Contos

 

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Todos os contos desta página são de autoria de José Maria Cavalcanti, criador do Blog do Bollog.

UM MENINO ESPECIAL

O galo cantou mais cedo ou o sono estava mais leve.

Lena, ao despertar, esticou o olhar pela janela que ficara aberta para ver se entraria um ventinho. Percebeu que já havia alvorecido, e o sol despontava por detrás dos umbuzeiros. O clarão vinha lá das bandas do nascente, após a ribeira, onde ficava a casa do patrão.

Buscou o marido ao lado, mas se deu conta que ele já saíra para a lida. Sabia que Tião teria um alqueire de terra por roçar e logo seria hora de levar seu café.

No outro canto do quadrado, Nel já estava aceso, com seus olhinhos brilhantes e azulados a mirar o entrelaçado das paredes de taipa, uma mescla de barro com varas, que fazia parte da composição de uma das laterais do quartinho.  O pequenino aproveitava o iluminar dos primeiros raios que invadiam pelas frestas dos caibros. Assim brincava com os dedinhos, subindo e descendo a parede, com se fossem pezinhos imaginários.

A mãe, toda carinhosa, sapecou um beijinho cheio de doçura nas bochechas do menino e saiu de mansinho para o aprisco, levando uma cuia grande nas mãos.

Puxou o tamborete pra perto de Dengosa, prendeu a cabra, que há poucos dias acabara de parir, e, após lhe dar um carinho, ordenhou lentamente, retirando um pouco de leite, deixando o filhote dela se servir logo depois.

Ao regressar, viu que Nel seguia na sua incursão, agora desbravando com seu cavalinho destemido o terreno irregular que tinha pela frente. Ali espaço e tempo não contavam, aquela era uma outra dimensão, onde só os corajosos podiam empreender tamanha aventura.

Quando de repente, ele percebeu que aquelas mãos gigantes tentavam agarrá-lo, tentou galopar o mais rápido que podia, mas não fora suficiente. Lena o tomou nos braços com um sorriso enorme.

– Vem cá, meu meninão!

Enquanto cantava, ela carinhosamente o tomava no colo, levando a mamadeira a sua boca. Os olhinhos ainda estavam presos na última cena da fuga, tentando espernear, e a boca de lábios cerrados parecia não ter fome.

Com muita insistência, Lena conseguia sempre um jeitinho de fazê-lo sugar o mingau. Completara cinco aninhos sem festas, até porque não havia amiguinhos ou porque viviam quase esquecidos ali, apenas com pouquíssimos contatos com seu velho e entristecido senhor, João Olinto, que enviuvara da sua saudosa Luzia.

Ao ouvir o fogo crepitando, pôs água no fogãozinho a lenha para passar o café. Verificou que ainda havia broa de milho e tratou de preparar um bornal pra levar comida pro marido.

Apertou o passo, contornando o milharal, assim chegaria depressa pra não deixar seu menino mais tempo sozinho.

Pelo caminho, lembrava da felicidade que tivera ao ganhar aquela vida que lhe fora confiada. Nos primeiros dois aninhos, tudo parecia bem, até que ele começou a esquecer tudo que já aprendera. Até mesmo a doce palavra “mamãe”, papai e muitas frases já não se escutava mais de sua boquinha. Um dia, sem mais nem menos, simplesmente não pronunciou mais nada.

Mas aquele infortúnio em nada mudou o seu modo de amar, pelo contrário, aumentou seu sentimento ainda mais. E não ligava muito por ele carecer de mais cuidados. Entre os afazeres domésticos ou depois que fazia e servia as comidas preferidas do patrão, ela sempre arranjava um tempinho para dar uma espiadela no seu pimpolho.

Quase sem fôlego de tanto andar, finalmente chegou à área prevista para seara, mas não achou Tião. Tomou susto e pensou no que poderia ter acontecido.

Não se permitia pensar besteira, mas a enxada, de ponta-cabeça, com o cabo amassando o chapéu de palha, era mau presságio, segundo aquilo que o próprio marido lhe dizia.

De pronto, uma pontada levou no coração, deixando cair tudo das mãos. Ajoelhada, chorou a dor do abandono, deixando que as lágrimas molhassem o terreno seco. Recolheu do solo o que pôde e voltou correndo pra casa.

Ainda aos prantos, agarrou-se ao seu filhinho, apertando-o mais que devia, esquecendo sua fragilidade.

No canto da sala, por trás da tábua que servia de divisória, a outra muda de roupa de Tião não estava pendurada, e a bota nova que lhe dera já ganhara chão. Ela já desconfiava porque ele andava muito quieto, não sabendo o motivo ou a razão.

Sentiu que a partir dali teria que ser mais forte e ergueu os olhos para o céu, talvez pedindo uma força extra ou para rogar perdão pelo ato impensado do marido.

Mesmo com a cabeça a mil, lembrou do almoço e acelerou em direção ao casarão. Não quis dividir aquele mau momento com ninguém, mas os olhos matreiros de Olinto, num acesso de sensibilidade e generosidade, perceberam logo a mudança naquele humor sempre risonho.

O patrão se fez ouvido ao acercar-se da pia da cozinha, e Lena se viu pressionada a reportar o inesperado abandono.

– Filha, disse ele, os homens mais novos são movidos por incertezas, coisas que não vêm do coração. Quiçá volte, depois que acabar o soldo do mês.

Dizendo isso, tomou Lena nos braços e a enlaçou como um pai faz com uma filha. Demorou-se um pouquinho e retomou a fala:

– De hoje em diante, você virá morar no quarto da minha filha Júlia, que quase nunca me visita. E trará o Nel pra viver conosco.

Lena não resistiu àquela maneira enternecida de falar e passaram a dividir os espaços da imensa casa. Almoçavam juntos, tendo o Nel sempre por perto, absorto em mundos paralelos. Para o menino não estar tão sozinho, havia ganhado o bonequinho de pano de Júlia, que passou a ser seu amiguinho. E o Saci ganhava vida só quando Olinto inventava falas para ele, dando asas a sua imaginação e prendendo a atenção do garotinho por um longo tempo.

Assim se passaram dois anos, e a casa parecia agora um lugar muito melhor, com novas energias.

Um belo dia, Olinto se sentiu saudoso e retomou a velha sanfona de oito foles, que era do seu pai, e começou a tocar Asa Branca no oitão da casa, sentado num banco de alvenaria.

Nel foi atraído pelo som e, mesmo calado, percebia-se que sua cabeça balançava lentamente, mesmo que fora de ritmo, e aquela melodia instigava sua mente e seus olhinhos carregavam um mundo impresso no olhar.

Aos poucos, outros temas musicais foram invadindo o ambiente da casa, dando lugar para mais alegria.

Num belo fim de semana, a filha de Olinto veio para visitá-lo, trazendo um namorado novo para conhecê-lo. Lena preparou um almoço inesquecível e todos se fartaram de tanto comer. E não faltou doce de leite e um cafezinho de bule para coroar as comilanças.

De repente, enquanto estavam distraídos e um pouco sonolentos, todos foram atraídos pelo som da pequena sanfona, que fora deixada sobre um banquinho de madeira envelhecida.

Era o Nel, que havia se postado frente ao instrumento e, de mãos trocadas, tocava com a mão esquerda o teclado e com a direita apertava os botões dos baixos.

E aquele som que saía um tanto impreciso ficou melhor quando Olinto o posicionou corretamente por detrás do acordeon e o ajudou a mexer com o fole.

Todos ficaram maravilhados ao saber que ele apenas ficava observando, enquanto Olinto tocava, mas nunca havia manuseado os oito foles, que era um velho xodó de família.

Mais animado com aquele progresso, Olinto se mostrou ainda mais disposto a ajudar Lena com a saúde do menino. Logo o levou para a capital e, descartando a possibilidade de demência ou retardo mental, foi diagnosticado que ele era autista e que sofrera atrofia dos músculos da fala, provocando uma disfunção que atrapalhava o processo da comunicação. Era justamente aquilo que prejudicava o relacionamento do menino com outras pessoas. Com o diagnóstico, passaram a lidar melhor com aquele ser diferente e cheio de mistério, que tinha um mundo a revelar.

Com Nel, Olinto ganhou vida nova. Arranjou um campesino para lidar com a lavoura e passou a ter mais tempo para se dedicar à música e ensinar o menino a tocar melhor o instrumento. Nel, por sua vez, passou a comer como nunca e estabelecia uma espécie de intercâmbio mental com aquele homem que compreendia bem o que era viver em constante solidão.

Júlia percebeu que o pai estava muito mudado e deixara seu lado ranzinza de lado, passando a visitá-lo mais vezes. Isto criou mais vínculo familiar, e todos passaram a conviver na fazenda com mais harmonia, transformando aquele pedacinho de terra, por entre as montanhas, num cantinho melhor, sem lugar para tristeza.

Autor José Maria Cavalcanti

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UM PRESENTE ESPECIAL PARA TORTA

 

Ganhar um presente para uma criança talvez seja uma das maiores experiências, e aquele cartãozinho anunciava um que se tornou o mais especial de todos que ganhei em minha vida.

Eu estava pertinho de completar doze anos e morava em Mangaratiba, no estado do Rio de Janeiro, uma gostosa cidade litorânea, depois de Angra dos Reis. Vivia com meus tios, juntamente com meu irmão do meio, pois o mais velho passara a morar na capital portenha, antes de completar dezoito anos.

Numa ocasião em que meu tio Pito viajara para a Argentina, a fim de rever a família e acertar alguns negócios, eu ficara aos cuidados de minha tia Vida, uma carioca da gema, que eu sentia nela o mesmo amor de mãe para filha. Aguardava ansiosa pelo retorno do meu tio, pois sabia que ele nunca regressava para casa sem trazer algum presentinho para mim.

Aquela forma carinhosa de nos tratar e o amor com que nos criavam eram tudo para nós, pois amenizava a grande lacuna deixada por nossa mãe. Depois de nove anos daquela fatalidade que sobreveio na nossa família, já não era tão difícil novamente ser feliz, principalmente porque voltamos para os braços das duas pessoas mais bondosas que conheci e que resolveram nos criar dali em diante, como se fôssemos filhos legítimos.

Tudo se deu porque minha mãe falecera subitamente em 1966, aos quarenta e cinco anos, deixando três filhos para serem criados. O irmão mais velho tinha doze anos, depois o do meio estava com quatro, e eu estava no meu terceiro ano de vida. Depois do infortúnio, nosso pai nunca mais foi o mesmo, por sentir muito a ausência daquela a quem mais amou.

Após a perda materna, segui com meu irmão mais novo para viver em Buenos Aires, na companhia de outros parentes. Permanecemos lá por seis anos, estudando no Colégio Gran Burg. Retornamos ao Brasil no início de 1973, prontos para dar sequência aos nossos estudos na escola, o que não representou uma dificuldade, porque sempre fomos bilíngues.

Até hoje recordo com carinho dos amigos de infância, da tia Almerinda e do Hotel Rio Branco, que era de propriedade dos meus tios. Relembro também do Grupo Escolar Coronel Moreira da Silva, do coreto da pracinha, da igreja matriz, onde fiz minha primeira comunhão, e os passeios na praia. Cresci escutando o apito do trem e vendo navios e iates passando perto das ilhas do belíssimo arquipélago, às margens das cidades de Muriqui, Mangaratiba e Angra.

Relembro-me que vivi aqueles momentos de espera de forma muito intensa. Sabia que naquela quinta-feira meu tio iria retornar de Buenos Aires, mas não dava para precisar o horário da chegada. A toda hora, eu saía até a calçada do hotel para ver se tio Pito estava chegando. Minha tia ria por me ver roer as unhas de tanta ansiedade. Segurava em minhas mãos aquele cartãozinho que eu havia recebido pelo correio, juntamente com a carta que viera para minha tia.

Eu estava bem agasalhada por causa do clima de inverno. A temperatura já estava mais fria naquele mês de maio, e eu já havia comido o último ovo de páscoa que havia ganhado daquela que até hoje considero minha mãe de coração. Ali perto estava a tia Almerinda, que era a responsável pela cozinha. Ela fazia de tudo para me agradar, assando bolos e me servindo com os doces que eu mais gostava. Era muito bom viver ali, mesmo vendo meu pai com um olhar perdido no horizonte, muito entristecido sem a sua amada Canto, vivendo em um dos quartos do hotel.

Quando já era noitinha, aquela longa espera tomava conta de mim. E depois de muita insistência da minha tia Vida, no intuito de me fazer jantar, finalmente ela percebeu um sorriso grande tomar conta do meu rosto, acendendo o brilho do meu olhar. Ela logo se deu conta que era seu querido Pito que acabara de chegar. Diante do hotel, encostou o táxi de seu Borges, trazendo meu tio, que vinha carregado de malas e de saudades.

Não me contive e corri para seus braços, e ele parou de retirar a bagagem do carro para retribuir meu carinho. Grudada no pescoço dele, fui carregada até a portaria do hotel, ganhando uma beijoca com o gosto doce dos alfajores de Buenos Aires.

Enquanto o taxista se encarregava com Almerinda de descarregar tudo, distribuindo malas e pacotes pela casa, meus tios se abraçavam e se beijavam para matar a solidão dos muitos dias de carência mútua. Eu esperava quietinha a hora de começar a desembrulhar cada um dos invólucros espalhados pela sala.

Meu tio começou a abrir os presentes, sendo interrompido de vez em quando para contar as novidades da família. Era tanta felicidade que até meu pai se alegrou com a algazarra que chegava pelos corredores dos quartos, atraindo-o para o centro da festa.

Era um tal de abrir presentes dos tios Coco, Mabel e Blanca para sua Vida e outros para meu pai e para meu irmão. Aquilo parecia uma eternidade. Parecia que o tio fazia de propósito, fingindo que não percebia o quanto eu me desesperava, aguardando a minha vez de ser presenteada. De repente, ele olhou para mim e disse:

– Agora não há mais nada, todos já receberam seus presentes. Vou tomar um banho, porque estou morrendo de fome! Fitava-me de uma forma terna, mas não sabia ele que despertava em mim muita raiva por ter se esquecido do presente que prometera.

Saiu rapidamente da sala e, antes que eu começasse a chorar, aproximou-se do meu rosto cabisbaixo com aquela linda embalagem de presente.

Dei um pulo de alegria, pois no fundo tinha certeza que ele não se esqueceria jamais de uma promessa e que algo traria para mim.

Depois de desfazer o laço de fita, rasgar o lindo papel vermelho, com bolinhas amarelas, dei de cara com a Lara, uma linda boneca de cabelos dourados e de olhos azuis. Fiquei encantada com o presente e mais ainda quando meu tio acionou o dispositivo que a fazia cantar:

“Un marinerito me tiró un papel a ver se quería casarme con él…” A bonequinha, além de tudo, ainda contava uma linda história infantil, falando de um marinheiro que havia mandado um bilhete para sua amada, fazendo-lhe um pedido de casamento.

Puxa, até hoje me lembro da Lara e daquele momento inesquecível. A boneca já não existe, mas o disquinho eu guardo até hoje comigo, juntamente com o bilhetinho que dizia: “Torta… El regalito viaja comigo!” (Torta… O presentinho viaja comigo!).

Afinal, recebi meu presente daquele 8 de maio – dia do meu aniversário.

Autor: José Maria Cavalcanti

A ÚLTIMA DESPEDIDA

 

O carro parou diante da grande árvore onde ele costumava brincar depois que chegava das suas andanças pelo mato, quando ajudava sua mãe a colher lenha para o velho fogão de barro.

Relutou um pouco para descer, mas aquela voz carinhosa o ajudou a sair do banco traseiro:

– Vai, filho, não temos muito tempo. Logo será noite.

Nada respondeu. Apenas desceu lentamente, sem se importar com o pouco tempo que tinham para ficar ali.

– Querido, desligue o carro, pois senão o Pedrinho não ficará tranquilo.

Logo a máquina parou de girar, e o casal ficou em completo silêncio à espera do regresso do garoto.

Pedrinho, com muito receio, caminhou entre as árvores, aproximou-se e, logo após a clareira, dentro da névoa fina que baixava da montanha, descortinou-se a casa. Que surpresa agradável, pois aquele era um momento todo esperado. Respirou o mesmo ar de outrora, vindo do jardim repleto de hortências e bem-me-quer. Da chaminé saía a fumaça que anunciava que sua mãe já estava preparando o jantar.

Aproximou-se da velha porta, percebendo que estava apenas encostada, como sempre, bastando forçar um pouco para abri-la. Ao entrar, encontrou novamente o assoalho de tábua corrida, com alguns buracos, ainda esperando por reparos. A cada passo que ele dava em direção à cozinha, fazia um barulho terrível. Estava ansioso para rever sua mãe, depois de muito tempo apertado pela saudade.

À medida que caminhava, pôde lançar um olhar para os velhos móveis da casa. Reviu as mesmas cortinas surradas e desbotadas pelo sol da tarde, que invadia pelos vidros sujos das janelas. Pendurado na parede, o velho lampião de gás já estava aceso, por causa da pouca luz ambiente.  Era uma grande utilidade nas noites escuras ali no alto da serra, longe de tudo, mas que inspirava cuidado, pois já havia causado pequenos estragos no desgastado assoalho.

Tudo estava como muito antes. Inclusive aquele cheirinho gostoso do tempero do feijão vinha até suas narinas, misturado com o cheiro de alho frito, sempre quando sua mãe preparava o arroz. Às vezes não tinha carne, mas quando havia, os bifes eram levados  à frigideira quando ele já estava sentado à mesa.

Ali era tudo muito simples, diferente do mundo que agora ele vivia na cidade com seus novos pais.

Finalmente ele viu sua mãe, e ela veio até ele para dar o mais gostoso abraço do mundo.

Ficaram ali abraçados um tempão. Não tinham pressa de nada.

Lá fora o tempo corria desesperado, e a noite já começava a cair. A névoa já cobria todo o pé da montanha.

– Querida, você não acha que esse menino está demorando demais!

– Calma, querido, só mais um pouquinho. Temos que ser mais pacientes, pois ele perdeu tudo que tinha com o grande incêndio que destruiu tudo, matando aquela que ele mais amava.

– Espero que seja a última vez, pois é de cortar o coração, vendo-o buscar o que já não existe.

– Querido, quem sabe desta vez ele consiga vê-la. Vamos aguardar!

De repente, Pedrinho ressurgiu daquela espessa cortina que se formava um pouco mais à frente do carro.

Pela primeira vez, naqueles últimos três anos, ele conseguira rever sua mãe, e o seu rosto estampava a mais intensa alegria.

Emoção que também contagiou o velho casal que esperava por ele no carro.

Enfim, depois de muito tempo, ele pôde se despedir de sua mãe, coisa que o destino havia roubado dele.

Autor:  José Maria Cavalcanti

 

REDONDO E ALARANJADO

 

Não sei se você já parou para reparar que quase tudo que é gostoso, importante e lindo tem a forma arredondada.

Vou começar com o saboroso bolo da minha saudosa tia Zefinha, naquela fôrma redonda, e a forma carinhosa como nos servia, isso carrego comigo como um quadro inesquecível!

Claro que ela servia a guloseima em pratos e copos redondos. Suas panelas ao forno, nas quais preparava nosso alimento, eram aguardadas com ansiedade única. E a panela mais apreciada era a grandona, que vinha cheirando gostoso e seguia diretamente à mesa. Não quero nem lembrar que já dá água na boca, pois aquela comida caía redondinha no buraco das barrigas do amoroso tio Antônio Pedro e de todos os primos /primas, ali reunidos em volta da mesa.

Não vamos nos ater somente nas nossas necessidades imediatas. Que tal seguirmos para uma dimensão maior, algo que é antes de nossa existência. Estamos falando do cosmos, uma palavra que tem duas bolinhas e só não tem três porque o “c” esqueceu de se fechar. Pois é, todo o universo se move descrevendo elipses, mas os sóis, os planetas e as luas são arredondados. Tem até o tal do buraco negro, que dizem ser, ao mesmo tempo, vala e passagem. Vala que atrai e suga velhas energias e se cogita que também sejam arcos de passagem para outras dimensões.

Acho mesmo que Deus estava redondamente intencionado com as curvas do seu universo, querendo deixar claro ser maior que Pelé, pois está sempre no domínio de todas as bolas. Aliás, foi Ele que nos concedeu o poder para conceber os mais variados tipos de formas arredondadas para nosso entretenimento. Com base no formato circular, foram criadas as esferas mais pesadas para a bocha e para boliche; também as bolas mais leves para o basquete, o futebol e o vôlei; bolinhas menores para o golfe, beisebol e para o tênis, além disso, foram também idealizadas as pequeninhas bolinhas de gude, bem coloridas, tudo para nossa diversão.

Tais esportes são praticados nas olimpíadas, que têm como símbolo cinco arcos unidos, representando os continentes.

Sem falar nas rodas dos carros, das bicicletas e de outras formas de locomoção. Sem recebermos a invenção da roda, nada teria progredido, de forma cíclica e sistematizada.

Do disco de vinil, chegamos na era da tecnologia, vivendo hoje às voltas com HD e DVD, tudo em formato circular, sem contar que minha caneta, que ora escrevo, tem na ponta uma esfera, por isso é esferográfica, para deslizar melhor sobre o papel.

Você consegue perceber que estou dando voltas, mas não pode discordar de tudo, pois tais formatos encantam a todos. E o que mais toca o coração da humanidade, sem esquecer de uma bela noite enluarada, é o nascer e pôr do sol. Às vezes parece que uns são mais especiais que outros, principalmente lá num cantinho prazeroso da barragem de Pau dos Ferros, uma das paisagens mais lindas da minha infância.

Lá do Alto do Açude, bairro onde ficava a outrora casa dos meus pais, ao lado do Patronato, fiquei extasiado naquela visita que fazia ao mesmo local que nasceram meus irmãos mais velhos. Dali pude contemplar a beleza daquele maravilhoso poente. Quisera naquele momento ter o mesmo dom do saxofonista Jurandy para tocar o bolero de Ravel, dando vida às notas, que se dissipariam docemente pela abertura redonda do magistral instrumento, para admiração de todos os pau-ferrenses.

Autor: José Maria Cavalcanti

O CANTO DO PÁSSARO

Estava tudo tão seco que há muito já rachara todo o leito daquilo que algum dia fora um rio. Era o período mais difícil nas vidas de Juvenal, Palmira e do garoto Pedrinho. Estavam ali há muito tempo nas terras de Santana, desafiando as agruras de um sol imponente. Viviam naquele mundão de terra seca, numa humilde casa de taipa.

Quando batia fraqueza na alma, pensavam em abandonar tudo, mas logo ressurgia um lampejo de fé, impelindo-os a pelejar e a permanecerem firmes.

Não havia mais água no pote de barro para beber, e as rações de farinha e rapadura tiveram fim.

Juvenal buscou com a enxada extrair da terra dura alguma raiz para saciar a fome daquele dia interminável. Enquanto isso, Palmira buscou a última água barrenta do fundo de um poço para coar na pequena chita de tecido, já esburacada e encardida de tanto usar.

Pedrinho, já com dez anos, não estava alheio a tudo, mas nada podia fazer. Assim, para passar o tempo, reunia forças para ir à pedreira, como sempre fazia para se divertir, sem brinquedos, usando apenas a imaginação. Ali ele se perdia, vivendo aventuras por entre aquele labirinto de pedras e rochedos. Naquele faz de conta, fingia derrotar inimigos invisíveis, bem mais fáceis de serem vencidos que as maiores inimigas da vida no semiárido: a fome, a sede e a morte.

De repente, Pedrinho escutou um incomum canto de um pássaro. Atraído pela curiosidade, aproximou-se do som melodioso, guiado pelo ouvido. Ao passar por uma grande rocha, deu de cara com o mais belo espécime que já tinha visto.

As plumas que revestiam aquele pequeno corpo alado pareciam desproporcionais. Eram longas e de um colorido indescritível, contrastando com o cinza, branco e amarelado que o sol atribuía a tudo. Algumas penas pendiam no alto da cabeça, formando uma espécie de topete que o distinguia de qualquer tipo de pássaro que conhecera antes.

De repente, o passarinho voou em sua direção, causando um certo espanto. Mansamente, pousou sobre seu ombro, dando sinais para estabelecer amizade. Ao aproximar sua mão para bem perto do pequeno alado, ele logo bateu asas, pousando sobre uma pedra mais adiante. Dali estufava o peito e cantava, convidativo. E quando Pedrinho se acercava, ele tornava a alçar voo, conduzindo-o para uma gruta de difícil acesso.

Por ali passou por uma pequena fresta escura, saltitando. Do outro lado, cantava sem parar, dando a entender que aguardava a chegada do novo amigo. Pedrinho, percebendo a intenção do colorido amigo e vencendo o receio de entrar naquele local desconhecido, começou a forçar seu pequeno e magricelo corpinho por baixo da pedra.  Após se arrastar por uns dois metros, vencendo a parte mais difícil, pôde enfim se levantar na escuridão. Guiado ainda pelo acorde melodioso, percebeu uma pequena fresta com um pequeno vão de claridade que só poderia ser visto de dentro da caverna.

Um pouco sem ar e com apenas aquele pequeno vãozinho de luz, tentou empurrar a pedra que obstruía o caminho entre ele e o pequeno amiguinho. Conseguiu com muita dificuldade se desvencilhar do obstáculo que dava acesso ao outro lado. Sua surpresa veio quando se fez um enorme clarão a sua frente, voltando a respirar gostoso. Ali, por toda parte daqueles paredões de quartzos, mica e feldspato, havia inscrições engraçadas por todos os lados, que chamavam a atenção de Pedrinho.

Depois de um reconhecimento do lugar, que recebia iluminação e ventilação que provinham da parte mais elevada da gruta, encontrou novamente o lindo pássaro, entretido a tomar água, oriunda de um minúsculo veio que minava da rocha. Pedrinho, diante daquele líquido precioso, logo correu para perto e juntou suas mãozinhas para colher as gotas que brotavam do rochedo. Elas criavam uma pequena poça e depois se perdiam novamente por entre as pedras. Com paciência, esperou encher a concha, entornado-a na sua boca, molhando lábios e língua secos, saciando a sede.

