Milagre

amizades

ESPERANÇA

“Depois da calmaria, vem a tempestade”. Pensou isto porque a vidinha que levava com a família era boa demais pra ser verdade.

Este dito coube certinho no exato momento em que Juvêncio soube que estava perdendo sua vista.

Frente ao seu desespero, o médico disse que havia uma cirurgia no Hospital Sírio Libanês, coisa um tanto experimental, mas que poderia ser a solução.

Ficou muito animado até ouvir o valor que iriam cobrar dele.

Ao escutar a cifra, só teve uma reação:

– Doutor, quinze mil cruzeiros! Isso é uma fortuna!

– Juvêncio, tenha calma! – Disse o médico.

Saiu dali enfurecido, xingando Deus e o mundo. Pensou: “Como o meu Deus foi permitir que uma tormenta dessas desabasse sobre mim?”.

Bateu pernas por muitas partes do bairro até que se cansou de tanto pensar no problema.

Recordou do sofrimento do pai dele, que sofrera toda a vida com o mesmo mal.

Enquanto se dirigia ao aconchego do seu lar, decidiu dividir seu sofrimento com a família.

Escolheu a hora do jantar por considerar um momento perfeito, pois que também os filhos estariam juntos.

Veio a noite, e logo o jantar foi servido por Neli, sua esposa.

Leo, o único varão, não esperou sua mãe se sentar, começando a comer seu primeiro bocado. Contava com quase dezoito anos e para tudo tinha pressa. Leda e Luciana, que eram gêmeas, eram mais comportadas à mesa.

Ele estava perturbando o pai para dar umas aulas de volante, pois queria tirar sua carteira de motorista.

O pai nunca havia deixado ninguém tocar no seu Fusquinha, mas agora muita coisa iria mudar na sua vida.

Embora estivesse muito ansioso para desatar a garganta, esperou o final da ceia.

Mesmo já tendo atenção dos demais, fez um breve intervalo, deixando transparecer seu pesar.

– Quero falar pra vocês algo muito importante que está martelando minha cabeça já há alguns dias.

Todos ficaram meio que chocados, visto que ele não era de falar muito, tampouco de problemas.

Um tanto cabisbaixo e com a voz embargada, começou a falar:

– Estou com um problema sério na vista. Cada dia vejo menos e sinto dores nas partes internas do globo ocular. É um mal degenerativo, vamos dizer assim. É um jeito mais simples de falar, assim poupo vocês dos termos médicos dos vários especialistas que já consultei. Doutor Cícero falou de um tratamento que é feito em São Paulo, mas que é muito caro e que está além de nossas economias.

Leo sabia que a família tinha uma pequena poupança, graças ao que sobrava, todos os meses, da aposentaria por insalubridade de seu pai. Algo mais havia com o que arrecadava sua mãe com os pequenos reparos de costura, junto à clientela ali da Vila Quintão.

Juvêncio olhou para Neli, que não conseguia disfarçar seu choro. Ela podia sentir na própria carne o desespero do marido. Não demorou para ser confortada com os abraços dos filhos e do marido.

Neli se agarrou com fé ao crucifixo e começou o rezar o pai-nosso.

Juvêncio nada escutou no seu radiozinho de pilha, antes de pegar no sono.

Naquela noite foram dormir mais cedo, sem ligar a televisão.

Na manhã seguinte, Juvêncio se despertou mais cedo, admirado com as imagens que havia sonhado. Tudo havia sido tão verdadeiro que ele ainda podia rever cada cena.

Sonhou lavando seus olhos nas águas de uma das fontes do parque da cidade mineira de São Lourenço.

Na visão que teve, estava diante de Nossa Senhora dos Milagres, no meio da gruta. Ela dizia para ele banhar os olhos por sete dias.

Entusiasmado e um tanto eufórico, acordou sua esposa e reportou tudo para ela.

– Querido – disse ela -, o que estamos esperando? Vamos pra São Lourenço!

– Querida, o problema é que não me sinto seguro para dirigir. Eu já deveria ter ensinado para o Leo…

– Juvêncio, eu não queria falar isso, mas, com esse seu zelo exagerado com o carro… Deu um tempinho e seguiu falando. O Leo já vem saindo com o carro sem sua autorização.

Neli ficou feliz com aquela confissão, já não aguentava esconder isso de Juvêncio. Só não sabia qual seria sua reação.

– Sério?! Que bom, assim não terei que contratar ninguém ou ir de ônibus. Vamos todos juntos. Neli ficou chocada com a reação e aliviada ao mesmo tempo.

– Mas, e o guarda rodoviário?

– É um risco que temos que correr por uma boa causa.

Quando foram informar para o Leo, foi aquela alegria. Ele ficou feliz da vida porque iria dirigir todo o tempo o carro do pai por quase 250 quilômetros para ir e outro tanto para voltar, além da aventura de arriscar ser descoberto pelo policial na estrada.

