Canto da Manhã

CANTAR DE GALO

Por entre os galhos dos frondosos sapotizeiros do quintal, um sol reluzente começava a despontar, embelezando a linda manhã primaveril, dando a ela luz e cor típicas do Seridó.

No chão, as imagens retorcidas se projetavam em volta dos limoeiros e dos tabuleiros das hortaliças, como rabiscos delineados a nanquim naquele quadro surreal.

No terreiro, folhas salpicadas de um restinho de orvalho forravam o chão. Entre galinhas e pintinhos amarelinhos, o galo ciscava alvoroçado, sacudindo suas plumagens multicoloridas, à procura das minúsculas sobras da última ração.

Faltando menos de dois quartos de hora para seis da manhã, Dourado irrompeu o silêncio matutino no mais estridente canto, não sem antes abrir as asas e bater forte, estufando o peito para o alto, ao encontro da vermelha crista eriçada.

Aquele canto não era somente para anunciar que estava bem vivo e uma forma antiga de estabelecer controle sobre o território, tinha também uma dupla função. Uma era mostrar para os desafiantes quem mandava no pedaço e a outra, desconfio, pra tirar da cama aqueles que logo iniciariam suas funções matinais.

Ao ouvir o belo canto, o doutor já desperto deu pressas aos atos que antecediam o banho e, num lapso de tempo, estava dentro das roupas brancas, já barbeado e asseado, pronto para mais um dia na sala de partos do Hospital de Currais Novos.

Não sairia sem antes olhar os lindos espécimes que sempre ganhava de presente. Os pacientes, sabedores da atração do médico por galos, logo espalharam a notícia, e já ninguém o presenteava com patos, perus ou barras de queijo de qualho. O negócio era galo, e galo bonito e cantador.

Após um rápido desjejum, o fã dos galináceos ia até a grande gaiola das prendas para soltar aquele que ele julgava fazer frente ao macho do terreiro. Arrastou para fora o intrépido e impetuoso Espora Negra, que saiu ligeiro e destemido, correndo para cima de Dourado. Os dois giravam, medindo força, enquanto as galinhas fugiam daquela espécie de rinha improvisada.

E de pronto, um novo canto ecoou pelos ares da vizinhança, era o novo candidato querendo afrontar e fazer bonito, principalmente para as fêmeas poedeiras e àquelas que se protegiam e aninhavam os filhotes sob suas enormes asas.

Quando Dourado partiu para dar uma lição no intruso, o doutor atalhou com a mão a briga, antes que se desse um embate mortal em busca de liderança, domínio e sobrevivência. Tratou de acalmar os ânimos dos dois, pois seu objeto de interesse estava focado no canto.

Não bastou aquele esforço e tampouco os rodopios em torno das fêmeas, o especialista estava presente para avaliar qual deles permaneceria reinando e procriando por ali. Era a beleza e também a intensidade do canto que apontaria o vencedor.

O doutor sabia que um canto de qualidade teria que seguir alguns requisitos: ser forte, repetitivo e longo, com duração em média de 30 segundos. Tudo isso se fazia acompanhar de uma postura característica do macho do terreiro. O galo não só primeiro projeta seu corpo e abre as asas, com o olhar fito no horizonte, exibe suas pupilas dilatadas, a língua vibra sulcada, a crista e as barbatanas ficam protuberantes e bem avermelhadas. O som percorre pela garganta esticada, escapando pelo bico do animal, repercutindo por toda a vizinhança adormecida. No finalzinho do canto, o animal vai baixando a cabeça até o bico atingir o solo, suspirando um inconfundível: “- Ohhhhhhhhhh!”.

Como Espora Negra não cumpriu todos os requisitos exigidos, dançou. Dourado continuaria mais um dia no comando, enquanto o Espora Negra teria destino certo: a panela.

Sem perder tempo, virou o galo de cabeça pra baixo até deixá-lo grogue, depois, com um golpe certeiro, o doutor destroncou o pescoço do desafiante, entregando-o para a cozinheira para se tornar o item principal do seu próximo almoço.

Despediu-se e seguiu para trabalhar. Naquele dia, um paciente indagou para ele sobre o porquê daquela obsessão por galos, o doutor pacientemente explicou com riqueza de detalhes:

– Como todos vocês, cresci escutando, nos quintais dos arredores de minha casa, o canto do galo, que considero uma das coisas mais belas da natureza. É coisa antiga do passado, talvez um mover de memórias da infância, oriundas de um bairro de periferia. E essa paixão me seguiu pela vida adulta, mais ainda depois que meus pais foram morar numa grande área arborizada, com fruteiras, plantação de macaxeira e criações. Por entre os pomares, era comum eu ver os madrugadores empenados, cantando bonito, ao lado do seu harém e em torno de suas crias.

Assim se explicava com orgulho o doutor, essa sua mania por galos, espécie trazida ao Brasil pelas primeiras caravelas portuguesas que aqui aportaram.

Os dias se passavam, e aquela sua rotina se perpetuava.

Quando já não havia mais desafiantes para Dourado, depois de superar os adversários que se apresentavam, a bela ave seguia orgulhosa e parecia exibir com seu porte altivo o recorde inigualável de vitórias.

Mas aquele cenário estava por mudar com a necessidade do seu dono comprar uma clínica ampla numas das avenidas principais da “Princesa do Seridó”. Este fato novo também iria causar uma grande mudança na apreciação do doutor pelos galináceos. Na extensão do novo local particular de trabalho, havia também uma grande casa, com um apartamento e garagem coberta nos fundos.

Depois de fazer a mudança é que o doutor se deu conta que ali não existia quintal. Aquilo foi sua maior tristeza, pois já não poderia seguir com Dourado e suas crias.

Não tendo coragem de mandar Dourado para a panela, deu o companheiro de inúmeras manhãs para um amigo que morava em algum lugar ali por perto, assim como as demais aves.

E as manhãs seguiam sem graça sem ele poder nutrir aquela paixão. Mesmo assim, quando dos seus amanheceres vazios, o doutor parecia ainda ouvir o canto de Dourado em algum quintal, no exato instante que seu predileto emitia o inconfundível toque.

E o saudoso doutor desconfia que ele passou a cantar mais alto somente para que ele pudesse de longe escutar.

Autor José Maria Cavalcanti

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