Chico Buarque e Sivuca

ANÁLISE DE LETRA DE MÚSICA – JOÃO E MARIA

JOÃO E MARIA – CHICO BUARQUE E SIVUCA

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três.

Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock para as matinês.

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz.

E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país.

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido.

Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
O tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido.

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim.

Pois você sumiu no mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim

Esta música tem uma história muito interessante. Ela é uma valsinha e foi composta por Sivuca entre 1944 a 1947. Trinta anos depois, o criador da música enviou a fita para o Chico Buarque, pedindo-lhe para pôr a letra. Chico, que já era conhecido letrista do Francis Hime, Milton Nascimento, Tom Jobim, dentre outros, disse para Sivuca: “- Puxa, mas esta música foi feita quando eu estava nascendo!”.

Como a melodia é muito angelical, o genial Chico se transportava sempre para sua infância, durante o processo de criação.

A prova disso é que os primeiros versos são como falas infantis:

“Agora eu era herói, e o meu cavalo só falava inglês”

No nosso imaginário de filmes de cowboy, estão todos os grandes astros do cinema americano, que falam a língua inglesa.

Não podemos esquecer que dificilmente algum menino deixou de subir num cabo de vassoura, fingindo ser um cavaleiro com seus amiguinhos ou mesmo sozinho.

Como a imitar a figura do super-herói, o garotinho se sente empoderado no alto do animal, muito acima das pessoas comuns, achando que dali tem um mundo aos seus pés.

E como em toda boa história tem que haver romance, uma linda mulher se torna essencial.

Para representar a mulher do mocinho, Chico Buarque tinha à disposição suas três irmãs, parceiras de suas brincadeiras.

“A moça do cowboy era você além das outras três”

“Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock para as matinês.”

Como Chico tomou como base o que estava acontecendo no mundo, no período em que Sivuca compôs a valsinha, na letra não poderia faltar o grande conflito bélico mundial, que teve os alemães como os grandes adversários a serem vencidos. Com seus soldadinhos de chumbo, o autor enfrentava todos os exércitos contrários, isto é, os alemães e seus canhões. Depois de vencida a guerra, era hora de recolher as armas, que na ingenuidade de um menino era apenas um  bodoque, suficiente para dizimar qualquer adversário.

E não poderia faltar o rock com suas matinês dançantes.

Chico Buarque teve esta grande e benéfica influência, embora tenha usado suas letras como arma de guerra, só que desta vez de caráter ideológico.

Quando brincamos, no nosso faz de conta podemos ser quem bem queremos.

Chico fazia as vezes de Rei ou Juiz – autoridades supremas – ou mesmo a figura simples de um bedel, uma espécie de contínuo, monitor ou inspetor de uma escola.

O Rei, assim como o Juiz, ditam as normas que devem ser seguidas por seus súditos. No campo das brincadeiras, é o mesmo de ditar: “-Todos imóveis!” ou “-Todo mundo rindo!”.

E assim se brinca de ditador. Quem nunca brincou assim…

“E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país.”

Até uma determinada idade, é muito comum crianças de ambos os sexos brincarem nuas, posto que nos corações dos pequeninos ainda não mora a maldade.

“Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido.”

Agora Chico suplica para os outros pequeninos atores daquele mundo de faz de conta que não quebrem o encanto, que continuem a fingir.

Como se dissesse: “-Tá bom, não serei mais o Rei ou o Juiz, posso ser também um simples pião ou um bichinho de estimação.” O que ele quer, na verdade, é que a brincadeira não se acabe nunca.

Como toda criança, que tem energia inesgotável, a brincadeira não pode parar, pois para eles o tempo não passa.

“Vem, me dê a mão

A gente agora já não tinha medo

O tempo da maldade

Acho que a gente nem tinha nascido.”

Chico nasceu após a II Guerra Mundial, cenário de muitas atrocidades e maldades.

Para aquele mundo de fantasias, não haveria necessidade de se ter medo, ali não havia espaço para isto.

Na dúvida, nada como um incentivo do forte e destemido super-herói mirim. Também como cavalheiro e nobre, estende sua mão para que as damas cruzem as fronteiras do desconhecido.

“Agora era fatal

Que o faz de conta terminasse assim

Pra lá deste quintal

Era uma noite que não tem mais fim.”

O quintal de casa era palco das encenações. Ali tudo era seguro, podia-se viajar nos sonhos e fantasias com toda tranquilidade.

Lá fora era como o mundo das trevas, um lugar fora do controle.

“Pois você sumiu no mundo

Sem me avisar

E agora eu era um louco a perguntar

O que é que a vida vai fazer de mim”

Como dizia Ataulfo Alves, “eu nem sei porque a gente cresce, que não sai do peito esta lembrança”.

Feliz ou infelizmente, a gente cresce. E cada um vai para seu lado, pondo fim no faz de conta.

Muitos jovens ficam perdidos quando se deparam com a realidade da vida. Têm que decidir qual rumo tomar, que profissão escolher dentre tantas interessantes.

Alguns chegam à conclusão que era mais fácil e mais gostoso ser criança. Mas não tem jeito, com o avanço da idade, a cortina do palco baixa, estabelecendo uma faixa demarcatória entre a criança e o adolescente.

Chico Buarque, com João e Maria, faz-nos viajar no tempo, de volta à infância, na tentativa de nos fazer compreender melhor o universo infantil.

Autor José Maria Cavalcanti

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