Juvêncio falou para ele não fazer a barba, assim pareceria mais velho. Além disso, pediu para se vestir mais formal, dando uma maior seriedade no visual.

Neli deixou as meninas com sua irmã, que morava não muito longe dali. Queria deixar o carro mais leve e ter espaço para a mala no banco de trás. Por conhecer bem Juvêncio, sabia que o capô estaria tomado com o estepe, macaco grande, ferramentas e reparos.

As malas logo ficaram prontas, e o passeio tinha hora, minuto e segundo para a largada.

Como não estavam na estação das chuvas, saíram de Mangaratiba cedo, seguindo pela Serra do Piloto.

O Fusquinha aguentou bem a subida e, depois de descerem o trecho da Serra do Mar, chegaram à Baixada Fluminense, na cidade de Barra Mansa.

Dali eles pegaram a Rodovia Dutra até a BR 354, que iria levá-los em direção a São Lourenço, passando antes por Pouso Alto.

O tempo de viagem não condizia com a quilometragem rodada, de acordo com os cálculos feitos antes da partida. Eles não desconfiavam que fossem gastar tanto tempo nas curvas das estradas de serra.

– Subida é sempre lenta, ainda mais com o perigo de vir um maluco fechando demais – disse Juvêncio antes de uma curva mais perigosa.

O lindo visual da região serrana dos dois estados havia compensado toda a lentidão.

Já pertinho da chegada, a bela paisagem de bosques e montanhas da Serra da Mantiqueira enchia os olhos de todos.

Estavam entrando no perímetro urbano de uma das mais conhecidas cidades do Circuito das Águas de Minas Gerais. Uma região belíssima no Vale do Rio Verde. Dali de cima eles já podiam vislumbrar o visual urbano, o teleférico e a Maria Fumaça – algumas de suas atrações.

Leo estava radiante de ter feito todo o percurso sem cometer qualquer imprudência, tomando as maiores precauções, pois não queria dar vexame diante dos pais, já que ele queria que eles pagassem as despesas para tirar a carteira de motorista.

Depois de já alojados nas imediações do parque, era hora de começar a peregrinação dos sete dias.

Juvêncio, ao se pôr a caminho da entrada principal, deu-se conta que uma linda cachorrinha, de cor negra, o acompanhava toda serelepe. Ele sorriu pra ela e lhe deu um carinho. Pronto, aquilo fora o suficiente para prolongar aquela simpática companhia.

Juvêncio adentrou o parque, que estava cheio de pessoas passeando ou fazendo exercícios no final da tarde.

Dirigiu-se à gruta, fez suas orações e buscou a fonte indicada no sonho. Ali lavou seus olhos ao chegar e, ao sair, repetiu o procedimento, talvez para ter certeza de estar fazendo a coisa certa.

Ao regressar, percebeu que a cachorrinha estava sentadinha, aguardando-o quietinha.

Ficou admirado com aquilo, principalmente naquele vaivém de pessoas.

Ao vê-lo, ela se ergueu rapidamente e deu um latido de boas-vindas.

De volta ao hotel, Juvêncio, na pressa, esqueceu de contar da companhia canina, pois havia prometido que sairia com a esposa e filho para fazer um passeio pela cidade.

Passearam de charrete e foram conhecer a Feira de Lã e Linha. Provaram as delícias dos queijos, doces e licores mineiros.

Do segundo ao quinto dia, repetiu-se o mesmo ritual de idas e vindas à fonte indicada pela santa.

Naquela mesma noite, Juvêncio finalmente contou para Neli o estranho fenômeno que estava ocorrendo: a presença e companhia constante da amiguinha Esperança, nome que ele só vira depois na coleira da pequena e doce vira-lata.

– Juvêncio, eu nunca desconfiei de sua palavra, mas esta história eu quero ver de perto – disse a mulher.

– Pois é só me seguir amanhã que você terá a confirmação.

No dia seguinte, como combinado, Neli estava pronta para ir ao parque com Juvêncio.

Para surpresa dele, a cachorrinha moleca não estava lá.

Neli riu e disse que não havia problema, deixando escapar sua incredulidade no seu modo de falar e rir.

Juvêncio, ainda decepcionado, tratou de seguir sua caminhada, pois faltava pouco para se cumprir seu propósito.

Sem que Juvêncio percebesse, Neli saiu para o outro lado, com uma meta determinada.

Como era seu costume, saiu para uma caminhada antes do jantar.

Leo contou que tinha gostado do passeio que fizera no teleférico, e Neli havia comprada um cachecol muito lindo.

No sétimo dia, Juvêncio cumpriu seu último compromisso, e todos estavam ansiosos para regressar para o Rio de Janeiro.

Já haviam fechado a conta, e as malas estavam acomodadas no carro.

