Minha História – 50 anos!

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MÃES DE CORAÇÃO

Além da minha querida mãe, tive o privilégio de ser cuidada por outros seres maravilhosos, que guardo também no meu coração com muito carinho. Para falar sobre cada um deles, tenho que fazer um breve relato sobre a história da minha vida.

A saga da minha família começou quando meus pais saíram da Argentina em 1952 para montar um negócio de aluguel de carros importados no Brasil. O diferencial era que o serviço incluía chofer qualificado para acompanhar o cliente.

Eleutério Pedro Fernandez era um homem muito empreendedor e antenado com os centros mais avançados. Para levar adiante sua ideia, adquiriu os veículos nos EUA, os quais foram transportados para o Rio de Janeiro de navio. A seguir, abriu a agência na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, e passamos a viver na Rua Santa Clara, nº 23, no mesmo bairro. Minha mãe, Maria Teresa Marta, era uma mulher à frente do seu tempo, muito inteligente e trabalhadeira, a companheira perfeita para meu pai, o elegante Eleutério, que os mais íntimos o chamavam de Quico. Já minha mãe era conhecida como Canto.

Algum tempo depois, a satisfação pelo retorno do investimento já era bem grande, e toda a família passou a ter uma vida muito confortável na então capital do Brasil.

No ano seguinte, impelido pela prosperidade, Mario Carlos Colturi, irmão da minha mãe, seis anos mais novo que ela e conhecedor de mecânica de autos, veio trabalhar com a família na área que ele mais dominava.

Com tudo andando de vento em popa, era hora de aumentar a família. O dia 19 de setembro de 1954 foi uma data especial, naquele dia nasceu na capital carioca meu irmão mais velho, Pedro Carlos, o primeiro filho da família Fernandez no Brasil.

Meu avô, Victorio Colturi, filho de um italiano de Bormio/Itália, o qual era construtor de carruagens e que se radicou em Mar del Plata por volta de 1888, também veio para o Brasil para se juntar à família, com o intuito de ajudar na administração dos negócios.

O Brasil vivia momentos especiais durante a década de 50. A televisão havia chegado e com ela foi criada a TV TUPI pelo paraibano Assis Chateaubriand, a qual passou a ser a primeira emissora da América Latina. A Empresa Cinematográfica Vera Cruz, dentre as muitas produções, teve o privilégio de ter feito O Cangaceiro, que recebeu o prêmio no Festival de Cannes. A linda Marta Rocha quase foi miss universo, a seleção brasileira de futebol conquistou o mundial de 58 e a seleção de basquete foi campeã mundial em 59. Ademar Ferreira da Silva ganhou repetidos ouros pelo mundo afora no salto triplo. A Bossa Nova começou a estourar nas paradas de sucesso, sendo cantada por Frank Sinatra, e o arquiteto Oscar Niemeyer já era um nome conhecido na arquitetura mundial. Muitas estradas foram construídas para ligar o centro do Brasil com as demais regiões e foi criada FURNAS, na época a maior hidrelétrica do continente.

Tudo ia muito bem para meus pais até que o presidente Juscelino Kubitschek – 1954/1960, que conquistou a presidência com o projeto de transferir o poder central do Rio para Brasília, modernizou a indústria automobilística, trazendo para cá a Ford, a Chrysler e a Wolkswagen. No final de sua gestão, o fusca já estava rodando e fazendo sucesso.

O novo carro da indústria alemã logo passou a ser a preferência nacional. E grande parte dos clientes passou a optar pelo fusca, ao invés dos carrões americanos, no mesmo tipo de serviço realizado por outra locadora, concorrente direta do negócio da nossa família. Além da manutenção barata, o carro não dava problema, e o cliente ficava com a chave do veículo alugado, não havendo gastos com o chofer. Isto fez uma enorme diferença, fazendo mudar o foco daquele ramo.

Tendo que cobrir muitos outros investimentos e o luxo de uma vida na alta sociedade do Rio, o negócio começou a dar sinais perigosos de queda, até entrar num processo de bancarrota, no finalzinho de 1960.

O inevitável se deu, e todos os bens foram arrolados num processo que passou a se arrastar na justiça. Enquanto aguardavam, vendiam imóveis e assim ganhavam fôlego novo. Num belo dia, não tendo muito por fazer, saíram para comemorar os 10 anos de permanência no Brasil, em setembro de 1962, indo jantar na Confeitaria Colombo.

