Natal de Contos

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JUNTOS PARA SEMPRE

Era noite sem lua, e os cães uivavam de forma ensurdecedora, talvez pressentindo algo de ruim.

Entre as tumbas do velho e assustador Cemitério das Rocas, algo se movia.

A luz pálida que vinha da rua se projetava por sobre as lápides encardidas.

O vulto levitava sem se importar com a chuva fina que insistia em cair sobre os jazigos cheios de folhas e poeira.

Aquele ambiente assustador causava arrepio até em bom cristão.

Um transeunte, que lançara um olhar furtivo pelas grades enferrujadas do portão, presenciara aquela cena macabra.

Com o susto, ficara ali paralisado, tremendo dos pés à cabeça.

Depois de um tempo, já recuperado, encarregara-se de espalhar o pavor que sentira ao passar por ali.

Ele era mais um testemunho ocular da já famosa lenda urbana da Natal de 1912.

Era sabido que a mulher de branco, acompanhada de uma rasga-mortalha, saía de sua morada eterna para apavorar as pessoas de bem da capital potiguar.

Quando isto se dava, às vezes levava alguém a óbito. Isto era logo sabido, pois na manhã seguinte mais um corpo seria velado e uma missa seria pedida ao padre Antônio para a encomenda do corpo.

Por sorte, a noite se foi, e o sol da matina anunciava novo dia.

Indiferente aos falatórios e crendices dos populares, o professor Cipriano seguia seu ritual de cada manhã. Caminhava até a pracinha da Ribeira, somente para ter o prazer de tomar o bonde elétrico, uma novidade na cidade. Adorava retornar, à janela da máquina, para a parte alta urbana, indo direto ao Grande Ponto. Ali fazia seu desjejum, observando outros intelectuais e depois comprava na banca de revistas um exemplar do A República – que na opinião dele era o melhor jornal do Rio Grande do Norte.

Do café tradicional, ele voltava a pé, deslocando-se em direção ao casarão que abrigava muitos estudantes.  Morava ali pertinho e, de quando em vez, era saudado por um dos alunos, quando não interrompido para a retirada de alguma dúvida.

Na verdade ele se expunha, deixando-se abordar, pois aquele assédio lhe dava uma grande satisfação.

Vivia solitário, apenas com a companhia de Catarino, seu papagaio falante, comprado na feira de mangaio do Alecrim.

Uma senhora, de idade avançada, cuidava da sua casa e da sua alimentação, mas não dormia no mesmo teto. Cipriano, pelo serviço de muitos anos, havia comprado uma casinha pra sua serviçal, mas ela insistia em continuar trabalhando, mesmo que a artrose já a incomodasse bastante.

Pouco se sabia do passado do mestre mais antigo do tradicional Colégio Atheneu.

O que se comentava, à boca pequena, é que ele há muito havia se fechado para o amor, desde o dia em que sua amada o abandonara, fugindo da cidade, sem qualquer explicação ou ao menos uma carta de despedida. Aquela desilusão acabara com ele, prometendo nunca mais se apaixonar.

Muito tempo havia passado, e já não era hora de se pensar mais naquilo.

Tudo ia bem até aquela noite, quando ele retornava do Teatro Carlos Gomes, no bairro da Ribeira. Ele acabara de ver a peça a Princesa dos Dólares, de Leo Fall, encenada pela Gran-Campañía Española de Zarzuela, Ópera y Opereta Pablo López.

Era o dia 19 de julho de 1912, dia da reinauguração do teatro.

Aquela noite cultural de sexta-feira havia sido especial. Tanto que não se importava de voltar caminhando para o centro, já que perdera o último bonde.

Não havia perigo pelas ruas, e a brisa fresca era um incentivo a mais.

Pelo caminho, enquanto andava, sua cabeça ainda estava envolta com as belas imagens proporcionadas pelos artistas.

Sem que se desse conta, o professor logo foi alcançado por uma bela e jovem dama, que lhe pediu companhia.

– O que uma mulher tão linda faz sozinha, sem o acompanhamento de um cavalheiro?

– Perdi a paciência na fila de espera por um carro de praça. Aguardava por alguém confiável. Assim que o vi, pensei que seria uma oportunidade para conhecer uma boa pessoa, depois de assistir a incrível apresentação desta noite em nosso lindo teatro, o grande legado da gestão de Alberto Maranhão.

– Obrigado pela parte que me toca. Confesso também que ainda estou encantado com tanta beleza, que coroou com luxo o trabalho do governador.

Antes das perguntas protocolares sobre a origem da moça ou a qual família pertencia, começaram uma gostosa conversação sobre a beleza arquitetônica do prédio do teatro e enveredaram por outros temas interessantes.

Não tardou muito para a moça demonstrar todo seu conhecimento sobre dança, música e sobre o balé. Falaram de literatura, dos autores franceses e portugueses, o que envolveu mais ainda a cabeça do professor com tanta cultura.

A subida pela antiga Rua do Aterro nem foi sentida.

Cipriano não sabia exatamente o que estava ocorrendo, mas aquela mulher estava abrindo seus espaços interiores, coisa que ele achou não ser mais provável de acontecer.

Embriagado por tanto charme e beleza, sentiu-se jovem, o que despertou nele um ímpeto há muito adormecido.

– Ainda nem sei seu nome, mas isto não impede de você tomar um café comigo, pois que se avizinha minha casa.

Até ele mesmo se surpreendeu com aquele convite, já que nenhuma mulher havia entrado em sua residência, depois da meia-noite.