Nisso, eles escutam alguém procurar pela senhora Anélia Lopes.

Todos se viraram na direção daquela voz. Era muito esquisito para Leo escutar o nome completo de sua mãe.

– De que se trata? A pessoa que você procura é minha senhora.

– Senhor, o cambista deixou este aviso para ela.

Juvêncio não podia crer no que estava lendo. Ali estava escrito que Neli havia ganhado no Jogo do bicho.

– Neli, você fez algum jogo aqui?

– Sim, querido, não resisti e joguei nossas economias no cachorro, do primeiro ao quinto. Espero que tenha dado, pois era o dinheiro que eu estava juntando há muito tempo para dar de presente para o Leo, no aniversário dos dezoito anos.

– Meu Deus, deu 717 na cabeça e você ganhou 30.000,00 trinta mil cruzeiros!

– Este é um verdadeiro milagre – disse Neli!

Agora não havia mais pressa de sair de São Lourenço.

Com os ânimos mais acalmados, saíram à busca da casa do bicheiro, que morava numa mansão numa fazenda, numa região afastada.

O pagamento foi feito de acordo com o que estava ajustado.

Era muito boa aquela sensação de ter tanto dinheiro em mãos.

Leo de pronto já falou:

– Pai, agora o senhor irá fazer sua cirurgia, a mamãe irá ganhar uma máquina de costura nova e eu quero tirar minha habilitação!

– Vamos voltar pra casa, filho, temos muitos planos pela frente – disse a mãe.

Antes da partida, Juvêncio tentara em vão achar a linda cachorrinha para adotá-la, mas ninguém dera notícia dela. Pelo contrária, nunca ninguém havia visto animal semelhante.

Leo tomou a direção e deu partida na máquina.

Queria acelerar um pouco mais para não pegar a serra na parte da noite, mas não queria abusar, pois sua conduta estava sendo avaliada.

Com cuidado, tocou em frente, acelerando no limite máximo de segurança.

Enquanto manejava, percebia um brilho diferente no olhar dos seus pais.

Tudo ia bem, mas, antes de o carro entrar na Dutra, um guarda surgiu do nada, fazendo um sinal para estacionar no acostamento.

Aquilo era tudo que eles não contavam.

Juvêncio em vão tentou trocar de lugar com o filho, mas o guarda foi mais rápido, não dando tempo para nada.

A vergonha de Juvêncio ficou estampada no seu rosto avermelhado.

– Boa tarde, senhores e senhora! Documentos, por favor, motorista!

Leo saiu do fusca, meio sem graça, entregando sua identidade.

O guarda, ao verificar o ano de nascimento, não pediu mais nada. Apenas indagou:

– O que faz uma família carioca por estes lados.

– Seu guarda – disse Neli -, isto é uma emergência. Meu marido está com um problema nos olhos, e meu filho teve que tomar a condução do carro para evitar que ele cometesse algum acidente.

– Entendo. E isso se deu na ida e na volta, senhora?

Neli sentiu que não deveria seguir com aquela mentira e contou a verdade.

– Senhor, meu filho já sabe dirigir e logo irá tirar a carteira. Ele trouxe o carro porque meu marido veio cumprir uma promessa em São Lourenço, e agora estamos de regresso.

– Muito bem, assim está melhor. Se ele fez todas estas horas e nada aconteceu, eu o classifico como um bom piloto.

– Parabéns, meu rapaz, mas da próxima vez não passe aqui de novo sem o documento de habilitação. Boa viagem e boa sorte para seu marido – disse o sorridente guarda.

– Obrigado, seu guarda! Disseram todos a uma só voz.

Leo retomou a estrada e deixaram pra rir mais na frente. Foram muitos risos e gargalhadas de alívio.

O restante do percurso se deu na maior tranquilidade, embora não tenham escapado de pegar o finzinho da estrada na parte noturna.

Foram dormir satisfeitos com a missão cumprida.

Aquela ida a São Lourenço fora positiva em todos os sentidos. Leo fizera o que mais gostava: dirigir na estrada; Neli havia saído de sua rotina de muitos anos; e Juvêncio estava com o dinheiro para fazer sua cirurgia e pagar outras despesas com a hospitalização.

No dia seguinte pela manhã, Juvêncio se despertou com um grito:

– Meu Deus, já não tenho nada, Neli! Estou curado!

– Como assim?

– Antes eu sentia a vista dolorida, e as imagens ficavam todas embaçadas, agora tudo está perfeito!

– Puxa, como Deus é bom! Disse Neli, abraçando o marido.

Ficaram enlaçados um bom tempo, sorriram e choraram juntos de tanta emoção.

Aquele dia passou a ser o mais feliz da vida de Juvêncio, pois recuperara algo que cria ter perdido para sempre.

Autor – José Maria Cavalcanti

Anúncios