Festa de Aniversário

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LENA – 50 ANOS!

Naquele pico de hora em que o céu se fazia estrelado, um meio aro de lua enchia de encanto a imensidão. As ruas já estavam nuas da costumeira gente da noite.

Ao longo da calçada central, uma casa se destacava com seu lume colorido, refletido pelas vidraças frontais.

Lá dentro, um casal ouvia pelo rádio Telefunken a música Fica Comigo Esta Noite, na voz de Nelson Gonçalves.

Era abril de 1962 e havia uma expectativa pela comemoração do sexto aniversário de casamento de Cleto e Francisquinha, no próximo mês de maio.

Aos 29 anos, Francisquinha não tinha mais dúvidas e contava ao marido que estava realmente iniciando sua sexta gravidez. Cleto, aos 35 anos, estava radiante com a notícia, pois iria completar mais um ano de feliz união de uma forma muito especial.

Após aquela metade de ano, no terceiro mês de gestação, acompanhou o crescer da barriga durante a estação das chuvas, depois veio o período da floração e finalmente a chegada do período mais quente do ano.

Às vésperas de dar à luz, Francisquinha até já havia esquecido o que era ter meninas, visto que os três últimos partos foram de meninos, por isso desconfiava que novamente ganharia uma menina.

Pelo formato do barrigão, as amigas confirmavam aquilo que ela pressentia, mas, por precaução, Cleto mandou providenciar o mais lindo enxoval, todo branco, com um berço de inox, que estava na última moda, todo articulado, com fios trançados nas laterais, formando losângulos, tendo no alto um lindo véu, uma proteção contra os insetos.

Era o finalzinho do ano de 1962 na pacata cidade de Goianinha, e toda a cidade se preparava para render festas ao menino Jesus. Quando passou o Natal, Cleto estava convicto que o bebê nasceria na data do seu natalício. Mas a criança caprichosamente não nascia.

A motivação de Cleto torcer tanto era porque, como ele havia nascido em 1926, nada mais justo receber de presente, no dia 26 e no ano de 1962, que é 26 ao contrário, um lindo e especial presente.

O tempo foi passando depois das festas natalinas, até que finalmente se deu o coroamento de mais um ano. Com o barrigão só aumentando, Francisquinha já achava que a criança nasceria no dia do aniversário dela, 13 de janeiro. Mas antes da chegado do Dia de Reis, quis o destino que aquele fosse o dia destinado ao nascimento da terceira filha. Era o sétimo dia, uma manhã de sábado, dia 05 de janeiro de 1963.

Tudo começou quando Francisquinha sentiu as primeiras contrações, pediu para sua empregada chamar urgente Maria das Dores, a parteira que morava no mesmo bairro.

Uma hora depois, às sete horas, a linda menina branca, que mais parecia um novelo de alva lã, veio ao mundo, pesando quase quatro quilos e medindo 48 centímetros. Chegou enchendo a casa de mais alegria e festa. Era véspera do Dia de Reis, e o nome que ela ganhou tinha tudo a ver com o fato de ela ter estado entrelaçada pelo cordão umbilical.

No final da primeira semana de nascimento de Leninha, Francisquinha comemorou 30 anos com muita alegria, cercada pelos três casais de filhos. Gracinha ainda tinha 5 anos, Edite 4, Francisco 3, Zeca 2 e Paulinho 1, uma verdadeira filinha.

Lena veio à luz cercada de mordomias, tinha uma babá para cuidar da troca das fraldas e do banho de sol, estando ainda sempre pronta para dar muitos paparicos na menininha branca, de cabelos e olhos negros. Foi a única a ser amamentada por quase 12 meses. Em janeiro de 64, passou para o leite ninho e não demorou muito para comer farinha láctea com banana amassada, sua refeição preferida.

Ainda no seu primeiro mês, a menina branca foi batizada pelo padre Armando, na Igreja Nossa Senhora dos Prazeres. Para honra e alegria dos pais, seu padrinho foi Paulo Barbalho, um dos magnatas dos canaviais da região.

Ainda em Goianinha, ganhou seu quarto irmão, mas seu reinado de menina só acabaria mesmo em Parnamirim, a cidade aeronáutica.

Na cidade conhecida como Trampolim da Vitória, deixou de ser o centro de tudo com a chegada de Margarida, em outubro de 1965. Um ano depois e após mais uma transferência a serviço, a família chegava a Santa Cruz, terra de Santa Rita. Lena estava com 3 anos, permanecendo ali até chegar pertinho dos 8 anos. Naquela inesquecível cidade, começou seus estudos e viveu uma fase gostosa de sua infância. Ainda às margens do Inharé, na Região do Trairi, ganhou mais uma irmã, em março de 1967: Rita Maria. Com mais duas irmãs para dividir as atenções, Leninha passou a ser “a irmã do meio”.