Enquanto percebia a ansiedade do seu interlocutor, ela sorriu, deixando antever seus olhos misteriosos que brilhavam sob um clarão de luz.

Aquela mirada penetrante fez com que Cipriano fizesse uma viagem no tempo, para um passado bem remoto. O transe hipnótico fizera parecer aquela espera interminável.

A voz sensual rompeu o silêncio:

– Encantada, me chamo Nina!

Ele beijou carinhosamente sua mão e, sem perda de tempo, tornou a conduzi-la pelo braço por uma ruela que abreviava os passos até seu portão.

Nina se deixou levar pelo elegância e educação do cavalheiro.

Ao entrar na residência, Cipriano conduziu a convidada até a sala. Pediu para pendurar seu chapéu, apontando a principal poltrona para que ela ficasse mais cômoda.

– Nina, me aguarde aqui, pois irei à cozinha para fazer nosso café.

Ela novamente sorriu, ao mesmo tempo em que retirava sua echarpe de chiffon com franjinhas.

Cipriano foi em direção ao fogão, encontrando Catarino um tanto agitado e nervoso, algo incomum na conduta do seu velho companheiro.

– Perigo, perigo! Proseava o papagaio com sua costumeira fala.

Cipriano riu e disse pra ele:

– Não é a desastrada da Dolores, estou com uma amiga!

Para deixá-lo mais tranquilo,  levou o amigo para o pátio externo.

Ao retornar, deu de cara com Nina, que parecia estar mais à vontade, deixando seu decote à mostra.

Ao ver sua visitante insinuante e provocativa, Cipriano acendeu seu ânimo.

Largou o fósforo e esqueceu o café, atirando-se de forma atrevida para Nina.

Ela não pôs freio naquela investida. Pelo contrário, foi se livrando das peças da endumentária dele e dela.

Enlaçados, foram direto para a alcova, deixando que aquele fogo devorador incendiasse seus corpos.

Como se fora ainda jovem, Cipriano se mostrava viril, correspondendo aos desejos da linda mulher.

Depois de uma hora, o professor estava quase esgotado, mas Nina seguia exigindo mais.

Ele, para não fazer feio, deu um último gás, mas não resistiu, desfalecendo sem forças.

O corpo tombou para o lado, e o coração já não batia.

Nina acariciou seus cabelos grisalhos e sorriu feliz, vendo no rosto do morto uma linda expressão de felicidade.

Na manhã seguinte, o galo despertou Catarino, que dormira ao relento. Dona Dolores, ao girar a chave, já pôde escutar a fala do papagaio. Ela chegara mais cedo para o serviço da casa e preparo do almoço, já que o professor sempre a dispensava de fazer o café da manhã.

Como mandava o costume, tratou de abrir as janelas, retirando as tramelas de cada uma delas.

Ao chegar ao quarto principal, deu de cara com aquela cena inusitada.

Ela viu o patrão estirado sobre a cama, vestido de terno, acompanhado de uma mulher vestida de noiva, com véu e grinalda.

Ao se aproximar dos dois, verificou que ambos estavam mortos.

O pavor tomou conta do rosto de Dolores. Aos prantos, levou as mãos ao rosto e gritou pelos corredores da casa.

A vizinhança não demorou muito para acudi-la.

Depois de pouco tempo, o delegado, o padre e o coveiro já haviam sido avisados.

Difícil era identificar quem era aquela mulher ao lado do conhecido professor.

Padre Antônio garantiu que ela não era uma de suas ovelhas. O delegado chamou seus auxiliares para indagar pelas ruas e bairros.

Tudo foi em vão. A solução de comum acordo era enterrar os dois juntos, já que pareciam tão felizes na cena final de suas vidas.

Curiosos fizeram uma fila enorme no velório, todos queriam tentar identificar a mulher de branco.

Na tarde do dia seguinte, o Cemitério das Rocas aguardava pelo enterro do casal. Fizeram-se presentes à cerimônia amigos, alunos, autoridades e até o governador Alberto Maranhão.

No exato momento em que o Padre Antônio fazia o sermão para encomendar aquelas almas a Deus, um estranho homem interrompeu as citações bíblicas para fazer uma estranha confissão:

– Senhor Delegado – a voz saía um tanto embargada -, esta mulher sem nome que vocês vão enterrar é Juvina Florêncio. Eu a matei de forma covarde, há 40 anos, depois de violentá-la, afogando-a em seguida nas águas do Potengi. Fiz isso para me vingar de Cipriano, meu desafeto de juventude, justo no dia do casamento deles.

– Após o desaparecimento do corpo, eu mesmo pedi para espalhar a notícia que Juvina se fora da cidade com um desconhecido, deixando o noivo em prantos na porta da igreja.

Aquela revelação de última hora chocou a cidade novamente. O delegado estava perplexo, pois em seus muitos anos de profissão, nenhum assassino havia se entregado, principalmente por não haver contra ele qualquer acusação por um crime tão bárbaro.

O delegado não esperou fechar o caixão, logo retirou o homem que havia feito a trágica confissão.

Alguns populares, que relacionaram Juvina com as aparições do vulto da famosa mulher de branco, sabiam que agora a cidade poderia dormir em paz.

O assassino, ao ser levado para a delegacia, deixou transparecer no seu rosto uma cara de alívio com a prisão, pois finalmente estava retirando dos ombros o peso carregado por quatro décadas.

Já o casal – Cipriano e Juvina – ficou, a partir dali, juntos para sempre, com as bênçãos do padre.

 Autor – José Maria Cavalcanti

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