História de Natal

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REGRESSO DE NATAL

Ela colocava os últimos enfeites para aquela noite do Natal.

Já estava bem vestida, tendo escolhido sua melhor roupa.

A confiança era grande, algo lhe dizia que mais uma vez iria ganhar o concurso do jardim mais bonito da cidade.

O povo, todo feliz, saía às ruas para apreciar as decorações para depois, nas urnas, dar o voto. Na noite do dia 25, era anunciado o vencedor, e todos à porta rendiam festas.

Aquele período do ano era muito aguardado.

Por ser sozinha, isto passou a ser a razão do viver de Irene.

Enquanto ela fazia alguns caprichos inovadores, de repente, escutou o arrastar do velho portão de ferro, indicando a chegada de alguém.

Parou de prender a última bola colorida, ergueu a cabeça e, com uma sensação estranha, procurou ver quem se aproximava.

O cérebro rapidamente processou o que os olhos se cansaram de esperar ver outra vez.

O rapaz parecia aguardar aquela reação e deu um tempo, diante daquela pequenina senhora, já idosa, que ficou estática entre as rosas, quase totalmente paralisada.

Depois de algum tempo, conseguiu se mover e arrastou lentamente seus passos em direção ao visitante.

Sem pedir autorização, ele foi se achegando.

Quanto mais ela diminuía a distância, mais incrédula se sentia.

Caminhava como podia, numa aproximação lenta.

Bem pertinho, nem precisou limpar as lentes para reconhecer aquele rosto que tanto ansiava ver.

Não resistiu em levar suas pequeninas mãos para acariciar aquele rosto querido.

Queria tocar sua pele, abraçar seu corpo e sentir aquele calor humano, cujo cheiro nunca abandonara suas narinas.

Finalmente conseguiu falar:

– Meu filho! Disse com dificuldade.

Ele nem falou nada, apenas abriu um belo sorriso. Os dois ficaram abraçados por longo tempo. Choraram, sorriram e tornaram a se abraçar.

Recuperados da forte emoção, André, delicadamente, conduziu sua mãe para dentro de casa.

Era bom estar ali, voltar àquele aconchego materno, do qual sentira tanta falta naqueles muitos anos.

Enquanto André foi matar a saudade do seu quarto, Irene foi depressa dar o andamento final nas comidas da pequenina ceia, coisa que nunca dispensava. Para ela, o Natal seria sem graça sem uma mesa bem posta.

Logo, os cheiros da cozinha invadiram a sala. E chegou até o quarto. André se deu conta que aquele era seu prato favorito.

A mesa já estava quase pronta, e aquela segunda cadeira, naquela noite, finalmente voltaria a ser ocupada.

Irene ria à toa de tanta felicidade ao ver aquela cena do filho em casa.

Arrumou tudo e ocupou também seu lugar.

Abriram o melhor vinho da adega e brindaram por aquele querido encontro.

Comeram, relembraram de muitos momentos felizes juntos, desde a infância. Aproveitaram para falar de Olavo, que há algum tempo havia partido, deixando-a viúva.

– Filho, ele amava tanto você que me fez prometer que nunca venderia o carro. Até hoje está na garagem esperando a sua volta.

Naquele momento, André não fez força para prender as lágrimas.

Enquanto se recuperava, Irene trouxe a última foto dela com o marido, tirada no canteiro.

André curtiu a beleza daquela parceria dos pais, que durou toda uma vida.

Depois foram até a árvore, pois Irene tinha um presente para o filho. O papel e a fita estava amarelados de tanto esperar.

– Filho, isto é pra você!

André abriu o presente. Era um álbum de fotografias.

– Juntei as fotos de família com as que seus amigos haviam tirado com você, durante toda sua vida.

André começou a folhear, e seus olhos marejavam com cada momento revivido.

Irene nem desconfiava que, naquelas sementes de saudades, o filho fosse colher tantas alegrias.

Quando chegou à cena do açude, Irene fez questão de explicar aquele último banho com os amigos.

Daquele fatídico dia para cá, ela nunca aceitou seu desaparecimento, da forma que fora reportada nas manchetes dos jornais.

André explicou para ela que batera a cabeça em uma pedra, e a correnteza o havia puxado para muito longe, até que seu corpo se prendeu em muitos galhos submersos de uma árvore caída. Por isso, nunca fora encontrado.

Aqueles esclarecimentos trouxeram alívio e conforto para as angústias da mãe.

Dissipadas todas as dúvidas, Irene estava finalmente em paz.

Na noite seguinte, já se sabia quem venceu o concurso, e todos saíram para comemorar com Irene.

Depois dos insistentes toques na companhia, as velhas amigas da comissão estranharam a falta de atendimento, por saber que Irene raramente se ausentava de casa.

Pela vidraça, via-se que a casa continuava acesa, luzes piscavam e havia bonequinhos de Papai Noel pra todo lado.

Forçaram a porta até que ela se abriu. Lá dentro encontraram Irene sem vida, com um sorriso lindo nos lábios.

Todos lamentaram. Sabiam que uma hora aconteceria, mas não sem saber que seu jardim havia sido escolhido como o mais belo de todos.

Eles nem desconfiavam que, daquela vez, ganhar o concurso ficara em segundo plano. O regresso do seu filho fora seu melhor presente.

Como uma criança sonhadora, aquele havia sido o único pedido feito a Papai Noel durante todos aqueles anos de ausência.

Autor – José Maria Cavalcanti

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