LEMBRANÇAS DE UMA CHEGADA


A CASA Nº 50


Depois de morar em seis pequenas localidades potiguares, finalmente íamos alcançar a tão sonhada capital, a cidade do sol – Natal.

Seguíamos não só ao encontro de belas praias, com um gostoso clima ameno, de um comércio forte, de boas escolas e faculdades, mas acima de tudo de oportunidades.

De Natal também se falava da sua importância no cenário mundial por ocasião da II guerra. E que o ex-presidente Café Filho e o folclorista Câmara Cascudo, ilustres rio-grandenses, que sempre foram amantes da boa terra, não perdiam uma só oportunidade para enaltecer e defender aquele rincão de ricas tradições.

Assim, por tal relevância, teríamos de nos tornar maiores para fazer parte daquele recanto mais ensolarado do país.

Do Agreste para o Leste, viajando, tendo no rosto o vento e na cabeça sonhos que nos impeliam pela 101, a imensa rodovia que liga o Brasil de ponta a ponta.

Quando passamos pela entrada da estrada de Ponta Negra, o cheirinho de mar anunciava a chegada. Estar ali em cima, com apenas onze anos, vendo passar aquelas inúmeras imagens, fazia-me crer estar envolto em um túnel mágico.

Fomos passando pelas montanhas de dunas, área entre o campo de treinamento do Exército e o Campus Universitário, faltando ainda trilhar alguns bairros maiores como o de Lagoa Nova, Tirol, Petrópolis, descer depois a ladeira do Baldo, ganhar a Ribeira e chegar às Rocas.

Para isto, ao chegar no nosso destino, o possante inclinou-se todo na subida da rua mais íngreme do bairro que iria nos abrigar. Ela se localizava quase no topo da ladeira, situada ao lado da escadaria da Igreja São Jorge. E ainda entristecidos pela perda da cidade de Santa Cruz, fomos saudados lá no alto por outra cruz, que nos recebia, agora reluzindo sua luz na espada do santo guerreiro. E um pouco antes de chegarmos ao topo da ladeira, guinamos naquela que seria nossa rua, a contar daquele instante – a São Sebastião – homenagem ao santo mártir dos primórdios cristãos.

Em cima do estradeiro, junto às amarrações superiores que prendiam fortemente a mobília, dava para ver aquela bola linda e alaranjada se debruçando lentamente sobre o Rio Potengi. Era um belo entardecer de dezembro do final do primeiro ano da década de 70, bem no início das comemorações natalinas e de mais uma Festa de Santos Reis, nome de outro bairro limítrofe ao das Rocas.

Sob olhares curiosos, o pesado FNM (fê.nê.mê), após os muitos quilômetros de asfalto, depois de  rodar por avenidas e ruas natalenses, começou a transitar em marcha reduzida, sobre o paralelepípedo da sinuosa ruazinha que iria ser nosso lar nos próximos anos.

E aquele caminhão de mudanças que ainda povoa nossas mentes, pois estávamos sempre sendo arrancados de um lugar para outro, fazíanos crer que finalmente iria nos plantar naquele novo endereço, a Casa nº 50.

Tomados por muitas sensações, inclusive ansiedade e dúvida, mal desconfiávamos que ali fôssemos viver momentos ímpares, que iriam influenciar muito em nossas vidas.

Diante do novo lar, após o carro ser detido em sua marcha, fomos conhecer por dentro a nova morada, antes de começar a descarregar tudo. Ainda guardo bem de memória a fachada da casa, pintada na cor salmão. Não era toda chapada, havia recortes rebaixados e desenhados, que a distinguia das demais casas da rua. Havia uma charmosa área coberta na frente, tipo antessala, com parapeito murado, que, através dela, tinha-se acesso à porta principal, e, ao lado, à direita, um pequeno jardim com roseiras, com grades brancas desenhadas sobre um pequeno muro.

Na lateral esquerda, um pouco mais recuada, podia ser vista a garagem, toda fechada com grades altas, na cor branca, à espera de um futuro carro; e, logo após, havia um quarto nos fundos, que seria destinado aos quatro filhos: Francisco, José Maria, José Paulo e João. Este dormitório tinha uma porta que dava acesso a um quintal espaçoso, o qual fazia fundos com os pontos de comércios da Rua São João, a primeira rua do Bairro da Ribeira.

As cinco meninas – Graça, Edite, Lena, Margarida e Rita – ganharam o quarto que tinha vista para o jardim frontal.  Um pouco antes, havia o quarto principal, que era dos meus pais – Cleto e Francisquinha; depois o banheiro e finalmente a cozinha com área de serviço. E o grande quintal, com apenas uma goiabeira e um coqueiro, estava à espera de ciscadeiras, poedeiras e de um galo cantador.

Entramos pela noite a descarregar os móveis e a montar guarda-roupas e camas. Os itens menores já estavam dispostos em seus cantos, faltando os poucos quadros e espelhos de parede. Após duas horas de trabalho e depois do lanche, regado a crush, grapete, pão e mortadela, tudo estava em seus lugares, conforme orientações de nossa mãe.

Com o cansaço da viagem e da arrumação, não tardou para nos recolher, sem haver tempo de fazer os primeiros contatos com aquela vizinhança ávida por informação. Por enquanto, eles teriam que se contentar apenas com o que viram: móveis antigos de bom gosto e um casal na média dos quarenta e poucos anos, com nove filhos.

Mas logo saberiam da filiação daquela prole tão numerosa: Cleto, um pernambucano com 46 anos, funcionário da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. O qual, estando em Recife, trabalhando duro e estudando, aos 28 anos, passou no concurso público da EBCT, sendo designado para assumir uma vaga na cidade de Pau dos Ferros/RN. Dois anos depois, conheceu Francisca, com 23 anos, que trabalhava como professora e também no comércio local. Ela era nascida na cidade paraibana de Cajazeiras, pertencente à família Alves e ele, tendo se apaixonado por aquela beleza morena, casou-se com a cajazeirense em 1956, dando início a incursão de nossa família pelo RN.

Guardo até hoje com muito carinho cada detalhe da nossa chegada ao centro dos acontecimentos sociais e políticos do RN, mas uma imagem não me sai da cabeça: aquele belo pôr do sol que fez questão de ser nosso cartão postal, as nossas boas-vindas a Natal. Tal cenário só podia ser visto em sua plenitude na parte alta do caminhão de transportes. Lá de cima da lona, fui o primeiro a enxergar, por cima das cumeeiras das casas,  aquele entardecer inesquecível sobre a água doce do sinuoso rio.

Autor: José Maria Cavalcanti

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