Tear

VELHO TEAR DE OURO NEGRO

Ouro Negro era uma cidadezinha pacata nas proximidades da Serra do Mel.

Ali se vivia melhor daquilo que brotava da terra. Não o algodão, como agraciava Deus outros recantos daquele sertão de pouca precipitação fluvial.

O líquido negro que minava das profundezas da terra era uma dádiva para aqueles pequenos agricultores que a sorte batia-lhes à porta.

Aos que recebiam o poço, era certo que dali iria jorrar petróleo, e a família podia dar adeus à vida de penúrias e de espera interminável por possíveis chuvas.

O governo pagava mensalmente valores relativos aos royalties aos proprietários dos terrenos, quantias que batiam sempre na conta, sem atraso.

Esses ingressos financeiros passaram a ser um bom incremento na economia local, e os agraciados podiam conceder às famílias algumas extravagâncias e até excessos.

Dava gosto ver aquelas terras secas ornamentadas aqui e acolá por uma torre de ferro.

Depois da chegada dos recursos tecnológicos, ninguém mais foi visto recolhendo aquela lama negra que aflorava do seio da terra para fazer iluminar as lamparinas dos alpendres das casas, onde ocorriam as rodas de conversas pelas noitadas.

Porque já na ocasião da primeira perfuração, a energia não tardou muito para chegar.

Naquele cenário de poucos afortunados, vivia seu Apolinário, que tocava sua vida com sua arte de tecer os fios de lã no seu velho tear, que ficava no galpão construído especialmente para isso, na lateral de sua casa. Lá ele produzia os mais belos tapetes para as vendas no maior comércio da região, que ocorria sempre aos domingos, pela manhã.

Para os frequentadores daquela feira de mangaio, os artigos de Apolinário eram considerados de luxo e para muitos era algo supérfluo. Assim, mesmo colocando cada item com uma margem pequena de lucro, as vendas eram sempre esporádicas, mas era melhor que voltar a trabalhar em Natal, onde havia mais competição, e os muitos gastos não compensavam tanto as entradas de recursos.

O velho tecelão era casado com dona Jussara, que fazia doces e bolos, especializada em alfenim e outras guloseimas.

Ela era uma mulher muito prendada e podia ser vista na maior parte do tempo na cozinha, que ficava no outro oitão, ao lado do fogão a lenha.

Além dos afazeres comuns, a doçaria tomava grande parte do tempo. Depois que a massa de açúcar ganhava forma por meio do estica e puxa, a meada era dobrada mais de uma vez, até a massa ficar bem elástica, opaca e branca. Por último, com uma tesoura cortava em pedaços, conservando-os moldáveis perto da boca do forno, para finalmente dar a forma que mais agradava à clientela.

Os pedacinhos menores se transformavam nas famosas balas, o doce preferido da meninada.

Lenira, uma mocinha de quinze anos, era a única filha do casal, que viera pela graça de Deus, depois de muitos anos de tentativas e tratamentos. Ela ficava encarregada pelas entregas em domicílio das vendas dos doces e da venda avulsa dos tapetes, quando as atividades escolares assim permitiam.

Naquele instante, pensava somente no seu aniversário e formatura, datas bem próximas uma da outra, já que ela iria completar seus dezesseis anos na última semana de dezembro.

Enquanto suas amigas mais endinheiradas encomendavam seus vestidos com a modista, Dona Dilu, que era a melhor e mais careira costureira da cidade, ela nem imaginava o que vestir, principalmente porque sabia que era feio repetir a mesma roupa nas duas festas.

O segundo semestre foi transcorrendo com vendas difíceis, e os tapetes foram se acumulando pelos outros cômodos da humilde casa. Pelo menos, com os doces, arranjava-se com o que tocar a vidinha simples que eles levavam.

Mas havia uma esperança, o senhor Praxedes, um rico empresário da capital, que arrebatava sempre todas as lindas peças produzidas pelas mãos hábeis do antigo artesão, estava por retornar às compras no mês seguinte.

Enquanto o final de ano de aproximava, o desespero de Lenira aumentava. Já não aguentava mais fugir das amigas, pois o assunto era sempre o mesmo: “- Já comprou seu vestido?” ou “- Com que roupa você vai na formatura?”. Era uma verdadeira exibição de poder, cada uma queria demonstrar as posses da sua família.  Aquilo estava sendo uma verdadeira tortura para ela.

