A lua da janela

O MAR, A MONTANHA E OS SONHOS

As férias de dezembro eram sempre deliciosas, pois era tempo de imaginar mil passeios à beira-mar, catar conchinhas na praia e ver o sol se pôr lá atrás das casas, detrás dos morros. Era bonito ver tanta gente sorrindo em meio daquela festa de cores, felizes com os dias mais lindos do verão. Era chegar ali e logo dava vontade de correr, pular sobre as ondas e depois fazer castelos com a areia molhada. Não muito longe dali, estavam as dunas que separavam o mar dos morros, completando o visual marítimo.

Meu pai sempre alugava uma casa em uma praia diferente do grande litoral norte paulista. Ele parecia estar mais contente naquele período do ano, que até ficava mais tempo comigo, coisa difícil durante a correria das aulas, que mal tinham tempo de me levar para a escola, o que acontecia uma vez ou outra, quando minha mãe tinha algum imprevisto.

Na praia, eu já acordava elétrica dentro das roupas de banho. Dava tempo pra tudo, e o dia parecia não ter fim, como se na estação do calor alguém esticasse as horas, tornando cada minutinho interminável. Quando perto do fim, dava pena ver aquele restinho de tempo a se escoar rapidinho. Uma tristeza imensa me invadia, como se eu não tivesse aproveitado direito cada segundo precioso que me foi concedido.

Depois da maravilhosa folga longa do final de ano, logo se dava o reinício das aulas, e tudo voltava ao normal. O que compensava era que eu podia rever minhas amigas para trocar informações de tudo que rolou com cada uma delas naquele mesmo período. Voltávamos cada vez mais experientes, com um jeito novo de contar as mesmas coisas, como se fôssemos já pessoas maduras.

O primeiro semestre transcorria lentamente, como quem tem preguiça de passar. Era tudo muito igual, com os mesmos estresses das tarefas e trabalhos escolares, sem contar o clima pavoroso da véspera de cada prova. Mas tudo passava, e logo chegava o recesso do meio do ano.

Eu já sabia de antemão o lugar de sempre que passaríamos nossas miniférias de julho: a casa da minha avó, que ficava no alto da serra. Não que eu não amasse minha vovozinha Nadyr, com seu jeitinho carinhoso de fazer de tudo para me agradar, mas era a falta do que fazer que mais me incomodava.

A diversão na serra era acordar cedo com o galo Pintado, que disparava ao raiar do dia seu canto, como se quisesse acordar todos os animais e pessoas do campo. Ver minha avó na cozinha fazia passar o tempo, e ela estava sempre preparando comidas e doces saborosos. Eu vivia pertinho dela e com ela ia buscar ovos fresquinhos no quintal. Ela dizia que sua galinha preferida ganhou o nome de Tagarela porque sempre anunciava que tinha colocado o ovo. Logo depois do co-co-ri-có, saía ela e eu na maior pressa para apanhar mais um ovo. Depois disso, vovó fazia o bolo de ovos mais gostoso do mundo.

Lá no seu grande terreno dos fundos da casa, acompanhei o nascer da mais linda ninhada de pintinhos que eu já tinha visto. Depois dos 21 dias chocando, a galinha Tagarela caminhava todo orgulhosa, ciscando o terreiro e fazendo brotar o alimento do solo para seus doze lindos pintinhos.

Assim era meu dia até o cair da noite. Depois do jantar, meu prazer era correr pro janelão do meu quarto. Dali eu podia apreciar, naquelas noites frias, o céu todo estrelado, e eu ficava ali perdida, contemplando a lua prateada, em volta daquele montão de pontinhos azuis, que bordavam o imenso manto escuro. Dali eu só saía para dormir, quando já não aguentava mais admirar tanta beleza. Embriagada de sono, fechava a grande janela, continuando a lançar meu olhar pela vidraça para aquele mar de estrelas, que cobria a parte mais alta da Serra da Mantiqueira. Até que minha vista se fechava, entregando-se a um leve sono, que me embalava noite adentro, por um mundo de castelos e contos de fadas.

Assim fui crescendo entre os prazeres do litoral e a beleza da serra. Aprendi que o verão era para meus agitos em contato com o mar, mas o inverno era tempo de ficar quietinha, fazendo planos com os olhos abertos, conectada com a lua, enquanto não era envolvida pelos sonhos.

Autor José Maria Cavalcanti

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