Naldinho e Lurdinha

 

 

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O PODER DA DAMA

 

A praça passou a ser um local prazeroso para a prática do xadrez nos fins de semana com os amigos. Além de se exercitar, Naldinho via como uma excelente forma de divulgação do esporte, já que aquele ponto de encontro público era uma espécie de vitrine da vila.

Ele também ficava mais tranquilo, porque dali tinha contato visual com Lurdinha, que, sabedora que aquela diversão fazia seu amado se perder no tempo, dava sinais sobre a hora do almoço ou do jantar, dependendo da ocasião.

Um belo dia, ela se deu conta da presença de uma bela mulata, com um corpo escultural, que chamava a atenção de todos que passeavam por ali.

Quando ela viu que ela lançava olhares na direção dos aficionados enxadristas, logo lhe veio a ideia de sair, aproveitando que o dia era convidativo para dar um passeio no Parque da Cidade.

Naldinho, ao receber a mensagem de Lurdinha, não se demorou, recolheu as peças e relógio e saíram para desfrutar daquele dia.

À medida que o tempo passava, a bela garota se tornou assídua no pedaço, e Lurdinha sempre achava um motivo para uma escapada, evitando que a mulher desse em cima do seu Naldinho.

Ela já havia comentado a situação com outras amigas vizinhas, que concordaram que uma mulher daquelas era realmente um grande perigo, pois que ficava dando mole com suas roupas provocativas.

E as amigas, para colocar fogo no circo, disseram:

– Pior é que disseram que ela tem uns olhos verdes de fechar o trânsito.

– E o sorriso… – disse a outra – … parece com o da garota que faz propaganda de creme dental na TV.

Aqueles comentários foram suficientes para Lurdinha ficar mais vigilante.

Certa feita, Lurdinha percebeu que a garota já estava zanzando na área, e logo escutou a voz do marido:

– Querida, vou descer para jogar com os amigos.

– Qual é, Naldinho, nem um dos seus amigos chegou, o que você vai fazer por lá?

– Amor, o Juca falou que chegaria mais cedo e, caso ele se atrase, levo um livro para passar o tempo.

– Sei… – resmungou Lurdinha, desconfiada daquele apuro de Naldinho para descer.

Mal terminou de falar, ele começou a se trocar, pois estava calor e queria se vestir mais à vontade.

Vinte minutos depois, já estava com a bolsa com o material de jogo, livros e até planilhas, para o caso de algum jogador ter vontade de apontar os lances.

Lurdinha nada disse, apenas acompanhava com os olhos aqueles movimentos rápidos, tentando ler algo suspeito.

Ela nada pôde fazer, pois tinha que controlar seus ciúmes (aquilo já havia sido motivo de muitas desinteligências entre eles). Irritada, não quis acompanhar a ida do marido até o banquinho da praça.

Quando ela se acalmou um pouco mais, foi se certificar se estava tudo sob controle, mas não avistou Naldinho, tampouco a linda criatura.

Desesperada, pôs urgente uma roupa e desceu correndo, sem sequer esperar o elevador.

Procurou pelo marido em todos os recantos da praça e até perguntou para alguns transeuntes se havia visto alguém jogando xadrez. Recebeu um não como resposta a todas suas indagações.

Cansada com a busca, resolveu voltar para casa, encafifando mil e uma ideias na cabeça.

Uma hora depois, regressa Naldinho, na maior calma do mundo.

– Olhe aqui, onde foi que você se meteu? Acho que você tem muito a se explicar.

– O que houve, Lurdinha, eu estava com o Juca jogando xadrez.

– Naldinho, não vem não, essa não cola.

– Quem era aquela mulher que estava passeando para lá e para cá ao seu lado?

– Tô sabendo que vocês sumiram. Posso saber para onde?

– Lurdinha, não havia nenhuma mulher. O Juca recebeu finalmente suas lindas peças e queria testar seu novo relógio digital. Ele me convidou para um café na padaria e, lá mesmo, resolvemos testar o material.

Naldinho falava com tanta tranquilidade que convenceu de cara, desarmando o rosto irado de Lurdinha.

– Querida, o Juca foi embora, porque hoje tinha compromisso. Agora voltarei, pois os amigos já estão todos me chamando.

Dito isso, Naldinho desceu em seguida.

Cinco minutos depois, Lurdinha viu que a mulher havia voltado. E, por isso, resolveu vigiar de longe.

Ao chegar perto dos amigos, Naldinho foi logo retirando suas peças para colocá-las na disposição sobre o tabuleiro.

Aí ele se deu conta que faltava a Dama branca. Aquilo nunca havia acontecido, por isso checou novamente todos os compartimentos da bolsa.

Nesta busca, encontrou um bilhete:

– Naldinho, cada jogador só tem uma dama à disposição. A sua é branca, estamos entendidos? Sem ela, não há jogo!

Naquele mesmo instante, Naldinho percebeu a razão daquilo ao juntar a mensagem de Lurdinha com o que tinha ocorrido, após seu encontro com o Juca.

Nisso, um alvoroço se deu entre os homens. Aquela escultura negra esbanjava seu charme diante dos homens que apreciavam o jogo.

Finalmente os enxadristas levantaram a cabeça, e todos se deram conta dos muitos dotes da moça, inclusive Naldinho.

Mas, antes que ele pudesse apreciar um pouco mais o material, Lurdinha já havia descido e, coladinha a ele, veio fazer uma marcação de perto.

Diante da escultural dama negra, nada como outra dama para anular seu poder.

Autor – José Maria Cavalcanti

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