No final de 1971, ainda com nove anos, pisou em Natal pela primeira vez. Ela ainda não desconfiava, mas pressentia, que ali iria fincar seus pés e que a Cidade do Sol iria ser o palco de suas grandes conquistas.

Após os primeiros contatos e acabada a fase do deslumbramento, era hora de estudar. Deu sequência a sua vida estudantil no Grupo Escolar Isabel Gondim, juntamente com seus irmãos Paulo e João. Nesse período, teve o privilégio de entrevistar o famoso historiador Câmara Cascudo com seu inseparável gravador, utilizando-se de uma das fitas cassete de seu irmão mais velho, Francisco. Pena que ela não havia se dado conta da importância daquele encontro com o maior acervo humano da cultura potiguar. A usada fita k7, que ela descobriu depois que não podia ser regravada, nada registrou. Deste episódio, só restou a lembrança viva das feições inesquecíveis do maior folclorista do Brasil.

Na escola, ela já se destacava como oradora e, como era muito estudiosa, sempre passava de ano por média, sobrando mais tempo para os livros, as revistas, a música e para os seriados da televisão, uma grande paixão da infância e depois da juventude.

Após o segundo grau no Colégio Winston Churchill, ingressou na Faculdade de Ciências, Letras e Artes, na UFRN. Ali começava a sua formação profissional. Lena, assim como sua mãe, Francisquinha, ingressou ao término do curso na área de ensino, seguindo o mesmo caminho já trilhado por sua irmã Edite.

Em 1985, aos vinte e dois anos, estava formada, era enfim uma bacharela do curso de Letras e, no ano seguinte, engravidou de sua filha: Cíntia. Depois de a filha completar dez anos, ela voltou a engravidar, trazendo ao mundo seu único varão: Artur.

Desde a fase de estudante universitária, Leninha já lecionava,  tendo acabado de completar mais de 30 anos de bons serviços prestados ao RN. Durante este período, fez especialização, conquistou o sonho do mestrado e agora faz o doutorado, com todos os méritos.

Lena é muito feliz pela carreira que escolheu, sendo uma dedicada professora. Ela é muito querida por seus alunos, que sempre lhe rendem os maiores elogios e a enchem de mimos a cada aniversário.

Depois de dar entrada na sua aposentadoria e após acumular funções na área de ensino, no estado e na universidade, Lena se considera realizada profissionalmente. Com sua luta e dedicação, tem carro do ano e apartamento próprio, formou a filha Cíntia em Administração e se orgulha de já ver o filho Artur bem encaminhado, estudando atualmente no Instituto Federal do Rio Grande do Norte, depois de haver passado no difícil vestibulinho da concorrida e tradicional instituição de ensino.

Mesmo morando em outro bairro, talvez seja a filha que sempre está perto da mãe, não deixando faltar a ela qualquer item. Esse apego se explica pelos muitos meses de amamentação, quem sabe ainda esperando e sendo retribuída com mais calor materno.

Tem uma grande mania: curtir a Praia de Pipa. Talvez isso se explique por suas raízes, pois, caso muitos não saibam, quando ela nasceu, Pipa pertencia à cidade de Goianinha, sua terra natal.

Naquela época, os veranistas goianienses gastavam de 4 a 5 horas para chegar àquele paraíso à beira-mar. As mulheres mais idosas iam de carro de boi, as moças e os rapazes seguiam montados nas celas dos cavalos e as empregadas se ajeitavam entre as bagagens. Tudo para curtir, no recesso escolar e nas férias do trabalho, o prazer de tantas praias paradisíacas, que hoje atrai gente do mundo todo.

Até hoje, por causa do desejo do pai, ela começa a comemorar sua data no dia 26, como ele gostaria. E segue em festa até o dia 5, ficando dez longos dias recebendo carinho e presentes dos familiares e dos muitos amigos.

Uma coisa que a deixa muito irritada é que se esqueçam dela no seu período festivo ou que entreguem para ela um único presente pelo Natal e também pelo seu natalício. Isto ela não perdoa.

Como a mãe e quase todas as irmãs, ela também se dedicou à arte de ensinar. Sendo que foi a que chegou mais longe. Como todos já sabem, em breve será doutora em Letras.

Lena tem uma personalidade marcante, é sempre muita séria em tudo que faz, é correta, fiel e dedicada à família e aos amigos. É uma supermãe, muito cuidadosa com sua prole,  uma irmã e amiga muito presente.

Por tudo isso, queremos juntos desejar para ela o melhor e mais gostoso “FELIZ ANIVERSÁRIO, FELIZ CINQUENTA ANOS!”

Autor José Maria Cavalcanti

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