Nisso, lembrou-se dos pais e da terrível falta d’água por que passavam ali pertinho. Recordou-se do sofrimento da mãe para buscar o resto de água suja da velha cacimba, já quase abandonada. E se recordou ali da expressão do rosto do pai e a tristeza do olhar em meio a tantas marcas vincadas nas faces.

Não querendo que aquela tortura perdurasse mais um minuto sequer, procurou se apressar para mostrar para eles aquele precioso achado.

Deixando o amiguinho ali por um pouco, retornou rapidamente para casa para dar a boa notícia.

Chegou desesperado em casa, percebendo que sua mãe sorria aliviada por encontrá-lo, depois da busca que ela disse que fizera com Juvenal por toda parte, inclusive no pedregal. O pai não sabia se aplicava uma sova ou se daria apenas uma repreensão, mas esperou primeiro o que o menino iria dizer.

Quando Pedrinho começou a contar tudo o que havia ocorrido, percebeu que seus pais estavam incrédulos, pois ali não haveria qualquer sinal de água, muito menos havia por ali um pássaro tão diferente. Sabendo disso, Pedrinho mostrou a pequena cabaça cheiinha de água, a prova da sua descoberta.

Rapidamente seus pais abriram o recipiente e sorveram a água limpa e fresca para saciar a sede que tinham, dividindo o conteúdo da cabaça. Sem saída, acreditaram na história fantástica do filho, afinal, de onde mais poderia vir uma água tão saborosa como há muito não tomavam? Restava a eles verificar a localização correta para checar o potencial da fonte líquida.

Assim apressaram os movimentos e se foram à pedreira. Pedrinho ia à frente para indicar o caminho, e seus pais o seguiam no encalço.

Tiveram medo quando o menino se enfiou por entre as pedras, mas Juvenal percebeu que não seria fácil segui-lo. A solução seria passar a lata para que Pedrinho a enchesse de água. E assim foi, trinta minutos depois, a pequena lata de leite ninho estava cheia.

Com o passar do tempo, esta água minguada, mas valiosa, passou a representar tudo na vida dos Oliveira. Da terra voltaram a brotar as sementes, a horta voltou a dar de tudo, e a alegria estava de volta a iluminar os olhos e os sorrisos de todos.

Agora já não necessitavam mais mascarar a fome, economizando movimentos, esperando mais uma noite cair para esperançar na jornada do dia seguinte. Depois daquele dia, já não havia mesa vazia, e passaram a estender a mão para os vizinhos que não tinham a mesma sorte.

O pássaro, jamais voltou a ser visto novamente, mas aquelas poucas gotas minando perpetuamente passou a ser a solução para aquelas vidas sofridas.

Autor: José Maria Cavalcanti

UM TESOURO SOB OS OLHOS

 

A nossa mãe, Dolores, estava sempre correndo de um lado para o outro, fazendo de tudo para manter a casa funcionando perfeitamente. Tudo estava sempre limpinho e nada faltava na nossa cozinha. Tínhamos uma mesa farta e ainda podíamos, de vez em quando, convidar nossos amigos para um almoço ou um aniversário.

Além de cuidar das nossas roupas, calçados, fazer compras no supermercado e estar sempre preocupada com nossa saúde e vida escolar, era ela que nos sustentava financeiramente com o pouco que ganhava, tendo em vista que nosso pai já havia falecido há muitos anos.

Ela trabalhava fazendo serviços domésticos na cidade vizinha, que era mais próspera economicamente. Pegava dois ônibus para ir e dois para voltar, chegando a nossa casa bem tarde. Mesmo cansada, perguntava se havíamos gostado da comida que ela deixara para nosso almoço, e já apertava o passo para pôr alguma roupa lavada para secar no varal. Na ponta da mesa, começava a passar as peças dobradas e secas. Depois seguia noite adentro a arrumar alguma coisa que estivesse fora do lugar, ao mesmo tempo em que já iniciava os preparativos do jantar e do almoço do dia seguinte. Ela só tinha um pouco mais de sossego nos finais de semana, pois estava livre do agito da cidade grande e das correrias de descer e subir dos coletivos, sempre lotados.

De repente, sua pressão alta resolveu incomodá-la novamente, e os remédios que tomava já não eram suficientes para conter a disparada do seu coração. Coisa que ela só confidenciava para sua amiga Josefa, que tomava junto com ela o ônibus, diariamente. Um belo dia, a amiga bateu na nossa porta para comunicar que nossa mãe caíra no meio da rua, sendo levada para o hospital, em estado de emergência, causando-nos um tremendo susto.

Na UTI, estava incomunicável, e pela primeira vez sentimos muito a falta dela. Não podíamos vê-la, pois seu quadro clínico exigia cuidados extremos. Assim nos falaram, quando solicitamos uma visita. Aquela recusa médica fez brotar sentimentos de dor, pois dali começamos a sentir muito forte a falta da nossa mãezinha.

Josefa passava todos os dias de ausência materna para ver se necessitávamos de alguma coisa. Perguntava sempre: “- Luana e Aline, vocês querem jantar comigo? A resposta era sempre não a todos os gentis convites daquela amiga de nossa mãe, que se revelou uma pessoa muito bondosa. Cheias de orgulho, dizíamos que tudo estava bem e que logo nossa mãe estaria de volta para tocar nossa vidinha normal.

Comprávamos pão e queijo na vendinha pertinho de casa, prometendo que nossa mãe logo iria acertar tudo. Assim passamos aqueles dias comendo lanches e sucos, pois no fundo tínhamos certeza que o pior já havia passado e logo teríamos nossa Dodô de volta em nossas vidas.  Mas aquele tempo se esticava cada dia mais, torturando nossas consciências sobre o muito que deixamos por fazer, e a pior notícia de nossas vidas chegou como um verdadeiro furacão, devastando nossas estruturas.

Ao sentir meu corpo estremecer, como a mais velha, agarrei-lhe a Aline na intenção de protegê-la, mas no fundo era eu que estava mais fragilizada. Nossos corações batiam apressados, e o choro e a dor tomaram conta das nossas emoções. Josefa nos envolveu com seus longos braços, como tentativa de aplacar nosso sofrimento. Só ela poderia melhor entender aquilo que estávamos sentindo.

Demorou muito para recolhermos os pedacinhos de nossas perdas, na tentativa de juntá-los para recompor o que foi quebrado. Aquele vazio imenso que se abriu na nossa frente fez a gente entender quão grande nossa mãe era para nós. A falta daquela figura, que representava os cuidados materiais, ocasionou uma grande lacuna sentimental, que mexeu muito  conosco naquele momento e até hoje ainda nos machuca imensamente.

Ninguém poderia imaginar a falta que ela fazia para nós, pois já éramos mocinhas e nada fazíamos para ajudá-la, mesmo sabendo que em parte era culpa dela, que era muito centralizadora e não nos deixava pôr a mão em nada.

Josefa continuou nos visitando e ajudando, conseguindo, com seus esforços junto a um competente e caridoso advogado, o salário da previdência para nós, dinheiro que passou a ser muito útil para seguirmos vivendo, mesmo com aquele abismo que tinha se aberto na nossa frente. Josefa não só foi amiga, irmã e companheira, mas confidenciou toda a vida pregressa da nossa mãe, que ela ouvia durante as viagens de uma cidade a outra, todos os dias.

Como nos sentimos menores com a perda da nossa mãe, que tinha toda uma vida para ser revelada após sua partida. Nunca tínhamos noção do tamanho da sua luta para sermos o que somos. Estudamos, e ela nunca estudou, pois trabalhar era sua sina. Tínhamos nossos brinquedos e roupas, e ela jamais possuíra uma boneca ou teve a roupa que queria. Não sobrava tempo para diversão, e suas vestes eram as de serviço. Descobrimos com Josefa que ela só se casara para ficar livre dos serviços do campo, buscando ser feliz ao lado daquele homem que se tornou o pai dos seus três filhos.

Ela casou muito cedo, mas não teve a sorte de ser feliz, por causa de alguns desentendimentos e a súbita perda do marido. Com isso, ela necessitou ser forte para dar um rumo novo para aquelas três vidas que estavam em suas mãos. Quis o destino levar o filho mais novo, Lúcio, deixando as duas lindas e queridas meninas como sua missão e compromisso.

Por seus muitos serviços prestados a uma família de grandes posses, ganhou um terreno de esquina, que tinha uma casinha muito simples, mas que se tornou a realização de um sonho. Ter um lugarzinho que  ela poderia chamar de seu. Aos poucos, com muita luta e juntando as economias, foi restaurando parede por parede, cômodo por cômodo, e hoje nossa casinha é muito bonita, graças a sua luta e perseverança.

Descobrimos tarde que sua maior alegria era nos ver não só  fortes e sadias, mas também vitoriosas. Era seu desejo  que   tivéssemos um futuro melhor pela frente, coisa que ela nunca teve. Muito tempo depois, descobrimos ser este o caminho de sucesso que ela queria nos conceder, algo diferente da dura vida a que foi submetida desde muito jovem.

Quanta coisa hoje amarguramos porque não valorizamos tanto a pessoa que mais nos amou nesta vida. Aquela que deu a própria vida para nos possibilitar novas oportunidades de crescimento. Hoje nós temos nossas casas, nossos carros, nossos empregos e nossas boas vidas, mas não temos aquela joia preciosa, que esteve sempre conosco, sem que déssemos a ela o devido valor.

Doeu saber que muitas vezes havia tirado da própria boca para saciar nossa fome. E que, como uma guerreira, havia brigado com unhas e dentes para nos amparar e proteger. Hoje nos arrependemos pelo que não fizemos, mas nosso coração se enche de eterna gratidão por aquela que lá de cima com certeza ainda nos olha e nos afaga antes de dormir.

Mamãe, nosso eterno agradecimento, por você ter aberto mão de tudo, nos carregando sobre os ombros cansados para nos presentear uma vida cheia de dignidade!

Autor: José Maria Cavalcanti

A CARONA

 

Na volta de um bairro afastado de Campineiras, uma estranha alegria tomou conta do coração de Naldinho. Tal sensação se deu quando ele viu o Zeca necessitando de uma carona, pois percebeu que o carro dele estava quebrado, estando a esposa dele dentro do veículo em pane.

Enquanto se aproximava, aproveitou a oportunidade e resolveu contar para sua Lurdinha, que estava ao seu lado, os verdadeiros motivos por que ficara tanto tempo sem falar com o amigo de longa data e de muitos embates enxadrísticos.

Depois de escutar sua versão dos fatos, Lurdinha deixou extravasar seu lado vingativo:

– Naldinho, safadeza com safadeza se paga! Deixe que ele amargue o mesmo sabor que você sentiu no dia em que ele recusou dar carona para você.

Naldinho nada disse, apenas escutou, pois no fundo consentia com todas as palavras da esposa. Os dois passaram em marcha lenta pelo Zeca, que estava em pé, à espera de algum amigo ou de alguma alma caridosa. Aquele era um lugar de difícil acesso e sem qualquer sinal de comunicação. Quando ele vira o carro do Naldinho, acendeu-se uma esperança, mesmo estando com a relação abalada com ele. Seus ânimos esfriaram logo que percebeu o conhecido carro seguir adiante, sem brecar.

O Zeca ficou com a nítida impressão de que aquela cena se dera por pura provocação. Ele sabia que a relação com o casal havia se distanciado, desde o dia em que deixara de dar uma carona para o Naldinho. Aquele era um dia que ele gostaria de esquecer, riscando-o da sua vida, pois que ambos já haviam compartilhado muitos momentos felizes antes. Por isso, havia tentado se desculpar depois, mas o amigo nem dera bolas para ele.

Percebeu que Naldinho até deixara de frequentar o grupo de Xadrez das sextas-feiras, somente para evitá-lo. Até algumas viagens para torneios eram deixadas de lado, apenas para um não ver a cara do outro.

Enquanto o Zeca se amargurava com o infortúnio, poucos quilômetros dali, Lurdinha, depois de sorrir e fazer brotar no seu rosto uma expressão estranha, pediu ao Naldinho para manobrar de volta. Tivera a ideia maquiavélica de retornar com o intuito de desmascarar o Zeca na frente da Tita, pois com certeza ela também não sabia de tudo que se passara entre os dois.

Lurdinha desceu do carro e seguiu diretamente para perto do casal em apuros. Sua motivação era de vingança e queria também humilhar o Zeca diante da esposa. Naldinho se reuniu ao grupo o mais rápido possível, pois gostaria de presenciar tudo, para ver a reação do amigo, diante da verdade.

– Tita, você sabe por que não paramos para ajudar vocês? Sem aguardar resposta – como o dedo em riste e cheia de ira -, segue Lurdinha:

– Seu marido deixou o Naldinho na mão, há algum tempo, quando mais necessitava de uma carona, lá no bairro do Brejinho. Você sabia disso? Lurdinha falou com a boca cheia, aguardando a reação dos dois.

De repente, ela percebeu que Tita estava chorando, sem dar uma única palavra. Então, Lurdinha se voltou para o Zeca, esperando alguma improvável explicação.

– E você, não vai falar nada? Indagou, cheia de euforia por estar atingindo seus objetivos. Estava sentindo o gosto de enfiar a faca e agora a retorcia por dentro, para causar mais estragos.

Finalmente, Zeca começou a falar, dirigindo-se aos dois amigos:Continue lendo e faça um comentário (clique ao lado)

– Naldinho e Lurdinha, naquele dia terrível, perdemos nosso amiguinho de 16 anos, o Pitty, que havia passado por uma cirurgia para a retirada do baço e, depois de duas transfusões, não resistiu. Tudo foi muito dolorido para Tita, que, por amar demais aquele animalzinho querido, não queria vê-lo ser enterrado, por isso me pediu para levá-lo para algum lugar arborizado para sepultá-lo.

– No carro lotado, eu levava o corpo envolto em um plástico e alguns cobertores. Levei também sua caminha, sua casa, roupas, rações e brinquedinhos para fazer doação.

– Quem me visse de longe, parecia estar sozinho, mas os bancos estavam ocupados, e eu estava tão triste que nem me dei conta das pessoas que estavam ao meu redor.

– Quando fiquei sabendo dos seus comentários sobre minha pessoa, tentei me justificar, mas minhas tentativas foram vãs. Você não quis me ouvir, Naldinho.

– Quero mais uma vez pedir perdão por aquele dia, mas eu estava tão impactado que nem me dei conta que você havia gesticulado feito louco para chamar minha atenção.

Diante das explicações do Zeca e da expressão de dor ainda expressa no rosto de Tita, Naldinho e Lurdinha se envergonharam das suas atitudes e fizeram as pazes com o casal amigo.

Depois de tudo ficar aclarado e desfeitos os sisudos semblantes, as duas amigas riram e até gargalharam. Elas, assim como Naldinho e Zeca, também tinham muito assunto para pôr em dia e não queriam perder um só segundo. Aquele afastamento pareceu uma eternidade para todos, mas o mais importante é que voltaram a viver felizes novamente.

Na verdade, todos eles tinham muito a lamentar porque, por falta de comunicação, tiveram grandes perdas. Além do desgaste da relação, o principal fora a perda de tempo, e este não volta mais.

Autor: José Maria Cavalcanti

AROMAS E AFETOS INESQUECÍVEIS

 

É verdade que a música toca a alma, e uma linda melodia fica depositada em nossa lembrança para sempre. Isto parece acontecer somente para os que têm inclinação musical, pois, para mim, não sei para você, creio que os eventos da vida são marcados realmente por aromas e afetos.

A fragrância de um doce perfume a gente não esquece, assim como os afetos. O cheiro mais gostoso que ainda guardo é o de café da torrefação São Luiz, que ficava a caminho da escola. A fábrica ficava na Ribeira, um dos bairros da “cidade de sol”, pertinho do setor gráfico do Diário de Natal. Mesmo com certa distância da minha escola, o cheiro exalava pela antiga cidade baixa e os bairros dos arredores. Meu pai não deixava faltar este item indispensável na despensa de casa. Toda manhã, logo cedo, era aquele mesmo cheirinho gostoso que saía da cozinha da minha mãe, quando fazia nosso café da manhã.

Quando eu passava na ida aos estudos, processavam em temperatura elevada os grãos, fazendo-os torrar; na volta das aulas, era hora em que estavam fazendo a moagem, produzindo um aroma indescritível. Considero-me um sortudo, pois sempre que sinto este cheirinho inconfundível, de imediato me vejo caminhando Ribeira afora, fardado de conga azul, calça comprida marrom e a camisa polo com o símbolo da Escola Técnica de Comércio, bordado na altura do peito. Nas mãos, segurava firme a alça da bolsa com os pesados livros.

O cheiro de pão e de bolo quentinho saindo do forno é marcante, mas nada se compara à fragrância única do café, que me carrega pela mão na viela do tempo, rumo à infância querida.

Como o cheirinho marcante do ouro negro, o sabor e gosto inesquecíveis da manga espada guardo comigo também, bem superior ao da manga rosa. Recordo-me que, quando as mangueiras estavam carregadas, meu pai trazia da feira uma grande quantidade para a família, e era difícil comer uma só. Nunca apreciei fruta tão doce, que, quando madura, podia ser espremida, fazendo escorrer na boca seu suco saborosíssimo.

Também não me esqueço do jambeiro em frente da casa do meu amigo Babaia e dos cajás-mangas ou cajarana da árvore do fim da rua, com sua coloração de um amarelo bem brilhante, muito aromático e de polpa suculenta. Este fruto, que ainda recordo seu sabor agridoce, quando maduro, a gente aproveitava para fazer sucos, coquetéis e sorvetes. Embora goste muito de jambo, de cajá, mangaba, de graviola e de sapoti, bom mesmo é apreciar o sabor melado da manga espada.

Como os sabores e seus cheiros, os afetos a gente guarda com carinho e nunca mais esquece. Eles nascem dos namoricos que meninos e meninas têm dos doze até os quinze anos, que são cheios de romance e poesia. Três meninas marcaram minha adolescência.

Na Rua São Jorge, encantava-me com a filha de um ex-pracinha do Exército brasileiro. Gostava de ouvi-lo contar histórias vividas por ele na época da segunda grande guerra. A mãe dela era brava e não queria nosso namoro. Para ela, tudo aquilo não passaria de amizade, mas os bilhetinhos, sorrateiramente deixados no meu bolso, agendavam encontros inimagináveis, acontecidos após as horas escolares.

Na nossa rua, flertei, para usar um termo da época, uma garota muito inteligente, irmã de um dos meus amigos. Ela me secava com seus olhares envolventes e ainda preenchia docemente a solidão das horas. E, na Escola Técnica de Comércio, eu tinha a atenção de uma garota bonita do bairro de Santos Reis, fina e elegante, filha de um comerciante do bairro do Alecrim. Como uma coisa encantada, seu cheiro ainda hoje é inexplicavelmente exalado pelos jardins, talvez por seu nome ser de rosa.

Tais aromas e afetos deixam na gente marcas profundas e sentimentos pendurados no tempo, recheados de saudade.

Autor: José Maria Cavalcanti

SERÁ QUE NALDINHO TEM OUTRA?

 

Aquele dia tinha tudo para ser lindo. O céu estava limpo com um azul radiante e não estava tão quente naquele período da meia-estação. Abril era sempre de temperaturas amenas e convidativo para caminhadas e passeios ao ar livre.

Era um sábado, e Lurdinha aproveitava para dormir um pouco mais, luxo que não poderia ter durante a semana. Ela acordou e se assustou por não encontrar Naldinho ao seu lado, e custou para lembrar, por estar atordoada, que ele havia saído mais cedo, às sete horas, pois era dia de feira. Ele dizia sempre prá Lurdinha que as melhores frutas e os melhores legumes são comprados nas primeiras horas da manhã. Também porque tinha paciência para escolher tudo e, duas horas depois, chegava carregado com muitos itens para encher a despensa e a geladeira pela próxima semana.

Mais tranquila com a lembrança, ela foi direto para o banheiro para tomar uma ducha fria para despertar melhor. Sabia que seria difícil repor as noites mal dormidas que ela já tivera naquela última semana, imaginando como procederia para pôr um fim naquela dúvida que passou a povoar sua cabeça: “- Naldinho teria outra mulher?” Esta preocupação martelava sua cabeça, a ponto de quase estourar seus miolos.

A questão não era perguntar prá ele e sim primeiro investigar para ter informações concretas. Assim ordenou melhor suas ideias, dando uma direção a seus pensamentos.

Após o banho, olhou para seu rosto no espelho de aumento dupla face e se deu conta de vincos, e dobras, e manchinhas, e um monte de outras coisinhas que não imaginava ter na sua pele. Logo seu olhar se desviou para os cabelos, e percebeu como estavam ressecados e sem vida. Sentiu-se culpada por ser tão descuidada, pois estava sempre nas correrias pro escritório de advocacia, visto que inúmeros casos de separação iam sempre parar em suas mãos, e não saíam de sua cabeça, até que ela resolvesse a questão da melhor maneira possível para os envolvidos.

Com toda a experiência, sempre envolvendo casos de separações, Lurdinha sabia que muitos casamentos se desfaziam por relaxamento de uma das partes. Isto ela não queria que acontecesse na vida dela, mas só acordara depois de perceber Naldinho se comportar de forma diferente. Seu sexto sentido fez acender a luz laranja, indicando estado de alerta, situação que exigia providências imediatas de sua parte.

Sabia que o tempo estava sendo implacável com ela. Estava perto dos cinquenta, e aquilo que ela nunca pensaria em fazer, parecia que chegara a hora. Principalmente porque a fotografia dos dois, que decorava a parede do quarto, denunciava a diferença de idade. A cada ano a coisa ficava mais gritante, porque parecia que Naldinho não sofria nenhum desgaste. Conservava aquela mesma cara que ela conhecera há dez anos.

As preocupações de Lurdinha talvez fossem menores se Naldinho não tivesse começado a sair mais arrumado que o costume e mais cheiroso do que nunca, coisa que ele não fazia há muito tempo. Isto aumentada suas suspeitas, visto que tal comportamento é próprio de quem está querendo atrair atenção do público feminino.

Naquele dia, ela não saiu de casa e esperou a noite cair para seguir seu marido, que parecia ter se guardado para a saída noturna. Afinal, aquele era o dia que ele dizia se encontrar com os amigos para jogar xadrez, mas Lurdinha iria ter uma surpresinha, pois, antes de se encontrar com sua turma, ele marcou um compromisso que iria quebrar sua rotina.

Lurdinha já havia arquitetado seu plano. Para isto, conseguiu uma peruca, maquiou-se e colocou um velho capote de frio, que ela já havia separado para doar no brechó do seu bairro. Estando irreconhecível até para a melhor amiga, começou a acompanhar de longe Naldinho, como se fora uma detetive, disfarçando em cada esquina escura do bairro até chegar a um bar, na praça central.

Sentou de costas, numa cadeira da mesa ao lado, de forma a poder escutar o que ele e a pessoa que Naldinho esperava iriam conversar. Não tardou muito, e logo começou uma conversa animada.

– Oi, Naldinho, o que vamos beber hoje, amor? Era a atirada garçonete, que já estava acostumada com o cliente.

– O de sempre, querida! Respondeu o atencioso Naldinho.

Enquanto Lurdinha aguardava ser atendida pelo garçom de sua área de atendimento, esticava mais o ouvido, não querendo perder nem uma palavra daquele bate-papo, que já estava fazendo-a perder a calma, mas tratou de se acalmar, dado ao silêncio que se fez a seguir.

Naldinho aguardava paciente e aproveitava para se recordar das dicas de um velho amigo sobre as “técnicas para recuperar terreno na relação a dois”. Jargão que o companheiro costumava repetir, com a segurança de um terapeuta familiar.

Lembrava-se das dicas para reacender o clima entre o casal, fazendo alguns procedimentos para despertar ciúmes. Sempre que possível, deveria sair bem arrumado e perfumado, demonstrando uma alegria indizível, de preferência assobiando ou cantarolando uma bela música. Dizia ele ser infalível, pois logo minha mulher iria perceber que algo estaria ocorrendo. “- As mulheres – dizia ele – têm um faro terrível prá essas coisas, meu irmão. Acredite em mim!”

Esboçando um leve sorriso, Naldinho se recordava de cada palavra e estava seguindo à risca, mesmo sem saber se todo aquele esforço iria fazer com que Lurdinha se ligasse mais nele que no serviço.

No momento em que era atendida, Lurdinha perdeu a chegada daquela mulher que cumprimentou Naldinho e se sentou perto dele. Esperou o garçom terminar de servir sua coca e se afastar, para novamente se ligar na conversa da mesa ao lado, pegando algumas frases soltas, fora do contexto:

– Naldinho, o que você achou do meu desempenho? Perguntava a mulher querendo escutar uma resposta que agradasse seu ego.

– Querida, você é ótima, mas vai melhorar a cada dia. Disse Naldinho, querendo estimulá-la.

– Acho melhor ser sempre na minha casa, pois sei que toda mulher é possessiva e ciumenta.

Depois que a mulher fez referência a ela, Lurdinha não se conteve e saiu faiscando do seu lugar, pronta para avançar no pescoço da provável amante do marido, mas teve o maior susto e perdeu sua fala. Esperava uma belíssima mulher diante dela, mas ficou chocada com o que viu.

Diante de Naldinho, estava dona Mercedes, uma senhora com quase setenta anos, que havia procurado Naldinho por ele ser indicado como um excelente professor e queria voltar a exercitar sua mente, já muito cansada pela idade.

Naldinho e dona Mercedes nada entenderam quando aquela mulher de cabelos longos e negros avançou nervosa na direção deles, mas depois perceberam que certamente se tratara de algum engano, pois a estranha mulher, depois de olhar fixamente para a convidada de Naldinho, retirou-se dali sem olhar para trás.

