Inesquecível!

UM PRESENTE ESPECIAL PARA TORTA


Ganhar um presente para uma criança talvez seja uma das maiores experiências, e aquele cartãozinho anunciava um que se tornou o mais especial de todos que ganhei em minha vida.

Eu estava pertinho de completar doze anos e morava em Mangaratiba, no estado do Rio de Janeiro, uma gostosa cidade litorânea, depois de Angra dos Reis. Vivia com meus tios, juntamente com meu irmão do meio, pois o mais velho passara a morar na capital portenha, antes de completar dezoito anos.

Numa ocasião em que meu tio Pito viajara para a Argentina, a fim de rever a família e acertar alguns negócios, eu ficara aos cuidados de minha tia Vida, uma carioca da gema, que eu sentia nela o mesmo amor de mãe para filha. Aguardava ansiosa pelo retorno do meu tio, pois sabia que ele nunca regressava para casa sem trazer algum presentinho para mim.

Aquela forma carinhosa de nos tratar e o amor com que nos criavam eram tudo para nós, pois amenizava a grande lacuna deixada por nossa mãe. Depois de nove anos daquela fatalidade que sobreveio na nossa família, já não era tão difícil novamente ser feliz, principalmente porque voltamos para os braços das duas pessoas mais bondosas que conheci e que resolveram nos criar dali em diante, como se fôssemos filhos legítimos.

Tudo se deu porque minha mãe falecera subitamente em 1966, aos quarenta e cinco anos, deixando três filhos para serem criados. O irmão mais velho tinha doze anos, depois o do meio estava com quatro, e eu estava no meu terceiro ano de vida. Depois do infortúnio, nosso pai nunca mais foi o mesmo, por sentir muito a ausência daquela a quem mais amou.

Após a perda materna, segui com meu irmão mais novo para viver em Buenos Aires, na companhia de outros parentes. Permanecemos lá por seis anos, estudando no Colégio Gran Burg. Retornamos ao Brasil no início de 1973, prontos para dar sequência aos nossos estudos na escola, o que não representou uma dificuldade, porque sempre fomos bilíngues.

Até hoje recordo com carinho dos amigos de infância, da tia Almerinda e do Hotel Rio Branco, que era de propriedade dos meus tios. Relembro também do Grupo Escolar Coronel Moreira da Silva, do coreto da pracinha, da igreja matriz, onde fiz minha primeira comunhão, e os passeios na praia. Cresci escutando o apito do trem e vendo navios e iates passando perto das ilhas do belíssimo arquipélago, às margens das cidades de Muriqui, Mangaratiba e Angra.

Relembro-me que vivi aqueles momentos de espera de forma muito intensa. Sabia que naquela quinta-feira meu tio iria retornar de Buenos Aires, mas não dava para precisar o horário da chegada. A toda hora, eu saía até a calçada do hotel para ver se tio Pito estava chegando. Minha tia ria por me ver roer as unhas de tanta ansiedade. Segurava em minhas mãos aquele cartãozinho que eu havia recebido pelo correio, juntamente com a carta que viera para minha tia.

Eu estava bem agasalhada por causa do clima de inverno. A temperatura já estava mais fria naquele mês de maio, e eu já havia comido o último ovo de páscoa que havia ganhado daquela que até hoje considero minha mãe de coração. Ali perto estava a tia Almerinda, que era a responsável pela cozinha. Ela fazia de tudo para me agradar, assando bolos e me servindo com os doces que eu mais gostava. Era muito bom viver ali, mesmo vendo meu pai com um olhar perdido no horizonte, muito entristecido sem a sua amada Canto, vivendo em um dos quartos do hotel.

Quando já era noitinha, aquela longa espera tomava conta de mim. E depois de muita insistência da minha tia Vida, no intuito de me fazer jantar, finalmente ela percebeu um sorriso grande tomar conta do meu rosto, acendendo o brilho do meu olhar. Ela logo se deu conta que era seu querido Pito que acabara de chegar. Diante do hotel, encostou o táxi de seu Borges, trazendo meu tio, que vinha carregado de malas e de saudades.

Não me contive e corri para seus braços, e ele parou de retirar a bagagem do carro para retribuir meu carinho. Grudada no pescoço dele, fui carregada até a portaria do hotel, ganhando uma beijoca com o gosto doce dos alfajores de Buenos Aires.

Enquanto o taxista se encarregava com Almerinda de descarregar tudo, distribuindo malas e pacotes pela casa, meus tios se abraçavam e se beijavam para matar a solidão dos muitos dias de carência mútua. Eu esperava quietinha a hora de começar a desembrulhar cada um dos invólucros espalhados pela sala.

Meu tio começou a abrir os presentes, sendo interrompido de vez em quando para contar as novidades da família. Era tanta felicidade que até meu pai se alegrou com a algazarra que chegava pelos corredores dos quartos, atraindo-o para o centro da festa.

Era um tal de abrir presentes dos tios Coco, Mabel e Blanca para sua Vida e outros para meu pai e para meu irmão. Aquilo parecia uma eternidade. Parecia que o tio fazia de propósito, fingindo que não percebia o quanto eu me desesperava, aguardando a minha vez de ser presenteada. De repente, ele olhou para mim e disse:

– Agora não há mais nada, todos já receberam seus presentes. Vou tomar um banho, porque estou morrendo de fome! Fitava-me de uma forma terna, mas não sabia ele que despertava em mim muita raiva por ter se esquecido do presente que prometera.

Saiu rapidamente da sala e, antes que eu começasse a chorar, aproximou-se do meu rosto cabisbaixo com aquela linda embalagem de presente.

Dei um pulo de alegria, pois no fundo tinha certeza que ele não se esqueceria jamais de uma promessa e que algo traria para mim.

Depois de desfazer o laço de fita, rasgar o lindo papel vermelho, com bolinhas amarelas, dei de cara com a Lara, uma linda boneca de cabelos dourados e de olhos azuis. Fiquei encantada com o presente e mais ainda quando meu tio acionou o dispositivo que a fazia cantar:

“Un marinerito me tiró un papel a ver se quería casarme con él…” A bonequinha, além de tudo, ainda contava uma linda história infantil, falando de um marinheiro que havia mandado um bilhete para sua amada, fazendo-lhe um pedido de casamento.

Puxa, até hoje me lembro da Lara e daquele momento inesquecível. A boneca já não existe, mas o disquinho eu guardo até hoje comigo, juntamente com o bilhetinho que dizia: “Torta… El regalito viaja comigo!” (Torta… O presentinho viaja comigo!).

Afinal, recebi meu presente daquele 8 de maio – dia do meu aniversário.

Autor: José Maria Cavalcanti

 

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