O fio da navalha


SENSIBILIDADE PARA TOCAR DEUS

Alguns homens buscam a ausência total dos pensamentos para atingir níveis altos de concentração, tudo com o intuito de elevarem suas mentes e assim poderem tocar o divino. Outras pessoas, em clausura e jejum, repetem palavras ou grupo de palavras que provocam um transe mental com o mesmo propósito.

Acho que aquela minha ida à periferia de São José dos Campos, pro lados de Monte Altinho, depois de Montes Altos, fez com que eu entendesse melhor a importância desses mecanismos para se conseguir a ausência total dos elos com o mundo material, movidos por atos de fé.

Era mais um domingo de visita ao meu amigo Emanuel, que morava naquele lugarzinho aprazível em uma das laterais da montanhosa Rodovia dos Tamoios, que desce a Serra do Mar, escoando milhares de carros nos finais de semana, levando quase todos para as praias do Litoral Norte do estado.

Não querendo me estressar, fui de ônibus daquela vez, sabendo que teria a garupa de Corisco para me levar, a partir do ponto final de ônibus para a casa do amigo, conforme já havia sido previamente combinado.

Ao chegar ao local de encontro, um enorme flamboyant, Manu veio montado ao meu encontro e me cumprimentou, cheio de calor humano, e logo senti se dissiparem ali quaisquer dúvidas sobre o valor da minha ausência.

Agarrando-me pelo braço e com o pé no estribo, impulsionei o corpo e me enganchei no belo animal, acomodando-me após a cela. Saímos a galope, sem perda de tempo até chegar ao meio do caminho, quando paramos na casa de Tião, um primo e compadre de Emanuel, para ali tomar um café de bule.

O pai dele estava no alpendre, pertinho de uma rede colorida, na companhia de Montanha, um cão branco, que diziam ser mansinho, mas nos mantinha à distância. De longe, observei que seu Pedro amolava uma navalha, sem tirar os olhos da lâmina, mesmo que sua barba estivesse bem feita. Aquilo me chamou a atenção, mas terminei o meu café e agradeci as atenções de Tião.

Depois das despedidas do primo, seguimos caminho em direção a Monte Altinho, depois de já termos estado em Montes Altos. Vinte minutos depois, cruzamos um arroio para chegarmos à porteira do Recanto Doce.

No sopé da casa, já estava Madá na companhia das duas filhas a nossa espera, com os mais receptivos dos sorrisos.

Após o abraço gostoso de boas-vindas, outro café fresquinho já estava a postos sobre a mesa. As minhas deliciosas broas de milho, feitas no fogão a lenha, eram as honras da casa. O bolo de fubá ainda estava quentinho, e o queijo mineiro foi fatiado para acompanhar o pão sovado, que ali era chamado de Tatu, devido ao seu formato.

Sentamos para tomar o farto café da manhã, no estilo campesino. E logo me veio de perguntar sobre a saúde de Bumbá, a vaquinha que foi acometida de uma doença, que parecia não ter solução. Com a cara mais feliz do mundo, Madá reportou que ela havia ressuscitado, depois de uma transfusão recebida, e agora já estava de novo integrada ao rebanho.

Enquanto a prosa seguia animada, percebi que o fogão crepitava sem parar e dali já exalava o cheirinho gostoso de comida feita na panela de ferro. O cardápio do dia foi logo anunciado: hoje você vai comer um escondidinho de carne seca, feito com batata salsa cozida.

Mas aqui vocês só reaparecem mais tarde, pois tenho muito que fazer ainda. Vão pescar um pouco no Riachão ou quem sabe trotar até o paredão da represa.

Assim se deu. Galopamos um par de tempo até que a fome nos fez acordar pras horas. A volta pareceu mais ligeira, e nem vimos o tanto de terra que cavalgamos do pé da serra ao arroio, de onde se pode avistar a casa do amigo.

Apeamos, amarramos as rédeas no mourão e subimos às pressas os degraus do alpendre. Logo lavamos o rosto e as mãos para nos achegarmos à mesa do banquete. Eram assim sempre os almoços na casa do amigo. Além do prato principal, havia salada, maionese, também suflê de queijo e de legumes, arroz, bolinhos de bacalhau e bolinhos caipiras. A sobremesa e o café com queijo estavam divinos, tudo para fazer alguém se sentir como rei.

Comemos tanto que bateu arrependimento. Tirar um cochilo numa rede já fazia parte do meu ritual na fazenda, seguindo as dicas do Emanuel, que era o primeiro a chegar ao redário. Depois da sesta, seguiu-se uma prosa animada, na qual o amigo contava os acontecidos da última semana.

Madá depois se ajuntou a nós, e jogamos conversa fora pelo resto da tarde. Finalmente era hora das incômodas despedidas. Era com pesar que eu sempre abraçava cada membro da família, pois eram como se fossem parte de mim.

Contristado me fui na companhia do amigo, carregados pelas fortes patas do Corisco, que demonstrava a força de um bom trotador.

Já era boquinha da noite, quando nos achegamos mais uma vez na casa do primo. Ali havia sempre um café fresco no fogão a lenha, que tomamos gostoso, acompanhado de um saboroso bolo de milho.

Lançando meu olhar novamente na direção do pai do Tião, observei que ele seguia amolando a navalha. Aquilo me deixou intrigado, afinal ele não poderia estar naquele mesmo ritual desde cedo, quando passamos pela manhã.

Como não queria sair dali sem resposta para minhas inquietudes, aproximei-me e disse:

– Seu Pedro, vi que o senhor está há muito tempo amolando sua navalha, mesmo vendo sua barba estar bem feita. Fiquei pensando o que levaria um homem a primar tanto para amolar um instrumento?

– Senhor – disse calmamente com um leve sorriso maroto -, eu não estou amolando a navalha, simplesmente estou na presença de Deus. E desviando seus olhos de volta, seguiu com o mesmo procedimento, sem esperar a minha reação de espanto diante daquela sabedoria.

Talvez ele não saiba, mas aquilo me tocou bastante. Saí dali impactado com aquela singela experiência e regressei para São José, sem deixar de pensar um só dia naquele mergulho divinal que o senhor Pedro fazia pelo fio da navalha.

Autor José Maria Cavalcanti

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