Naldinho fechou com mais uma cliente, recolhendo em seguida as peças e o tabuleiro de napa que usou para avaliar o nível de jogo da nova aluna, já que ela havia dito conhecer muito mais que os movimentos das peças. Depois da despedida e o nome de dona Mercedes na sua agenda, ele seguiu para o salão dos fundos, reservado especialmente para os tradicionais encontros noturnos dos enxadristas de Campineiras.

Lurdinha voltou faiscando de raiva para casa, ao se dar conta de todo o tempo perdido naquele seu plano maluco. Quase chegando na sua casa, já mais tranquila, conseguiu sorrir e por fim gargalhou de felicidade para estar tudo bem, relembrando toda a cena vivida lá no bar. Naquela noite, resolveu que esperaria Naldinho regressar para oferecer para ele seu doce predileto, mesmo sabendo que seria bem tarde. Enquanto aguardava, Jurou para si mesma que arranjaria mais tempo para ela e para seu casamento.

Autor: José Maria Cavalcanti

O MUNDO PELA JANELA

Minha vida se resumia ali, naquele pequeno espaço, que era sala e cozinha ao mesmo tempo. Havia apenas um pequeno quarto e um banheirinho, que abrigava nosso varal de roupas. As poucas chances de ver o sol eram concedidas pela janela alta da sala e pelos vitrôs do banho e por um outro acima do pequeno fogão, que  clareavam o ambiente semiescuro. Não havia quintal, tampouco varanda e não se via qualquer tipo de conforto pela casa.

Era uma vida sem amigos, sem família, nem sequer um rádio para entreter e fazer passar o tempo. Eu tinha só a companhia da minha mãe, e às vezes nem isso, quando ela tinha que fazer compras na vendinha ou sair para entregar as roupas, passadas e dobradas, das clientes pelos arredores do bairro. Nessas horas, ela me deixava trancada, com uma chave que nunca achei. Eu ficava ali, apenas envolvida com as figurinhas daquela mesma história, meu único presente, que depois de muito tempo aprendi a ler, captando outros detalhes de um todo que eu já compreendia, de tanto olhar e folhear aquelas páginas amareladas pelo tempo de manuseio.

Mas tudo seria muito mais triste se não fora aquela janela basculante da sala, que através dela a luz da manhã me banhava de sol. Depois de acionar a alavanca lateral, os vidros ficavam inclinados, e eu podia contemplar melhor o mundo. Por ali eu dava fuga para minhas ideias e minha mente vangueava desde aquele bairro simples até outras cidades e para outros mundos.

Pela pequena janela, só acessível com o auxílio de uma cadeira, pude conhecer Mariana, que eu a tinha como minha amiguinha, mesmo que ela nunca houvesse me dirigido a palavra ou um olhar. Ela desfilava lá do outro lado da rua com suas roupas e bonecas ou com seus presentes novos, sempre em datas especiais. Por aquela entrada de luz da sala, ao longe vi seu pai correndo atrás dela para ensinar a pedalar sua bicicleta “Pimoneta” e vi sua mãe pular de corda com ela na frente da casa, na maior alegria, sempre que estava livre dos afazeres, diferente da minha mãe, que tinha um interminável trabalho de passar e dobrar roupas.

Mariana parecia ser muito feliz, pois desfilava com um grande sorriso, para lá e para cá, e sempre tinha a companhia da Carolina, filha de uma pessoa que parecia ser amiga da mãe dela. Juntas, brincavam de casinha, e eu tentava imaginar as muitas histórias que uma contava para a outra. De longe, eu acompanhava tudo, inclusive o mover de toda vizinhança.

Era triste não ter com quem brincar ou falar assuntos da minha idade. Comentar coisas inocentes e sentir a reação no outro, interagir com falas e gestos, rir, falar alto, gargalhar… Minha mãe não era ruim para mim, apenas era de pouco falar, não fazia carinhos e parecia estar sempre brava com alguma coisa. Poucas vezes me lançava um olhar e um sorriso, enquanto eu permanecia ali com meu livro, sentadinha no sofá surrado, que ela usava para colocar as roupas. Somente muito tempo depois pude compreender por quais motivos vivíamos assim, enclausuradas, sem qualquer tipo de socialização.

Para todas minhas indagações sobre nosso confinamento, ela respondia: “-Nós temos uma a outra. Isto é tudo. Não vamos falar mais sobre isto!”. Todas minhas tentativas de diálogos eram brecadas por sua fala imperativa e finalizante.

Éramos tão largadas em nosso mundinho que sequer cobravam dela minha ida à escola ou o porquê de vivermos trancafiadas por todo o dia. Assim fui crescendo, buscando em pequenos indícios que escapavam as razões para tudo aquilo.

Ao ver a janelinha alta semiaberta, alguns vendedores batiam na nossa porta, mesmo estando sempre trancada. Dificilmente conseguiam algum retorno, e os mais insistentes eram repudiados com uma resposta ríspida. Fiquei admirada com a reação da minha mãe quando um dia fora surpreendida na nossa porta, no momento em que saía para fazer compras. Ela foi tão grosseira com aquele senhor que ele nem sequer abriu mais a boca, retirando-se rapidamente de perto dela. Naquele momento ficou patente o alvo dos seus medos.

Depois dos sete anos, ela passou a fazer algo que nos aproximou mais. Com o auxílio de uma velha cartilha, ensinou-me a ler e a escrever. Aquilo foi o melhor que podia me acontecer. Finalmente eu poderia entender toda aquela história da meninha com gorrinho vermelho e as ameaças daquele animal assustador!

O tempo e a vida passavam pela  janela, e agora eu já nem necessitava da cadeira para alcançá-la, bastando apenas erguer meu corpo comprido na ponta dos pés. Como eu lia tudo que passava na minha frente.Minha diversão era ler as placas dos carros ou alguma propaganda que de longe eu avistava, pois nada escapava ao meu olhar observador.

Um dia, minha curiosidade foi despertada para aquela velha caixa empoeirada que ficava sobre o guarda-roupa, o qual separava em dois o ambiente. Sabendo exatamente o tempo que tinha disponível para fazer descobertas, agilizei minhas ações, e não tardou muito para achar o diário da minha mãe. Estava escrito: Meu Diário – Maria dos Santos.

Ali descobri uma história muito triste. Naquelas linhas diárias, pude compreender os motivos de tanta tristeza, dor e medo. Em cada linha, minha mãe ficava mais exposta e finalmente consegui mergulhar em sua alma para entendê-la melhor.

Seu pai era um viciado em bebidas que se aproveitava dela, quando ainda era bem menina, com o consentimento da mãe, que nada fazia para contê-lo, com receio de ser mais uma vez surrada pelo marido. Quando surgiu o primeiro homem em sua vida, que parecia ser diferente da figura paterna, fugiu com ele, mas o destino mais uma vez havia sido ingrato para ela, pois, como num ciclo de violências, seu companheiro era agressivo e um mulherengo insaciável. Depois de engravidá-la, um belo dia sumiu para nunca mais voltar, começando assim sua luta para me criar. Por causa dos muitos abusos que sofrera dos homens que surgiram no seu caminho, ela não queria que nada acontecesse comigo, a pequena Elisa, como ela me chamava no registro de suas confissões.

Chorei muito sobre as páginas daquele antigo diário, que nem me dei conta do passar do tempo. De repente senti o carinho de outros braços que me enlaçavam. Era minha mãe que voltara e que logo havia compreendido a causa do meu pranto. Juntas ficamos agarradas, uma a outra, compartilhando sentimentos guardados nos cômodos de um distante passado, vividos com muita dor.

Autor: José Maria Cavalcanti

Nota:

Quantos traumas de infância são carregados por tanta gente. Tais pessoas são vítimas de terríveis agressores, muitas vezes da própria família, que nem desconfiam que seus atos covardes imprimirão marcas que serão carregadas por toda uma existência.

Deixo impresso meu repúdio contra esses monstros que se escondem em pele de cordeiro para ganhar a confiança de inocentes e assim  poder praticar tais crimes hediondos.

 

A CASA Nº 50

 

Depois de morar em seis pequenas localidades potiguares, finalmente íamos alcançar a tão sonhada capital, a cidade do sol – Natal.

Seguíamos não só ao encontro de belas praias, com um gostoso clima ameno, de um comércio forte, de boas escolas e faculdades, mas acima de tudo de oportunidades.

De Natal também se falava da sua importância no cenário mundial por ocasião da II guerra. E que o ex-presidente Café Filho e o folclorista Câmara Cascudo, ilustres rio-grandenses, que sempre foram amantes daquela boa terra, posicionavam-se como seus fiéis defensores.

Assim teríamos de nos tornar maiores para fazer parte daquele recanto mais ensolarado do país.

Para lá viajamos, tendo no rosto o vento e na cabeça sonhos que nos impeliam pela 101, a imensa rodovia que liga o Brasil de ponta a ponta.

Quando passamos pela entrada da estrada de Ponta Negra, o cheirinho de mar anunciava a chegada. Estar ali em cima, com apenas onze anos, vendo passar aquelas inúmeras imagens, fazia-me crer estar envolto em um túnel mágico.

Fomos passando pelas montanhas de dunas, área entre o campo de treinamento do Exército e o Campus Universitário, faltando ainda trilhar alguns bairros maiores como o de Lagoa Nova, Tirol, Petrópolis, descer depois a ladeira do Baldo, ganhar a Ribeira e chegar às Rocas.

Para isto, ao chegar no nosso destino, o possante inclinou-se todo na subida da rua mais íngreme do bairro que iria nos abrigar. Ela se localizava quase no topo da ladeira, situada ao lado da escadaria da Igreja São Jorge. E ainda entristecidos pela perda da cidade de Santa Cruz, fomos saudados lá no alto por outra cruz, que nos recebia, agora reluzindo sua luz na espada do santo guerreiro. E um pouco antes de chegarmos ao topo da ladeira, guinamos naquela que seria nossa rua, a contar daquele instante – a São Sebastião – homenagem ao santo mártir dos primórdios cristãos.

Em cima do estradeiro, junto às amarrações superiores que prendiam fortemente a mobília, dava para ver aquela bola linda e alaranjada se debruçando lentamente sobre o Rio Potengi. Era um belo entardecer de dezembro do final do primeiro ano da década de 70, bem no início das comemorações natalinas e de mais uma Festa de Santos Reis, nome de outro bairro limítrofe ao das Rocas.

Sob olhares curiosos, o pesado FNM (fê.nê.mê), após os muitos quilômetros de asfalto, depois de  rodar por avenidas e ruas natalenses, começou a transitar em marcha reduzida, sobre o paralelepípedo da sinuosa ruazinha que iria ser nosso lar nos próximos anos.

E aquele caminhão de mudanças que ainda povoa nossas mentes, pois estávamos sempre sendo arrancados de um lugar para outro, fazíanos crer que finalmente iria nos plantar naquele novo endereço, a Casa nº 50.

Tomados por muitas sensações, inclusive ansiedade e dúvida, mal desconfiávamos que ali fôssemos viver momentos ímpares, que iriam influenciar muito em nossas vidas.

Diante do novo lar, após o carro ser detido em sua marcha, fomos conhecer por dentro a nova morada, antes de começar a descarregar tudo. Ainda guardo bem de memória a fachada da casa, pintada na cor salmão. Não era toda chapada, havia recortes rebaixados e desenhados, que a distinguia das demais casas da rua. Havia uma charmosa área coberta na frente, tipo antessala, com parapeito murado, que, através dela, tinha-se acesso à porta principal, e, ao lado, à direita, um pequeno jardim com roseiras, com grades brancas desenhadas sobre um pequeno muro.

Na lateral esquerda, um pouco mais recuada, podia ser vista a garagem, toda fechada com grades altas, na cor branca, à espera de um futuro carro; e, logo após, havia um quarto nos fundos, que seria destinado aos quatro filhos: Francisco, José Maria, José Paulo e João. Este dormitório tinha uma porta que dava acesso a um quintal espaçoso, o qual fazia fundos com os pontos de comércios da Rua São João, a primeira rua do Bairro da Ribeira.

As cinco meninas – Graça, Edite, Lena, Margarida e Rita – ganharam o quarto que tinha vista para o jardim frontal.  Um pouco antes, havia o quarto principal, que era dos meus pais – Cleto e Francisquinha; depois o banheiro e finalmente a cozinha com área de serviço. E o grande quintal, com apenas uma goiabeira e um coqueiro, estava à espera de ciscadeiras, poedeiras e de um galo cantador.

Entramos pela noite a descarregar os móveis e a montar guarda-roupas e camas. Os itens menores já estavam dispostos em seus cantos, faltando os poucos quadros e espelhos de parede. Após duas horas de trabalho e depois do lanche, regado a crush, grapete, pão e mortadela, tudo estava em seus lugares, conforme orientações de nossa mãe.

Com o cansaço da viagem e da arrumação, não tardou para nos recolher, sem haver tempo de fazer os primeiros contatos com aquela vizinhança ávida por informação. Por enquanto, eles teriam que se contentar apenas com o que viram: móveis antigos de bom gosto e um casal na média dos quarenta e poucos anos, com nove filhos.

Mas logo saberiam da filiação daquela prole tão numerosa: Cleto, um pernambucano com 46 anos, funcionário da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. O qual, estando em Recife, trabalhando duro e estudando, aos 28 anos, passou no concurso público da EBCT, sendo designado para assumir uma vaga na cidade de Pau dos Ferros/RN. Dois anos depois, conheceu Francisca, com 23 anos, que trabalhava como professora e também no comércio local. Ela era nascida na cidade paraibana de Cajazeiras, pertencente à família Alves e ele, tendo se apaixonado por aquela beleza morena, casou-se com a cajazeirense em 1956, dando início a incursão de nossa família pelo RN.

Guardo até hoje com muito carinho cada detalhe da nossa chegada ao centro dos acontecimentos sociais e políticos do RN, mas uma imagem não me sai da cabeça: aquele belo pôr do sol que fez questão de ser nosso cartão postal, as nossas boas-vindas a Natal. Tal cenário só podia ser visto em sua plenitude na parte alta do caminhão de transportes. Lá de cima da lona, fui o primeiro a enxergar, por cima das cumeeiras das casas,  aquele entardecer inesquecível sobre a água doce do sinuoso rio.

Autor: José Maria Cavalcanti

TRISTE DESPEDIDA

Não é fácil partir quando se vai para tão longe, principalmente quando a pessoa de quem você se despede é sua querida mãe.  Era o ano de 1979, e eu contava já dezoito anos de idade. As malas já estavam prontas, e como o tempo estava reduzido, cuidei para não desperdiçar nem um pouquinho do pouco que me restava. Meu pai me esperava lá fora para me ajudar no transporte da bagagem, e minha mãe aguardava minha saída, tristonha no terraço da lateral da casa. Aproximei-me devagar e pude ver de relance suas madeixas, longas cãs debruçadas sobre seus ombros, que emolduravam seu olhar sem brilho pelo pesar da hora da partida.

Corri para seus braços para abraçá-la ternamente, buscando amenizar seu sofrimento. Havia a sensação de perda no ar,  mas  existia o consolo da conquista, afinal eu estava naquele momento seguindo em busca do meu futuro. Tentei segurar o tempo com a mesma força que eu a abraçava, mas tudo foi em vão. Os minutos se foram, e eu necessitava ir.

Não havia como deter aquela partida, tampouco as lágrimas. Olhando para trás, vejo hoje que tudo valeu a pena e  aprendi que nossos objetivos são muitas vezes conquistados com duras perdas ou sofridas separações. E aquele vazio que ficou, chamado saudade, eu sabia que poderia preenchê-lo sempre com aquela cena que até hoje tenho guardada comigo.

Com a Poesia DESPEDIDA, revivo aquele momento mágico, que parecia não ter fim, mas que de alguma forma escoou com rapidez, sem que ninguém percebesse.

Autor: José Maria Cavalcanti

DESPEDIDA

Longas cãs desfraldam no adeus

Lágrima a rolar no triste sorriso

Chora, mãe, este é o teu paraíso

Não queres perder os filhos teus

                                                       Vai e dá-lhe um beijo com amor,

                                                      Como teu último e terno abraço

                                                       Ainda não partiu está no terraço

                                                      Corre compartilha com ele a dor

Prá ele és única nesta curta hora

E na terra, não há mais ninguém

Pedestal onde se ajoelha e adora

                                                               Não chores mais, ele te implora

                                                               Pois só quer ser feliz com quem

                                                               Deu-lhe a vida, padece e chora!

                                                                                                                        Autor: José Maria Cavalcanti

CRIANDO TRADIÇÃO DE FAMÍLIA

 

Jodi carregou com ele nossa segunda irmã que, assim como a primeira, sempre foi muito bonita. Claro que tudo havia começado na famosa Rua São Sebastião, na casa número 50, quando Ditinha tinha apenas 16 aninhos. Ele tinha 18 anos e vinha com seus cabelos e barbas grandes, magro, dentro daquela justa calça boca-sino. Nos pés, revezava um chinelo de couro ou um sapato com salto do tipo cavalo de aço e uma camiseta surrada pelo tempo. Houve flertes e aproximações, sempre durante as rodas de amigos, até o dia daquela abordagem certeira e irresistível. Pronto, e minha irmã não escapou daquele bote certeiro.

Assim passaram a namorar, durante a fase em que eram ao mesmo tempo estudantes e professores: ele de Biologia e ela de Língua Portuguesa e Francesa. O tempo passava, e o amor se consolidava, até que resolveram se casar, já no finalzinho dos cursos universitários. Ele fazia Medicina, e ela enveredou pelo caminho das Letras. Casaram-se na Capela do Campus Universitário, porque era mais econômico e, quer saber, a cerimônia lá ficou muito bonita.

O evento foi um marco na vida deles e serviu para criarmos uma prática na família de presentear os recém-casados, pois a primeira irmã não necessitou de nada. Ela teve um casamento e festa com muita pompa, e a casa já veio toda mobiliada.

Por se tratar de dois jovens universitários, tratamos da doação de quase todos os itens indispensáveis para um lar. Meu pai passou a dar geladeira, a partir dali, minha irmã mais velha mandava escolher algum eletrodoméstico, e eu dava sempre os móveis do quarto. Os outros irmãos combinavam com os noivos com antecedência, mas havia o mais velho que dava sempre o fogão. Assim a casa dos que começavam vida nova ficava quase completa, somente com os presentes de nossa família.

Passadas as festas e comemorações do novo matrimônio, a vida deles seguiu às mil maravilhas, tendo inclusive conseguido comprar uma casa com dois pisos, financiada com o pouco dinheiro que ganhavam como professores da Rede Estadual de Ensino, com a bolsa estudantil do governo e com as pequenas comissões das vendas de terrenos, uma nova viração do meu cunhado.

O jovem casal logo ganhou a fama de econômicos, pois conseguiam tocar a vida com os poucos recursos e faziam grandes planos para o futuro, principalmente depois que ele começasse a exercer a Medicina e minha irmã terminasse seu Curso de Letras.

Enquanto tocavam aquela vida apertada, surgiu um novo casamento no seio familiar, e o casal, formado por Jodi e Ditinha, teria o privilégio de dar sequência no novo costume criado de presentear os noivos. Naquela oportunidade, era meu irmão Paulinho que iria se casar com Anair. Seguindo a tradição, do meu pai ganharam a geladeira; do meu irmão mais velho, o fogão; da minha irmã mais velha a batedeira e o liquidificador; e eu, como já acordado, dei o quarto. Os outros foram compondo os itens faltantes, até que indagaram para o casal, que vivia com parcos recursos, sobre qual seria o presente deles.

Jodi não deixou claro qual poderia ser a prenda doméstica, mas que esperassem, pois teriam uma surpresa no dia oficial da entrega. Assim os nubentes ficaram esperançosos e ansiosos por algo muito especial.

Após a cerimônia do casamento e ao fim da festa, era hora de os noivos levarem para casa os presentes ainda pendentes. E logo se dirigiram para indagar para Jodi sobre a esperada dádiva.

Diante da expectativa das pessoas no local, ele começou a fazer um discurso, antes da entrega da bela caixa envolta em papel colorido. Falou de amor, de união e companheirismo, como importantes itens de uma boa relação. Enquanto seguia falando, percebeu a impaciência nos semblantes dos familiares e resolveu encurtar aquela prosa comprida, estendendo seus braços para entregar para meu irmão aquela caixa que ele trazia consigo. Os dois abriram o embrulho rapidamente, e se surpreenderam com o presente: um ferro de passar Tupy!

Os recém-casados sorriram meio sem graça, mas agradeceram, diante da frustração deles e de todos os que presenciaram aquela iniciação, que logo virou motivo de chacota nas rodas de conversas.

Mas as gozações não intimidavam o casal e, nos casamentos subsequentes, aquela tradição continuava. O velho ferro Tupy se fazia sempre presente.

O tempo passou, e o Médico Jodi e a Professora Ditinha passaram a ter uma vida muito próspera. Graças a ajuda do bom Deus e com muitos esforços dos dois, cresceram muito, tiveram duas lindas filhas, também médicas, mas uma coisa não havia mudado durante muitos anos. Quando alguém se casava, podia até surgir alguma dúvida sobre aquilo que outras pessoas iriam ofertar, mas de um casal ninguém tinha dúvida, dali sempre viria um Ferro Tupy.

Hoje a história passou às páginas do anedotário da família.

Autor: José Maria Cavalcanti

FLAGRA NO XADREZ

 

Depois de desgastante reunião com os técnicos de todas as modalidades esportivas da cidade de Campineiras, Inácio, um dos diretores da secretaria de esporte da prefeitura, falou:

– Naldinho, o negócio é fazer das tripas coração. Quando o prefeito quer uma coisa, temos que fazer, e desta vez dou razão a ele, pois a verba do fundo de apoio ao esporte depende dos resultados dos Jogos Regionais deste ano.

– Eu sei que a Câmara não ficou satisfeita com os resultados do ano passado. Ainda bem que o Xadrez foi campeão no vale. Disse Naldinho se justificando.

– É, mas este ano ele exige uma equipe feminina, pois perdemos pontos no ano passado por não haver competidoras. Dê um jeito nisso, senão a coisa vai pegar! Alertou Inácio.

Naldinho saiu da reunião com tanta preocupação que quase não se despediu do seu diretor. Teria que arranjar pelo menos três fortes jogadoras, completando o número de atletas exigido com duas da casa, pois senão não teria como ganhar da cidade de Mangabeiras, onde o Xadrez feminino era o mais forte do Vale do Café. Além do mais, como contratar três jogadoras de outro estado com o dinheiro já praticamente todo destinado. A solução seria contar com os amigos. Assim, Naldinho ligou para seu velho companheiro e técnico de Xadrez de Goiânia, Nilo Vargas. Depois de passar o problema, logo veio a solução: ele levaria suas três melhores atletas somente em troca das despesas básicas delas, mas com uma condição especial de contratação para ele. Em troca ele garantia para Naldinho os três pontos necessários para garantir a vitória em cada rodada. Solucionado o impasse, tudo parecia clarear naquela escuridão que se fechou diante de Naldinho.

As coisas começavam a se encaixar, parecendo que tudo iria correr às mil maravilhas.

As aulas da Escola Educandário estavam suspensas por vinte dias para o recesso do meio do ano. Isto era ótimo, pois Naldinho teria um pouco mais de tempo para se dedicar a sua Lurdinha, sempre muito sacrificada com suas ausências, devido ao acúmulo das atividades na escola, aulas particulares e com os vários encargos da função de técnico de Xadrez de Campineiras. As redes Municipal e Estadual também estavam de recesso, e aquele era o momento oportuno para a realização dos jogos, pois haveria como alojar os atletas das outras cidades do vale nas dependências vazias das escolas de Campineiras.

Naldinho passava a parte da manhã com Lurdinha, pois ela também havia pedido uns dias para desconto em férias, aproveitando a parada das aulas, assim teriam mais tempo um para o outro. Todas as tardes, Naldinho seguia para o local dos jogos, pois Campineiras estava recebendo o evento neste ano, o que aumentava a responsabilidade, pois os campineirenses compareciam em peso aos jogos, cobrando resultados.

A coisa ia bem até que Lurdinha, que nunca gostou de ir ao local da realização das partidas, cismou que desta vez queria ir até lá. Logo ela que sempre odiou o ambiente enxadrístico, pois achava todos uns chatos e sem assunto para trocar ideias normais.

– Naldinho, qual é, você que sempre insistia para eu ir agora quer me desestimular! Você está me escondendo alguma coisa, Naldinho? Estranhava Lurdinha a reação de marido.

– Não é nada disso, Lurdinha, eu não quero que depois você fique reclamando de tudo! Desabafou Naldinho.

Na verdade, Naldinho sempre negou a presença feminina nos jogos. Dizia que apenas os meninos e rapazes se interessavam pelo esporte, mas como justificar que aquelas lindas meninas-moças, com seus corpos avantajados para a idade de 15 e 16 anos, surgiram de repente para representar sua cidade. Aquele artifício arranjado por Naldinho com seu amigo Nilo teria que ser contado imediatamente para Lurdinha, antes que a casa fosse abaixo.

Os jogos foram acontecendo, e a cidade estava se saindo muito bem em todas as modalidades, mas era o Xadrez que mais chamava a atenção, principalmente por causa das beldades da equipe feminina. As notícias dos jornais locais davam ênfase aos resultados, e Naldinho escondia o caderno de esportes da vista de Lurdinha, trocando o canal da televisão quando noticiava os Jogos Regionais. Imaginem o desespero dele, mas ele resolveu não contar nada, visto que Lurdinha não tocou mais no assunto, e logo os jogos terminariam.

– Naldinho, porque você anda tão nervoso?

– Não é nada, Lurdinha, é que os jogos estão se aproximando do fim, gerando muita ansiedade. As partidas mais difíceis e decisivas virão amanhã, último dia da competição. Disse Naldinho desabafando sua suposta causa do nervosismo.

