Manoel de Barros

 

 

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O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
MANOEL DE BARROS
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De repente aprendemos a amar esse adorado velhinho poeta que parecia estar escondido, assim como as pedras preciosas de sua terra. Com suas pérolas em forma de versos, ele nos leva a uma incursão pela alma, fazendo-nos “transver” à base de invencionices ou de um simples “botão do amanhecer”, pondo “alarmes em nossos silêncios”, levando-nos para o além da imaginação. Pelo conjunto de sua obra poética, repleta de neologismos, ele ficou conhecido como o “Guimarães Rosa da Poesia”.
Manoel de Barros ganhou muitos prêmios, sendo reconhecido internacionalmente. Tanto que Carlos Drummond de Andrade, na época, recusou o título de “o maior poeta vivo do Brasil” em função do talento cuiabano, tamanha era sua admiração pelo amigo poeta.
Nesta poesia, ele se revela como O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS.
Busco aqui uma pequena tradução desse “desver” poético de Manoel de Barros que, na minha ótica, faz um paralelo entre os valores da modernidade com as riquezas encontradas na tranquilidade da vida campesina.
Digo isso porque há citadinos que nunca abririam mão da correria e facilidades dos grandes centros em prol da vida no campo. Para muitos deles que respiram diariamente os gases tóxicos dos carros, viver no silêncio das montanhas é desperdiçar o tempo, é ver a vida passar.
Entretanto, Manoel de Barros valoriza aqui a proximidade com suas origens, a exuberante e excitante natureza. Ao contrário dos amantes da selva de concreto, ele gosta mesmo é do descortinar de horizontes, de escutar o som do silêncio, ouvir a revoada e canto dos pássaros, de escutar o coaxar dos sapos e de expiar nados sincronizados de peixinhos em águas límpidas. O velho poeta gosta mesmo do campo, ele ama as noites enluaradas, o nascer do sol, o ar puro e os bichos do mato, os insetos e outros seres voadores. Como amante da natureza, ele se deleita mais com o voo das libélulas que de um avião. Na sua vidinha tranquila, ele não tem pressa de nada porque tudo ali se dá noutro ritmo, sem o tic-tac do relógio, quase a passo de tartaruga, não como na cidade grande, com seus estresses e sua celeridade ilimitada.
Acostumado a brincar com a palavra, que é sempre viva, ele se incomoda com o uso dela de forma indiscriminada, sem criatividade, que, para ele, são palavras sem tempero “fatigadas de informar”.
Para sobreviver na cidade, você precisa estar bem informado e, para isso, o cidadão necessita de inúmeros equipamentos tecnológicos para se manter atualizado, senão, na guerra de poder, será ultrapassado.
Hoje muito se fala da força e importância da informação como o quarto poder. E esse poder é nada sem a palavra, que é o que alimenta essa máquina esfomeada que se presta a informar, em tempo real, quase tudo, principalmente aquilo que mais vende. Sim porque a informação é um produto de consumo e tem alvos específicos indicados por seus patrocinadores.
Hoje o homem é qualificado não por seus valores morais, mas pela quantidade de informação que possui, por isso faz uso de todas as mídias que a tecnologia dispõe para se manter na luta com os concorrentes.
O poeta faz uma crítica a essa indústria que desgasta a maior ferramenta de interação humana. Ele diz “palavras fatigadas de informar” mesmices, não as belezas naturais, mas politicagens, cenas de violências, produções sexuais vazias ou outras idiotices.
Manoel de Barros não trata a palavra com banalidade, ele é zeloso com ela. Para ele, ela só deveria ser usada para traduzir sentimentos puros. Por isso, ele só faz uso da palavra para compor o indizível, aquilo que cala na alma, na completa exatidão do silêncio.
Ele conclui esta delícia poética nos dizendo que só é feliz realmente aqueles que vivem em contato com a natureza, escutando os melodiosos sons dos passarinhos que povoam o maior quintal do mundo.
Os poetas têm essa liberdade de dizer o que querem, mas será que Manoel de Barros não tem um pouquinho de razão?
Autor JOSÉ MARIA CAVALCANTI

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