Natal

A PEQUENA VENDEDORA DE FÓSFORO

Os flocos de neve caíam sobre os telhados góticos dos grandes edifícios e demais tetos das casas que formavam as sinuosas ruas de uma das mais importantes cidades do leste europeu.

Pelo pátio tomado pelo acúmulo da neve, as pessoas se deslocam apressadas para fazer suas últimas compras do Natal. Em seus olhos, um misto de alegria e ansiedade desfila para ver quem chega primeiro às lojas.

É intenso o ir e vir das pessoas, a maioria bem vestida com seus casacos, botas e chapéus de couro, tudo de fino bom gosto.

No meio aos transeuntes, enfrentando as rigorosas temperaturas frias do intenso inverno, uma menininha se esforça para vender seus fósforos, expostos no tabuleiro pendurado em volta do seu pescoço. Movida pela necessidade e o medo, ela sabe que não poderá voltar para casa sem ter feito vendas.

Destemida para sua pouca idade, a pequenina se esforça para chamar a atenção. Ora riscando um fósforo, talvez também para demonstração da eficácia do seu produto; ora subindo em um latão de lixo, buscando uma melhor exposição.

Mesmo com todos seus esforços, nada é suficiente para tirar aquelas pessoas do transe em que se encontram. Elas estão tão vidradas na alegoria e propagandas das festas do fim de ano que nem põem reparo naquilo que está a sua volta.

A garotinha sequer está pedindo esmola, tenta levar ao cliente algo útil e necessário em qualquer lar, restaurante ou cozinha. Justo aquele item, que foi primordial para o avanço da civilização, estava ali disponível, na ponta de cada palito.

Com meias rasgadas nos pés, sem luvas e com pouca proteção contra o frio, ela segue confiante que alguém lhe dará atenção, até que um homem resolve retirá-la de cima do latão, colocando-a no chão, lugar seguro para uma criança.

Após o ato, ele se despede sem comprar o fósforo, deixando uma negativa fria no ar.

De longe, Mariana percebe os lindos cavalos puxando os trenós carregados de presentes. Neles, as famílias chegam e saem do prestigiado centro comercial. As que saem, partem satisfeitas; e as que chegam têm uma avidez indescritível.

No final da tarde, já anoitecendo, poucos são os que ainda transitam, alguns em pares, de retorno para seus lares. A diminuição daquela demanda entristece a menininha, mesmo com todas as negativas que havia tomado. Sem movimento de pessoas, ficava esvaziada a esperança de vender alguns palitos de fósforo.

Cabisbaixa, ela caminha solitária e entristecida pelas ruas. Já cansada, com frio e fome. Para numa esquina, toda encolhidinha, talvez para não perder o pouco do calor do corpo. Em vão soprava as mãozinhas, na tentativa de aquecê-las.

Ao olhar para o tabuleiro, percebe que ainda restam seis palitos do total que dispunha no início das vendas. Relutante, ameaça acender mais um, agora para benefício próprio e não mais para chamar a atenção.

Mesmo sabendo o risco de desperdiçar todos, finalmente, risca uma das últimas unidades, friccionando o palito contra a parede.

A chama produz calor nas suas mãos, ao mesmo tempo em que a faz viajar num lampejo de sonho, talvez movida pelo desejo de não querer retornar para sua casa.

Imagina-se em uma casa grande, em volta de uma lareira, aquecendo seus pequeninos pés, já quase adormecidos pelo chão gelado.

Mas o sonho se desfaz com o apagar da chama, restando em sua mão o palito queimado.

Impelida pela fome, volta a acender mais uma unidade.

Agora está diante de um banquete, tendo à disposição toda sorte de comidas e frutas.

Do peru que ornamenta o centro da mesa, ela arranca um suculento e dourado pedaço, mas logo se dá conta do sumiço da coxa de suas mãos.

Como numa espécie de magia, do acender de cada fósforo, um novo cenário se realiza.

E não tarda a acender mais um e logo uma carruagem dourada e veloz estaciona ao seu lado. Ela é imediatamente acolhida do chão, agasalhada e levada para uma mansão dos sonhos.

Mal contendo o ímpeto de adentrar naquele lar, bate na porta, procurando antes lançar um olhar furtivo pela vidraça de uma das janelas laterais.

Uma senhora muito carinhosa a recebe com um sorriso enorme, abraçando-a com uma ternura indescritível.

Talvez para realizar as demais fantasias, Mariana acende os últimos três palitos de uma única vez e coisas maravilhosas passam a acontecer com ela naquele lar.

Aquela senhora torna a abraçá-la agora de forma mais intensa. Nisso ela vê a linda árvore de Natal, a maior já vista em uma casa.

Depois de acender todas as velinhas da árvore, todos aqueles doces sonhos se desfazem, e a pequena Mariana se vê novamente abandonada ao frio, numa das ruas da cidade.

Seu corpo cansado e parcialmente coberto por neve se entrega ao sono.

De repente, a menininha sente o carinho de uma mão quente em seu rosto e cabelos.

Ela abre os olhos e se vê diante daquela mesma mulher da mansão.

Mariana abre um sorriso de alegria, enquanto é tomada nos braços.

E envolvida naquele abraço amoroso, elas caminham para uma vida feliz.

Autor José Maria Cavalcanti

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