Depois de virar aquela última noite, véspera do encerramento dos jogos, Naldinho acordou muito feliz naquele domingo, pois logo acabaria sua aflição. Tomou banho rapidamente, trocou sua roupa e já saiu de casa, sem se despedir de Lurdinha, deixando para ela um bilhetinho, assim evitaria qualquer ideia de Lurdinha ir com ele ao último dia para o complexo esportivo Ayrton Senna.

– Naldinho, que bom que você chegou mais cedo! Disse Nilo. Vamos tomar um café?

– OK, amigo, mas tudo rapidinho, pois temos muito a fazer, inclusive definir a ordem dos tabuleiros das duas equipes, pois esta é uma questão estratégica, como você bem sabe. Explicou Naldinho.

– Fique tranquilo, amigo, o feminino deixa comigo e darei toda a ajuda que você necessitar no masculino. Logo as meninas virão fazer companhia para nós, pois também não tomaram café. Tudo bem?

– Por mim não tem problema. Nilo, quero saber que horas vocês retornam para Goiânia, pois eu ia sugerir o regresso de vocês antes do término oficial dos jogos, isto é, logo após o encerramento das partidas, pois vocês irão pegar a Dutra e a Dom Pedro mais tranquilas. Naldinho já queria acelerar os acontecimentos do regresso das meninas, mas não queria forçar a barra, afinal seu amigo veio para ajudá-lo.

– Você tem razão, Naldinho, se depender de mim, saio logo que cair a seta do último relógio das meninas, ficando a entrega das planilhas por sua conta, tudo bem?

– Combinado! Naldinho não conseguiu disfarçar sua alegria, pois estava disposto a vê-los longe o mais breve possível, mesmo que tivesse de entregar as planilhas do feminino, última atribuição de Nilo de cada rodada, mas de fácil execução, uma das exigências da competição.

Todo o evento, como ocorria anualmente em cada cidade do vale, estava muito bem organizado, e para as partidas de Xadrez foi reservado um local mais tranquilo, em relação aos outros esportes. As mesas estavam bem arrumadas no centro do ginásio, todos os mecanismos dos relógios eram rigorosamente testados antes do início de cada rodada e fazia-se uma vistoria para checar todos os detalhes: peças, relógios, canetas, planilhas de anotações, conforto das cadeiras e os espaços entre os jogadores para que nada atrapalhasse no andamento das partidas. Os técnicos podiam circular livremente entre os competidores, desde que não interferissem no cumprimento das regras.

Tudo ia bem, e as partidas estavam próximas do fim. O tempo dos relógios estava se esgotando, e logo tudo estaria encerrado para o Xadrez. A equipe masculina já havia garantido três pontos na rodada, o que dava a primeira colocação.  As três meninas necessitavam  vencer as partidas para garantir a vitória na competição, mas estavam diante da equipe de Mangabeiras naquela última e difícil rodada.

Nilo estava tranquilo, mas Naldinho não conseguia conter seu nervosismo por vários motivos.

De repente, as três meninas se levantaram todas sorridentes. Era o fim da tortura de Naldinho.

De tão eufórico, não conteve seus ânimos e disparou para pegar as planilhas, já devidamente assinadas pelas jogadoras.

As meninas, de tanta felicidade, correram para abraçá-lo. Naldinho, surpreendido pela reação das meninas, até sumiu nos meio delas, sendo acarinhado pelas três, que faziam roda em volta dele. Mas, de repente, a coisa esquentou para o lado do Naldinho. Uma mulher invadiu a alegre comemoração, puxando a camisa de Naldinho, arrastando-o para longe das belas garotas, justo quando Naldinho já estava gostando, já que não estava acostumado com tantos afagos.

– Naldinho, você pode explicar o que está acontecendo aqui? E quem são estas assanhadas? Lurdinha gritou o mais alto que podia para que as meninas soubessem que aquele homem tinha dono.

Naldinho puxou Lurdinha pelo braço para um local distante das belas e entusiasmadas jogadoras e, mostrando-se preocupado com a situação inusitada, falou compassadamente:

– Lurdinha, é uma longa historia, vamos conversar em casa, querida! Naldinho tentava acalmar as coisas.

– Era por isso que você não queria que eu viesse, hein, Naldinho? E que história é essa de equipa feminina que eu nunca ouvi falar? Ainda mostrando toda sua indignação.

– Amor, não é nada disso! Eu explico tudo.

Aproveitando a confusão formada e como já estava tudo acertado com Naldinho, Nilo pegou as meninas e se mandou de volta para Goiânia, deixando a encrenca para ser resolvida pelo amigo.

Mesmo com todas as explicações posteriores de Naldinho, custou para Lurdinha assimilar os últimos acontecimentos e, a partir daquele último Jogos Regionais, ela passou a ser uma presença constantes na plateia dos torneios, tornando-se uma companheira de viagem para o marido.

Autor: José Maria Cavalcanti

A FESTA DA CHUVA

 

Quando o céu se encapelou, envolvendo o azul que enchia pouco antes o horizonte, foi se fazendo noite, bem mais cedo que o costume.

De repente, aquele breu tomou conta de tudo, roubando-nos o pôr de sol, que sempre se fazia mais bonito dali da ponta da varanda, na lateral alpendrada do casarão branco, que ficava na ponta da rua mais importante e mais movimentada da cidade, em função das casas comerciais.

Assim compreendi por que meu pai havia pedido para que os filhos mais velhos fizessem uma boa limpeza na cisterna. Eu e meu irmão ficáramos maquinando a razão de ele mandar gastar o pouco que ainda restava das nossas reservas pluviais. Não sei até hoje se fora sabedoria ou previsão, visto que não era certo chover, mesmo sendo o período do ano que uma vez ou outra se dava algum tipo de precipitação pluviométrica.

O que antes era calor leve, por causa daquela constante brisa que vinha da serra, passou a clima abafado, sem que qualquer folha mexesse nos umbuzeiros de nosso quintal. Todos transpiravam, até que começou a soprar um vento forte, que fazia bater portas e janelas. Quando a poeira começou a levantar, era certo que a chuva iria logo cair, assim balbuciou dona Cícera, com base no conhecimento que o legado dos anos lhe concedera.

Ela foi a primeira a sair correndo para recolher as roupas do varal lá de casa, usando uma grande bacia para ajudar na catança apressada das prendas já secas. As galinhas, que antes ciscavam, começaram a correr alucinadas com o vexame da nossa segunda mãe, uma espécie de governanta, de muitos anos a serviço do nosso lar.

Fui correndo para a janela para ver a correria da rua. Muitos apertavam o passo para não serem alcançados pelos primeiros pingos que prometiam chegar rapidinho. O comércio cerrava suas portas, aproveitando para fazer uma dispensa coletiva dos funcionários, visto que não adiantaria prendê-los por mais tempo. Era certo que os retardatários ficariam presos debaixo de uma ou outra marquise da rua do comércio.

No outro lado da calçada, percebi que só a padaria não se deu ao luxo de fechar, pois era a hora que os clientes buscavam o pão quentinho, o leite, a manteiga e outros itens para o jantar ou lanche da noite.

Não tardou muito, e logo irrompeu o trovão mais alto que eu já havia escutado, depois que o céu fora riscado de fora a fora. Fazia tempo que eu não via tanto preparo para o evento da chuva. Não só eu estava ali observando cada detalhe, como também meus irmãos, visto que ainda não possuíamos televisão, e o radinho de pilha era um privilégio de nosso pai, que estava ausente por causa de suas constantes viagens.

Nossa mãe, que parecia alheia ao corre-corre e a todo agito que Cícera fizera no quintal, já preparava o jantar, pois o cheirinho das comidas se mesclava ao da terra molhada, que insistia em permanecer nas minhas narinas.

Finalmente do alto desabou uma copiosa chuva, que fez tudo escurecer de vez, apenas as luzes dos postes tentavam fazer frente àquelas trevas advindas daquele temporal inusitado. As águas, depois de escorrerem pelas bicas e calhas empoeiradas, agora corriam ladeira abaixo, indo diretamente para o ribeirão, que passava no menor nível da rua da feira.

Ninguém se maldizia porque ali chover era a maior bênção que poderia ocorrer. Não era só um lavar de telhados e ruas, certamente todos encheriam suas cisternas, latas, baldes, bacias ou outros recipientes; o rio receberia aquele manancial de águas novas; o açude elevaria seu nível, que naquela altura estava bem abaixo do mínimo necessário para suprir com carros-pipas as necessidades dos habitantes. A chuva era vital para todos em muitos aspectos.

E, mais ainda, era a alegria da meninada.

Esperei um pouco e saí com meus irmãos a correr debaixo dos jorros que fluíam das bicas da rua, apenas os calções nos distinguiam naquela meia-luz, pois as camisas e os chinelos havíamos atirado pelo janelão da sala. Juntamente com os outros meninos da rua, pulávamos feito loucos, levantando os braços e pulando, como se fosse uma dança. Sim, era muita alegria por ver e sentir na pele tanta dádiva do céu, caindo sobre nossa cidade, como se somente ela houvera sido abençoada naquele momento.

Tomamos tanto banho que nossos lábios ficaram roxos e tremiam por causa do frio. Voltamos para casa, fazendo uso do acesso lateral do casarão, uma portinhola mais estreita que saía na parte coberta do quintal. Nossa mãe já estava ali com as toalhas, distribuindo uma para cada. Depois nos serviu leite quente para esquentar nossos corpos. Trocamos de roupa e fomos para a mesa jantar, felizes da vida.

Puxa, aquele fato quebrou nossa rotina e marcou para sempre em minha memória, pois há muito não caía um pingo de chuva naquele grotão. Aquelas sensações em minha mente ficaram cristalizadas: a mudança do tempo repentina, trovões, relâmpagos, o cheiro da chuva, a terra molhada, a força da água varrendo a sujeira da rua, dos telhados, arrastando tudo que estava no seu caminho. Pessoas erguendo as mãos aos céus para agradecer, pois sabiam que aquela graça faria com que o campo desse suas dádivas com muito mais força e vigor.

Com a presença de mais água nas cacimbas, nos depósitos, nas barragens, nas lagoas, a esperança fora renovada, e era certo que teríamos uma linda festa do milho, haveria mais feijão na mesa, e os animais teriam um prado verdinho para pastar.

Tudo foi recebido com muita alegria e comemoração que eu diria que aquele momento poderia ser traduzido como a festa da chuva.

Autor: José Maria Cavalcanti

XADREZ CURA TUDO


Veroca se aproximava do hall, toda esfuziante e espalhafatosa, exibindo-se logo que sentia qualquer barulho de aproximação de gente.

Ela era quase uma sessentona, mas que não se dava conta do passar do tempo.

No elevador encontra Lurdinha, dez anos mais nova que ela, casada com Naldinho, o professor de Xadrez da escola Educandário de Campineiras. Como era bom no que fazia, estava sempre arranjando alguns alunos particulares.

– Oi, Lu, é verdade mesmo que o Xadrez ajuda a combater muitos dos males da terceira idade? Perguntava com um intuito definido na cabeça, ao mesmo tempo em que não desgrudava os olhos do espelho do elevador.

– Sim, por que pergunta? Indagou secamente Lurdinha, sem querer dar muita trela, mas não poderia ser mal-educada.

Ela procurava ser polida com todos, pois nutria a esperança de convencer Naldinho a ser síndico. Afinal, ele se relacionava bem com todos e de sobra ela se livraria da taxa do condomínio.

– Porque já agendei umas aulas com o Naldinho, pois não quero sofrer de qualquer mal, embora ainda seja bem nova. Soltou as minhocas venenosas e já saiu sacudindo as cadeiras, para exibir seu corpo ainda de causar inveja para mulheres de sua mesma idade.

Naldinho não tinha nem quarenta anos e se preocupava em se manter preparado fisicamente. Pensava sempre: corpo e mente devem estar sãos. Esta era sua máxima de vida e a filosofia principal de suas palestras, quando era requisitado, principalmente a que acabara de dar no salão de festas do prédio do seu condomínio, a pedido dos condôminos, que foi prevista para moradores acima dos sessenta anos.

Lurdinha mal chega em casa e logo indaga para o marido:

– Você está dando aula para a sirigaita do 56? Indaga com um ar inquiridor.

– Qual? Quem? Ainda processando a pergunta, Naldinho mostrava descaso à indagação.

– Não se faça de doido! Arregala os olhos Lurdinha.

– Meu amor, acabei de dar uma palestra falando sobre as vantagens de se praticar o Xadrez como forma de se evitar o Mal de Alzheimer na Terceira Idade. Disse Naldinho ao procurar passar calma, após interromper sua série de abdominais.

– Acho que ninguém agendou nada comigo, a não ser com o síndico. Logo irei procurar seu Abel para me certificar. Concluiu de forma insegura.

– Não quero ouvir aquela exibida falando bobagens por aí, hein, Naldinho! Falou Lurdinha em tom imperativo, talvez porque colocasse mais na economia familiar, mas no fundo deixava transparecer seus ciúmes.

Lurdinha foi dormir naquela noite encafifada, com aquela ideia fixa, a partir das insinuações da vizinha de apartamento. Nervosinha, nem deu muito papo pro Naldinho naquela noite.

No dia seguinte, logo cedo, antes de sair para o trabalho, Lurdinha, que estava sempre correndo, percebeu que Naldinho já estava pronto para sair. Não se conteve e esbravejou:

– Ué, por que tão cedo! Suas aulas hoje só começam mais tarde! Indaga a curiosa Lurdinha.

– Vou ver com o síndico se tenho alunos e, se assim for, já começo, aproveitando o tempo vago. Disse tranquilamente.

– Naldinho, vê lá o que você vai aprontar, hein?

– Querida, é apenas serviço! Falou e já saiu porta afora, deixando Lurdinha com as suas inseguranças.

Ele procurou o síndico, que explicou que havia sim alguns inscritos, mas que iria comunicá-los que só começariam no mês seguinte, em função do término das aulas de danças de salão, agendadas para o mesmo local.

Certificando-se que a mulher teria mesmo ido trabalhar e querendo não perder o tempo que ainda lhe restava, Naldinho correu em busca do zelador, afinal sua necessidade exigia urgência. Depois de satisfeita sua vontade, como já estava na sua hora, saiu para dar aulas na Escola Educandário.

No dia seguinte, seguiu o mesmo ritual do dia anterior. Lurdinha dispara uma nova pergunta para Naldinho:

– E agora, Naldinho, qual é a de hoje?

Naldinho, já de saco cheio, aproveitou prá tomar mais um gole de café para fugir da pergunta. Apenas gesticulou com a sua costumeira maneira de dizer: “Não amola, vai!”.

Desconfiada dos propósitos daquele despertar mais uma vez antecipado do marido, e querendo se garantir, tratou de enfraquecer os ânimos do Naldinho.

– Querido, eu não estou tão atrasada assim, vamos brincar um pouco? Lurdinha sabia das fraquezas do marido e, fazendo sua melhor cara, acendeu um sorriso lindo e fez brotar um olhar provocador. Não restou outra pro Naldinho.

Com um ar de vencedora, Lurdinha saiu para o trabalho, deixando o vencido com a pilha descarregada. Deu tchauzinho e, com os dois dedos a imitar um cano de revólver, atirou prá Naldinho um beijinho de despedida e disse:

– E agora, vai procurar o síndico de novo ou é alguma aluna nova?

– Dê lembranças pro síndico, querido! Soltando uma gargalhada.

Naldinho não entendeu nada, mas também sorriu satisfeito. Afinal não era toda manhã que recebia presente. E nem deu tempo explicar que o negócio dele era com o zelador. Feliz com o resultado, mais uma vez foi até à sala da zeladoria do seu prédio.

Lurdinha, depois de encarar como afronta as insinuações da Veroca, passou a andar cada dia mais bonita e sorridente, que até seu chefe, doutor Dorivan, e seu amigo do escritório, o Tadeu, não paravam de fazer elogios para ela. Talvez para estimular Lurdinha a espantar de vez aquela cara de noite mal dormida que ela desfilava quase sempre pelos corredores do tradicional Escritório de Advogacia da família Marcondes.

Uma nova manhã, e a cena se repetia, mas desta vez ele achou tempo para esclarecer para Lurdinha:

– Não, querida, desta vez irei tratar com o zelador.

– Cada dia uma desculpa para acordar cedinho, Naldinho!

– E, você, por que não está uniformizada, Lurdinha? Lurdinha uma vez mais surpreendeu Naldinho, desta vez com uma bela peça íntima, há muito guardada para uma ocasião especial.

E sem deixar que ele falasse mais qualquer palavra, ela logo partiu para as preliminares e bateu um bolão, deixando o adversário extasiado, com um ar de riso estampado no rosto.

Naldinho, mesmo sem compreender direito o que estava acontecendo com  Lurdinha, passou a ser o homem mais feliz do mundo ou pelos menos da cidade de Campineiras.

Esperava sua bela Lurdinha sair feliz, e ele se arrumava para procurar o zelador.

Cada vez que Naldinho buscava pelo zelador, o mundinho dele se transformava em paraíso.

Até que um dia, Lurdinha resolveu surpreender o marido. Fingiu que saíra para o serviço, esperou um determinado tempo, retornando para seu apartamento.

Suavemente abriu a porta, e a acústica do ambiente logo denunciou um barulho proveniente de um dos quartos.  Ao se aproximar do dormitório do casal, ela passou a escutar vozes. Logo imaginou que poderia ser o safado com alguém, mas aquela voz masculina não lhe era estranha.

Resolveu invadir o quarto na ponta dos pés e deu de cara com Naldinho e o Januário, o zelador em cima da cama. Lurdinha, que não era mulher contida, extravasou em berros sua curiosidade:

– Que está acontecendo aqui, Naldinho?

Naldinho esperou que Januário saísse, ao perceber que o circo iria pegar fogo e também porque o intervalo de almoço de zelador já havia esgotado. Tranquilamente explicou para Lurdinha que estavam consertando o estrado da cama.

– Veja – mostrou para ela -, aquele barulhão já não se escuta mais! Lembra que você havia me pedido há muito tempo para eu arrumar isso?

E sem esperar resposta, continuou:

– Imaginei que, cada vez que consertasse alguma coisa em casa, você estaria me presenteando. Assim comecei a relembrar todos os probleminhas de casa e todo dia saía cedo para buscar o zelador para arrumar uma daquelas velhas encrenquinhas.

Lurdinha estava sem fala e naquele momento se deu conta de tudo, mas sorriu satisfeita porque seu Naldinho tinha lhe dado muitos presentinhos, e ela o tinha sob controle, distante da perigosa vizinhança.

Assim, disfarçou seu descontrole e, já refeita de tudo, deu um sorriso,  sapecou um beijo no rosto do Naldinho e saiu para trabalhar mais feliz que nunca.

E aquele tema que havia começado com a vizinha se insinuando prá cima do Naldinho acabou trazendo outros benefícios. Lurdinha, que vivia sempre correndo, passou a arranjar tempo pro marido todas as manhãs, e o Naldinho colocou em dia todos os probleminhas da casa.

Assim descobrimos que o Xadrez não somente é bom para afastar os probleminhas da maior idade, mas também é remédio para muitos outros males.

Autor: José Maria Cavalcanti

UM ABRAÇO E UM BEIJO

 

Demorei para entender o porquê que alguns atos de carinho fluem mais facilmente para algumas pessoas e para outras não. E foi muito difícil o tempo em que levei para compreender estas coisas do coração, pois levei toda uma vida esperando um abraço e um beijo que nunca recebi, de alguém que eu esperava tanto. E pouca gente sabe o quanto se perde com isso e quanta carência advém de tão simples atos, principalmente quando ainda somos bem jovens.

Por vezes, na minha juventude, trabalhei minhas ideias na tentativa de processar aquela tamanha falta de atenção, mas parecia que existia uma força descomunal a impedir que os corpos se aproximassem, e era duro perceber que os amigos tinham em abundância aquilo que me faltava diariamente.

Certo feita, recordo-me de ter ganhado um lindo pião. Era bem grande, colorido e no meio havia uma espécie de alavanca que, ao ser apertada, fazia girar continuamente aquele lindo brinquedo. Cada irmão havia ganhado algo diferente do outro. Nos divertimos muito com tantos presentes distintos.

Ele nunca desconfiou, mas este ato me fez perceber algo que nunca tinha me dado conta: havia amor naquele coração. Sem querer, ele me acariciou com muita ternura. Até pude esquecer de algumas sovas que levei, pois aquele ato de carinho foi maior do que as várias formas de violência sofridas anteriormente.

Não sei como meus irmãos processavam aquelas informações, mas eu tinha avidez de respostas, por isso pude detectar com maior rapidez aqueles indícios. Desconfiei que era uma forma de pedir desculpas ou mesmo perdão.

O tempo foi passando, e quando eu tinha dezoito anos, houve um oportunidade ímpar para ele quebrar aquela barreira. Eu iria me despedir dele, pois partiria para fazer um curso longo e ficaria bastante tempo fora. Ele me levou até o ponto onde um carro especial viria me buscar e até carregou minha pesada mala, mas não conseguiu me abraçar ou beijar. Apenas um aperto de mão selou aquela partida.

Algum tempo depois, já formado e casado, vieram minhas filhas. Comecei então a perceber que eu também tinha dificuldades para abraçar e beijar. Um dia chorei baixinho, solitariamente, mas como me doeu saber que aquela coisa ruim estava comigo também. Daí parti para uma briga interior muito grande, até que consegui romper com aquele ciclo terrível da aridez para demonstrações de afeto.

Hoje não abraço e beijo tanto como gostaria as pessoas queridas que me cercam, embora sempre esteja me policiando, mas tenho certeza que matei aquele mal em mim. Vejo que minhas filhas são excelentes mães e são supercarinhosas com seus filhos. Que alívio vê-las se doando em abraços e beijos para meus netos.

Reparei que também gosto de dar presentes e não sei rever minhas filhas, meus genros e meus netos sem levar algo para eles. Sei que meus atos atuais não se traduzem como formas de perdão, mas talvez reconheça que aquele pião que ganhei de presente me marcou para sempre e talvez essa mania seja um reflexo daquele antigo ato paterno.

Aos 59 anos, um ataque do coração levou meu querido pai para sempre de nossas vidas. Ali partia um homem honesto, sério em tudo que fazia, trabalhador e dedicado à família, mas que nunca encontrara forças para quebrar a dureza do seu coração. Apenas dava o que havia recebido. Creio hoje que ele sofrera muito por nunca haver dado um abraço ou um beijo em um dos seus filhos.

Diante do caixão, aproximei-me lentamente. Toquei de leve sua pele fria pela primeira vez. Passei a mão no seu rosto e levei meu rosto para pertinho do dele. Finalmente nossos corpos se encontraram. Eu o abracei e o beijei, sem conseguir derramar lágrimas. Havia uma leve expressão de riso nos seus lábios, talvez para passar algum tipo de calor humano como forma de retribuição para aqueles últimos gestos de carinho.

Autor: José Maria Cavalcanti

 

 

MINHAS VISITAS A NATAL

 

Todos os anos me preparo para curtir alguns dias na capital nordestina mais aconchegante e aprazível do Brasil.

Os preparativos são simples, e a mala é sempre leve, pois lá você se despe do peso das roupas, de problemas e estresse. Duas horinhas depois de voo cruzeiro, logo o comandante avisa sobre a chegada, que teremos um lindo dia e que a temperatura local é de 28 graus.

Antes de o avião tocar no solo, já começa minha euforia com o clima que vejo lá fora e, após o pouso, o sol e a brisa já podem ser sentidos de forma prazerosa.  A partir da chegada, começa a alegre recepção.

Sempre tenho uma chegada festiva junto à família mais gostosa do mundo. A começar por meu irmão, João, que vem logo ao meu encontro para conceder seu fraterno abraço. Toma as malas da minha mão e abre a porta do carro, dando início à tradicional serie de mordomias que sempre me oferece.

Enquanto eu observo as mudanças pelo caminho, ele vai comentando e me atualizando com o dia a dia dos outros irmãos e sobrinhos. Também já vai me adiantando tudo sobre a programação dos meus dias com eles, menos o que logo me espera em Candelária. Depois de passar por avenidas, viadutos e ruas, finalmente chegamos à rua onde vive minha querida mãe.

E ela estava colada ao portão, com o seu constante e receptivo sorriso, pronta para me abraçar. Não tem aperto mais gostoso do que o de mãe. Ali naqueles braços, nem via o tempo passar. Não tinha pressa, e, ela, como a relembrar algo especial, tornava a me apertar ainda mais, como se quisesse num só ato amenizar o muito tempo que passamos distantes.

Como aquele aconchego parecia não ter fim, meu irmão, compreendendo ou talvez um pouco enciumado, passou com as malas em direção ao quarto que foi preparado com todo carinho para ser meu, durante aqueles vinte dias. Tudo está disposto em cima da cama: toalhas novas, sabonete fino e roupa de cama impecável. E um aroma especial a envolver todo o ambiente do cômodo de dormir.

Quando já estávamos acomodados e depois de um belo banho tomado na ducha fria, começei a perceber que alguma coisa estava por acontecer. É telefone tocando sem parar, carro buzinando na frente e, quando menos espero, todos os nove irmãos estavam juntos mais uma vez. Mas você pensa que eles estavam sozinhos? Não. Junto com eles vêm os sobrinhos, cunhados e cunhadas, e logo a casa invadida se encheu de mais alegria e festa.

Esta talvez seja a única vantagem de morar a 3.000 quilômetros de seus familiares. O reencontro é a sensação mais indescritível que alguém possa imaginar. Beijos mimados, abraços colados e intermináveis, risos, sorrisos e gargalhadas passavam a tomar conta da enorme sala de prazer.

Aquele contagiante encontro seguia sem hora para acabar, sem respeitar horários, desrespeitando rotinas de trabalho e de estudos. Tudo em nome do carinho e amor que sempre nos unem. Ali relembramos fatos e revivemos velhas histórias, nos tornamos tão unos que parecíamos um só.