Mal o chofer parou em frente ao número 32 da Gonçalves Dias, Pedrinho tratou de descer primeiro, correndo direto para o elevador, com sua bola nova de bicampeão mundial de futebol. Meu irmão estava mais orgulhoso ainda porque o Botafogo, seu time do coração, tinha a tradição de enviar vários craques para a seleção. Meu pai procurava ajudar minha mãe a sair do carro, pois ela trazia ao colo Mario Carlos, que no próximo 05 de dezembro iria fazer seu primeiro aninho.

Depois do requintado prato saboreado, foi pedido um bolo para render festas ao primogênito brasileiro, que estava completando oito anos. Após a saída da tradicional confeitaria, a volta para a casa de Teresópolis seguiu em clima festivo.

Aquela noite marcou de uma forma especial para minha mãe, pois suspeitava de algumas transformações que começou a perceber no seu corpo, mas ainda não tinha confirmação do que pressentia. Nas comemorações do final de ano de 62, já não havia qualquer dúvida, principalmente quando estabeleci meus primeiros contatos físicos com ela, ao dar as primeiras mexidas na sua barriga.

Mesmo com a gravidez em andamento e com a situação financeira complicada, minha mãe ainda comparecia ao escritório todos os dias, mantendo o ambiente bem apresentável. Era difícil se acostumar com as limitações impostas, e restavam algumas decisões a serem tomadas, além de serviços de manutenção e conservação necessários.

Quando minha avó, Maria Marta Arrayago Colturi, ligou de Buenos Aires para nos felicitar pela “Feliz Navidad e Noche Buena”, foi a maior alegria. Naquele instante, ela sentiu vontade de compartilhar com sua mãe que estava grávida novamente, mas não era o momento certo para anunciar a vinda de mais um bebê à família, assim guardou para si o segredo, fazendo de tudo para torná-lo o mais discreto possível.

Deixou pra contar quando os advogados anunciassem a vitória na peleja judicial, assim teriam mais motivos para comemorar. E tudo foi passando tão tranquilamente e sem contratempos que, após o sexto mês, em fevereiro de 1963, Canto não pensou duas vezes em pegar carona no Fiat 1100 do seu irmão mais novo, Victorio Carlos Colturi, nascido em 32. A ideia era estar de volta a Buenos Aires para rever a família e amigos. Minha mãe sentia muito a falta de minha avó e das irmãs Mabel e Blanca, saudades que não diminuíam apenas com as muitas cartas trocadas entre elas.

Meu pai, que estava muito preocupado com a venda de terrenos e outros imóveis, enquanto aguardavam o desenrolar do processo na justiça, não criou obstáculos, pois sabia que seria bom para arejar a cabeça da esposa, visto que ela passou a ficar muito inquieta e ansiosa.

Meu tio, conhecido como Coco, desconfiou da barriga, mas minha mãe desconversou, enquanto ele colocava as bagagens na traseira do carro. Logo todos estávamos acomodados dentro do veículo novo.

Pelo longo trajeto da BR 101, conversaram sobre o inesquecível presente que meu pai havia dado à irmã mais velha dele, Porota, por ocasião da festa dos 50 anos dela, em outubro de 1958: viagem de navio, ida e volta, para todos os familiares de Buenos Aires até o Rio de Janeiro. A acomodação de todos se deu no Copacabana Palace. Aproveitaram o momento também para relembrar da morte do vovô, Victorio, enterrado no Rio de Janeiro, em 1959; e do enxoval completo, feito pela melhor modista carioca, para presentear suas irmãs Mabel e Blanca, que casaram, no mesmo dia, em 1960. Elas, ainda de sobra, ganharam uma caneta Parker em ouro para assinatura da união civil.

Relembravam tudo sem tocar no tema das adversidades financeiras que então viviam, com isso as horas se passaram mais rapidamente. Cruzamos as regiões Sudeste e Sul até que chegamos em terras uruguaias. Não tardamos muito para chegar a Colônia, de onde embarcamos o carro no ferry boat, seguindo até a capital platense.

