Luar do Sertão

Homenagem a Catulo

As fases da lua sempre serviram de referência temporal para a humanidade. Ela é responsável pelas marés e é fundamental na agricultura, determinando quando plantar e o tempo certo de colher.

Ela também embriaga os enamorados e, dependendo da força da lua, nasce mais menino no sertão.

Se o sol reina de dia, à noite é a lua que se destaca, toda faceira, principalmente em céu estrelado.

E este astro que prateia as noites escuras é que inspirou a alma poética de Catulo da Paixão Cearense para compor LUAR DO SERTÃO, em parceria com João Pernambuco.

Esta música é, sem dúvida, a toada mais doce da música sertaneja e é uma das obras mais regravadas de todos os tempos.

Cantora Simone e Amigos

Luar do Sertão – Letra de Catulo e Melodia de João Pernambuco

Ai que saudade do luar da minha terra
Lá na serra branquejando
Folhas secas pelo chão
Este luar cá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade
Do luar lá do sertão
Não há, oh gente, oh não
Luar como este do sertão
Não há, oh gente, oh não
Luar como este do sertão
Quando estamos distantes do sertão, podemos até não querer lembrar da seca e outras amarguras, mas o luar é inesquecível. Gente, não tem lugar no mundo onde a noite se vista tão bonita. Aquele lindo clarão parece incendiar a escuridão, ao surgir por trás da serra pra arrebatar, num repente, nossa atenção.
E quem disse que alguém consegue desgrudar os olhos da feiticeira da noite. Parece que tudo para, os bichos da noite se recolhem mais cedo, os pássaros não gorjeião e até o pirilampo se inibe com tamanho resplendor.
Ela primeiramente nos envolve, fazendo chaqualhar tudo que é emoção. Num pequena fração de tempo, faz transbordar pelo canto dos olhos aquilo que está represado no coração.
Acho mesmo que isto acontece porque ela nos torna transparentes, iluminando o porão escuro da saudade, assim como as folhas secas e gravetos do chão.        
Se a lua nasce por detrás da verde mata
Mais parece um sol de prata
Prateando a solidão
A gente pega na viola que ponteia
E a canção é a lua cheia
A nos nascer no coração
Ela nos embriaga com tamanha beleza de seus raios prateados.
Ao surgir por trás das verdes matas, ela parece se agigantar, banhando tudo com seu iluminar.
Movido pela inspiração, a viola se faz companheira para pontear uma bela cantiga que fala forte ao coração.
Coisa mais bela neste mundo não existe
Do que ouvir-se um galo triste
No sertão, se faz luar
Parece até que a alma da lua é que descanta
Escondida na garganta
Desse galo a soluçar 
Pela noite, o galo emite seu inconfundível canto. Muitas vezes mais parece um canto triste, destes que desatam do peito, quando o amor abandona o amante à solidão.
Não é canto de alegria, é de sofrimento e dor, que até faz soluçar o mais forte homem sertanejo. 
Ai, quem me dera que eu morresse lá na serra
Abraçado à minha terra
E dormindo de uma vez
Ser enterrado numa grota pequenina
Onde à tarde a sururina
Chora a sua viuvez
E quem quer morrer longe de sua terra… Cada um deseja ser enterrado no seu cantinho, onde existe uma relação não só física com o lugar, mas algo muito mais que sentimental.
Não é à toa que apenas a sururina solitária emite aquele som melódico, lamento triste e trêmulo pela calada da noite.
Ela é um pouco como a gente, que não pode sufocar o pranto.
Também pudera, diante do mais lindo cenário celestial, qualquer um se enebria.
É puro deleite, show da natureza para nosso contemplar.

Autor José Maria Cavalcanti

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