Como toda família, claro que temos nossas diferenças, por sermos pedras distintas, com superfícies à espera do instrumento afiado para lapidação, mas nessas horas nos esquecemos de tudo e nos perdemos nos braços uns dos outros, e festejamos.

Às vezes as horas que passo com eles são tão curtas que nem dá tempo de me inteirar de problemas. Quando passo um dia inteiro na casa de um, só dá oportunidade de falar de coisas boas. Acho que eles fazem isso de propósito, uma coisa pactuada, para eu achar que tudo ali é só maravilha.

Fico me revezando na casa de um e de outro, curtindo os cuidados ternos que cada um quer passar gentilmente. Sempre a casa seguinte é melhor que a anterior, como se estivessem fazendo uma espécie de competição, com apreciação e supervisão de uma banca de jurados rigorosos.

Recordo-me com muito carinho a última vez que estive por lá. A casa do irmão mais novo foi a última. Para ele coube a tarefa de fazer o melhor. Assim sendo, desfrutei de dias inesquecíveis na casa de João, na Praia da Redinha. Depois de um divino jantar, elaborado com frutos do mar, fomos para a varanda curtir o lual. Embalados por uma rede preguiçosa, até cometi o pecado de achar que Deus não existia.

Movido por aquele clima praiano, sob um belo clarão de lua, comecei a fazer os versos da poesia que vocês terão o prazer de ler na página de “POESIAS”. Dessa forma, vocês também poderão ser transportados para o exato momento em que eu curtia a magia de uma noite enluarada na Redinha, escutando as ondas do mar, sendo tocadas pelo vento, que soprava do mar para a terra. Algo realmente para ficar na memória para sempre.

Autor: José Maria Cavalcanti

 

 

EU NÃO SOU MARCOS PONTES

São José dos Campos é uma dessas cidades em que o comércio de eletrônicos tem um só nome: “O Tarzan”. Ali você encontra tudo que você já se descabelou o bastante por outros pontos do comércio do gênero. Vem cliente até das cidades vizinhas e também do Litoral Norte, imaginem vocês.

Mas este não é o foco da minha narrativa. O Tarzan é o local onde se deu o ocorrido entre mim e uma das clientes daquele estabelecimento.

Enquanto aguardava ser atendido por um dos rápidos atendentes, percebi que uma mulher não parava de olhar para mim. Ainda sem sua visualização e meio sem jeito, disfarcei um pouco e comecei a ler o primeiro papel que encontrei em um dos meus bolsos. O panfletinho, cheio de letrinhas miúdas, requeria um acessório que eu não dispunha naquele momento, mesmo assim, segui no faz de conta.

Ela insistia em lançar seu olhar indiscreto, e eu já não sabia o que fazer com tamanha insistência. Não querendo alimentar qualquer tipo de interesse, permaneci cabisbaixo, mas senti sua aproximação. A fila que ela estava andava no mesmo ritmo que a minha, e era inevitável o quase contato físico, pelo pouco espaço deixado entre as pessoas.

Finalmente fomos atendidos, e eu me apressei no passo para me livrar daquele incômodo. Mas a mulher foi mais rápida, alcançando-me antes que eu pisasse na calçada estreita da rua. O olhar expressivo e o semblante belíssimo da menina, que avaliei ter no máximo quinze anos, detiveram meu ritmo e paralisaram meu corpo. Fiquei estático esperando para ouvir algo daquela mocinha, vestida de colegial:

– Senhor, você não é o Marcos Pontes? Soou finalmente aquela suave voz, cheia de meiguice.

Achei difícil dizer “Eu não sou o Marcos Pontes”, pois aquilo, que no início era elogio, passou a frustração. Até que consegui organizar o pensamento e, com uma voz serena, apropriada para minha idade, dirigi minha atenção para a jovenzinha. Enfim, achando as palavras certas para proferir naquele exato momento.

– Garota, o Marcos Pontes é muito mais importante que eu. Mais inteligente e mais novo, além disto, como astronauta brasileiro, ele é também o embaixador do Brasil pelo mundo afora. Nunca poderia estar aqui numa fila, perdendo seus preciosos minutos. Ufa, falei, e não foi tão difícil assim.

– Dá prá bater uma foto com o senhor? Disse entusiasmada a elétrica figurinha, mostrando-se indiferente ao que disse para ela.

Depois de falar e, antes que dissesse qualquer coisa, ela já veio ficar ao meu lado, esticando-se na ponta dos pés para ganhar um pouco mais de altura e, com o braço estendido para ganhar distância, sorriu, inclinando a cabeça para meu lado, enquanto apontava seu celular com o visorzinho focado em nossa direção.

Nem agradeceu e saiu numa alegria incontida, carregando a mochila nas costas. Como se tivesse conseguido o autógrafo do Brad Pitt ou do Daniel Radcliffe. Ela se foi, e eu parei para tentar entender o que ela teria imaginado.

Até agora não sei o que ela pensou. Será que ela havia acreditado em mim ou pensou se tratar de uma estratégia de fuga do astronauta, quando interpelado por seus fãs? Não tenho a resposta certa, pois era plausível encontrar aquele pop star pelos restaurantes joseenses, afinal estamos na terra do avião e do centro tecnológico mais importante do país. Cidade que projetou o agora badaladíssimo Coronel Aviador Marcos Pontes diretamente para o espaço.

Quer saber, acho que tudo foi apenas uma bobagem de uma menina mimada e maluquinha, que anda por aí clicando prá todo lado seu celular de última geração. Onde já se viu me confundir com alguém tão famoso, além do mais, acho desleal a comparação, já que ele pode usar aquela roupa apropriada para voos espaciais. Acho que até eu ficaria lindo com um traje daqueles.

Autor: José Maria Cavalcanti

 

 

HEROÍNA

 

Ela logo passou a ser seu vício, dominando sua mente.

E aquela imparável força noturna foi aumentando sobre Otávio Luna seu poder, transformando o que  deveria ser sonhos em delírios. Estranhamente ele  foi se sentindo mais afoito, perdendo a noção de medo e a sua costumeira timidez.

No meio da noite, aquela inquietude o movia pelas sendas das  fortes emoções que ela provocava.

Rolava de um lado para outro na cama, com sensações calorosas indescritíveis.

Seus olhos avermelhados denunciavam sua condição de insone, vivendo atordoado e com ideias fixas.

Quase não grudava os olhos e sempre despertava pelos sobressaltos causados por aquela estranha cadência de respiração, que davam novo ritmo às batidas cada vez mais rápidas do seu coração.

Algumas vezes se pegava transpirando forte e, outras vezes, era sufocado pela falta de ar. No correr da noite, buscava a brisa fresca que soprava do mar para o continente, pelo janelão dos fundos de sua casa.

A moringa de água, ao lado da cama, era uma recorrência contínua, pois a língua secava, justo quando ele tocava cada uma daquelas curvas, despertando-o daquela prazerosa espécie de pesadelo contínuo.

De repente ele foi surpreendido por aquela linda musa que lhe sorria e estendia a mão para ele. Imaginou-se lindo, sem crer que pudesse receber as atenções de tão bela mulher. Será que estou sonhando? Não, não é sonho, pois podia sentir a maciez daquela pele aveludada.

– Oh, Diva, meu Deus! Para Otávio aquela era a sensação mais gostosa da terra.

E, sem receios naquela instante, embriagado pelos encantos daquele olhar provocador e devorador, emaranhou-se naquelas curvas indescritíveis, sem se importar com mais nada.

Ali perto, aquele ensurdecedor apito de sirene adentrou pela madrugada, ganhando as ruas desertas da cidade quase vazia. O investigador Américo Lacombi foi o primeiro a chegar ao local do crime, após o contato de uma das meninas da Dance Connection, boate de luxo da cidade, ter ligado para a polícia, comunicando o ocorrido.

Podia lembrar-se que ainda era madrugada, quando o conhecido investigador foi acionado no seu bip. Para ele era sempre uma tortura quando aquele toque repercutia em seus tímpanos, principalmente porque fora dormir muito tarde.

Com a dificuldade de sempre, ergueu-se da cama movido pela obrigação, chacoalhou água na boca, passou as mãos molhadas nos cabelos e colocou a mesma roupa que ainda estava ali, jogada nos braços da cadeira.

Não queria pensar em nada, apenas visualizar a mensagem no aparelhinho: “Américo, crime na Ribeira, Travessa do Ouvidor. Investigar URGENTE!” Era mais uma ordem expressa do seu impaciente chefe Turíbio Mendes.

Apressadamente desceu as escadas do seu prédio sem se importar com a brisa fresca, que vinha da chuva fina, a soprar em seu rosto.

Ainda atordoado e cheio de sono, deu uma olhada rápida para localizar seu carro e entrou no veículo, já buscando a sirene, mas se lembrou que, da última vez que assim fizera dentro do condomínio, recebera inúmeras reclamações dos vizinhos, principalmente porque ainda era madrugada.

Teria que chegar rapidamente à Travessa do Ouvidor, antes de qualquer jornalista, pois o Turíbio não o perdoaria porque sempre falava que a polícia tem que chegar primeiro à cena do crime.

Pensou em ir pelo centro, mas se lembrou que por lá havia sempre um maluco correndo embriagado, cortando os sinais vermelhos. Então tomou o caminho mais longo, mas sem semáforos e mais tranquilo.

Saiu do Alto dos Ipês e foi cruzando toda a cidade pela Via Costeira. Enquanto mascava chiclete, abriu os vidros para que a brisa do mar soprasse forte contra seu rosto, assim ficaria desperto.

Passou pelos belos hotéis da costeira, depois pelos bairros de Conchas, Pina, Maresias e finalmente estava na Ribeira.

Gastara exatamente 13 minutos desde que recebera o toque do Chefe da Divisão de Polícia de São Francisco.

Américo posicionou seu carro fechando a entrada da rua, deixando a sirene ligada sobre o teto do seu seminovo Verona GLX 90. Ele recebera o carro de uma concessionária como prêmio por desvendar os crimes do maníaco do Campus Universitário, o qual assassinava as jovens estudantes, antes abusando delas sexualmente e ainda fazendo outras atrocidades.

Américo logo percebeu que havia no local alguns curiosos. Afastou a todos e começou a fotografar de todos os ângulos, antes da chegada dos legistas.

Guardou a máquina no casaco e bipou para sua amiga Natália Gomide, jornalista do Diário de Notícias. Cinco minutos depois, os legistas já começavam a fazer seu trabalho datiloscópico e fotográfico, examinando os pouquíssimos indícios deixados no chão, nas paredes ou naquele carro que suspeitavam que fosse vítima.

A chefe da equipe, Dra. Patrícia Dorneles, deu sinais decifráveis, e Américo entendeu que ela pouco poderia fazer com o que acharam no local. Enquanto isso, outros jornalistas que depois chegaram não conseguiam se aproximar, visto que toda a área estava isolada, conseguindo apenas fotos distantes e encobertas pela aglomeração feita pelos legistas, em torno da estrela maior da Stilomarca, que ficou famosa por vender seus produtos diretamente para Walt Disney.

Autor: José Maria Cavalcanti

(Vamos continuar juntos este texto?)

 

MEU AMIGO BRASILEIRO

Quando não viajo para Natal nas minhas férias, voo desesperado para comer fugazzetas, empanadas e bife de chorizo con papas fritas na capital portenha, sem deixar de apreciar as exibições de tango em plena Calle Florida – passarela obrigatória dos turistas brasileiros.

Aprendi a curtir a vida noturna de Buenos Aires, pois, lá, segundo eles, la noche está siempre en pañales (a noite é sempre uma criança). Sem dúvida que é a melhor hora para ir ao Teatro Collón e apreciar a vida boêmia de La Recoleta ou de Puerto Madero.

Após uma linda noite, o dia você começa, obrigatoriamente, tomando café em tradicionais casas do ramo, como Tortoni ou Las Violetas, por exemplo. Depois segue apreciando a beleza arquitetônica envelhecida e as modernas lojas das galerias, espalhadas pelo centro turístico.

Com o passar do tempo e após tantas idas, o mapa da cidade passa a fazer parte da sua mente. Você começa a guardar tudo de cabeça e não se esquece de mais nada, quando tudo é sinônimo de prazer. Isto é ótimo porque não se pode trocar o que é gostoso, mas é ruim porque a distância judia, pois nem sempre é possível estar onde queremos.

Mas o que fica, após cada ida, é o aumento de nossa bagagem cultural. Não me esqueço dos dias em que pisei pela terceira vez na cidade mais europeia de nosso continente. Havia começado aquele domingo de inverno por Caminito, no bairro La Boca, onde está o Estádio La Bombonera. Um pouco incomodado com o vento frio contra meu rosto, embora bem abrigado, busquei refúgio na feira de San Telmo – um verdadeiro antiquário a céu aberto –  e, depois, mais aquecido pelo calor humano e já alimentado, segui até a Plaza Rivadavia. Lá resolvi garimpar numa enorme banca de livros usados e ali encontrei algumas raridades que sempre havia buscado. Inspirado pelo que li nos achados, decidi me aproximar de um jogo de blitz (xadrez relâmpago), por estar disposto a mostrar para nossos vizinhos meu talento enxadrístico de beira de piscina. O frio que fazia não incomadava aos aficionados e admiradores, todos estavam curiosos e ansiosos à espera do vencedor.

Logo percebi que estavam travando uma batalha estratégica e tática sobre aquele pequenino tabuleiro quadriculado. A luta era desesperada, com golpes certeiros nos pinos dos relógios. Os combatentes quase não respiravam, olhares vivos, gestos e movimentos precisos, como se fossem autômatos, tudo na maior coordenação.

De repente: – Mate!

Após aquela mágica sentença, gritada em voz alta, tudo parou, e o derrotado, após o tradicional aperto de mãos, ofereceu-me a vez.

Já devidamente apresentado, começamos novo embate. Aquilo que começara em ritmo lento, logo passara a ganhar velocidade. Tudo parecia estar sob controle, mas o tempo não se pode perdê-lo de vista. Desgraçadamente, quando me sentia muito melhor na partida, a seta do meu ponteiro caiu, restando-me apenas apertar a mão do Señor Quinteros.

Antes que me levantasse, outro aficionado já queria tomar a vez, mas aquela atitude irritou muito a meu adversário vencedor. A ponto de ele levantar gritando:

Estoy con mi invitado y amigo brasileño y a él le toca seguir jugando! (Estou jogando com meu convidado e amigo brasileiro e ele seguirá jogando!). Aquilo quebrava as regras da espera. É sabido que o perdedor sempre se levanta para que outro jogador tenha oportunidade de jogar.

Fiquei tão impactado com a atitude do Señor Quinteros que nem sequer olhei para os lados.  Restava-me apenas disfarçar  meu incômodo com o soprar das minhas mãos, na vã tentativa de me aquecer um pouco mais. Ele sincronizou novamente os relógios, deu-me o privilégio de jogar com as peças brancas, e seguimos jogando por muito tempo.

Ao final, depois de algumas derrotas e pouquíssimas vitórias, despedi-me carinhosamente do meu novo amigo, e ele me disse: – Un gran gusto jugar contigo! (foi um grande prazer jogar com você!).

Após o aperto de mão e um grande sorriso amigável de calorosa despedida, fui informado que eu estivera diante de um jogador argentino de gran rango (grande força) e que eu poderia me dar por feliz de ter arrancado uma ou outra vitória, pois ele era muito duro.

Aquela experiência foi tão marcante que descobri naquele dia que as afrontas que sofremos no futebol não têm nada a ver com as amabilidades recebidas durante uma partida de xadrez.

Autor: José Maria Cavalcanti

ATRASO NA CEIA DO NATAL


 

 Não tem data mais linda que a do Natal! As casas ficam todas enfeitadas, as pessoas se vestem com suas melhores roupas, e a mesa de todos é posta na mais completa fartura.

Parece que tudo fica encantado, e muitas pessoas deixam de lado suas diferenças. Outras, como que tocadas por varinhas de condão, se veem dadivosas: dão presentes; fazem cumprimentos inusitados; e enviam um número sem-fim de cartões para saudar conhecidos e parentes distantes. O mundo realmente se unifica em torno do Natal.

Conosco tudo gira em torno da realização da grande festa. Como em todos os anos, tudo lá em casa fica preparado para a ceia do Natal, logo que Dona Francisquinha aparece toda bem vestida e arrumada. Este é o sinal que tá tudo pronto. Ela, que já havia passado o dia em torno do forno, assando a leitoa e o peru, logo se retiraria para depois retornar, radiante e bonita.

A mesa estava ricamente ornamentada, ali havia de tudo. Frutas secas e frescas, o panetone tradicional e o salgado, além de chocotone, brioches e rabanadas. O queijo do reino, parmesão e o pão italiano nunca podiam faltar, assim dizia nossa mãe, em homenagem ao pai de vocês, que era um amante das iguarias de Parma. Já posto no centro estava o arroz à grega, que nossa mãe só fazia em ocasiões especiais, sem faltar a deliciosa farofa recheada com linguiça calabresa e ovos cozidos. Que farofinha, só ela sabe como preparar. As bebidas geladas estavam na temperatura certa, champanhe e vinho estavam dispostos sobre a mesa.

A casa fora divinamente decorada com os motivos da festa: uma grande árvore de Natal, onde cada um já havia posto seu presente em baixo, ao redor dela, e aquele belíssimo presépio, com os Reis Magos e o menino Jesus na sua manjedoura, atraía a atenção dos pequeninos. Naquele ano até fizemos um rateio para custear pintura, alguns retoques pequenos e comprar mais de mil pequeninas lâmpadas que piscavam no jardim, e tudo ficara mais apresentável para aquele esperado encontro anual.

Embora digam que a alegoria ajuda na animação de toda festa, na nossa casa a alegria nunca se fazia ausente. Quem já havia chegado sorria, e os que chegavam depois faziam a maior algazarra em ver o outro. Alguns irmãos e cunhados faziam roda para falar de amenidades, e as irmãs e cunhadas comentavam sobre as roupas umas das outras. As meninas mais moderninhas e rapazes eram vistos enviando torpedos.

Era quase um evento cronometrado, pois quase todos chegavam ao mesmo tempo. Era difícil um quebrar a tradição da pontualidade, pois todos sabiam que, quando Dona Francisca tomasse posição, todos deveriam ficar em torno dela, pois ela sempre foi e sempre será o centro e o sentido das nossas festas.

Minha mãe mal saiu do seu quarto e, como era muito esperada, foi recebida com aplausos e podiam-se ouvir alguns gritinhos eufóricos. Os jovens assobiavam, enquanto Dona Francisca passava. Mas aquela noite seria diferente, pois, Francisco, nosso irmão mais velho, havia se atrasado.

Depois de muita espera, finalmente ele apareceu entristecido e com ar de preocupação, o que chamou a atenção de todos. E aqueles que pensavam em tirar uma de sua cara, recuaram da investida. Todos sabiam ser ele pontualíssimo e nunca cometeria a gafe de atrasar o belo enredo que estava prestes a começar.

Era costume recitar ali uma poesia ou se fazer um discurso de agradecimento por mais um ano, mas a cara do meu irmão esvaziava toda a inspiração, embora sua esposa e filhos estivessem felizes. Não tivemos alternativa senão pedir a ele que desse algumas palavras e explicasse a razão daquela tristeza que quebrava o clima instalado na casa.

Contou que se entristeceu ao ver pelo caminho tantas pessoas nos restaurantes prontas para cear, mas sentiu pena delas ao perceber todas aquelas expressões de obrigação, pois estavam todas sérias, como se aquele fosse um jantar comum. E não era só a tristeza de gastar o 13% ou porque iriam aumentar as despesas do cartão de crédito, mas era uma verdadeira carência de motivação. E ele sentiu que não era só por modernice para poupar a mãe deles dos eventuais preparativos do banquete daquele dia, era algo mais profundo e inexplicável. A cena fora tão deprimente que o fez se entristecer profundamente porque eles nunca poderiam desfrutar com toda a família daquela alegria que todos tinham em nossa casa.

Naquele momento todos se calaram, como se fora um cerimonial de um minuto de silêncio, mas logo aplaudiram as belas palavras daquela triste história, que valorizavam mais ainda aquele belo encontro familiar, e todos voltaram a rir, não havendo como nosso irmão continuar acabrunhado. Logo após as palavras sábias de nossa matriarca, ela enxugou suas lágrimas de felicidade, e a festa tomou conta da casa, noite adentro.

Autor: José Maria Cavalcanti

PEQUENA HISTÓRIA DE NATAL

 

Pepe estava solitário, a mesa posta e pronta para a ceia. Apenas um Papai Noel barrigudo fazia graça, dançava ao cantar Jingle Bells. Para espantar a tristeza, que não combinava com aquela noite especial, foi até o velho baú e trouxe um montão de cartas para perto da ornamentada árvore. E revendo cartões antigos, recebidos de sua amada Lolita, alegrou-se novamente por relembrar outros gostosos Natais partilhados com aquela que já não estava ali com ele, para compartir aquele momento.

Veja as mensagens que ele releu quando eles ainda eram bem jovens e não podiam estar pertinho um do outro:

A los que comparten risas, a los que lloran, a los que tienen alguien a su lado, a los que no lo tienen, a  ti que veo a menudo y que ti echo de menos, ¡FELIZ NAVIDAD!

Para aqueles que compartilham risos, que choram, que têm alguém ao seu lado e aos que não têm, para  ti que pouco vejo e que sinto muita falta, FELIZ NATAL.

Las mejores cosas de la vida nunca vienen solas y en estas Navidades lo confirmé… ¡Vienen contigo! ¡FELIZ NAVIDAD!

As melhores coisas da vida vêm sozinhas e neste Natal confirmei isto. Elas vêm contigo: Feliz Natal!

Que en estas fiestas, la magia sea tu mejor traje, tu sonrisa el mejor regalo, tus ojos el mejor destino, y tu felicidad mi mejor deseo!

Que nestas festas a magia seja teu forte traje, teu sorriso o melhor presente, teus olhos o melhor destino e a tua felicidade meu maior desejo!

La magia de la navidad es la magia de las personas… como tu que haces que un año se pase volando…

A magia do Natal é a magia das pessoas, como tu que fazes com que o ano passe voando…

Te quería mandar algo súper especial para esta Navidad, pero tuve un problema… ¿Cómo envuelves un abrazo y un besote?

Queria mandar para você algo superespecial para o Natal, mas tive um problema…Como envolver de presente um abraço e um beijinho?

Que esta Navidad convierta… cada deseo en flor, cada dolor en estrella, cada lágrima en sonrisa, cada corazón en dulce morada!

Que este Natal converta cada desejo em flor, cada dor em estrela, cada lágrima em sorriso e cada coração em doce morada!

Ainda a contemplar o último cartão, destinou a ele um beijo, colocando-o junto aos outros, espalhados sobre a árvore. Envolto por tantas emoções e com os olhos marejados de lágrimas, sorriu feliz por Lolita ter existido em sua vida.

Este pequeno conto nos ensina que quando alguém especial passa em nossa vida, preenchendo todos nossos recantos,  jamais voltaremos a estar sozinhos. Não haverá qualquer força no universo que seja capaz de apagar todos os momentos que se passa junto ao outro que esteve amalgamado ao seu ser.

Autor: José Maria Cavalcanti

CENA DO NATAL

 

Cheguei à cidadela e procurei os amigos que há muito não via, mas me dei conta, enfim, que não estavam em casa, embora fosse noite alta. Tudo parecia tão vazio, qual povoado fantasma. É a mais estranha sensação ver ruas e casas vazias, embora percebesse que ali tudo fora decorado com bom gosto. E, ao passar pelas calçadas, olhando as grandes janelas iluminadas, podiam ser vistas mesas que já estavam preparadas para um banquete logo mais.

Lembrando da tradição daquela noite, recordei que só haveria um lugar provável para agrupar tanta gente: a igrejinha depois da praça.

Segui rapidamente para pegar o amém, e quem sabe assim não tomariam minha presença tardia como descaso.

Apertei o passo, e a pressa esquentou meu corpo, aquecendo-me daquela noite gelada. O ritmo forte me fez chegar ligeiro. Ao me aproximar, fiquei encantado com aquela cena maravilhosa. Não se distinguia ali diferenças entre as pessoas porque todos pareciam apenas um. Um só canto, uma só alegria, um só aperto, um só abraço e uma só fé. Guardei na mente aquilo tudo para depois descrever com versos aquele cenário marcante.

Autor: José Maria Cavalcanti

 

BRASÍLIA – CURVAS DA MODERNIDADE

 

Descobri desde cedo que algumas sacadas, principalmente as iluminadas, têm o poder de influenciar a vida de milhares de outras pessoas. E não é que a ideia do estadista mineiro, Juscelino Kubitscheck, de retirar dos cariocas sua capital federal também iria mexer com minha família, lá num pedacinho distante do Oeste potiguar.

Tudo começou com meu tio Bila, que se tornou um precursor entre nós. Partiu, em 1956, desbravando com seu caminhão, chamado carinhosamente de “Gira-mundo”, todo o Nordeste, Minas, São Paulo, Rio de Janeiro e depois foi parar em Goiás. Ali, nem ele mesmo desconfiava, iria plantar seus pés definitivamente naquele sagrado quinhão de terra, que logo aprendeu a amar.

Depois meus avós, Pedro Alves e Dona Mocinha, que foram se juntar aos demais filhos, os quais seguiram antes para edificar a nova capital. Quase todos os irmãos migraram para o maior canteiro de obras brasileiro, com exceção da minha mãe e do meu tio Antônio.

A contar de abril de 1960, o Planalto Central passou a abrigar oficialmente a capital do Brasil, pois, no dia 21, foi apresentada ao mundo a princesinha curvilínea, uma magnífica obra arquitetônica, saída da genialidade de um brasileiro.

Enquanto os fogos riscavam o céu, minha mãe sentia algumas contrações, mas quis o destino que eu nascesse dois dias depois do grande evento. Quase ganhei o nome de Jorge, mas não poderia fugir da nossa tradição: as mulheres são Marias, e os homens são Josés.