Minha tia Nádua, que era uma pessoa boníssima, acomodou minha mãe e meus irmãos em sua casa. Pedrinho se juntou a Carlitos e a Maria Alejandra, enquanto Mario Carlos observava as brincadeiras dos mais velhos.

Depois desta visita aos familiares, Canto regressou ao Brasil, passando a residir em São Paulo, local onde seu marido, Quico, iria tocar uma nova atividade. Era um recomeço difícil, mas ela, muito aguerrida, estava pronta para enfrentar o novo desafio.

Para surpresa de todos, visto que minha mãe “não estava grávida”, nasci no dia 8 de maio, sendo batizada em Sampa, mesmo que tivesse sido gerada na região serrana do Rio de Janeiro. Ganhei o mesmo nome da minha avó e também da minha mãe: Maria Marta.

O fato novo, que foi motivo de muita alegria e brincadeiras, logo passou a dar lugar a uma felicidade maior, pois a pequenina nascera quase no dia das mães no Brasil. Minha mãe conseguira o que queria: ter sua “linda bonequinha”, como ela se referia a mim.

Depois de dois anos em São Paulo sem muito sucesso, a família recebeu o convite para ir morar em Mangaratiba/RJ, no Hotel Rio Branco, de propriedade dos tios Mario e Inayara Leite de Castro, que eram casados desde 01/02/55 e eram conhecidos como Pito e Vida, respectivamente. A melhor suíte do hotel foi cedida para nossa família, e todos nos acostumamos rapidamente com a vida no litoral praiano fluminense.

Pedro, que já tinha doze anos, seguiu para estudar na Escola Darcy Vargas, na Marambaia, depois da aquiescência de nossos pais, que naquele momento estavam no Rio. Mario, que já ia completar 4 anos, estava sempre na minha companhia. Eu já estava com um pouco mais de dois aninhos.

Embora com alguns desentendimentos por causa da criação dos filhos, a vida no hotel passou a ser um presente na pequena e aconchegante Mangaratiba.

O ano seguinte estava destinado a mudar o rumo de nossas vidas. Certa noite de primavera, às 23h30min de 19 de outubro de 1966, um ataque súbito do coração roubou a existência de nossa querida mãe, cinquenta dias antes de completar 46 anos, deixando três órfãos e nosso pai com a vida destroçada pelo grande amor que ele sentia pela sua amada Canto.

Por coincidência do destino, veio também outra trágica notícia: nossa avó materna, que enviuvara sete anos antes, também havia morrido em Buenos Aires, com pequena diferença de horas. As duas foram sepultadas no dia 20 de outubro de 1966, separadas pela distância de 2.000 quilômetros.

Meu pai, que contava 52 anos, caiu em depressão, ficando muito adoentado. Pedro regressou aos estudos na Marambaia. No final de 66, tio Pito me levou junto com meu irmão, Mario Carlos, para Buenos Aires para que os familiares decidissem com quem nós seríamos criados a partir dali.

No início, fiquei com a tia Blanca, a pedido do tio Nicolás, para me juntar às outras filhas deles: Fabiana e Silvina. Além do vínculo de sangue, esta querida tia também foi minha madrinha de batismo. Já o Mario foi acolhido pela tia Mabel e tio Horácio, o qual teve a companhia de Fernando, Gabriela e Marcela. Estas duas queridas tias passaram a ser nossa segunda mãe.

Chamados pelos primos de Marito e Martita, passamos a estudar na Escola Gran Bourg, onde fomos alfabetizados no idioma Espanhol. Depois de um ano, passamos a morar com a tia Porota, irmã do nosso pai, que vivia sozinha, após o falecimento do tio Agustín. Assim nós passamos a viver na Avenida Callao, 492, no nono piso b.

Porota, que havia feito um tratamento infrutífero para ter filhos, quando mais jovem, havia ganhado agora nós dois. Mas, como tinha que cuidar do comércio da cigarreira, que também era lotérica e salão de beleza, deixava as crianças aos cuidados de sua secretária, Ana Maria Busko, uma bonita moça loira, de olhos azuis, filha de imigrantes poloneses.

Algum tempo depois, Porota começou a ficar debilitada pela coreia de Huntington, a mesma doença que iria vitimar todos seus irmãos: Eleutério, Beba e Corina. Anita passou a se dedicar à enfermidade da patroa e ainda achava tempo para ser uma espécie de mãe para mim. E o mesmo carinho que se desenvolveu durante aqueles anos segue comigo até hoje.

