Soledad

SOLEDAD

Franco Rinaldi estava com a cabeça confusa e o coração atribulado.

Após caminhar sem rumo pelas imediações da Avenida Paulista, percebeu chegar numa praça bem ornamentada. Sentindo-se sufocado, soltou o nó da gravata para respirar melhor.

Não estava calor demasiado, mas parecia que o tempo se preparava para uma chuva rápida, dessas que caem sem aviso prévio, no finalzinho da primavera.

Com as pernas pesadas, sentiu-se um tanto cansado e se acomodou no primeiro banco da Praça Pedro Alves da Silva.

Acabara de sair de uma reunião importante, mas seu projeto de filme não fora agraciado com o interesse dos patrocinadores. Justo aquele trabalho que ele havia investido tanto tempo e dinheiro.

Tentava entender tudo o que havia ocorrido naquele fim de manhã e os porquês daquela recusa.  Afinal, ele já tinha nome no cinema nacional, conhecia bem o ramo e sabia quando estava com algo grande nas mãos, e aqueles idiotas e ignorantes não se deram conta do que perderam.

Na sua cabeça, ainda podia escutar falas que se esforçava para esquecê-las.

Enquanto estava com seus botões, nem se apercebeu quando aquela senhora de andar leve e de porte franzino se achegara ao seu lado.

– Bom dia!

Ao escutar aquela saudação risonha, cheia de frescor e entusiasmo, Franco parecia acordar da sua loucura mental.

Olhou finalmente para o lado, esforçando-se para ser atencioso.

Fixou seus olhos naquela figura pequena e ficou surpreso com a semelhança que tinha com uma tia bem velhinha que ele conhecera lá em Matoso, quando ainda era menino.

Aquele sorriso desarmou o seu semblante amarrado. Em consideração a isso, tentou não ser indelicado, respondendo secamente.

– O senhor se agarra a esta pasta como se ela estivesse cheia de dinheiro, posso saber o que há dentro dela?

Franco achou a senhora muito entrona, mas respeitou a idade dela e deu um desconto.

– Senhora, aqui está o portfólio de um grande sonho, de um filme grandioso.

– Puxa, depois da literatura russa com Tchekhov, Dostoievski e Tolstoi, os filmes franceses são minha paixão. É a coisa que mais gosto nesse mundo, depois que meu Antero se foi.

E seguiu falando:

– Eu não gosto de filmes de ação, gosto de filmes de arte. Adoro o diretor francês Jean Renoir que fez duas obras inesquecíveis: A Grande Ilusão e A Regra do Jogo. Você já viu estes?

– Já li a crítica destes clássicos, que são considerados top ten da história cinematográfica.

– Meu filho, Hollywood deve muito ao cinema francês e aos criadores da Nouvelle Vague, que teve diretores como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e Claude Chabrol.

Franco, embora a contragosto, começou a gostar daquela conversa. Aquela senhora estava fazendo-o se esquecer dos dissabores de uma manhã que ele gostaria de varrer da sua vida. Ademais, ela era muito culta e tinha um bom gosto fora do comum.

Encorajado por ela se mostrar conhecedora da sétima arte, ele se animou a contar o que havia acontecido e por que ele estava tão chateado.

– Conte-me a história do seu filme, estou muito interessada!

Franco começou a falar desde o momento em que convenceu os familiares a cederem os direitos autorais do livro. A seguir discorreu sobre a abordagem nova que queria dar ao enredo do livro.

Havia muita emoção nos olhos de Franco e todo seu corpo falava ao contar o que ele pretendia com o filme. Tanto é que a ouvinte bebia cada palavra e penetrou na história com se estivera vivendo cada cena nos sets da futura filmagem.

Ao terminar, Franco estava feliz por ter abordado seus escritos com riquezas de detalhes, podendo acrescentar algo ali na hora em que a inspiração parecia novamente bater-lhe à porta.

Entusiasmado, perguntou:

– E o que a senhora achou de tudo isso?

– Puxa, que lindo! Você pode contar comigo na primeira fila do cinema.

– A senhora mudaria alguma coisa na história?

– Sinceramente, o enredo é delicado e emocionante, mas para fazer sucesso hoje, o senhor necessitaria fazer umas mexidinhas.

– Como assim?

– O filme ficaria muito linear e previsível. Comece pelo fim, deixando uma interrogação sobre quem cometeu o crime, abrindo uma investigação sobre os possíveis assassinos. Crie a figura de um famoso investigador e coloque em cena um maior número de suspeitos e um maluco. Leve a crer que esse psicopata é quem o investigador procura, mas no final apresente ao público o verdadeiro autor do crime.

Ao escutar aquilo, Franco ficou de queixo caído. Sua mente já começou a viajar novamente pelos cenários e já era possível vislumbrar o que estava faltando para causar o impacto necessário na cabeça dos patrocinadores.

– Meu Deus, a senhora não sabe como me ajudou!

– Fico contente, meu filho. Agora tenho que ir, pois está ficando tarde para almoçar e dar comida pro meu gato.

Antes que ela se fosse, Franco a tomou nos braços e deu-lhe um beijo no rosto, tomando cuidado para não apertá-la em demasia.

Franco saiu dali renovado e cheio de alegria.

Foi correndo pra casa e refez todo seu trabalho.

Pediu uma nova oportunidade, e os patrocinadores ficaram exultantes com a nova versão do projeto do filme.

Feliz da vida com a aprovação dos recursos financeiros para executar seu grande projeto, sentiu vontade de compartilhar com aquela senhora aquele resultado, para o qual ela tinha sido a peça mais importante.

Retornou à praça e procurou saber quem era ela com o jornaleiro da banca da esquina, descrevendo-a com exatidão.

Ficou surpreendido com o que pôde colher sobre ela.

Ela morou muito tempo naquele prédio, mas não era sempre que descia, apenas quando percebia que alguém estava muito triste ou precisando de ajuda.

Depois de muita insistência, Franco descobriu com uma vizinha alguma coisa a mais sobre ela.

Seu nome era Maria Soledad Vergara, que vivia com seu gato Virgílio, pois dizia que o silêncio do olhar dele era um verdadeiro discurso.

Estava há 60 anos no Brasil, desde que um navio espanhol aportara em Santos com seus pais, em janeiro de 1952.

Naquela chegada, era véspera do seu décimo oitavo aniversário, quando ela pôs os pés em terras brasileiras para nunca mais sair.

Aqui estudou, casou-se e foi muito feliz, mesmo que o destino não houvesse proporcionado a ela filhos.

Por isso mesmo, adotou os livros e os filmes como suas verdadeiras paixões.

Autor José Maria Cavalcanti

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