Vinte e três anos depois, fui fazer um curso em Brasília, tendo o privilégio de colocar os pés na central das decisões políticas, sociais e econômicas brasileiras. E foi o mesmo tio Bila que me carregou do aeroporto diretamente para sua casa. Fui tratado como príncipe por minha tia Maria e primos. Depois de conhecer os demais tios: João Bosco, Mariquinha, Neném, Deia e Teresinha, e os muitos primos que ali nasceram, segui para conhecer as curvas da modernidade.

Diante de tanta beleza que contemplei no tour que meu tio me proporcionou, não me cansei de admirar tudo que via, podendo assim encontrar a exata tradução das palavras do seu criador: “Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito o universo, o universo curvo de Einstein.” (Oscar Niemeyer).Continue lendo e faça um comentário (clique ao lado)

Hoje, 21 de abril, ao completar 51 anos, a cidade tem o orgulho de ser um lugar com muito verde, apresentando baixos índices de analfabetismo e de desemprego, possui uma renda per capita acima da média e por estar crescendo em um ritmo de causar inveja aos grandes centros.

Parabéns a todos os candangos que atenderam ao chamado de Juscelino, saindo dos rincões mais distantes do Brasil para erguer um sonho com a argamassa sólida de muito trabalho, especialmente aos meus familiares, que fazem parte também desta linda história.

Autor: José Maria Cavalcanti

 


TOPO GIGIO

As economias dos países do MERCOSUL, principalmente de Brasil e Argentina, vivem como um eterno mover de carrossel. Quando a saúde financeira de nossos irmãos está lá em cima, a nossa está lá em baixo, gritando por socorro, e vice-versa. Talvez como uma armação do destino, sempre a colocar um rindo da desgraça do outro, não deixando que os dois se coloquem no mesmo patamar.

Naquele ano não foi diferente, a economia não soprava os melhores ventos para os portenhos, e as ruas e avenidas de Buenos Aires estavam abarrotadas de brasileiros. Embora que os mais endinheirados argentinos ainda não tivessem deixado de curtir as delícias das praias de Pipa, Búzios e de Santa Cantarina, especialmente as do Balneário de Camboriú e de Floripa.

Como o pacote turístico para a capital mais europeia da América do Sul estava super em conta, a vida buenairense recebia levas e mais levas de vizinhos animadíssimos. Isto era inevitável, pois se podia comprar tudo muito barato, além de se comer muito bem, e de quebra estar em lugares lindos, curtindo um clima aprazível.

Aproveitando mais um dia de férias, depois de havermos almoçado no Pipo, saíamos para dar uma passeada para perder um pouco das muitas calorias adquiridas com as comilanças.

De repente, vejo que Tita olhava atentamente para uma vitrine de uma loja de presentes de uma das avenidas do centro. Aproximei-me e vi que de seus olhos escapavam algumas lágrimas.

Estiquei o olhar através do vidro e percebi que ali dentro havia três lindos bonequinhos, orelhudos e barrigudos, com roupinhas coloridas.

Quando para ela indaguei, conheci a causa daquela precipitação repentina. Aqueles bonequinhos, de olhos grandes e simpáticos, provocaram nela uma viagem no tempo, remontando a época de criança, quando vivera na capital argentina, dos quatro aos sete anos.

Sua tia Porota, embora fosse rigorosa com as proibições para conter o seu comer de unhas, sabia também ser muito carinhosa nos seus aniversários, fazendo questão que o tema da festa fosse sempre com a presença indispensável do bonequinho que a pequena Torta mais amava: o Topo Gigio.

Ver de novo o mesmo bonequinho, numa loja que não era exatamente um antiquário, provocou tantas emoções que Tita se viu novamente na varanda da cobertura do apartamento da Callao com a Lavalle, 492. Ali toda feliz, de sapatinho branco, com seu vestidinho de mangas compridas, com a tiara a emoldurar seu cabelo comprido. Seus olhinhos fixos no bolo, coberto com muitas velinhas, era uma visão que não podia se apagar da memória.

Fiquei também emocionado com o tanto que aquele safadinho representava que saí na busca do dono da loja para ver se aqueles itens estavam disponíveis para negociação. O marido pediu para que a esposa nos atendesse e, ao perguntar o preço dos bonequinhos, recebi uma negativa de venda como resposta, pois os brinquedos pertenciam aos seus filhos e estavam ali apenas para decoração.

Como os negócios estavam difíceis e muito mais para aquele ramo de comércio, diferentemente das vendas de roupas, calçados e restaurantes, o marido veio logo ao nosso alcance. Sua ideia era se inteirar daquilo que estava ocorrendo, ao ver que a cliente seguia tristonha com o atendimento.

A esposa do negociante o chamou para longe da gente para uma conversa particular. Logo começaram a discutir, e ele se dirigiu ao nosso encontro dizendo que tudo que estávamos vendo era para ser vendido, inclusive os bonequinhos. Aquilo irritou a esposa dele de tal maneira que ela saiu xingando o marido, retirando-se do ambiente.

Ao vermos que o circo estava pegando fogo, ficamos receosos de ter sido a causa de uma briga familiar e quisemos nos retirar, mas fomos alcançados pelo senhor da loja. Ele insistiu: “Não se preocupem, aqui tudo está para ser vendido!”. Diante da posição e querendo agradar a Martita, resolvi perguntar o preço do Gigio, e o comerciante anunciou:

– Cada boneco sai por 100 dólares, caso queiram realmente comprar!

Olhamos um para o outro de tão assustados que ficamos com o preço cobrado, sabendo que a inteção dele, com certeza, era de nos afugentar.

Mas ele teve uma surpresa inesperada. Antes de mais nada, reagi dizendo que levaria ao menos um, assim não causaria tantos problemas para o casal e alegraria por demais a Tita, restando a ela escolher qual ela levaria.

Vocês precisariam ver a carinha de felicidade que ela me fez. Aquela reação afetiva já valia a pena pela quantia elevada a ser paga para o esperto lojista. A dificuldade se deu ao definir qual seria o escolhido, pois todos eram especiais, embora os anos tivessem dado a eles um aspecto empoeirado, e as roupinhas já exibissem as marcas do tempo.

Depois de apontar o que tinha a roupinha listrada, com boné na cabeça e a calça azul, o dono da loja logo tratou de fechar a compra, sem necessitar embrulhá-lo para presente, pois o Gigio já saiu de lá recebendo carinhos e afagos.

Após a saída da casa comercial, nós pegamos um táxi para regressar para o hotel. Quando chegamos ao quarto, nem precisei perguntar para Tita se ela estava feliz, pois seu olhar e gestos diziam tudo. Ela olhava sem parar para aquela raridade, como se estivesse hipnotizada por ele. Aproveitei para perguntar para ela se havia se assustado muito com o preço, e ela retrucou dizendo que não. Que o que havia assustado mais a ela fora minha reação de comprá-lo imediatamente.

A sinceridade de Tita arrancou de mim uma gargalhada gostosa, mas aquela impressão que eu passava de pão-duro me marcou muito. Talvez seja por isso que eu tenha comprado no ano seguinte mais dois bonequinhos daqueles na Feira de Antiguidades de San Telmo, querendo desfazer esta imagem ruim.

Autor: José Maria Cavalcanti

Para quem não conheceu o encantador ratinho, darei algumas informações. Ele era um sucesso na Itália, desde que foi criado em 1958 por Maria Perego. Chegou aos Estados Unidos antes da Argentina, nas terras platenses ficou de 1964 a 1968, depois seguiu para o Uruguai e, em 1969 chegou ao Brasil, permancendo até 1971. Ele fez muito sucesso na companhia de Agildo Ribeiro, o qual se apresentava com o simpático ratinho. Depois Regina Duarte e Miele também fizeram companhia para Topo Gigio nas suas aparições na Rede Globo.

Para matar a saudade, postei um vídeo do Topo Gigio. Não deixem de ver!


SOLIDARIEDADE

Depois de alguns meses vivendo no Canadá, aquele era o primeiro Natal que iria passar afastado da minha esposa e filhos. Tudo isso porque havia surgido na minha vida profissional a necessidade de agregar o idioma inglês como ferramenta de trabalho, e o intercâmbio cultural foi indicado como o caminho mais rápido para eu ganhar fluência verbal. Afastado do aconchego do meu lar, tudo fazia aumentar a distância e a saudade, principalmente perto das festividades daquele final do ano de 2001.

Aquela noite fria, especialmente, iria marcar muito minha vida. Havia ficado um pouco mais do que deveria no aconchego da sala climatizada do campus. Ali sentia uma temperatura agradável e podia levar um bate-papo gostoso com minha família nos terminais disponíveis gratuitamente para os estudantes. Depois de aliviar o aperto do coração, comecei a me divertir no mundo virtual, jogando algumas partidas de xadrez com outros solitários da Net.

Fiquei tão envolvido que não percebi o voar das horas. O aviso do guarda de que o local iria ser fechado foi o que me despertou. E já não havia mais tempo para pegar o último trem de superfície, transporte público disponível naquelas imediações. Sem roupas e calçados adequados, saí debaixo dos flocos de neve que caíam ininterruptamente em cima das camadas que já haviam se formado. Alguns veículos patinavam pela neve, fazendo com que por vezes perdessem o controle da direção.

Com o passar dos minutos, começava a rarear a passagem de qualquer tipo de locomoção, tornando preocupante ficar ali parado, submetido aos rigores das temperaturas extremamente baixas do Canadá.

Mesmo tremendo de frio e com dificuldade para caminhar sem afundar na superfície gelada, saí à procura de um táxi, pois ninguém estava disposto a dar carona a um estrangeiro, principalmente depois do fatídico dia 11 de setembro. O ataque às torres gêmeas mudou o comportamento cordial do canadense também, e o medo havia se instalado nas pessoas.

Meus acenos eram vãos para um ou outro que passava por perto, e parecia não haver qualquer taxista naquela noite.

Meus pés estavam úmidos e meus lábios já estavam roxos e trêmulos. Naquele momento de desespero, comecei a pedir a Deus para que algum coração amigo se compadecesse de mim.

Eu estava ciente que teria de me manter em constante movimentação para não congelar de vez. Cansado de tanto andar e já sentido todo meu corpo doer, entendi o tamanho da minha imprudência frente aquelas baixas temperaturas e o despreparo para vencer aquela adversidade climática.

Quando já não parecia haver saída, um carro parou ao meu lado, e o condutor abriu a porta para que eu entrasse. Aquilo me pareceu um milagre, pois me vi perdido, sabendo que poderia morrer se não fosse socorrido.

Dentro do carro, um homem de turbante me recebeu com um caloroso sorriso e nem estranhei aquelas roupas brancas e o turbante que ele vestia, pois estava vivendo em uma sociedade que gozava uma linda harmonia multirracial.

Com muita dificuldade, consegui balbuciar poucas palavras de agradecimento. Mais adiante, mais refeito pelo aquecimento do interior do veículo, consegui responder para o bondoso homem sobre o local que vivia.

Ele me levou até meu endereço e, quando fiz menção de pagar pelo serviço do taxi, ele disse que naquele momento já não estava a trabalho, mas resolvera me socorrer, quando percebeu o meu sufoco.

Aquele senhor indiano ou árabe disse que sua religião o orientava sempre a estender a mão para os necessitados e aquilo ele fez de coração, não havendo preço para seu ato.

Não insisti por entender melhor o caráter daquele homem e a grandeza de sua fé e de seu coração.

Somente depois que me aqueci no meu quarto é que me dei conta que nada sabia do meu salvador, pois não havia sequer entendido bem o seu nome quando ele se apresentou. Até hoje não soube nada sobre ele, mas aquele gesto humanitário ficará guardado comigo para sempre.

Autor: José Maria Cavalcanti


ASAS DA IMAGINAÇÃO

O garotinho se aproxima carinhosamente da sua mãe grávida. Ela está nas últimas semanas, e a ansiedade da família já é grande. O menino, curioso, arqueia os dedos, formando um tubo com a palma da sua pequena mão. Com aquele duto de visão de raios–x, ele encosta seus olhos na altura do umbigo da enorme barriga e visualiza o irmãozinho que em breve irá chegar. Conversa baixinho com ele, enquanto sua mãe o observa sorrindo.

Movido por aquela grande descoberta, ela se aventura no grande rio que passa nos fundos do seu quintal. De dentro de uma canoa, afunda um pedaço de cano de plástico nas águas turvas e assim visualiza a vida aquática. Quantas espécies de peixes, grandes e pequenos, e outros animais naquela vida submersa! Pelos olhos da criança, passa um mundão de imagens daquele mundo quase invisível.

Onde houvesse um ângulo de visão, ali estava o menino, pronto para esticar seu olhar em muitas direções. Bastava uma fenda para chamar a atenção do garoto, o que era suficiente para exercer forte atração sobre ele. Uma hora, ele ampliava com o artefato manual o mundo das formigas; em outro momento, perscrutava dentro do galinheiro.

Certo dia, percebeu que pelo buraco da janela de madeira se permitia ver o que se passava no interior da casa dos Pacheco, seus vizinhos. Ele não pensou duas vezes. Encostou um tronco velho de árvore e subiu para visualizar a vida por trás daquelas paredes.

O garoto estava tão entretido que não se deu conta que fora flagrado. Dona Jacinta correu com ele: “- Oh, moleque, que tu tá fazendo aí!”. Ao escutar os gritos, assustou-se e passou sebo nas canelas, correndo para perto da sua mãe. A vizinha, bonachona, sorria da correria que provocara no menino que ela viu crescer, mas que precisava naquele momento de uns gritos para despertar nele a incorreção daquele ato, merecedor de repreensão.

As cenas são muitas bem feitas e fazem parte de mais uma propaganda de sucesso de nossos criativos artistas de uma das melhores agências do país.

A ideia da empresa contratante, a General Eletric, é passar para o público que “mais vale a imaginação que a inteligência”, seguindo a famosa frase do cientista famoso Albert Einstein.

No fim, a propaganda é concluída com a seguinte sentença:

“Se dá para imaginar, dá para fazer.”

A empresa quer nos passar o conceito de que muita coisa, que hoje faz parte do nosso dia a dia, foi inventada pela GE, partindo do pressuposto que a solução de muitos problemas está em imaginarmos sua solução, que é a base da concepção dos seus produtos no Brasil e em todo o mundo.

É incrível como a agência trabalha a emotividade para passar a mensagem do seu cliente, demonstrando mais uma vez o excelente trabalho feito pela propaganda brasileira, que fatura quase tudo em premiações mundo afora, sendo apontada como a terceira maior no ranking, sendo superada apenas pelos EUA e Inglaterra.

Autor José Maria Cavalcanti

Comercial brasileiro da General Eletric

Comercial americano da GE

 

SENSIBILIDADE PARA TOCAR DEUS

Alguns homens buscam a ausência total dos pensamentos para atingir níveis altos de concentração, tudo com o intuito de elevarem suas mentes e assim poderem tocar o divino. Outras pessoas, em clausura e jejum, repetem palavras ou grupo de palavras que provocam um transe mental com o mesmo propósito.

Acho que aquela minha ida à periferia de São José dos Campos, pro lados de Monte Altinho, depois de Montes Altos, fez com que eu entendesse melhor a importância desses mecanismos para se conseguir a ausência total dos elos com o mundo material, movidos por atos de fé.

Era mais um domingo de visita ao meu amigo Emanuel, que morava naquele lugarzinho aprazível em uma das laterais da montanhosa Rodovia dos Tamoios, que desce a Serra do Mar, escoando milhares de carros nos finais de semana, levando quase todos para as praias do Litoral Norte do estado.

Não querendo me estressar, fui de ônibus daquela vez, sabendo que teria a garupa de Corisco para me levar, a partir do ponto final de ônibus para a casa do amigo, conforme já havia sido previamente combinado.

Ao chegar ao local de encontro, um enorme flamboyant, Manu veio montado ao meu encontro e me cumprimentou, cheio de calor humano, e logo senti se dissiparem ali quaisquer dúvidas sobre o valor da minha ausência.

Agarrando-me pelo braço e com o pé no estribo, impulsionei o corpo e me enganchei no belo animal, acomodando-me após a cela. Saímos a galope, sem perda de tempo até chegar ao meio do caminho, quando paramos na casa de Tião, um primo e compadre de Emanuel, para ali tomar um café de bule.

O pai dele estava no alpendre, pertinho de uma rede colorida, na companhia de Montanha, um cão branco, que diziam ser mansinho, mas nos mantinha à distância. De longe, observei que seu Pedro amolava uma navalha, sem tirar os olhos da lâmina, mesmo que sua barba estivesse bem feita. Aquilo me chamou a atenção, mas terminei o meu café e agradeci as atenções de Tião.

Depois das despedidas do primo, seguimos caminho em direção a Monte Altinho, depois de já termos estado em Montes Altos. Vinte minutos depois, cruzamos um arroio para chegarmos à porteira do Recanto Doce.

No sopé da casa, já estava Madá na companhia das duas filhas a nossa espera, com os mais receptivos dos sorrisos.

Após o abraço gostoso de boas-vindas, outro café fresquinho já estava a postos sobre a mesa. As minhas deliciosas broas de milho, feitas no fogão a lenha, eram as honras da casa. O bolo de fubá ainda estava quentinho, e o queijo mineiro foi fatiado para acompanhar o pão sovado, que ali era chamado de Tatu, devido ao seu formato.

Sentamos para tomar o farto café da manhã, no estilo campesino. E logo me veio de perguntar sobre a saúde de Bumbá, a vaquinha que foi acometida de uma doença, que parecia não ter solução. Com a cara mais feliz do mundo, Madá reportou que ela havia ressuscitado, depois de uma transfusão recebida, e agora já estava de novo integrada ao rebanho.

Enquanto a prosa seguia animada, percebi que o fogão crepitava sem parar e dali já exalava o cheirinho gostoso de comida feita na panela de ferro. O cardápio do dia foi logo anunciado: hoje você vai comer um escondidinho de carne seca, feito com batata salsa cozida.

Mas aqui vocês só reaparecem mais tarde, pois tenho muito que fazer ainda. Vão pescar um pouco no Riachão ou quem sabe trotar até o paredão da represa.

Assim se deu. Galopamos um par de tempo até que a fome nos fez acordar pras horas. A volta pareceu mais ligeira, e nem vimos o tanto de terra que cavalgamos do pé da serra ao arroio, de onde se pode avistar a casa do amigo.

Apeamos, amarramos as rédeas no mourão e subimos às pressas os degraus do alpendre. Logo lavamos o rosto e as mãos para nos achegarmos à mesa do banquete. Eram assim sempre os almoços na casa do amigo. Além do prato principal, havia salada, maionese, também suflê de queijo e de legumes, arroz, bolinhos de bacalhau e bolinhos caipiras. A sobremesa e o café com queijo estavam divinos, tudo para fazer alguém se sentir como rei.

Comemos tanto que bateu arrependimento. Tirar um cochilo numa rede já fazia parte do meu ritual na fazenda, seguindo as dicas do Emanuel, que era o primeiro a chegar ao redário. Depois da sesta, seguiu-se uma prosa animada, na qual o amigo contava os acontecidos da última semana.

Madá depois se ajuntou a nós, e jogamos conversa fora pelo resto da tarde. Finalmente era hora das incômodas despedidas. Era com pesar que eu sempre abraçava cada membro da família, pois eram como se fossem parte de mim.

Contristado me fui na companhia do amigo, carregados pelas fortes patas do Corisco, que demonstrava a força de um bom trotador.

Já era boquinha da noite, quando nos achegamos mais uma vez na casa do primo. Ali havia sempre um café fresco no fogão a lenha, que tomamos gostoso, acompanhado de um saboroso bolo de milho.

Lançando meu olhar novamente na direção do pai do Tião, observei que ele seguia amolando a navalha. Aquilo me deixou intrigado, afinal ele não poderia estar naquele mesmo ritual desde cedo, quando passamos pela manhã.

Como não queria sair dali sem resposta para minhas inquietudes, aproximei-me e disse:

– Seu Pedro, vi que o senhor está há muito tempo amolando sua navalha, mesmo vendo sua barba estar bem feita. Fiquei pensando o que levaria um homem a primar tanto para amolar um instrumento?

– Senhor – disse calmamente com um leve sorriso maroto -, eu não estou amolando a navalha, simplesmente estou na presença de Deus. E desviando seus olhos de volta, seguiu com o mesmo procedimento, sem esperar a minha reação de espanto diante daquela sabedoria.

Talvez ele não saiba, mas aquilo me tocou bastante. Saí dali impactado com aquela singela experiência e regressei para São José, sem deixar de pensar um só dia naquele mergulho divinal que o senhor Pedro fazia pelo fio da navalha.

Autor José Maria Cavalcanti


BUSCA DA FELICIDADE

Certo dia, um homem muito rico, cansado da vida que levava, distribuiu toda sua fortuna para a esposa, filhos e parentes.

Sentindo-se leve, mas ainda carente de verdadeiros sentimentos, partiu em peregrinação em busca da felicidade, levando pouco com ele.

Andando muito, pegando caronas e contando com a ajuda de muitas pessoas, chegou a uma montanha onde havia um homem religioso que levava a palavra para uma multidão.

Esperou pacientemente pelo término dos ensinamentos daquela pessoa iluminada.

Duas horas depois, foi percebida a presença dele, e aquele homem de Deus deu a atenção que ele necessitava:

– O que o traz aqui, senhor?

– Venho de muito longe e sigo pelo mundo à procura da felicidade.

Após um sorriso gostoso, respondeu:

– Meu filho, a felicidade não pertence ao mundo material. Na verdade, ela é uma energia divina, que o Altíssimo, por misericórdia, de vez em quando deixa cair sobre nós uma centelha, para que tenhamos um antegozo da verdadeira felicidade, que um dia há de vir em sua plenitude.

Aquelas palavras o fizeram refletir por um longo período e finalmente se despediu:

– Muito obrigado, senhor!

Aquela resposta maravilhosa encheu seu coração de amor, mas ele ainda queria algo mais. Então seguiu para outra região mais distante, onde diziam que acharia a resposta que iria pôr um fim naquela busca.

Após 40 dias de peregrinação pelas terras montanhosas orientais, chegou ao local indicado.

Com o auxílio de um guia local, seguiu por três dias a pé, escalando a mais alta montanha da terra. Ao término daquela cansativa jornada, deparou-se com uma pessoa com um aspecto de eremita, que meditava silenciosamente sobre uma rocha. Aquele homem vivia apenas da energia que emanava do prana, que extraía ao respirar. Dele exalava uma leve fragrância e do seu semblante irradiava luz.

Aguardou o término da longa meditação e o sinal para que se desse o início da conversação, conforme recomendara o guia.

Achegou-se ao sábio lentamente, sendo cumprimentado com um sorriso discreto.

Rompendo o silêncio, indagou:

– Senhor, venho percorrendo muitos quilômetros para saciar uma sede em meu espírito. Tenho certeza que aqui encontrarei resposta.

Diante de apenas um gesto de cabeça, continuou:

– Nunca senti o que é ser feliz, pois estive sempre cercado de pessoas que se aproximavam de mim pelo muito que eu tinha. Hoje, apartado daquilo que o dinheiro pode comprar, procuro a felicidade.

Depois de uma pausa, finalmente o homem começou a falar com uma doçura imensa:

– Você deu o primeiro passo no caminho da iluminação. O que você busca é uma energia cósmica, que nos vem depois do esvaziamento de imagens e pensamentos inferiores que povoam a mente humana. Tal energia está fartamente disponível para todos e quer fazer parte de nós, mas aguarda a purificação de cada interior. Depois que ela permeia nosso ser, somos completados, e tudo se ilumina. Essa energia é tão incrível que provoca constantemente sensações de felicidade.

Impressionado com as sábias palavras, despidas das sutilezas e superficialidades a que fora acostumado, ficou reconfortado pelo o esforço que tinha feito para chegar até ali, mas ainda não sabia como iniciar-se naquele caminho.

– Mestre – indagou -, com quanto tempo se alcança a felicidade?

– Filho, aonde você quer chegar, o tempo não conta. A estrada só é longa pra quem põe reparo nas pedras do caminho.

Mais uma vez, captando a profundidade daquelas palavras, o buscador compreendeu que sua ansiedade é que entulhava o fluxo de energia vital e que era hora de se desfazer da última lembrança de sua vida pregressa. Assim, retirou do pulso seu relógio e foi gentilmente ofertar para o guia que havia oferecido gratuitamente seus serviços, mas aquele humilde homem já não estava ali.

Autor José Maria Cavalcanti

ALEGRIA CONTAGIANTE

Ela era uma criatura tão doce e sorridente que todos queriam ser atendidos por ela. Sua presença no ambiente de trabalho ou onde quer que estivesse era sempre permeada de uma energia incrível, contagiando a todos.

Já havia passado dos sessenta, mas parecia ter menos, em função talvez da conservação da pele do seu rosto e do esfuziante brilho do seu olhar, que possuía um verde inesquecível.

Vestia-se sempre com muita elegância e sobriedade, sem chamar excessivamente a atenção das demais pessoas. Seu perfume era discreto, mas marcante. Falava pronunciando corretamente cada palavra, e não tinha um sotaque característico, podendo ser de qualquer região.

Um dia seu patrão não resistiu e perguntou para ela o motivo de tanta felicidade, já que ele a havia empregado e sabia que era viúva, tendo também perdido um filho por um mero acaso do destino.

– Filó, queria descobrir o segredo da sua alegria, pois nem no mês de tantas recordações tristes, como é agosto, você não se abate nunca! Disse o empregador curioso.

– Arnaldo, os dias são carregados de bendições, tudo depende de nossa predisposição e estado mental. Não podemos nos deixar levar por um montão de crendices.

– Mas não deve ser fácil, você desfila este sorriso por todo o dia. Conte-me logo qual o segredo para alguém ser tão feliz. Insistia Arnaldo, já meio brincalhão.