Uma data que não esqueço foi a da vinda de nosso pai para nos visitar em Buenos Aires. Ele nos levou ao parque e brincamos uma manhã inteirinha. Pena que ele tenha regressado ao Brasil, deixando muita saudade. Com ele veio meu irmão mais velho: Pedro Carlos, que a partir daquela data passaria a residir definitivamente na capital da Argentina.

Sua ida se deu por desentendimentos próprios da adolescência, no ano de 1971. Com quase dezessete anos, Pedro saiu do Brasil para ir morar em Billinghurst, no apartamento da tia Mabel.

No ano seguinte, após quase sete anos vivendo na capital portenha e estando a saúde da tia Porota muito comprometida, decidiram nos levar de volta para o Brasil, para finalmente sermos criados pela tia Vida e pelo tio Pito.

Regressamos a Mangaratiba no meio do ano de 1972 e assim mesmo fomos matriculados no Grupo Escolar Coronel Moreira da Silva, que fica localizado até hoje na pracinha do coreto, região central da cidade.

Naquele ano, voltamos a ter a companhia de nosso pai, que aos 58 anos vivia solitário e já com alguns sintomas do mal hereditário de família, num dos quartos do hotel dos tios.

Depois de emancipar o Pedro, que ainda não tinha dezoito anos, meu pai vendeu as últimas propriedades, apartamentos em Copacabana, para saldar suas dívidas acumuladas, depois da perda do processo na Justiça, que se arrastou por quase onze anos.

Desde o falecimento de nossa mãe, ele ficou quebrado mental e financeiramente, e seu quadro foi a cada dia se agravando, até que, em 1975, já com 61 anos, foi levado por meu tio Pito para ele viver na companhia do Pedro em Buenos Aires.

Ao final de 1975, meus pais substitutos venderam o hotel porque receberam uma proposta para iniciar um grande negócio em Guaratinguetá, junto à família da tia Vida.

Poucos anos depois, com o agravamento da enfermidade, meu pai veio a falecer em Bueno Aires, pois já estava muito fragilizado. Eu era muito nova, mesmo assim, foi muito sentida esta grande perda. Meu irmão Pedro foi quem mais sofreu, pois cuidou do nosso pai até o fim de sua vida.

Já instalados no Vale do Paraíba, fomos matriculados no Instituto, o que para nós até hoje é motivo de orgulho pela boa formação que nos concedeu.

Enquanto Pedro completava seus 30, eu me casava no ano de 1984, ainda com 20 anos e depois de ter me formado na Área de Informática, dois motivos de grande orgulho para meus tios.

Outra grande alegria se deu logo após a formatura e término do estágio no ITA. A contar de 19 de julho de 1984, eu ingressava como funcionária do Centro Técnico Aeroespacial, prestando serviços no Instituto de Aeronáutica e Espaço, local onde me encontro até hoje.

Depois de alguns contratempos, amadureci muito como pessoa, principalmente depois de tantas perdas de pessoas tão queridas. Por último, em 1999 perdi meu amado tio Pito e, um ano depois, minha inesquecível tia Vida, que foram meus pais substitutos.

Tive o privilégio de ter muitas mães em uma só vida, mas sem esquecer jamais da primeira, que me deu a vida e todos os traços marcantes do seu caráter e da sua personalidade, além de me parecer muito com ela.

Hoje me sinto feliz e realizada. E, a cada ano que passa, sinto em mim uma aproximação maior com meus irmãos, primos/primas e com o tio Coco, que em 2012 fez 80 anos, tio Nicolás e tia Blanca e, especialmente a tia Mabel, que infelizmente partiu no ano passado, mas o que me disse algo que jamais esquecerei: “- Martita, você é minha filha de coração!”.

Confesso que de todos tenho muitas saudades e agradeço de coração ao querido tio Mario, que me tratou sempre como filha, assim como a tia Vida, e por ter tido tantas “mães” durante estes meus 50 anos.

A todas estas magníficas mulheres o meu muito obrigado, vocês todas foram e ainda são minhas “mães de coração”.

Autor José Maria Cavalcanti

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