A moça pobre sabia que de nada adiantaria apertar ou incomodar seus pais com aquilo, pois conhecia como tudo funcionava e que tudo iria depender daquela venda que estava por vir. Mesmo assim, era evidente a tristeza estampada no rosto de Lenira.

Sua mãe, para consolá-la, encheu-a de mimos e prometeu para ela aumentar a produção dos doces, mesmo que tivesse que varar as noites e assim conseguir dinheiro extra.

Para animá-la um pouco mais, Jussara foi com ela encomendar os tecidos caros, os sapatos, luvas, meias e os arranjos de cabelo. Como a conta seria muito alta, pediu para o comerciante um prazo para o pagamento de tudo aquilo, pois aguardava uma grande venda. Para completar, seguiu até a cabeleireira para agendar cabelo e maquiagem para as datas dos dois eventos.

Aquela foi uma oportunidade para mãe e filha aumentarem ainda mais seus vínculos afetivos.

Apolinário, vendo a situação agravada, aumentava o ritmo do tear, que era tudo em sua vida e que com ele havia sustentado todos aqueles anos sua família.

Ele estava também aflito e se agarrava com todos os santos.

Premido pelo tempo, um dia, numa atitude extrema, abriu mão dos intermediários. Ergueu os olhos pro céu e clamou pra Deus, com os olhos marejados:

– Deus, meu deus! Tende piedade de mim e  envia compradores para todos estes tapetes!

Suas preces se resumiam a isso, posto que para as demais coisas não havia necessidade. Aquela urgência era movida pela expressão acabrunhada da filha, que vivia triste pelos cantos, como se houvesse perdido alguém muito querido.

Faltando apenas trinta dias, chegou uma péssima notícia aos ouvidos de Apolinário. O senhor Praxedes tinha baixado ao hospital, depois de um acidente na Serra da Borborema.

Aquele soco certeiro atingiu três pessoas de uma só vez. Foi um duro golpe, nos instantes finais da luta. Mesmo que tentassem se reerguer, o melhor seria jogar a toalha, pois a derrota seria certa.

Quando parecia não haver mais esperança, por faltar apenas uma quinzena para a formatura, chega um comprador para os tapetes, a mando do senhor Praxedes.

Aquilo foi motivo de muita festa. E a alegria voltou a irradiar nos olhos e sorriso de Lenira.

Não pensou duas vezes para correr à casa de dona Dilu, já com as peças de tecidos debaixo do braço. Mas a moça estava prestes a ter mais uma decepção, Dona Dilu alegou que já tinha muitas encomendas e já não estava pegando nenhum pedido. Assim não haveria mais tempo hábil para mais confecção.

Outra vez bateu desespero. E a moça voltou entristecida para casa, pois sabia que ninguém mais poderia fazer aqueles vestidos especiais.

Dona Jussara acolheu com os braços a filha, deixando-a se derramar em lágrimas.

Finalmente havia chegado o dia do baile de formatura. Todas as lindas moças estavam presentes e exibiam suas roupas finas, num evento de muita pompa e elegância, no qual Lenira não se fazia presente.

E havia chegada a hora do desfile para a eleição da mais bela moça. Quando todas já haviam desfilado na passarela, surge às pressas Lenira. Para surpresa das amigas, que já não contavam com aquela aparição. A jovem estava lindíssima e passou a chamar a atenção de todos.

Seu vestido era deslumbrante e encheu os olhos dos jurados. Dentro das lindas vestes, Lenira exibia seu sorriso mais amplo e a sua beleza irradiava mais, o que era já uma unanimidade na pequena cidade.

Sob aplausos, todas tiveram de acompanhar as salvas de palmas, e Lenira foi aclamada como a mais bela moça de Ouro Negro.

E quando todas as amigas curiosas quiseram saber quem havia feito aquele vestido tão lindo, Lenira disse graciosamente: “- Ele caiu do céu!”

Lenira desconversou elegantemente, a pedido de sua mãe, que suplicou para desinformar sobre a autora da obra de arte, pois aquele dom sua comadre e vizinha, Lia,  havia deixado no passado e só havia lançado mão do seu talento novamente porque nunca deixaria sua afilhada passar aquele apuro.

Assim, Lenira não só foi a mais feliz formanda da escola, como também viveu o melhor aniversário de sua vida, vestida impecavelmente por sua madrinha.

Autor José Maria Cavalcanti

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