– Por ter nascido no dia 23 de agosto, este mês já é muito especial para mim. Meu casamento foi no dia 13, como homenagem ao dia em que eu conheci o grande amor da minha vida. Meu único filho nasceu no dia 7, assim o mês de agosto é só de alegrias. Vivo os 31 dias a comemorar fatos memoráveis de minha alegre vida.

– Mesmo tendo perdido seus amores, Filó?

– Quando Deus me deu estes tesouros foi para que soubesse apreciar melhor a vida e não para ficar me lamentando todos os dias. Quando penso neles, fico mais feliz ainda por eles terem existido no meu caminho.

– Mas sua motivação é contínua, mesmo nos outros meses. Como você explica isso?

– Cada dia, ao levantar, recordo-me de um momento gostoso partilhado, e a energia mágica daquela felicidade me alimenta por vinte e quatro horas. É sempre assim, nunca deixo minha mente esvaziada, mas sempre a preencho de coisas boas.

– Além dessas grandes perdas, aconteceu algo mais forte em sua vida?

– Quando eu tinha 38 anos, comecei a perceber grande falhas entre as mechas de meus cabelos. Então, como prevenção para evitar uma queda maior dos fios, comecei a tomar um medicamento recomendado no meu salão. Da mesma forma, procederam outras pessoas da minha cidade, que sofriam com o mesmo problema. Em pouco tempo, meu fígado diminuiu de tamanho e praticamente perdeu sua função. Algum tempo depois, seis consumidoras já haviam falecido, e eu tinha apenas 20% de chance de sobreviver. Quando todos os meus familiares pensavam que aquele seria meu fim, graças a Deus, recebi o transplante de um doador e fui salva milagrosamente.

– Puxa, Filó, você nasceu de novo!

– Por isso desfilo com esse sorriso todo o tempo, pois a vida é um milagre por si só. Tenho também muitos reveses, mas não me apego a eles. Prefiro festejar cada minutinho que me é dado de presente.

Depois que a Filó acabou de falar, seu patrão não perguntou mais nada. Ele finalmente compreendeu o porquê de sua melhor funcionária ser tão feliz.

Autor José Maria Cavalcanti

 

TORTA DE MAÇÃ

Aquilo que uma mãe faz especialmente pra gente, com todo carinho, não se pode esquecer jamais.

O nhoque lá de casa era o mais delicioso que já comi, pois, além de caprichar no trigo, o molho era caseiro, sem o sabor amargo do enlatado. Para elaborá-lo, ela acordava cedinho para picar os tomates maduros, bem avermelhados, para depois cozinhá-los com os temperos. Após isso, passava manualmente tudo na peneira e deixava curtir para apurar mais o sabor.

A sobremesa era a minha preferida sempre. Já no caminho entre as duas cidades, ficava imaginando aquele inesquecível sabor que a torta dela tinha. Quando eu chegava, ela estava com meu pai ao portão, e quando lhe perguntava se havia feito minha torta, sempre ria e às vezes mentia, dizendo que não havia dado tempo. Mas, após o almoço, sabia que logo viria a surpresa. Era sempre assim, depois de saborear o suculento nhoque, que era degustado com o acompanhamento de fatias generosas do pão italiano, ela desaparecia por um breve intervalo de tempo e reaparecia a seguir com o inesquecível doce caseiro.

E a mesa era posta de forma a não faltar nada. A ideia era não fazer interrupções durante aquela hora quase sagrada. Hercília, a secretária de muitos anos, coordenava tudo, trazendo os pratos quentes para a mesa.

Tudo era previsto para que aquele momento fosse único, não havendo esquecimento de nada, como o queijo ralado, que na massa italiana não pode faltar. Essa era uma atividade para meu pai, que sempre comprava um pouco demais. Exigia do João, lá da vendinha do bairro, um parmesão fresquinho, ralado na hora. Aquele queijo de saquinho, cheirando a chulé, ele dizia: “- Isto não se recomenda nem pro pior inimigo!”.

Finalmente, depois de repetir o saborosíssimo prato italiano, minha mente já se voltava para o doce. Mas não era uma sobremesa qualquer, e sim a mais preciosa das tortas. Confesso que eu comia desesperadamente, como se o mundo fosse se acabar, que até perdia a noção de limite.

Não sei se é por fidelidade, mas jamais voltei a comer uma delícia igual a da minha mãe, porque aquela torta de maça era feita de uma maneira única. E já não está comigo aquela que me fazia com tanto carinho aquelas tentações da gula. Sinto dela uma saudade imensa, pois hoje já não desfruto mais o prazer imenso de sua presença.

Autor José Maria Cavalcanti

 

PEÇA VALIOSA

Com pouco recurso naquele final de mês, preferi ficar na Redinha para economizar combustível, embora já fosse um vício prazeroso cruzar a belíssima ponte estaiada, Newton Navarro, que embeleza o visual da orla natalense. Fiquei em minha residência descansando, embalado pela suave brisa que sopra do mar para as dunas.

Sabia, pela experiência adquirida, que aquele período chuvoso era de minguante no meu negócio – um ramo do paisagismo voltado para os cuidados dos jardins e áreas verdes de hotéis e mansões da capital potiguar. Assim permaneci no embalar da minha rede, imaginando um tempero novo para o enredo de uma história que insistia em não sair da minha mente. Este envolvente hobby de escrever estava aos poucos consumindo todo meu tempo livre.

Logo fui surpreendido pelo toque da campainha. Lancei um olhar pelo espelho, usado como um retrovisor para enxergar melhor a rua, e percebi se tratar de uma senhora, que soava o timbre de forma insistente. Ao me aproximar, percebi que ela estava acompanhada por um homem já maduro. De pronto, aproximei-me dos dois para escutá-los. Após as formalidades dos cumprimentos e da leitura rápida sobre o grau de periculosidade que eles poderiam representar, ganhei confiança, abri o portão e os convidei a entrar, vindo a saber que aquele homem era  filho da senhora que estava na minha frente.

– Senhor – disse o filho, obrigado pela confiança e gentileza! Sei que somos desconhecidos, mas não somos pedintes, pode ficar tranquilo. É que minha mãe – apontado para ela – está doente, sofrendo com uma úlcera e, como estamos sem dinheiro, viemos aqui oferecer para o senhor comprar nosso velho piano, peça que foi herdada de nosso avô, para assim podermos comprar os remédios, recomendados pelo médico, antes da cirurgia agendada.

Escutei aquele homem disparar aquelas palavras quase de um só fôlego, mas me detive no olhar sincero e sofrido daquela senhora.

– Senhor – prosseguiu ele, é uma peça antiga, e estamos oferecendo por um preço muito baixo, apenas para socorrer minha mãe. Deve valer uns mil reais, mas estamos pedindo somente oitocentos. Venha vê-lo em nossa casa aqui perto e tenho certeza que o senhor irá apreciar o instrumento.

De imediato falei do meu pouco conhecimento sobre instrumentos musicais e que não possuía nenhuma habilidade para tocar instrumentos de corda. Notei o desapontamento no semblante de ambos.

Movido a compaixão, segui com eles até a Rua Peixe-rei, que dista um pouco longe da minha, Rua Dourado.  Ao chegar na casa deles, uma residência simples, mas bem arrumada, entrei no cômodo onde se encontrava o objeto da negociação proposta.

Achei muito estranho aquele instrumento musical, que nada me fazia lembrar um piano. Foi como jogar uma ducha de água fria, pois a imagem da peça quebrou minha expectativa. Diante do impasse criado, pronunciei-me dizendo que iria fazer um contato com um amigo do ramo, Levi, que era dono de um antiquário no centro de Natal.

Estabeleci contato com Levi no intuito de repassar aquele objeto desconhecido e, no fundo, queria também dirimir minhas dúvidas sobre a autenticidade e o real valor daquele objeto.

Levi mostrou-se interessado e me falou para eu tomar nota do número da peça e, se possível, também o nome do fabricante, esculpido na madeira. Depois da averiguação, constatei que havia um número por trás do piano, e a descrição da peça também foi passada para Levi.

De posse dos números de registro da peça, Levi mandou fazer uma proposta de dois mil reais pelo piano e que, caso concordassem, iria fazer o resgate do produto imediatamente.

Tudo que o dono do antiquário falou foi repassado para senhora e seu filho por mim, que fiz a recomendação de tratar bem o comerciante, devido a presteza em nos atender de imediato. Retornei para minha rede na varanda de minha casa.

Soube depois que nem bem eu havia deixado a casa, Levi encostou seu carro em sua porta. Era um caminhão especial de mudança, que veio buscar o piano, o qual foi carinhosamente embalado e depositado cuidadosamente dentro do baú do grande veículo utilitário.

Toda a comercialização foi feita com assinaturas de documentos de compra e venda e de origem da peça antiga, tudo isso diretamente entre Levi e a senhora com seu filho. Após a conferência dos valores combinados, que já estavam separados em um envelope, Levi seguiu lentamente com seu caminhão pela rua sem pavimentação.

No aconchego do meu lar, finalmente comecei a tirar meu cochilo antes do jantar. Mas, novamente o toque da campanhinha interrompeu meu leve sono. Usando novamente o recurso do espelho, vi que era o filho da senhora da venda do piano.

Fui atendê-lo e logo fui surpreendido com o envelope que ele me entregava, contendo um mil e duzentos reais. Sem compreender, pedi explicações, e ele disse que a quantia pedida deles fora de oitocentos reais e não os dois mil reais recebidos, assim sendo, era justo devolver o troco, que eles achavam que caberiam a mim.

Retruquei dizendo que eu já estava muito feliz por ter ajudado e não queria nenhum tostão, pois eles estavam necessitados, e eu pouco fizera para merecê-lo. Depois de muito bate-boca, convenci o homem a ficar com mais um mil reais e que eu ficaria apenas com duzentos reais, para dar um fim naquela polêmica.

Acordo fechado, ficamos felizes, principalmente ele, que não esperava tanto.

Alguns dias depois, parou diante da minha casa um entregador especial. Era uma encomenda com uma caixa de vinhos importados, um presente inesperado. Ao ler a nota explicativa, dei-me conta do que se tratava.

“João, você não pode imaginar o grande presente que você me deu. Aquela antiga peça foi vendida por doze mil reais em São Paulo, pois se tratava de uma espécie de instrumento que originou o atual piano, coisa muito antiga. Aceite este pequeno agrado como forma de agradecimento. Seu amigo, Levi”.

Compreendi naquele instante que nunca devemos nos omitir em ajudar, pois pode nossa ação nos beneficiar mais do que a ajuda a ser dada.

Autor José Maria Cavalcanti

IDEIA MALUCA

Com mais um torneio importante pela frente, Naldinho não parava de estudar as estratégias e táticas de jogo, tudo para se sair bem naquela importante competição de Xadrez, afinal, sua fama de bom professor não poderia ser manchada com um mau desempenho.

Era o terceiro final de semana que Lurdinha não saía de casa, e aquilo começou a irritá-la de tal maneira que ela seria capaz de qualquer coisa para tirar Naldinho de junto daquela montoeira de livros.

Já não aguentava escutar as amigas do escritório contar as novidades das compras e de novos lugares encantadores que sempre conheciam. A tagarela da Bia era a que mais a irritava, contando inclusive detalhes da vida amorosa.

Naquele sábado, a paciência de Lurdinha havia chegado ao seu limite. Ligou para sua melhor amiga, a Adelaide, e pediu a opinião dela para pôr um fim naquela sua irritação.

Adelaide, solidária e por entender que os livros de Naldinho eram os principais inimigos de Lurdinha, logo decretou:

– Querida, você tem que fazer sumir esses malditos livros. Se fosse comigo, tocaria fogo em tudo!

– Amiga, você acabou de me dar uma grande ideia.

E as duas se dispuseram a fazer um plano que tinha tudo para dar certo. Trataram de todos os aspectos e de todos os passos para a execução daquela ideia que a princípio parecia ser genial.

Movida a adrenalina, Lurdinha deu um grito tão alto que poderia ser ouvido no outro lado da rua e logo começou a chorar com intensidade. Estava iniciada a primeira parte do plano.

Naldinho fechou o volume três do Roberto Grau e saiu desesperado do escritório para seu quarto. Primeiro objetivo atingido: atrair o marido para a alcova.

Logo ela passou à segunda parte do script. A cena do pranto deveria ser seguida de argumentos suficientes para convencer o marido a sair com ela, mesmo sabendo que aqueles últimos dois dias da véspera do evento eram os mais importantes para Naldinho.

– Lu, que está acontecendo com você? Achegou-se todo carinhoso, tentando compreender a causa daquele choro repentino.

Depois de enchê-la de carinhos e beijinhos, Naldinho seguiu indagando:

– Querida, fale alguma coisa, diz pra mim por que você está assim?

– Naldinho, você não me ama mais! Nem sequer olha mais pra mim. Fico o tempo todo dentro de casa. Estou cheia de pedir comida pronta! Lurdinha, depois de desabafar, voltou a choramingar.

Mesmo sabendo que tinha que terminar sua preparação especial, principalmente algumas linhas mais agudas da defesa siciliana, não viu outra solução senão propor uma saída para um almoço no Delícias Mineiras, um novo restaurante da cidade.

– Lu, eu te amo e você sabe muito bem disso. Vamos sair um pouco, querida, você trabalhou muito nesta última semana e merece um presente. Vou levar você para almoçar fora, uma comidinha uai de bom! Naldinho tentava no fim do seu convite ser carinhoso e engraçado, talvez tentando quebrar aquele clima tenso.

– Vamos, levante e tome um banho. Logo iremos sair! Me dê apenas alguns minutinhos para arrumar minha bagunça no escritório.

Ao ver o marido se afastar, Lurdinha ergueu o punho com um “Yes” baixinho. Segunda parte do plano fora bem executada.

Depois de colocar uma cópia da chave do apartamento debaixo do tapete, correu pro banho e depois se arrumou toda bonita. Naldinho não demorou muito e também pôs sua melhor roupa, e se foram finalmente de casa, o que pra Lurdinha já era uma vitória, como um libertar de prisão.

Tudo estava saindo dentro dos conformes, seguindo à risca seu planejamento. Àquela altura, enquanto eles desfrutavam o temperinho gostoso da comida, sua amiga deveria estar executando a parte principal do plano.

Na volta para casa, o susto, e o mesmo bombeiro que apagou o fogo definiu como causa do incêndio um curto circuito na tomada mais próxima à estante de livros. Nela Naldinho ligava o ventilador, a televisão, o rádio e o computador. Não deu outra, houve um superaquecimento que provocou o início de fogo, e o paninho da decoração deu início à combustão.

Os amigos e os pais dos alunos, compadecidos com a situação do Naldinho, que havia perdido seus melhores livros, compraram tudo de volta. A estante ficou mais enriquecida com os livros do Alfredo D’Agostini, Roberto Grau, Aaron Nimzowitsch, Ludek Pachman, Mark Dvoretsky, e o querido professor acabou ganhando ainda de brinde a coleção mais nova do John Watson.

Diante de toda aquela manifestação de carinho com o Naldinho, Lurdinha se rendeu ao coração e, ao invés de chorar, ria de forma incompreensível, junto com a amiga.

Autor José Maria Cavalcanti

Padre Gerardo e alunos da Marambaia

REGALIAS DE COROINHA

Acostumado com as mordomias de morar em Copacabana e ter chofer particular para me levar e trazer para a escola, de viver cercado de brinquedos e roupas finas, um revés financeiro fez despencar meu pequeno império, indo parar na doce, pacata e encantadora cidade praiana de Mangaratiba.

E nem desconfiava que outro infortúnio maior ainda estivesse por vir para mim, meu pai e irmãos. Após pouco tempo vivendo no Hotel Rio Branco, de propriedade dos meus tios, logo após meu aniversário dos doze anos, perdemos a pessoa mais especial de nossas vidas. Um ataque fulminante levou minha mãe, deixando-nos aos cuidados de nosso querido pai.

Este fato foi determinante para mudar meu rumo e de meus irmãos, que eram na época bem pequenos. Impossibilitado de cuidar de mim adequadamente, meu pai me encaminhou para estudar na Escola Técnica Darcy Vargas, na Marambaia, enquanto meus irmãos menores seguiram depois para viver com outros tios aqui em Buenos Aires.

Aquilo que a princípio parecia ser algo a mais de ruim naquele caos que minha vida havia se transformado, levando o restinho da tranquilidade que eu tinha, depois se transformou numa verdadeira aventura. A escola reunia pessoas de várias origens de todos os rincões do Brasil. Isto foi ótimo para minha formação e assim aprendi a lidar com outras culturas e fiz muitos amigos.

A rotina era quase militar e aprendíamos tudo sobre a vida marítima. Tínhamos todas nossas necessidades financiadas pelo estado: alimentação, alojamento, material escolar e assistência médica. Até hoje lembro com saudades daqueles bons tempos e do rosto de cada um dos professores. Na Marambaia, aprendi muito e ganhei experiências incríveis, que até hoje me são úteis.

Como ficávamos confinados, em regime de internato integral, a saudade dos familiares e dos amigos deixados lá fora apertava o coração, causando desespero para muitos. As visitas dos entes queridos eram muito regradas, ocorrendo a cada seis meses, quando um barco atracava na ilha no mês de julho, e a escola era aberta para receber os visitantes em clima festivo.

Sob estrita vigilância, quase tudo era permitido naqueles dias tão aguardados. Alguns faziam piqueniques nas praias; outros passavam o tempo fotografando tudo que podiam, e aquele tempo parecia não ter fim. As despedidas no final da festa eram as mais tristes, pois somente em dezembro teríamos contato familiar novamente, na maioria dos casos.

Enquanto amadurecíamos, pois éramos todos jovens na faixa do 12 aos 15 anos, chegavam aos nossos ouvidos as notícias sobre a vida política do Brasil, muito agitada naqueles anos em que havia muita rebeldia de estudantes pelas ruas do Rio de Janeiro, enquanto a Jovem Guarda explodia, juntamente com os Beatles, Rolling Stones, Elvis Presley e outros ídolos do rock.

Para extravasar tanta energia, restava nos rebelar contra tudo que era proibido naquela estrutura fechada da escola, buscando muitas maneiras de nos opor ao que era estabelecido, tais como: horários rígidos, educação física puxada, arrumação da própria cama e também dos uniformes, além de outros controles feitos por rigorosos inspetores. Namorar com as alunas, que eram moradoras da ilha e estudavam em regime de externato, nem pensar, pois isso era terminantemente proibido. Mas flertar, mandar bilhetinhos, soprar um beijinho, tudo fazíamos como forma de irreverência. Nisso éramos bem parecidos com os estudantes do continente.

A verdade é que sobrava pouco tempo para outras coisas, pois o estudo era muito intenso. Aprendíamos todas as técnicas de construção, operação e manutenção de embarcações nas aulas de Marinharia; tínhamos também Artes Industriais, Artes Gráficas, Português, Literatura, História Geral, Biologia, Química, Desenho, Álgebra, Aritmética, Música e outras disciplinas próprias de uma caserna. Ainda tinha de sobrar tempo para dar lustre na fivela do cinto e engraxar os sapatos. O desfile nas ruas de Mangaratiba, por ocasião do sete de setembro, era muito aguardado, pois era uma das oportunidades de termos contato com a vida social de uma cidade. Os horários dos primeiros dias do mês da comemoração da independência eram parcialmente destinados aos treinamentos da tropa. Todos os alunos desfilavam com bonés brancos nas cabeças e também uniformizados, como um verdadeiro aprendiz de marinheiro.

Além da grande vontade de desfilar pelas ruas, desejávamos ardentemente ser coroinha do Padre Gerardo, que também era excelente pintor e escultor, vivendo numa casa confortável da ilha.

O padre gozava de todo o respeito religioso, embora houvessem comentários maldosos sobre sua vida particular. A Igreja de Nossa Senhora das Dores ficava sempre de portas abertas à espera de alunos para prestigiarem as missas, de segunda a sábado. Os domingos eram destinados às missas em outras ilhas, onde houvesse comunidade de pescadores e outros moradores. Assim, no primeiro dia da semana, saía o Padre Gerardo de barco, acompanhado de dois coroinhas escalados, para as cerimônias em outras comunidades. Uma das ilhas mais visitadas era a de Jaguanum, que está localizada nas proximidades de Itacuruçá.

Em torno de 10 a 12 alunos formavam o corpo de coroinhas. Além do Hino Nacional, o Hino à Bandeira, a música Cisne Branco e a Canção do Expedicionário, também tinham que aprender as atribuições daquele outro ofício. Para serem aceitos, os rapazes necessitavam decorar toda a liturgia da missa, cuidar das vestes especiais, preparar a mesa, servir vinho ao padre e saber a hora certa de tocar o sino, que se dava após o cerimonial da consagração.

 Lembro até hoje que, depois que fui dado como pronto, fui finalmente ordenado pelo padre como um dos doze eleitos. Aquilo para mim foi motivo de muita alegria, pois finalmente iria gozar também das regalias que desfrutavam os coroinhas. Assim também passei a integrar a escala de serviços religiosos, que era bem melhor que a da faxina dos banheiros ou de limpeza das áreas internas e do pátio.

Dentre os fatos inesquecíveis associados à figura do Padre Gerardo, um fato marcante se deu quando ele desconfiou que estava havendo algo de errado na escalação dos coroinhas. Com seu senso de justiça mais aguçado, percebeu que um dos alunos estava sendo beneficiado nas saídas dominicais. O problema só poderia estar ocorrendo por culpa do coroinha mais antigo, que era o responsável pelo controle dos escalados. Como qualquer tipo de conduta para ludibriar superiores fosse motivo de expulsão da escola, começou a investigar o caso.

O escalante logo se desculpou do ocorrido com a explicação de que um dos rapazes havia ficado doente, tendo de substituí-lo pelo que estava disponível na ocasião. Fato que se repetiu uma segunda vez pelo mesmo motivo. O padre acatou com desconfiança as justificativas, marcando audiência com cada um deles separadamente para ver se haveria alguma contradição. Passou a agir com eles como um investigador, fazendo uma espécie de acareação.

Ao final da última audiência, não apurou qualquer irregularidade, mesmo tendo quase certeza que ali havia algo de errado.

Depois de encerrado o caso, nosso pequeno grupo festejou porque conseguimos mais uma vez dar ajuda a um dos amigos que tinha a mãe muito doente em Jaguanum, evitando que ele fosse expulso da Marambaia.

O padre Gerardo na verdade fez vista grossa, pois percebeu naquelas atitudes dos coroinhas princípios de lealdade e companheirismo, valores muito maiores que iriam selar aquelas amizades para toda a vida.

Pelas muitas histórias vividas na Marambaia, um antigo entreposto de escravos até 1888, é que todos aqueles que compartilharam daquela mesma experiência sentem motivos de sobra para se reunir sempre, no intuito de reviver um período que fomentou nosso caráter e nos ensinou a ser como uma grande família.

Autor José Maria Cavalcanti

Centro de Ilhéus

PASSAGEM AO PARAÍSO

Era domingo de missa, e o Padre Pio já havia recomendado para dona Iracema, esposa do Coronel Serapião, que a homilia da semana santa seria especial, estando assim certo de casa cheia. O sacerdote confiava na divulgação de sua beata mais devota, que se encarregava de levar o recado dele para as amigas no chá da tarde das senhoras, que ocorria sempre aos sábados à tarde.

Serapião estava muito feliz naquele final de semana, pois festejava com os amigos fazendeiros a subida da cotação do preço do cacau. Aquilo garantia grandes vendas do produto, significando mais crescimento e diversão na cidade de Ilhéus. Toda subida da bolsa era comemorada no Vesúvio, o bar bem frequentado pelos clientes mais abastados da região. O local ficava do outro lado da praça, diante da igreja matriz, para desgosto do padre, que já havia se acostumado com aquela prática de os homens deixarem suas mulheres para a missa, ficando enchendo a cara naquele lugar que não era a casa de Deus.

Na entrada do templo, o pároco dava as boas-vindas aos casais, que via entristecido o marido beijar a mão da esposa, após deixá-la acomodada em um dos bancos das primeiras filas. Obedientes, elas se cobriam com véu e logo se ajoelhavam numa espécie de ritual de purificação. Sabiam que em pouco tempo, após os cânticos, a preleção daquela noite iria ter início. Ali se desligavam do mundo, para dar atenção ao conhecido sermão do Padre Pio, o mais comprido de todos. Elas compreendiam as desculpas dos maridos, que tinham todo o direito de colocar a prosa em dia com os amigos no Vesúvio. Afinal o local ficava a menos de cem metros, bem pertinho, quase sob vigilância delas.

Após o louvor, o padre pediu a uma serva para fazer a leitura do Velho Testamento, dando ênfase a alguns capítulos que falavam da libertação do povo de Israel, que havia estado escravizado no Egito. O sacerdote começou a discorrer sua belíssima preleção que iria fazer com que a missa tardasse mais que o costume, pois ele preparou um discurso que comparava o mundo atual com a terra dos faraós, onde os israelitas estavam tão apegados que alguns, na fuga pelo Sinai, sentiam saudades, mesmo sendo salvos pela divina mão poderosa, usando Moisés como instrumento para levá-los através do deserto até a Terra Santa.

Do outro lado da rua, os fazendeiros, após os cumprimentos e depois de saborear os primeiros tragos, dirigiam-se para os fundos do bar numa euforia indescritível. Passada mais de uma hora, eles reapareciam mais felizes que nunca, e tornavam ao balcão para falar de suas proezas e virilidade.

Cícero, sempre muito atencioso e simpático, figurava para todos como proprietário do Vesúvio, o que na verdade era apenas uma fachada, pois o charmoso bar era posse de Serapião e mais dois sócios. A razão disso era que eles não queriam ver seus nomes envolvidos com um ramo que vendia cachaça, por isso tudo se mantinha às escuras da população local.

Acabada a missa, depois de duas horas de pregação, as badaladas fortes do sino da igreja indicavam o término da cerimônia. Aquele era o sinal do padre para que os maridos viessem apanhar suas esposas nas escadarias após a porta da igreja. Via-se claramente a alegria do Padre Pio, que estava radiante por ter levado a palavra a seus devotos, percebendo a eficácia do seu sermão. Todos apertavam suas mãos e outros até beijavam, agradecendo a ele pela noite inspirada.

