxa, quanto mistério!

– Bem, vamos ao que interessa, Biel.

– Sim, vamos tentar desvendar estas curvas formadas pela letra “u”.

– Puxa, Pedro Bó, não é que você me fez acordar depois de tanto tempo matutando sobre este papel!

– Como assim, Cara-pálida?

– Você, sem querer, iluminou o caminho de “us”. PER feito de US, então: PER+FEITO+DE+US, isto é, PERFEITO DEUS ou Deus é perfeito. Esta é a dica. O mapa do tesouro está dentro do livro sagrado! Sara falava eufórica cada palavra, com uma alegria indizível por ter encontrado a resposta que ela tanto esperava.

– Viu, resolvi tudo pra você! Disse Gabriel, tentando ser engraçado.

– Qual é, ô sabe-tudo, ainda temos um problema a resolver. O vovô não tinha uma só bíblia. Temos aqui uma cópia autêntica da septuaginta, que é a tradução das escrituras do hebraico para o grego, também o livro da lei, ou a Torá, também existe aqui uma versão da Vulgata, uma edição antiga da bíblia do King James, uma bíblia de estudo do Scofield e ele nos deixou também a versão bíblica traduzida pelo português João Ferreira de Almeida. Mas, de todas elas, a que ele mais gostava é a bíblia de Gutenberg, um exemplar raro da primeira edição.

– Caramba, estou tonto com tanto nome, mas o que é a Torá e quem foi esse Gutenberg?

– Ele era alemão e criou uma prensa de tipos móveis para editar a bíblia. A ideia dele era que todos tivessem acesso a palavra de Deus, até então restrita ao clero.

– Torá é o livro sagrado dos judeus. Nele decodificaram previsões para os principais acontecimentos futuros, por meio do Código da Bíblia. Este livro tem muita importância para o Judaísmo, assim como o Alcorão é vital para o Islamismo.

– E quando a bíblia chegou ao povo, Sara?

– Biel, só para você ter uma ideia, quando o Brasil foi descoberto, a bíblia de Gutenberg já tinha 50 anos!

Enquanto falava, Sara empurrava a comprida escada pelos trilhos da bibioteca, até chegar diante da prateleira onde estava um dos livros mais pesados da estante.

Subiu degrau por degrau até se acercar do grande e volumoso livro de um marrom desbotado, que estava deitado na terceira fila, lugar que ninguém mexia. Na capa, havia adornos metálicos, com a estrela de Davi no centro. Sem descer, abriu ali a pesada capa e deu de cara com a primeira frase: “In principio creavit Deus caelum et terram” (No princípio criou Deus os céus e a terra).

Contendo o anseio de ler aquilo que não entendia, pois estava tudo em Latim, Sara começou a folhear as muitas páginas até dar de cara com uma folha solta.

– Achei! Gritou de tanta felicidade que quase caiu lá de cima.

– O que você vê aí, Sara?

– Apenas uma frase: “Um tesouro não subsiste sem a verdade!”.

– O que quer dizer isso, Sara?

– Calma, estou pensando…

– Existir sob, em baixo ou debaixo? Já sei! A Bíblia é a Verdade, e o tesouro está sob! É isso!

Imediatamente, Sara usou toda sua força para empurrar o tomo um pouquinho mais adiante e percebeu que debaixo do grande livro havia uma tampa falsa.

Afastou outros livros para ganhar espaço e conseguiu, com o auxilio de um grampo de cabelo, abrir a portinhola que se encaixava no vão perfeitamente.

– Caramba!

– O que você achou, Sara?

– Um livro tão antigo que poderia ter estado na Biblioteca de Alexandria. É uma coletânea em sânscrito, segundo a nota explicativa, chamado Vedas, com hinos, cânticos e mantras! Você não tem ideia do valor que esta raridade tem.

– Sara, sinto muito, mas para mim é tudo papel velho, cheirando a mofo e cheio de ácaros.

– Não diga isso, espertinho!

– Sara, eu queria mesmo era achar dindim para comprar pipoca e sorvete, mas, pelo visto, a gente deu com os burros n’água, né?

– Biel, você não se deu conta da riqueza encerrada aqui dentro!

– Sara, pra acabar esse papo cabeça, com a invenção de Gutenberg, nossos familiares passaram a viver de quê?

– Alguns não souberam lidar com a mudança, mas a maioria passou a trabalhar na editoração e venda de livros, também como livreiros e com livrarias. A coisa deixou de ser uma arte e passou para o lado comercial, uma questão de números. Mas isso tudo foi bom para o povo.

– Por quê?

– É que isso barateou o livro, tornando-o disponível a todos. Os grande escritores e poetas passaram a ser lidos por todas as classes sociais, tais como William Shakespeare, Cervantes, Machado de Assis, Camões, Augusto dos Anjos, Castro Alves, Sócrates, Platão, Aristóteles, as novas ideias de Sigmund Freud, os avanços científicos e as notícias que passaram a chegar facilmente a todas as casas, por meio de jornais e revistas.

– Puxa, você tem razão, Sara, a ideia de Gutenberg é pop!

– Sara, e essas raridades que você tanto fala vão ficar aqui dentro só para nós ou vamos emprestar pra todo mundo?

– Nosso pai tem um projeto para disponibilizar tudo eletronicamente.

– Como assim?

– Com o papel cada vez mais escasso, a informática há muito tempo é a solução para viabilizar o acesso ao conhecimento de forma prática e muito mais barata, evitando o desmatamento, com a consequente extinção das florestas, preservando o meio ambiente.

– Hoje já temos o e-book, isto é, o livro eletrônico, que não carece mais do suporte tradicional, estão disponíveis em computadores pessoais, palm, tablets, etc. Futuramente o papel irá sumir, e os escritores contarão suas histórias somente no formato on-line ou a viva voz, como antigamente.

– Puxa, isso é muito legal! E a ideia de Gutenberg continua valendo, não é Sara?

Autor José Maria Cavalcanti

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