Marambaia

Pedro Marambaia

SALVO PELO LADRÃO

Durante minhas vivências na Ilha da Marambaia, ocorridas entre março de 1966 a dezembro de 1969, guardo com carinho uma muito especial.

Recordo que, aos catorze anos, eu já era quase um veterano, no finalzinho do terceiro ano na Escola Estadual Darcy Vargas. Naquela época, era um rigoroso educandário de aprendizagem técnica marítima, localizado no litoral do estado do Rio de Janeiro, para onde convergiam alunos oriundos de vários estados do imenso Brasil.

Ali bem perto, meus familiares viviam no Hotel Rio Branco, bem na pracinha central da cidade de Mangaratiba.

Dali do cais de Manga, parti no Timoneiro, embarcação que me levava de regresso do feriado de 15 de novembro, que caíra numa sexta-feira, tornando aquele fim de semana mais largo.

Manduca, que trabalhava no hotel dos meus tios, sempre me ajudava a transportar minha bagagem, enquanto meu pai, ainda muito triste com sua viuvez precoce, acenava de longe.

Era sempre duro deixá-lo sozinho, principalmente depois que meus irmãos menores – Mario Carlos e Maria Marta, com 7 e 5 anos, respectivamente, haviam sido levados, há mais de um ano, para viverem com outras tias em Buenos Aires, depois do falecimento súbito de nossa mãe.

Como aquela era a última folga grande do ano, procuramos levar conosco, nos bolsos da japona ou dentro de nossas mochilas, alguns suprimentos extras para atender nossas necessidades. De forma disfarçada, cada um procurava esconder cigarros e bebidas, coisas que eram proibidas no âmbito escolar.

Após as despedidas no trapiche, o motor do barco roncou forte mar adentro. Em dias de mar tranquilo, o tempo gasto até a ilha, contando com uma parada, era normalmente de uma hora e quarenta e cinco minutos, mas, frente a um mar revolto, a viagem poderia tardar mais, chegando a durar até três horas.

Tudo indicava que seria uma viagem tranquila, a máquina e o vento frio forte faziam aumentar mais a dificuldade de comunicação a bordo. Em meio a tanto barulho, era preciso quase gritar para que cada aluno se fizesse entender nas suas narrações das andanças e sobre o que aprontaram naqueles dias livres.

Babau, amigo de escola e irmão de dona Nelma – esposa de seu Cícero (meu primeiro dentista e professor de reforço de geometria) estava por ali, com o olhar fito no horizonte, recostado nas amarras dos botes salva-vidas, talvez pedindo a Deus para alcançar boas notas e fechar o semestre.

Embora sempre me divertindo e rindo com as falas, confesso que eu estava um tanto preocupado com o maço de cigarros Capri que pedi para comprar na parada feita pelo barco na Ilha de Itacuruçá.

Dos companheiros que ali subiram, um deles trouxera clandestinamente minha encomenda. O pagamento se deu com metade do dinheiro dado por meu tio Mario. Para valer a pena, contava não ser pego na revista de ingresso, feita com a tropa em forma. Tal procedimento era sempre realizado com a apresentação geral dos alunos, diante dos olhares atentos dos inspetores. Eles sempre agiam severamente na revista, seguindo as ordens rígidas do senhor Manoel Bastos, que cuidava da parte disciplinar e administrativa.

A última reunião de inspeção ficara gravada pra sempre na minha mente. Aquele fora o “hip-hurra” (espécie de grito de guerra) mais sem graça, dito sem a peculiar vibração. O motivo fora a punição de um único aluno, em detrimento do grupo, no caso de um roubo ocorrido na ilha.

Todos sabiam que era proibida a retirada de cocos do perímetro da escola. A plantação era imensa, desde a parte fronteiriça às instalações prediais escolares até a Praia da Restinga. Era sabido que aquela produção era privada, destinada a uma empresa que comprava toda a safra, fato que pouco era levado em conta.

Sabendo da aproximação do dia da venda, os alunos do último ano, nossos líderes, haviam montado uma verdadeira operação, pela madrugada, para roubar os cocos. Alguns alunos eram hábeis na escalada das árvores e outros teriam que ser rápidos para enterrá-los na areia, para o consumo futuro.

A manhã seguinte despontara linda e ensolarada, mas aquele toque estridente, quebrando o silêncio, chamara a atenção do corpo de alunos. A ordem era reunir urgente para uma revista imprevista.

Logo percebemos que algo de grave havia acontecido.

Com a correria que se deu, alguns alunos ainda não haviam feito a cama; outros faltavam fazer a barba; e havia quem ainda não houvesse tomado banho.

Em fração pequena de minutos, todos estavam alinhados.

Quando se deu início a bronca, tudo ficou esclarecido:

– Aqui, nesta instituição não se permite ladrão! Nós vamos punir quem desobedeceu as ordens!

Aquela fala ríspida indicava a razão de estarem todos ali, em forma.

A descoberta se deu da seguinte forma. Um inspetor, que tinha problemas de insônia, havia resolvido, lá pelas três da manhã, tomar uma fresca.

Aí a casa caiu.

Quando os alunos perceberam o flagrante, correram, dificultando a identificação.

Furioso com a insubordinação, o chefe dos inspetores queria os nomes dos cabeças ou de pelos menos um para pôr a culpa. Aquela lição serviria de exemplo para os demais.

Enquanto mexia com o emocional dos alunos, falando em nome dos bons princípios de honestidade, percebia alguns rostos com cara de noite mal dormida, mas, como não tinha provas, não podia acusar ninguém.

Após longa preleção, ainda não havia um culpado. Ninguém se acusava.

Então, foi pedido para que todos tirassem suas camisas.

O Magrelo, diferente de todos, permaneceu vestido.

Ele foi agarrado pelo braço, sendo levado para frente do grupo.

Depois que suas roupas foram rasgadas, apareceu seu peito cheio de marcas vermelhas, provocadas pelas partes ásperas do tronco do coqueiro.

Fora tudo muito vergonhoso, principalmente porque o fato resultou na expulsão do aluno.

Enquanto minha cabeça viajava no tempo, o motor do barco estancou no ancoradouro da Ilha da Marambaia.

Percebi que alguns amigos haviam amarrado as garrafas em barbante, deixando-as submersas, atadas a alguns ferros da alvenaria do atracadouro.

Um dos professores foi nos recepcionar, o que me tirou a oportunidade de esconder o pacote de cigarros. Aquilo me complicou a vida, mas eu precisava ficar tranquilo, pois de nada ajudaria meu nervosismo.

Fomos direto para o pátio, deixando as mochilas em lugar visível para a inspeção.

À medida que o inspetor passava por cada bolsa, aquilo fazia aumentar o meu temor.

Finalmente começou a revistar a minha bagagem, fazendo-me gelar da cabeça aos pés.

Fechei os olhos e comecei a rezar, aguardando ser retirado da formação.

Como demorou muito, resolvi abrir novamente os olhos e, para minha surpresa, nada havia sido encontrado.

Numa das últimas mochilas, foi achado o meu maço de cigarros.

O aluno foi retirado para ser punido, diante de todos.

Naquele momento me dei conta que aquele amigo havia me roubado no Timoneiro, e que eu, na verdade, havia sido salvo pelo ladrão.

Autor – José Maria Cavalcanti

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