Após a missa, era comum ver o desfile das belas roupas das madames, agora com seus maridos, pelo passeio da praça. Ali todos se cumprimentavam e se exibiam como se fosse uma passarela da alta moda de Paris.

O que ainda nenhuma esposa suspeitou até hoje é que sempre houve uma passagem secreta do Vesúvio até o Bataclan, um bordel de luxo que ficava na rua dos fundos do largo da matriz, onde os coronéis escolhiam sua acompanhante mais bonita, francesa ou holandesa, para viver uma hora de luxúria e prazer. Ali deixavam muito dinheiro, mas diziam ser a fortuna mais bem paga do mundo, pois as meninas eram lindíssimas, escolhidas rigorosamente por Madame Mimi, a proprietária da casa.

Na segunda-feira, sem falta, Serapião já se apressava para deixar as gordas ofertas dele e de seus amigos para o Padre Pio. De tão agradecido, ele se aprimorava cada vez mais em preleções compridas e um repicar de sino mais forte para selar aquele feliz acordo de cavalheiros.

Autor José Maria Cavalcanti


 A PEDRA DO CAMINHO

Quando resolveu pôr no papel os seus conhecimentos, ele se propôs a escrever uma história de ficção. Para isso, utilizou o computador, escrevendo todas as linhas em letras maiúsculas, pois ele havia resolvido desnudar-se de todas as falhas da escrita da língua portuguesa. Já havia se dado conta que escrevia palavras com erros grosseiros, mas precisava fazer isso, pois só assim teria um retrato fiel do seu nível de escrita.

Disse-me que havia encarado tudo com naturalidade, desde o momento em que eu tinha dito para ele que “escrever é se expor”, e assim ele percebeu que teria que se mostrar por completo, enfrentando as suas  limitações e falhas.

Como ele sabia que teria algumas dificuldades com o idioma, por não ter o pleno domínio da ferramenta, resolveu então seguir a minha dica: “- Escreva tudo do jeito que vier na sua cabeça, sem se preocupar com vírgulas, parágrafos, acentuação e concordâncias verbais e nominais, assim você não se desviará um segundo da inspiração.”

Com essa preciosa dica, que era um alívio para ele por ser este o seu entrave, começou a tecer um tema que já estava bem amadurecido na sua cabeça, o qual, para ser elaborado, faltava só um estratégico empurranhãozinho – nada mais que a astúcia de um velho professor que nunca matou o talento de seus alunos, castigando-os a cada erro encontrado nas suas redações escolares.

Assim, Escola Brasil começou a ser elaborado, contando com a força de um especialista para corrigir o material que estava sendo escrito, totalmente em letras de caixa alta, pelo aprendiz de escritor.

Escrevendo sem a pedra do caminho, cheio de alegria, as palavras saíam aos borbotões, como se escorressem das teclas diretamente para o papel. Os capítulos iam brotando à medida que as ideias fervilhavam pela cabeça de João.

Aproveitando uma das minhas idas a Natal, ele finalmente me passou as primeiras laudas, e eu me encantei com aquela trama envolvente, que trabalhava personagens fortes, envolvidas em um conflito nos bastidores do poder. A história tinha os ingredientes de todo bom livro: ação, violência, sexo, drama e amor.

Embora estivesse empolgado na elaboração de Dança dos Cavalos, disse para ele que daria prioridade ao dele, de tanto que me envolvi com o enredo. Na apreciação inicial, já me dei conta de estar diante de um grande material e eu queria dar o meu melhor para compor com ele um grande produto final.

Conforme prometido, comecei o meu trabalho de copydesk, fazendo a revisão dos aspectos ortográficos e gramaticais. Logo percebi que minha preocupação com a clareza e estruturação das ideias tinha pouco sentido. Pouca coisa eu tive que reestruturar e reescrever, procurando sempre me ater ao conteúdo original do João.

Pacientemente, resolvi usar o que ele havia escrito para pequenas aulas. E assim, fui orientando-o em cada distorção encontrada, fazendo pequenos comentários explicativos sobre a correção das palavras, as termologias e o uso necessário ou indevido da pontuação.

Depois de um ano trabalhando nessa parceria, estávamos diante do número um. A alegria do primeiro livro é indescritível. Mal comemoramos a primeira façanha, ele já partiu para o segundo, com a mesma sede e ímpeto.

Com o mesmo procedimento e inspiração de Escola Brasil, surgiram depois PIPAMAR, PREÇO DO ANJO, MATULÃO e agora MARESIAS, sem contar que VIDA MINHA já foi escrito, impresso e distribuído para todos os irmãos – a saga da nossa família, uma homenagem aos nossos pais, contada com muito sucesso por João Cavalcante.

Acho que não foi uma pedra que retirei do caminho, mas sim uma rocha, pois a rica fonte não para de fluir, após a retirada do grande obstáculo. O primeiro fruto foi apenas um marco inicial na vida do novo escritor, que insiste humildemente em dizer que é apenas um “Jardineiro que escreve”.

Autor José Maria Cavalcanti

ESQUEÇA O RELÓGIO

Esqueça o relógio, você não tem que levantar, apenas abra os olhos. Não dê pressa aos sentidos ou aos movimentos, tire o pé do pedal, desacelere.

Vislumbre o exato momento que será dado início natural de suas sensações. O sol lá fora despontou radiante. Sim, sorria e sorva tranquila e gostosamente o doce aroma do ar da manhã. Por um breve lapso de tempo, imagine que não há chefe, que não há compromisso, que nada depende de você. Pare tudo, como tudo para quando nossas ansiedades e medos tomam conta da gente, fazendo com que nosso coração entre em colapso. Não é loucura, dê a você mesmo este belo presente, que na verdade nos é concedido todos os dias sem que a gente se dê conta.

O sol, que derrama seus raios cheios de vida, convida você a viver, e o ar puro e saudável anseia que você reaprenda a respirar. Primeiro respire suavemente até encher os pulmões; e vá soltando lentamente o ar para depois sorvê-lo novamente. Escute o pulsar do seu coração, o latejar do seu pulso e navegue em pensamentos prazerosos. Imagine as ondas do mar ou mesmo o vento a soprar; quem sabe uma música suave ou o cair da chuva. Esqueça do seu ventre e apenas viaje, mas sem a preocupação do que se tem a levar, sem roteiros, sem percursos. Se estiver na orla, deixe que seus pés descalços toquem a areia da praia, deixe que o vento sopre seus cabelos sem a necessidade de arrumá-los depois. Abra seus braços para abraçar o todo. Comtemple esse dia lindo que insiste em se dar unicamente para você.

 Sim, seja egoísta. Faça isto por você mesmo. Você merece. Seu corpo necessita do sol da manhã, da absorção paciente de ar puro; e sua mente requer viagens de paz, musicais e imagéticas. Não deixe para amanhã, comece agora. Todo o universo está a sua espera, pronto para se dispensar para seu interior, revitalizando seu físico e seu espírito, restaurando-os, curando-os uma vez mais. Talvez você pense que sua mente rápida não irá se adaptar a tanta lentidão ou que seu corpo, acostumado ao ritmo frenético do cotidiano, não se acostumará a ficar em estado de mansidão. Experimente. Desligue seu computador. Desaperte a gravata do pescoço; vamos, solte a fivela do seu cinto e afrouxe os cadarços dos seus sapatos. Retire esses apetrechos de guerra e mergulhe sem escafandro neste mar de tranquilidade, que é disso que você mais precisa.

Nosso corpo tem um limite. Constantemente estamos gastando suas energias essenciais e as suas potencialidades. Às vezes o submetemos a constantes provas de resistência, verdadeiras provas de fogo, como se ele fosse indestrutível. Caso você não saiba, ele também entra em esgotamento, colapso total por uso indevido.

Sim, promova este reencontro com você mesmo, com sua paz interior, com aquilo que realmente você é.

Autor José Maria Cavalcanti

 

Música para relaxar!

PROVA DE AMIZADE

A pequena Aline estava muito preocupada, movida por uma ansiedade incontrolável. Buscava uma solução para aquilo que passou a roubar sua alegria naqueles dias da véspera do Natal.

Seu maior desejo seria dar um presente especial para sua amiga Talita na noite da ceia, mas não sabia para quem pedir, pois sua vida sempre fora de um ou de nenhum presente nas datas festivas.

Aline, que não ligava muito para presentes, queria tornar mais alegre a vida da amiguinha e gostaria de dar aquilo que o pai da Talita havia prometido: uma boneca de pano. Também por isso a amiga estava muito sentida e mais empobrecida, afinal havia perdido o pai dela, seu maior tesouro. Ela iria passar o primeiro final de ano sem ele.

Na vila dos mineradores, todos se conheciam. Talita era uma amiga muito especial. Mais ainda depois daquele acidente terrível. O pai dela não conseguira sair a tempo do soterramento que se seguiu após uma grande explosão, ficando preso com outros trabalhadores entre as pedras das galerias mais subterrâneas da Mineradora Eldorado.

O que tornaria aquele Natal diferente na pobre vila era que estariam mais tristes com as perdas sofridas.

Ali todos eram iguais nas poucas posses.

O pai de Aline continuava trabalhando muito nas minas e sua mãe vivia atarefada na cozinha, preparando os doces para a venda de porta em porta.

Mesmo que os pais não pudessem dar brinquedos de lojas, as duas amiguinhas sempre inventavam uma diversão. Brincavam juntas de passa a pedra, de amarelinha e viviam num mundo de faz de conta.

Mas o tempo corria, e Alice se viu sem saída. Naquela última noite, sabendo que tinha pouco tempo, resolveu se ajoelhar para elevar uma oração a Deus. Pediu para que Ele desse para a amiguinha uma boneca de pano, igual a que Talita vira pela vitrine da loja.

Terminou sua petição e foi dormir.

Lá pelas tantas, sentiu que alguém tocava uma espécie de sininho.

Ela foi despertada por aquele soar musical diferente.

Ao abrir os olhos, viu diante dela um bom velhinho. Mais parecia um alquimista, com longas barbas brancas e um chapéu engraçado. Seu olhar era doce e estava sorridente.

– Aline – pronunciou seu nome!

– Tudo que você quiser, posso te dar.

E, num passe de mágica, apontou sua varinha para as pedrinhas que com elas jogavam de passa a pedra. Logo as pedrinhas se transformaram em ouro.

– Viu, é só pedir!

Mesmo admirada com aquela espécie de mágica, Aline suplicou:

– Senhor, eu queria apenas uma boneca de pano para minha amiguinha!

O mago deu uma risada gostosa, admirado com o coração bondoso e sem ganância da menina.

– Seu pedido é uma ordem!

E após um pirlimpimpim, surgiu uma linda boneca de pano, que também era musical.

Aline deu tantos pulos de alegria e ficou tão contente que não se deu conta do sumiço do bom velhinho.

E ela voltou a dormir, abraçada ao presente da amiga.

No dia seguinte, acordou pensando ter se tratado de apenas um sonho, mas foi surpreendida pela presença da linda boneca ao seu lado. Toda contente, procurou a mãe para falar do seu sonho e pedir a ela um papel de presente para envolver a boneca.

Observou que a casa estava em festa. Sua mãe havia se deparado logo cedo com as pedrinhas de ouro e foi logo mostrando ao marido que, sem se preocupar de onde haviam surgido, começou a comemorar a sorte grande. Com a venda das pedras, sabia que muita coisa poderia fazer para dar um futuro melhor para a família.

E a noite da ceia foi a mais especial de todas. Tudo que foi possível comprar na padaria estava à mesa: leitoa assada, panetone, queijos e bebidas. Muitos mimos foram comprados, e as convidadas de honra para aquela ceia especial chegaram: Talita e sua mãe.

Depois do jantar, era a hora da troca de presentes.

Aline estava ansiosa para dar seu presente a Talita, mas foi surpreendida pela amiguinha que ofereceu para ela algo que trazia nas mãos. Aline não esperava nada e ficou contentíssima ao receber a mais linda boneca de pano, igualzinha a da loja do seu Manoel.

Talita também recebeu a sua, e ambas ficaram felicíssimas com os presentes trocados.

Talita confidenciou também para Aline o sonho que teve com um senhor de longas barbas brancas, o qual satisfez o desejo de ter aquela boneca da loja, que era uma promessa de seu pai, para dar de presente para sua melhor amiga.

Autor José Maria Cavalcanti

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Vídeo lindo – Boneca de pano musical

O MISTÉRIO DO FUNDO DO QUINTAL

O que eu descobri naquele matagal que cobria o terreno baldio da minha casa era que ali havia algo mais que velhos sofás, bicicletas enferrujadas e caixas cheias de sapatos desgastados pelo tempo.

Tudo aconteceu quando um dia me vi sozinho, depois que meu pai e minha mãe saíram para trabalhar. Era a parte da tarde daquele dia, e eu tinha acabado de almoçar, pois minha mãe sempre deixava minha comida no forninho, bastando apenas dar uma esquentada, e tudo ficava uma delícia.

Estava com a barriga já cheiinha e não sentia vontade de fazer as tarefas escolares naquele momento, apenas queria brincar um pouco. Então peguei minha bola e a coloquei na marca que eu fiz no chão de terra. Dali eu sempre chutava a bola para passar no arco formado pelo varal que ficava no meio do terreno, ao lado da horta.

Ainda não havia tirado meu poderoso conga azul do meu pé, depois de voltar da escola. Com a bola na marca, afastei-me o suficiente para dar meu chute certeiro. Aprendi a bater no meio da bola para ela não subir muito e assim não voar para os terrenos dos vizinhos.

Sabia que a bola nunca poderia cair na casa de dona Filó, pois ela era terrível e sempre cortava a borracha e arremessava de volta prá gente, talvez para mostrar seu poder. Sabendo disso, após perder a mais linda bola que havia ganhado de presente de aniversário, nunca mais bati em baixo da bola com a mesma força. Era certo que, tocando forte em baixo, a pelota subia muito, indo parar nas mãos daquela mulher sem coração. Acho que ela fazia aquilo por não ter filhos ou talvez com raiva por nunca ter casado.

Finalmente soltei meu canhão à baixa altura, e a bola passou veloz bem no meio do arco, indo parar no meio das caixas de sapatos velhos. Ir buscar a bola lá no fundo do quintal era a pior parte. Quando me preparava para correr, eis que de repente vejo a bola voltando, rasteirinha, como se eu estivesse treinando com o Gustavo, nosso goleiro.

Fiquei assustado e até pensei se tratar de alguma brincadeira do Guto, mas estiquei o olho e depois me abaixei e não vi ninguém. Pensei: “O que estaria acontecendo? Quem jogou a bola de volta para mim?” Foram duas perguntas que não saiam da minha cabeça.

Pensei em acabar com a brincadeira e ir para dentro de casa. Fechando a porta, nada me aconteceria. Mas não sei o que deu em minha cabeça que atirei de novo meu petardo, e a bola novamente saiu como uma bala de canhão, atingindo com mais velocidade o fundo do terreno da minha casa.

Fiquei aguardando algo acontecer… Não demorou muito e vi a bola voltando, agora como se alguém baixinho estivesse cabeceando, com um completo domínio. Não acreditei naquilo, pois a bola vinha em minha direção, e eu fiquei paralisado com a cena.

Ao chegar bem pertinho, novamente a bola chegava em minhas mãos. Achei aquilo o máximo, esquecendo do medo que antes estava. Agora esta curtindo tudo, pois qual dos meus amigos teria um gandula mágico para trazer suas bolas de volta? Somente eu.

Com aquela companhia invisível, passei a gostar mais de estar sozinho naquela casa enorme, constantemente sem a presença dos meus pais, que estavam sempre trabalhando e não deixavam que meus amigos entrassem ali sem que eles estivessem presentes.

Um dia levei o Guto para brincar comigo, pois era final de semana, e minha mãe estava cuidando do almoço. Expliquei para ele o que havia acontecido, mas o meu amiguinho, talvez imaginário, não me deu pelotas, e fiquei com cara de pateta diante do maior goleiro do nosso time.

Segui tendo a ajuda e companhia invisível por muitos anos, sem que pudesse comprovar tal fato, mas recordo-me com carinho daqueles momentos, pois nunca mais fui um menino solitário, e meu chute, depois dos muitos treinamentos no fundo do quintal, tornou-se conhecido de todos do time do Estrela, nossa paixão dos melhores tempos de futebol.

Autor José Maria Cavalcanti

Texto publicado no Blog Grafiama, no dia 18/01/2011

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SUPRESA DE AMIGO SECRETO

1998 estava terminando, e o Natal havia chegado com seu aconchegante clima festivo. A ceia fora organizada com muito capricho, faltando chegar ao centro da mesa o prato principal: a leitoa assada. Como já estava previsto, haveria antes da ceia a troca de presentes do “amigo secreto”.

Na hora marcada, todos foram se achegando, e surgiu uma novidade.

Dona Francisquinha, a dona da casa e da festa, solicitou a Lena que retardasse um pouco mais  o amigo secreto porque a leitoa ainda iria tardar um pouco.

Para atender sua mãe e conhecendo a fama de alguns cantores de banheiro, dentre todos os familiares, Lena propôs uma dinâmica de grupo focada nessa peculiaridade. De pronto, todos aceitaram porque pareceu ser algo divertido. A brincadeira consistia em sortear uma palavra de dentro de um gorro vermelho, antes de anunciar o nome do amigo. Cada um teria que cantar uma música que tivesse na letra o verbete sorteado. Caso ele não cumprisse o desafio, sua vez seria passada para outro e assim por diante.

Ficou acordado que os primeiros seriam as filhas de Dona Fran, da mais velha até a mais nova; e depois seriam os homens, seguindo o mesmo critério. Os genros, as noras e os netos ficariam para o final.

Depois de uma hora curtindo a gostosa e nova brincadeira, só faltava o mais novo dos homens.

João foi chamado, conforme a ordem estabelecida. Todo sorridente e faceiro, tirou sua palavra “BENZINHO”.

Para manter o elevado nível das músicas já cantadas, logo recordou-se de uma música da Jovem Guarda, regravada pelo grupo Raça Negra, mas não se lembrava do ritmo. Então veio-lhe à mente um forró chamado Casa de Reboco. E não perdeu tempo, dando sequência à diversão, uma espécie de karaoquê musical:

“Todo tempo para mim é pouco/ Pra dançar com meu benzinho numa casa de reboco”

Não só cantou bem, mas também estava muito ritmado, arrancando aplausos da galera reunida na grande sala da casa de Dona Francisquinha, que ali assista a tudo com uma enorme satisfação por ver a família reunida em festa. Ela, de vez em quando, lançava seu experiente olhar para o forno novo, que a fogo lento dourava o prato mais apreciado pelos familiares.

Antes de João anunciar seu amigo, ele começou a lançar no ar algumas dicas para criar mais suspense:

– Minha amiga é muito inteligente, mora numa cidade que se desenvolveu muito, graças a suas reservas de shellita, cidade que é conhecida carinhosamente como a “Flor Brejeira do Seridó”! – Ao falar isso, todos olharam para as filhas do doutor Lucena.

Quando João ia anunciar sua amiga secreta, gerou aquela expectativa, pois ele deixou no ar qual das duas filhas do Doutor Lucena seria a felizarda. A mais velha, uma mocinha de quinze anos, estava ansiosa, enquanto sua irmã, um ano mais nova, aguardava tranquilamente sua vez.

O doutor, que sempre se mostrou muito econômico, lembrou naquele instante que havia passado a tarde procurando ajudar sua filha mais nova na compra do presente do amigo dela. E como ele nunca foi de esbanjar suas reservas, tentava semear na jovem a filosofia de que o tipo de presente era o que menos importava. Dizia: “ – Filha, a intenção e a lembrança são as coisas mais marcantes na hora de presentear. Não compre nada caro, mas algo que seja útil. Por exemplo, se for homem, compre uma camisa simples, apropriado para o trabalho da pessoa e, se for mulher, dê um lenço de pescoço (como ele chamava o cachecol), pois pessoa fina e de bom gosto usa uma peça dessas, como essas grã-finas de capas de revistas.”

Ao terminar sua fala, sua filha retrucou:

“ – Mas, painho, essa pessoa é muito especial e quero dar algo inesquecível!”

“ – Filha, vá por mim, confie no que diz seu pai! O lema na hora de presentear é utilidade  e  praticidade. Nunca esqueça disso! Corra até o Hiperbompreço e escolha algo barato, assim você gasta pouco da sua mesada”.

Depois daquelas últimas palavras, ela percebeu qual o ponto nevrálgico da questão. A menina conhecia muito bem a fama do pai, um homem desacostumado a grandes sangrias de bolso.

Depois de mais algumas idas e vindas de ponderações entre pai e filha, a moça, à contragosto, cedeu à fala “convencedora” paterna e se despediu dele para fazer a compra, buscando sua última nota de dez, da sua pequena mesada.

Enquanto caminhava, tentava em vão se livrar daqueles conselhos, mas era inútil, as palavras repercutiam em sua mente: “Presente de amigo secreto tem que ser simples e barato, basta qualquer lembrançinha! Não leve em consideração o preço. O que vale é participar da brincadeira, ninguém quer saber o quanto você pagou. Compre uma camisa na faixa de R$ 9,90″.

Por tão fervorosos argumentos, a filha logo percebeu que o pai não estaria disposto a liberar um tostão a mais do seu bolso para ajudá-la na compra do presente.

Neste momento, João anunciou o nome da filha mais nova. A brincadeira do “Amigo Secreto” havia saído dos filhos da matriarca e agora passava para os genros, noras e netos. Enfim era a hora de ser quebrada aquela expectativa do doutor de saber quem seria o amigo secreto da filha.

Após receber um belo presente das mãos do tio, ela agradeceu e logo após tratou de retirar sua palavra do gorrinho. Tocou a ela o vocábulo “MENINO”.

No mesmo instante, sem tremer a voz, começou a cantar uma música do Roberto e Erasmo Carlos:

“Você meu amigo de fé, meu irmão camarada. Amigo de tantos caminhos e tantas jornadas. Cabeça de homem, mas um coração de menino…”.

À medida que ela foi cantando, foi se aproximando daquele senhor de quarenta e dois anos, que olhava pra ela com muita admiração. Era uma surpresa para ele que aquela menininha que ele acompanhara todo seu desenvolvimento soubesse cantar com tanta desenvoltura.

Ela olhou pra ele e, com os olhos rasos d’água, sorriu e cantou o último verso da música:

“- Não preciso nem dizer tudo isso que eu sinto, mas é muito bom saber que você é meu amigo.”

Ao terminar de cantar, estendeu para ele as mãos que continham o presente do amigo secreto dela.

O pai estava perplexo, completamente paralisado, e seus pensamentos foram interrompidos com as palavras da jovem:

– Paizão, você é meu amigo!

O pai, recordou de tudo que havia dito para a filha na parte da tarde e logo empalideceu, arrependido por tudo que havia falado, principalmente quando se recordou o que ela disse:

“- Mas, painho, esse meu amigo é muito especial e eu quero dar a ele algo inesquecível!”

Depois que a última música foi cantada e já não havia presentes do “amigo secreto” para serem distribuídos, deu-se finalmente a magnífica ceia. Tudo estava maravilhoso e, mesmo que todos quisessem elogiar cada prato pra dona Francisquinha, cada convidado arranjava sempre um tempinho, entre uma garfada e outra, para tirar uma onda com a cara do doutor Lucena, que até então ainda não havia se recuperado da grande surpresa causada por sua amiga secreta.

Autor José Maria Cavalcanti

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 ÊXODO

 O sol logo cedo expandiu seus raios, maravilhando ainda mais a cidade do Rio de Janeiro. O domingo ficou convidativo: o sol, o céu e o mar seduziam os transeuntes. Os ônibus passavam lotados a caminho das praias.

A alegria patrocinava eufóricos rostos juvenis, num contagiante alarido que entoava e ecoava pelos cantos:

– Xô, bêbado, paraíba, jatobá, sai fora, peão de obra, que aqui não é teu lugar.

E continuava a babel de vozes, desatinando ainda mais aquele vulto maltrapilho, espreguiçado em uma das poltronas traseiras do veículo coletivo.

O bêbado nordestino, em meio a tanta algazarra, gritava palavras desconexas:

– Vô prá Arapiraca. Vô vortá!

E gritava mais alto, em contraponto com o coro mais forte. Repetiu o eufórico desatino, e já sem forças se cansou. Seu corpo estava entregue, sem controle, e as pálpebras permaneciam semicerradas. Numa próxima curva, seu corpo caiu para o lado. Melancólico, surrado, ele ainda resmungou:

– Droga, eles num qué mi dá passagi!

E logo começou a chorar baixinho, relembrando das bolas de sonho que o trouxeram àquele lugar, o “Eldorado do Brejeiro”, saído da roça e do arado.

As recordações eram fortes, e aquele tamborilar ritmado ainda ressoava em sua cabeça:

“- Xô, peão de obra…”

Sim, aquilo fora tudo que conseguira ser em todo aquele tempo de fome e horas mal dormidas. E passou a viver embriagado, injuriado pelo desemprego e lembranças de sua terra.

O ônibus parou. Já não havia tanta gente. Era a última parada. Motorista e trocador caminhavam ao seu encontro. Lá no canto, todo quebrado pelos solavancos, ainda balbuciava alguns sons guturais. Então, num repente, a voz altiva do motorista quebrou o silêncio:

– Vamos lá, bêbado caipira. Pula fora e vai se virar!

Motorista e cobrador o seguraram pelos braços e o atiraram bem longe, no barro enlamaçado.

Fim de linha, peão de obra.

Texto publicado na Revista O Especialista, em 15 de julho de 1981.

Autor José Maria Cavalcanti

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Luiz Gonzaga – Pau de Arara (1952)

Raimundo Fagner – Último Pau de Arara

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